segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fugir da responsabilidade do que cativamos é fácil...

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Mandei diversas vezes o Exupéry tomar no cu com essa frase. Mas não que, nessas vezes, dele eu discordasse. Mas é porque é uma verdade dura de se encarar. Ser eternamente responsável pelo que cativamos... Achava que cativar algo estava longe da nossa decisão. Ficava pensando... mas e se eu cativar um louco desconhecido, eu seria por ele responsável? Várias e várias vezes eu ficava pensando nisso. Até que cheguei a conclusão, hoje pela manhã, de que sim - sou responsável.

Hoje em dia, quando vou escrever pro blog, deixo o texto mais ou menos umas três semanas de molho nos rascunhos, afim de refletir se devo ou não postar aquele conteúdo. Sim, quase ninguém lê, mas ainda mantenho o ritual. Uma vez, postei um texto sobre política e religião, e alguns de meus argumentos cativaram os religiosos, que começaram a me citar indevidamente e afirmar coisas que não afirmei. Eu era, portanto, responsável por aquilo que cativei sem mesmo saber? Pensei que sim, e não pensei duas vezes em escrever um segundo texto - primeiro me retratando, em segundo, alertando de que eu estava sendo indevidamente citado. 

Exemplo bem banal. Mas que em parte demonstra como Exupéry teve sabedoria de dizer isso. Hoje em dia busco estar sempre mais atento à isso, percebendo que tenho responsabilidades com minhas atitudes e para com quem elas afetam. E jamais me eximo de tais responsabilidades...

Se um dia eu cativar um louco desconhecido, certamente, assumirei a responsabilidade de dizer a ele: amigo, não é bem assim...

domingo, 27 de outubro de 2013

Depressão - uma caminhada num sábado ensolarado

Essa palavra me assusta bastante, "depressão". Nos últimos meses li uma infinidade de blogs de pessoas que tem Depressão, artigos de jornais, de sites especializados, Papers, Pesquisas... e ainda assim, me assusta. Me é incompreensível. Tristeza, qualquer um em algum momento da vida já passou, mas ter isso maximizado dentro da cabeça, e de forma contínua, é aterrorizante!

A palavra que melhor uso pra definir, é um estado/sensação de estar completamente vazio. Mas não vazio de forma qualquer, mas um Vazio denso, preenchido de vácuo, vedado de pressão, grande demais que ocupa o peito e se torna torturante. O prazer inexiste, portanto. Não há prazer em comer, beber, dormir, estar acompanhado ou só. Com o tempo, a mente começa a ver tudo cinza, as coisas começam a perder textura, e o tempo parece parar.

Não se tem sobre o que pensar. Ou pensa-se demais, com mil coisas ao mesmo tempo, ou não se pensa nada. Às vezes, tenho a impressão de não estar pensando em absolutamente nada. Então me escondo numa fantasia qualquer - geralmente, me escondo na casa de minha avó, entre pomares e grama orvalhada. E com o tempo, sem contato algum com o prazer, a gente vai definhando. E quando vamos percebendo que estamos conectados com um mundo de pessoas, mesmo que poucas, a gente percebe que nos tornamos um fardo. Por que um fardo? Porque nos tornamos inúteis, mas ainda vivemos. E se não somos nós quem batalhamos para nos manter assim, as pessoas que nos cercam o fazem, mesmo não sendo sua obrigação. E isso nos afeta MUITO. Percebemos, portanto, que sendo um fardo, devemos nos dar ao menos ao luxo de não dar trabalho. E seguindo uma lógica intrincada, vamos percebendo que a solução ideal, é a morte.

Sempre ouvi falar da morte como uma solução definitiva. É reconfortante imaginar que ao morrer, deixaremos de sofrer uma infinidade de problemas da qual somos cercados enquanto vivos. Abandonamos a condição humana, a frustração de não saber quem somos nem pra onde vamos... descansamos! Encontramos alívio. Então, a morte se torna tentadora. O que nos salva são as crenças que nos cercam e que foram usadas para nos moldar. Céu, Inferno, Purgatório, Reencarnação, Karma...

Mas um torturado, depois de longo tempo de tortura, perde até mesmo as suas crenças. E a tortura é longa demais, e quando é dentro de si, é pior. Então a morte se torna cada vez mais tentadora e as crenças não são mais nosso firewall (ou o nosso bloqueio contra esse ato operacional do cérebro). Não há remédios, poções, cirurgias... Há tratamento, mas nunca ouvi quem tenha se curado. E o tempo passa e voa, e aquela escuridão ainda está lá. Ainda está ali, encrustada.

Neste sábado, acordei deprimido. Tive nas duas últimas semanas uma crise depressiva. Não tão forte quanto das vezes em que pensei seriamente em me matar, mas suficiente para repensar essa possibilidade. Depois de ficar algumas semanas enfurnado em casa, decidi sair. Juntei meu caderno, minha caneta, alguns papéis, uma garrafa com água, e parti de casa. Sentei e desenhei duas árvores que via de onde estava sentado, além do prédio atrás delas. Era muita beleza, ali. Daí dois jovens sentaram do meu lado e ofereceram maconha. Dei uma tragada, mas não aconteceu nada. Me levantei, e saí andando. Tinha levado uma garrafa de vinho, pra ir bebendo enquanto tentava abstrair da vida. Lembrei de uma reunião que ia ter na casa de uma amiga, estava passando por perto, e fui lá.

Foi uma tarde divertida. O vinho, acabei compartilhando com outra amiga. Jogamos War, Baralho, Mímica... mas ainda não era aquilo. Voltando pra casa, decidi perambular mais. Foi quando vi um senhor dentro de um carro. Estava estacionado na frente de uma casa de festas, onde uma baita confraternização estava rolando. Acho que ele não me viu, mas fiquei observando. Ele estava lá, sentado no banco do motorista, fumando. Foi tempo suficiente para alguém da festa vir pro carro, caso ele estivesse parado e esperando por alguém. Mas ninguém veio. A festa rolava solta lá dentro, e ele estava lá fora, dentro do carro, fumando. Podia ter sido só uma saída pra um cigarro, mas ele acendeu outro. Não esperei pra ver se haveria um terceiro cigarro, mas certamente, fiquei curioso pra saber o que o fez abandonar a festa pra ficar lá, fumando. Um homem bonito, de meia idade, bem vestido... por que não se juntar aos amigos? Por que não confraternizar-se? Não.

E vim com essas duas experiências na cabeça e, enquanto bolava meu cigarro de palha, cheguei à conclusão que aquelas três pessoas (os dois jovens e o senhor no carro) estavam fugindo de algo. Algo particular a cada um deles. Um dos jovens falava dos amigos e suas mães ultra liberais com um tom de admiração fantástico. Fiquei pensando como seriam suas mães. Aquele senhor no carro, não queria estar lá dentro. Então de que fugia? Pensei em mim. Quando eu assinei aquele bilhete e o deixei em cima da mesa, avisando que eu ia sair... de que eu fugia? Sentar pra desenhar no meio de um nada, era uma fuga de que? Por que tão avidamente eu desenhava, como quem tentasse congelar o lugar em que eu estava, naquele papel? De que realidade eu fugia? Enquanto caminhava, olhava sempre pra trás marcando o trajeto. De quem eu me distanciava? E voltei pra casa e encontrei tudo como estava. Tudo continuava ali. Uma gaveta pra martelar, uma grade pra pintar... Voltei e ainda era eu, e dentro de mim, ainda era vácuo. Não adiantou. Me irritei, mas ao mesmo tempo me entristeci mais ainda. E como num ciclo viciado, despenquei e morri naquele dia. Mais um pedaço de mim morreu. Mais uma parte de resistência foi embora. E assim é que é. Dia após dia. Semana após semana. FIM.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sonho vs Sobrevivência (ou o que marcar como opção de curso no vestibular)

Estou me devendo escrever esse texto desde o inicio do ano. Acho que é propício terminá-lo e publicar. Tenho alguns amigos que este ano, e ano que vem, vão prestar o vestibular. Alguns mais jovens que eu, outros bem mais velhos. Mas o que tem em comum entre eles, é a perspectiva de concretizar um sonho, um projeto pessoal, e também, o de firmar bases de segurança para a vida. O que quero dizer com isso: em decisões como esta, temos a escolha de realizar sonhos e projetos em que vislumbramos a aplicabilidade de nossas potencialidades mais latentes; ou a escolha de um modelo de vida que, ditado pela realidade, pode não ser o mais prazeroso, e no entanto, será um proporcionador de segurança financeira e social.

Quando eu tinha 16 pra 17 anos, prestei o vestibular pra Engenharia, e passei. A prova foi cancelada devido à fraudes nos exames, mas pra minha sorte, fico pensando que provavelmente estaria me formando em uma área que, de certo modo, não requer de mim as minhas mais plenas potencialidades, mesmo sabendo que, dentro de qualquer profissão, podemos aplicá-las e focar aspectos nossos com o qual lidamos mais facilmente. Eu estaria inserido num bom mercado de trabalho onde a remuneração é, em comparação com outras profissões, uma das melhores. Mas não seria eu. Não seria aquele o meu projeto de vida - o meu sonho.

Ficamos reféns, portanto, do sonho e da realidade. Onde o não cumprimento de um pode levar ao descontentamento, e o outro, a igual resultado. Pra que servem os sonhos, afinal? Um sinônimo que uso para o sonho, é a utopia. Filosoficamente, a utopia nos serve para projetar um ideal, do qual criamos bases para tentar alcança-lo, ou alcançar uma porcentagem daquilo que idealizamos. O sonho, portanto, tem uma característica que nos assegura um constante estado de movimento em busca de uma situação/realidade ideal.

Mas o que impede de vivermos tal sonho? Uma boa parte desse impedimento é por conta da realidade. O ser humano é um ser inserido em uma realidade na qual ele necessita se adaptar, e o sonho, portanto, lhe dá noções para que se criem formas de tal adaptação, bem como o seu oposto: adaptar a realidade à si. Isso nos diferencia de todas as espécies. Alteramos significantemente a realidade (e essa palavra uso para definir o espaço onde vivemos, a situação social na qual estamos inseridos, e os recursos do qual disponibilizamos para sobrevivermos) e, portanto, penso que o sonho tem uma boa parcela de significância nesta capacidade humana.

Vejo pessoas que sonham com suas carreiras de uma forma mediante uma realidade que lhes cobra outra completamente diferente. O mundo, hoje, tem problemas muito grandes pelos quais demandam todos os tipos de solução. A demanda de problemas é muito alta na nossa realidade, e portanto, não damos conta de resolver tudo ao mesmo tempo sem sistematizar, e quando sistematizamos, delegamos prioridades. Não é de se admirar que áreas do conhecimento como o da saúde tenha mais demandas que a de humanas, mas o desleixo de uma sociedade para com a segunda, acumula problemas que afetam a primeira.

Em miúdos: o mercado é injusto. As Artes Cênicas em Manaus, por exemplo, vem galgando significativas conquistas mais pelo engajamento pessoal dos indivíduos que compõem esse setor do mercado do que pela dinâmica social como um todo. Isso é muito claro pra mim. São pessoas que persistem nos seus sonhos de estar produzindo e compartilhando arte e que percebem que ali podem aplicar todas as suas potencialidades. Mais, que ali possuem mais capacidade do que poderiam aplicar em outras áreas. Vejo amigos que batalham por seus sonhos, na mesma medida que vejo amigos que se buscam bases seguras, mesmo sabendo que ali não serão tão plenos quanto seriam em outra área.

E agora, falando pedagogicamente, estamos torturando nossos jovens com essa dicotomia maluca. A sociedade lhes cobra muito, de tal forma, que é gritante o número daqueles que preferem buscar as bases seguras que a sociedade oferece, do que perseguir o seu sonho . Logo, surge um grau enorme de frustração que temos de lidar - frustrações profissionais e pessoais, também. Passamos os olhos brevemente pelo número de desistentes dos cursos de graduação, e não se torna difícil as conclusões. Incentivamos pouco a perseguição dos sonhos. Eu, quando decidi não tentar mais engenharia e sim o Teatro, senti na pele o que é isso. Pais, familiares, professores, amigos... todos diziam em uníssono: "Teatro? Mas isso não dá dinheiro!". E infelizmente, nós, seres citadinos, temos como recurso de sobrevivência um pedaço de papel. O sonho passa a não valer à pena. Como sobreviver, portanto, perseguindo um sonho que não te oferece bases seguras? Feliz aquele em que seu sonho reside sobre as bases seguras e facilmente se adapta.

Entra aí, o outro lado da moeda. Nós temos de nos adaptar, mas precisamos também adaptar o todo a nós. Portanto, cheguei a conclusão de que perseguir um sonho é um ato de bravura. Pois aquele que tenta perseguir seu sonho, deve ter em mente que, antes de mais nada, deve alterar a realidade - e isso é custoso. Por isso que entendo que as conquistas do mercado cênico em Manaus parte mais do engajamento pessoal de determinados indivíduos (e alguns raros grupos), do que de demandas solicitadas pela sociedade. Se dependêssemos desta, talvez não teríamos evoluído muito. Mas é esse engajamento que faz com que nasçam produtoras que insistem em criar eventos que buscam formar públicos; que requerem do Estado mais incentivos para a Arte; que insistem em formar novas gerações de profissionais, e que portanto, acabam por gerar oportunidades de crescimento pessoal e coletivo. Isso requer um altruísmo muito grande, pois alargamos fronteiras não somente para si, mas para todos aqueles que almejam o mesmo sonho.

Então, aos vestibulandos de Teatro e possíveis calouros: Se esse é o seu sonho, o de fazer Teatro, saiba que antes de tudo você deve se preparar para mudar a realidade. Às vezes é desanimador: recebemos pouco, trabalhamos muito, o dinheiro acaba e o mês não, mas ainda assim, é necessário persistir. Às vezes nós mesmos nos boicotamos, desistimos no meio do caminho, nos afastamos - o que é absolutamente normal, mas até aí podemos contornar. Aos amigos que vão prestar vestibular para outras carreiras, mas que gostariam de estar perseguindo um sonho completamente diferente: Calma, um passo de cada vez. Talvez na área onde você está se inserindo, você encontre meios de usar suas potencialidades como lhe apraz. E caso não encontre, nunca é tarde demais pra começar tudo de novo. Com tudo isso, desejo muita sorte na perseguição dos sonhos, pois alterar a realidade talvez seja a dinâmica que precisamos para encontrar novas saídas e soluções para as problemáticas que temos agora.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Porque na dúvida reside a decisão que um dia nos arrependeremos e talvez amargamente

Um apartamento sem muitos móveis, e um colchão sem cama. A chuva lançava rajadas de água na janela. No quarto, um homem chorava. Na sala, outro fumava um cigarro. Não saberiam dizer como chegaram àquele momento da vida de ambos, onde dez anos de casamento era tão parecido com a água que escorria pelo vidro da janela.

- Eu ainda te amo.

- E eu também.

Ambos se olhavam com lágrimas nos olhos, e nos de Fábio, o azul se tornava mais aquático. Saindo do prédio, Pedro sentia a rajada da chuva lavar-lhe. Era como sangue que brota da gente quando estamos numa piscina. Por mais que se dilua na água, ainda brota, e cada vez mais. Nada lavava aquele sentimento. Aquela perda. Ia cruzar a rua, não sabia por onde seguir.

Fábio, como num despertar, virou-se e saiu porta afora. Correu a plenos pulmões, mas a visão era sempre embaçada pela chuva. Via embaçado somente os halos da iluminação dos postes. Correu para dizer eu te amo, e a frente via alguém gritando. Era uma mulher. Seu carro estava mais a frente, porta do motorista aberta, em diagonal no meio da rua. Ela tentava reanimar alguém deitado. No chão, seu amado. Fábio chorou.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quero morrer de outro jeito...

Tenho raiva de mim mesmo, às vezes. Não, eu tenho raiva do meu inconsciente. Não, tenho raiva das minhas "disfunções de lógica", como diria minha terapeuta. O fato é, que essa raiva vem da lógica, do meu pensar acerca do meu pensar - e também do sentir e do reagir.

Acontece que eu recebi um elogio de uma pessoa, alguém que disse que me achava bonito. E era alguém sem comprometimento algum comigo - pai, mãe, tia, amigo, conhecido. Era uma pessoa desconhecida, que até aquele momento nunca tinha me visto, nunca tinha ouvido falar de mim, nunca sequer tinha ouvido a minha história. Ela simplesmente me viu, e me disse: "Nossa, você é tão bonito". Eu ri, na hora. Fiz troça. Lembro de comentar comigo mesmo que aquela pessoa, certamente, tinha um gosto duvidoso...

Hoje estava deitado, aproveitando que o clima foi fiasco pro meu ânimo pra tudo, e lembrei disso. Como assim eu reagi daquela maneira diante de um elogio? Sim, fiquei nu diante de um espelho e me olhei durante uns dez minutos, e agora ninguém pode dizer que não tenho espelho em casa. Foi tão libertador. Sabe por que? Por que apesar das minhas "disfunções de lógica", apesar de certas convicções filosóficas de que a erradicação da vida humana seria um benefício enorme pro universo... eu aproveito meus minutos de vida! Sim. Não estou surfando no Havaí, nem degustando charutos cubanos em Havana, muito menos saboreando a culinária italiana em Roma, mas eu aproveito meus minutos de vida de uma forma que talvez muita gente ache ser perda de tempo.

Sabe o que é perda de tempo pra mim? Trabalhar exaustivamente e reduzir as poucas horas de prazer que essa vida ocidental incute na gente. Pior, usar as poucas horas ociosas em atividades com objetivos fúteis! Gente que torra seu dinheiro em academias, dietas, cosméticos... tudo pra alcançar um padrão de beleza que em parte é ditado pelo mercado, mas em parte é ditado por esse sentimento bobo que nós mesmos criamos. Isso é perda de tempo pra mim. As poucas vezes que decidi fazer uma dieta, ou ir à uma Academia, eu parei pra pensar em quantos pratos deliciosos que a minha cultura desenvolveu durante séculos, e que ainda não degustei. Quantos temperos o homem descobriu durante toda a sua existência, que eu ainda não tenha experimentado. As horas que eu estarei sentado numa máquina gastando energia solitariamente, e que poderia estar gastando tal tempo conversando com um amigo... mesmo que por Skype.

E por que alcançar esse padrão? Não sou contra quem faz dieta porque tem cuidado com saúde, nem quem vai à academia pelo mesmo motivo. Mas eu acho um absurdo quem os faz pra ter um corpo padrão, afim de conseguir prazer com outros corpos padrões. Faz para ser aceito. Faz para ser mais um. Desperdiça o pouco tempo da vida corrida pra algo que, em 40 anos, vai ser como o de todo mundo: velho, flácido, enrugado e correndo risco de a qualquer minuto parar de funcionar.

Podem ir para as suas academias, fazerem suas dietas. Quer saber? Vou comer um bom guisado de frango com os amigos, preparar um delicioso empadão para um almoço de domingo, tomar uma cerveja bem gelada num boteco com a galera, fumar um cigarro depois da janta, beber um vinho encorpado acompanhado de uma deliciosa macarronada. Vou sentar pra conversar com um amigo, vamos rir juntos. Vou caminhar quatro quadras de madrugada pra comprar cigarro... não pelo cigarro, mas pela maravilhosa sensação de que eu sou único, de que há silêncio num ambiente caótico, para lembrar que posso tombar ali adiante pelo motivo mais fútil e todo o resto de nada me adiantou.

O dos outros é bom...

Lembrei de quando pedi a Suellen Vasconcelos em casamento. Não, não éramos namorados, nem estávamos mortos de apaixonados um pelo outro. Só percebemos que a gente tinha a maior facilidade do mundo de entender os outros, dar conselhos, resolver problemas... mas dos outros. Sempre.

Pedi em casamento pra facilitar a nossa vida. Ela resolvia os meus, e eu os dela. Ó que maneiro! Mas papo sério: a humanidade, se não tivesse descoberto a amizade, tava fodida! Se um primata com cara de fuinha não tivesse oferecido aquele fruto pro outro que tava passando, mas é nunca que a gente tinha evoluído pra essa coisa pensante e cheia de conceitos e filosofias que somos hoje.

Mimimi, se tranquem em casa e escutem Maysa... Mas venhamos e convenhamos, somos um nada quando sozinhos. Tenho descoberto isso - ou estou redescobrindo - como quem para pra lembrar que ácido queima, metendo a mão no vasilhame que diz: "isso queima, idiota, não está claro?". Outro dia eu estava assistindo um filme com um amigo, Onde vivem os monstros, e eu percebi uma coisa que nunca me ocorreu, sendo aquela a sétima vez que via o filme. Precisava daquele amigo do meu lado, na situação em que ambos estávamos, pra entender aquela cena. Carol, o monstro problemático, (spoiler a seguir) ao correr para a praia, podia ter entrado na água e puxado o barco. Podia ter puxado o barco e dado um abraço peludo no menino Max. Podia ter dito que o amava, também. Podia ter dito que ele ia tentar melhorar, que ia ser mais amável, que ia ser mais compreensível. Iria pedir perdões, dizer que não importava se era mentira sobre os Vikings, Max era seu rei. Mas não. Carol chega na beira da praia, até ensaia entrar na água pra alcançar Max. Mas ele para, e uiva.

Só isso. Ele parou na beira da praia, deixou Max ir com seu barco, e uivou. Não fez questão de ter o que os amigos tiveram: um abraço e palavras de Max. Ele simplesmente uivou, e todas as palavras foram ditas naquele uivo. Ali foram não só palavras, mas sentimentos, pedidos, encantamentos para que seja eterna a memória do que viveram... Carol, antes de querer cuidar de Max, de concertar as coisas, de tentar fazer tudo certo... decidiu apenas uivar. O curioso, é que no final, Max podia ter dito milhões de coisas pra sua mãe. Ter contado a história, ter pedido perdão (não lembro se ele falou alguma palavra para a mãe, sempre me debulho em lágrimas a partir da praia), mas a Max ela também não diz nada. Ela simplesmente o abraça e chora.

Sabe... silêncio, por favor? Um pouco de silêncio cai bem, às vezes. Não o suficiente para que deixemos vozes interiores começarem a lançar suas lógicas deprimentes, mas o suficiente para percebermos que temos força pra superar os nossos problemas. Eu disse NOSSOS. Com a mesma lógica e raciocínio como resolvemos o dos outros. Quando o filme acabou, uma criatura estava aninhada nos meus braços. Um amigo estava aninhado nos meus braços, em prantos, e eu não tinha o que dizer. Só chiei. Sim, chiei. Pedi silêncio. Não sei pra quem pedi silêncio, se era pra ele se acalmar, ou se era pra eu ficar calado, e simplesmente abraça-lo o máximo que eu podia. Só que eu também não estava legal, e enquanto chiava, eu percebi que eu passei a estar aninhado em braços.

E saímos em silêncio. Só depois ele falou algo: quer um misto quente? Deitamos no sofá, e dali em diante, falando pouco, simplesmente ficamos dizendo tudo, transmitindo todo nosso amor um pelo outro, consolando um ao outro com suas dores conhecidas e desconhecidas, mas em silêncio. Não precisei dizer nada a ele, nem ele a mim. Ambos ficamos resolvendo-nos internamente, mas não seria a mesma coisa sem ambos ali, aninhados entre almofadas, num sofá. E dizer tchau foi meio doloroso, mas até ele foi pronunciado silenciosamente. E fomos cada um pro seu canto, com seus problemas, uns resolvidos e outros a resolver... mas pela primeira vez, percebi com mais clareza de que posso resolver meus problemas. Mesmo que pra cada um eu tenha de descobrir, como quem descobre a pólvora, o meio e a forma de resolvê-los.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Série "Somos": Prólogo

Tem uns dias, nas minhas madrugadas insones, que venho pensando em escrever. Escrever avulso, não interessando tema, pesquisa, ou uma profundidade qualquer. Escrever por escrever. Tenho escrito no meu Diário, que nada mais é que um caderninho em que resumo o dia, as dores, as descobertas pessoais que cabem só a mim. Mas ao fim, relendo, a vontade que dá é de queimar tudo. Ainda reside aquela necessidade luxuriosa por um interlocutor. Saber que escrevo pra alguém. Que alguém, que é assim como eu, buscando algum eco perdido de alguém que está assim também, simplesmente encontre esses textos perdidos na maré cibernética e leia. Leia. Deguste letras. Saboreie vírgulas. Cuspa erros sintáticos horríveis a um delicado paladar. Que me acuse no seu íntimo sem se importar de me apontar o erro. E por mais que não se saiba ao certo quem lê o que aqui escrevo, basta saber que está disponível para que leia. Meu interlocutor invisível, de quem não espero resposta nem sinais de aprovação. Na verdade espero, sim. Mas nunca me cobrei a busca por satisfação, opinião, degustação de minhas palavras seguida de cometários...

Na África, as crianças mais sortudas são treinadas para o "Ubuntu". Nunca soube alguém que conseguisse definir o significado inteiro desta palavra em numa outra equivalente, em português. Ou outra língua, se quer saber. É deles. Milenarmente deles. A definição mais curtinha que ouvi falar, e pra ser sincero, não lembro onde - mas sei que talvez tenha sido a primeira vez que ouvi falar dessa palavra -, é a de que Ubuntu significa "eu sou porque nós somos". Frisei muito nessa frase. Minha insônia me remoeu nessa palavra. Era como se no meu quarto, centenas de rostinhos negros, infantes, pintados de branco, me espiassem dizendo: Ubuntu. Fui completamente atormentado por essa palavra. Esquizofrenicamente atormentado por uma simples palavra. Ubuntu!

"Eu sou porque nós somos". Solitário, no apartamento, sonhando megalomaníaco ser Baudelaire, ou Proust (e jamais Bukowski, que era mais adestrado na arte da sedução do que jamais serei)... bebericando uma vodka amarga e barata misturada com alguma coisa que lhes desse sabor... fui sendo constantemente penetrado por essa frase - pela curta definição de uma simples palavra. Penetrado, sim. Essa é a melhor palavra. Como uma donzela, me senti seduzido por ela. Ela ecoava dentro de minha mente com sussurros sedutores. Senti-me lubrificar com a ideia: era sedutora demais, excitante demais. Ela foi entrando em mim causando êxtase, prazer... e ao mesmo tempo dor. Uma sensação, por mais prazerosa que seja, se nunca sentida, a primeira vez é dolorosa. É transformadora. E tais barreiras rompidas causam certa dor... no mínimo um incômodo. Mas Ubuntu me causou constrangimento.

Solitário, percebi que não sou, porque não há com quem mais ser. Somos solitários. Estar aqui, na frente de uma cristalina tela, escrevendo pro meu amante mais desejado (o meu leitor invisível), é a prova cabal de como somos solitários. Cerquem-se de amigos, enlacem suas fraternidades... somos solitários. Estamos perto pela distância.

Apesar da sorte de ter muitos amigos, com poucos tenho afinidades. Mas sou ligado a eles por pelo menos uma. Pelo menos uma afinidade nos une, nos aproxima. Enlaça fraternalmente na compreensão do estado um do outro. Com uns afino-me à insônia. Companheira constante, de madrugadas avermelhadas, com quem cuspo palavras sem carência de poesia ou ismo. Com outros compartilho de dores, e com outros os risos, e àqueles as ganâncias. Somos. Cada um de nós é, porque somos. Mesmo encarcerado por meu medo numa masmorra fantasiosa, ainda sou porque há quem comigo seja. É aqui que adiamos o estado insuportável de ser. É aqui que afastamos a ideia de que basta. Não estamos completamente solitários. Somos esquerdistas, centristas, insones, fumantes, poetas, desenhistas, projetistas, atores... seres humanos. Percebemos a nossa afinidade e tentamos dar mais passos juntos. Como dói concordar com um clichê, mas sim... sozinhos alcançamos o que queremos em maior velocidade, mas juntos vamos muito além. Sobrevivemos juntos, pois só esquecemos da importância de nos perpetuar. Ubuntu.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vazio

Já estou tão acostumado, que nem levanto mais da cama. Faço um mínimo de esforço apenas pra desligar o ventilador, porque ainda tenho uma certa consciência ambiental. Não durmo mais. E o canto dos pássaros na alvorada me irritam, e prefiro chorar do que gritar pedindo socorro. POR FAVOR! PAREM DE CANTAR! PRA QUE CANTAR? É SÓ O SOL! BILHÕES DE ANOS ELE É O MESMO!

Um. Dois dias. É o intervalo entre um sono e outro. Às vezes durmo dois dias seguidos, ou finjo que durmo. Fico só deitado de olhos fechados imaginando um mundo mais interessante pra mim. Já vejo vultos fora da casa. Vultos de pessoas querendo entrar. Todos eles querem entrar e eu estou com tanto medo. Tem uma bandeja caída no chão e o pote de café solúvel ficou aberto na noite anterior. Tenho mais de quarenta ligações não atendidas. Atendi uma. Era meu pai. Ele pediu chorando pra que eu saísse. Pra que eu fosse ir vê-lo... que fosse cuidar do cachorro que ficou doente. Tenho medo de sair. Prometo que vou, mas deito no banheiro e fico criando coragem - sem coragem. O dia acabou, e nem fui.

Sento num banquinho, na cozinha, esperando a água ferver pra um chá. Nada mais me apetece, nem o vício. Volto pra cama não sei porque, porque não tem nada lá. Meus pensamentos já estão muito altos, eles gritam. Tenho a impressão que falo com alguém. Me pego falando com alguém da cozinha e peço pra me trazer água. Nada vem.

As almofadas estão no chão. Ali tem uma aranha morta. Surgiu uma ferida na minha perna. Sinto dores no quadril. A campainha toca e finjo que não estou em casa. É só a correspondência, mas tenho indisposição até pra atendê-la. Já não enxergo direito pelo olho-mágico. Já não enxergo direito há muito tempo.

Esqueci o que é um abraço. Vejo as pessoas por um buraquinho da janela e dá vontade de pedir que me abracem. Nem as conheço.

Me olho no espelho, nu. Tenho nojo de mim. Não pelo que vejo, mas o que vejo por debaixo dessa carne. Ela é o reflexo do que vejo. E sinto nojo dos dois. Meus olhos. Percebo que o que sempre foi o meu orgulho, os meus olhos, já são dois globos opacos e sem vida. Meu sorriso está desagradável. Não suporto mais meu próprio cheiro. Semana passada dormi debaixo do chuveiro, e esqueci ele ligado. Às vezes não quero levantar nem pra fazer as minhas necessidades. Fico sentindo dores. Fico sentido fortes dores. E aí eu vou, mas só pra sentir mais dores.

Está me irritando a alegria dos outros. Está me irritando a cama de cima, que range sobre meu teto denunciando dois amantes felizes em gozada noite. Está me irritando a música melódica que denuncia uma adolescente apaixonada na sua varanda com sua samambaia. As janelas não se abrem mais pra essas coisas, pra evitar mais rancor. E então me irrito comigo mesmo, por me irritar com coisas boas.

Sinto-me culpado. Fico noites sem dormir pensando como sou cruel. Me desligo do mundo com algum filme. Alguma paleta de cores. Alguma imagem que me abstraia. A música ecoa em mim e volta vazia. Nem sequer me relembra amantes, ou discórdias. Não tenho mais luto. Não tenho mais medo. Não tenho mais preocupações...

... nem sequer preocupações!

Esse silêncio me irrita.

ESSE SILÊNCIO ME IRRITA!

ESSE SILÊNCIO ME IRRITA!

SILÊNCIO!

IRRITA!

Olho no relógio e me surpreendo com o quanto que o tempo se passou...

Um mês...

       Dois Meses...

              Seis...

                     Um ano...

                             Dois...

Cheguei. Cheguei até aqui e não consigo afundar mais. E é escuro... como o quarto. Olho pra cima e vejo várias silhuetas. Ouço ecos de vozes pedindo pra que eu não faça isso. Alguns desistem. Não os culpo. Deito e sinto a água cair no meu corpo. Sono. Muito sono. Ainda tenho algumas pílulas... Não há com o que se preocupar, ainda tenho algumas pílulas. E uma seringa. E uma faca. Não lembro porque deixei levarem as cordas... mas tenho o suficiente pra dar fim quando não for mais suportável...

mas

     já


        está


  tão



insuportável!


Toda sexta-feira me arrumo. Espero alguém. Espero que ele venha tocar a campainha. E eu espero.
Não sei bem o que diria. Tenho vergonha que ele me veja assim, então me arrumo o melhor que posso. Ensaio um sorriso que esconda meus dentes. Não sei o que diria. Acho que começaria dizendo que eu sabia que ele viria... talvez pedisse perdão por ter sido covarde... Não. Não sei o que diria.

ESSE

                   SILÊNCIO

                      É

                                                   INSUPORTÁVEL!

(Postagem sem título)

(Corpo do Texto)





















Corpo enterrado...




















Eu me enterrei...

sábado, 17 de agosto de 2013

à dois... de um...

De tudo o que podemos ter na vida, iludimo-nos e esquecemos do efêmero. E de tudo o que nos ditam, o efêmero não é tolerado, ou não toleramos a sensação da efemeridade. Pois de tudo não toleramos que seremos nada. E do nada lembramos que não podemos tudo, e isso é tão desolador.

Pois que, em vão então, procuramos de tudo para que satisfaçamos o nosso nada, e no nada contemplamos a frieza de nós. E na efemeridade assistimos a invalidação de tudo, pois que tudo se fará nada. Pois em dúvida criamos certezas, e em certezas nos satisfazemos em esperança.  Mas que basta a esperança para que duvidemos das certezas, e novamente, contemplamos o nada ainda por preencher.

Pois que esqueçamos o nada, e nele não façamos moradia nem da esperança, nem da certeza, nem da dúvida. Pois que o nada a preencher-se não se completa, nem o tudo se alcança. Pois que adianta o tudo que breve se torna o nada?

Afinal, para que nos serve o nada? Pois na esperança valida-se a dúvida, e na dúvida, corrói-se a certeza. E portanto é inválido que busquemos o tudo? Por certo que não. Pois na busca do tudo, esquecemos do nada, mas sabendo do nada, lembramos que não temos tudo. Portanto, que nos é dado a chance de buscar a sublime degustação de ambos. E que dure tudo até que se complete nada, e que ao fim vejamos calor de ambos. Assim, ao contemplarmos tudo que alcançamos, não pensaremos em nada. E ao contemplar o nada, não invalidemos todo o resto.

Portanto, superado isto, não tememos que tudo até aqui possa vir a ser nada. Nem que temendo tudo, nada seja bom. Pois que em ambos não olhamos para trás para rememorar, nem adiante olhemos para que façamos as moradias da esperança, da dúvida e da certeza. Pois que até aqui, nos satisfazemos no efêmero, pois efêmero sendo, não será dada outra chance. E se dada for, não nos confundamos com a eternidade.

Amar, aprender, ler, cozinhar, comer, beber, fazer sexo, beijar, fumar, comprar, vender, ganhar, perder, sorrir... pois que ao fim nada se torne, não importa, tivemos tudo. Amar, aprender, ler, cozinhar, comer, beber, fazer sexo, beijar, fumar, comprar, vender, ganhar, perder, sorrir. Pois que não tido isso, não adianta buscar tudo... efêmeros seremos em nada.

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A um grande amigo, que sem saber, roeu diversas cordas invisíveis, e que não sendo todas, foi suficiente para aliviar. Obrigado. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A busca pelo frango frito perfeito.

Cansei de ser cabeçudo. É legal escrever no meu blog sobre arte, sobre crítica teatral, sobre política... me faz refletir sobre essas coisas. Mas cansei. Vamos falar trivialidades! E a trivialidade de hoje é: a busca pelo frango frito perfeito.

Minha avó, D. Sarah, ela conseguia fazer um frango fito que ficava PERFEITO! Não tinha aquele cheiro horroroso de frango de granja, que aqui no Amazonas chamamos de pitiú (o cheiro da galinha, não a galinha). Enfim. Meu pai usa vinagre, vinho (quando rola um vinho), alho (muito alho, e eu adoro), pimenta do reino, sal, e se rolar, um temperinho Sazon - porque ninguém é de ferro e tempero industrializado é um primor da invenção humana. Isso resolve o cheirinho incomodo do frango, e dá um super sabor. Mas o frango da vó Sarah era sequinho, mesmo frito. Meu pai consegue deixá-lo suculento, apetitoso. Vó Sarah, não. Ela deixava o frango dela crocante, mas sem aquele óleo entranhado na carne.

De uns tempos pra cá, vi que tinha na geladeira uma riqueza de coxas de galinha, e que na preguiça do dia a dia, parar pra temperar, esperar apurar e fazer o frango seria um sacrilégio. Tomei coragem. Estava eu e meu primo em casa, nada pra comer, então fui temperar rapidinho (que nem meu pai ensinou). Lá pelas tantas, enquanto deixei o frango apurando o tempero, lembrei que tinha sobrado um trigo do último empadão que fiz - meu pai chama de "empadão", mas pra "torta de carne", tanto faz. E lembrei de OUTRO frango frito, que pra mim também era perfeito: O frango frito da Vó Neuda (Vó Sarah, mãe de mamãe, falecida. Vó Neuda, mãe de papai, viva - só pra esclarecer). Uma vez, e desde que eu me lembro, nunca mais, a vó Neuda achou de fazer frango empanado. NOSSA. Que era aquilo... O Frango tinha uma crosta tão crocante, tão deliciosa... e a carne não estava rosadinha ou meio crua. Estava PERFEITA. Sem o cheirinho incômodo, sem um sabor estranho da carne, sem o azeite entranhado... era PERFEITO. Daí, eu separei três partes do meu frango temperado para os experimentos.

Uma, eu ia fritar como meu pai frita: espera a carne fritar, depois adiciona o molho do tempero na frigideira, pra, depois de frita, cozinhar no próprio molho. Fica uma delicia, suculenta. Mas com cuidado: se colocar o molho muito cedo, corre o risco do óleo queimar por completo o molho, dando gosto de queimado à carne ainda meio crua. Se colocar tarde demais, a carne vai passar do ponto, sem ter tido tempo suficiente para apurar o molho da frigideira. Só que ao contrário do modo de preparar do papai, fiz o seguinte: preparei numa vasilha o trigo, pimenta do reino, e cheiro verde bem picado. Coloquei mais óleo de soja na frigideira do que o normal, porque eu não queria que o trigo se desfizesse, nem a carne ficasse crua. Empanei as coxinhas, e coloquei pra fitar. Quando a crosta estava dourada, adicionei o molho do tempero em cima.

Resultados e Descobertas: O trigo normalmente se desfaz na frigideira, logo o azeite tem de estar BEM QUENTE, pra fritar rápido e não desfazê-lo. Só que isso gera um problema, a carne não frita bem, e até o ponto dela fritar bem, a crosta queima. Eu ainda estou pensando em como fazer, e aceito dicas. Meu pai falou que farinha de rosca é melhor que o trigo, só que já era tarde demais. Sobre o cheiro-verde no trigo: ficou bom. Não ficou ruim. Mas sabe aquela certeza de que se fosse outra erva, estaria MUITO melhor? Pois é. Assim que eu me sentia enquanto comia. Outro ponto: frango empanado, coma na hora. Depois eu fui percebendo que a carne absorveu muito do azeite, e, quando fomos comer no jantar, o azeite tinha passado da carne para a crosta, deixando ela meio melequenta - fiquei triste.

A segunda parte das coxas, eu tentei ASSAR. FICOU MUITO BOM. Eu coloquei as cochas numa bandeja de metal pincelada com manteiga, e depois, eu fiquei em dúvida se seria suficiente, então pincelei em cima com azeite. Distribui as cochas na bandeja, e coloquei no forno. Eu gostei porque ficou sequinho e a carne não ficou rosadinha ou meio crua. Mas como a manteiga derreteu, formou no fundo da forma um poça de azeite e manteiga que deixou um lado das coxinhas super molhado. Saboroso, fritinho, o terror de qualquer veia entupida (mas ainda assim saboroso). Dispensei o cheiro-verde, mantive a pimenta do reino, e ficou dez. O detalhe é que a crosta ainda não estava aproximado ao da Vó Neuda, pois estava fina de mais, e apesar de crocante, não era tanto.

Enfim, a terceira parte eu fritei normalmente, mas sem empanar. Nessa eu quase me aproximei do frango da Vó Sarah. Ficou sequinho, crocante, sem azeite entranhado. Mas como eu usei o tempero do papai, o gosto evidentemente ficou diferente. Mas textura, muito parecido.

Trivialidade culinária...

... como é bom, né?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O irritante e desconfortável Centro (parte 3): neutralidade, ou liberdade de posicionamento?

Quero agradecer a quem está lendo os meus textos sobre Centrismo, e agora eu queria falar alguns dos meus posicionamentos sobre o assunto. No primeiro texto eu expliquei sobre os posicionamentos políticos classificados, e como eles abordam as posições de cada individuo sobre a economia, e sobre o social - ou seja, sobre as liberdades individuais de cada individuo dentro de uma sociedade. No segundo texto, abordei sobre o centrismo e uma das características dele segundo posicionamentos relativos à economia e às liberdades individuais. Agora, vou falar mais um pouco sobre o Centrismo, e sobre alguns equívocos que eu próprio tinha, e que durante o tempo que vim "pesquisando" para escrever os textos, e refletindo o assunto, eu passei a desanuviar mais a mente.

O primeiro ponto que eu queria abordar, é sobre a neutralidade. Geralmente pensamos - e assim pensei durante certo tempo - que um posicionamento centrista, seria um posicionamento neutro. Por exemplo: casamento entre homossexuais - seria de se imaginar que, como centrista, eu seria neutro sobre o assunto, o que seria uma inverdade. Em real, quando pensamos politicamente (na verdade sobre quase tudo o que pensamos sobre nossa sociedade, cultura, etc.), pensamos em outras coisas a qual a política abarca. É um campo vasto que tem dentro de si aberturas para outros campos vastos. Pensar sobre determinado assunto, quando nos propomos a pensar profundamente neles, é algo exaustivo. Os filósofos nascem a partir do momento que eles se dedicam a pensar profundamente acerca de determinados assuntos (ou temas, ou conceitos) em busca de uma verdade limpa de variáveis, ou seja, uma verdade máxima ao qual podemos nos debruçar e partir para várias possibilidades. O que acontece com o posicionamento político, é que por ele ter essas várias aberturas, não conseguimos achar uma verdade máxima ao qual podemos partir em busca de respostas. Se eu tenho um posicionamento tomado como uma verdade máxima, quando eu caio em uma destas aberturas para outros campos vastos, posso me descobrir com um posicionamento aproximado do oposto do qual me defini - ou distante demais do que imaginei que fosse.

Então eu pensava que o posicionamento em um espectro político era algo fixo, mas então fui percebendo (e como essa terceira parte é mais sobre uma reflexão minha, não saí a caça de alguém que tenha teorizado isso) que na verdade, o posicionamento político além de ser um ponto em determinado espectro, seria também um centro do qual podemos partir flexivelmente por uma área estabelecida. Vou usar o meu posicionamento como exemplo. Calhou de meu resultado ser centro-esquerda, e portanto, este é o ponto. Ele define a área pelo qual esse ponto pode transitar segundo o posicionamento acerca de um determinado assunto. Se eu for me posicionar sobre transporte público, provavelmente eu vou estar mais aproximado da esquerda liberal, na contrapartida que se eu for me posicionar acerca de aeroportos, eu vou estar mais aproximado de uma direita-liberal. Ou seja, o meu posicionamento, além de um ponto no espectro, também é o ponto de partida de uma área pelo qual eu transito.

Isso me leva a uma liberdade de posicionamento, logo, uma posição num espectro não é suficiente para apresentar possibilidades de posicionamento, muito menos limitação reflexiva. Mas pode apresentar as tendências que eu geralmente tomo quando me posiciono, e, reforçando, essas tendências ainda são vastas para apontar possibilidades. Por exemplo: alguém me questiona meu posicionamento sobre apoio financeiro à companhias de teatro. Seria errôneo alguém afirmar que por eu, Iago, ser de centro, não apoio a total dependência destas companhias do Estado. Porque meu posicionamento é contrário. Assim como se me questionam sobre Reforma Agrária, se eu fosse de Esquerda, as pessoas já afirmassem que eu apoio a intervenção do Estado. Não, eu defendo a propriedade privada. Se o estado quer minha propriedade pra dividir com quem não tem, ele que compre de mim minha terra. Percebem?

Então, pra que saber o posicionamento político? Eu encaro a função do saber o posicionamento num espectro político como qualquer outro tipo de saber, aquele que eu utilizo para sobreviver em determinado meio. Saber que eu sou Centrista, pra mim, serve para eu ter uma base sobre a qual eu reflita, e parta para encontrar outros posicionamentos acerca de qualquer assunto. Serve para que eu tenha consciência de certos posicionamentos meus, e as possibilidades pelas quais esse posicionamento pode transitar e, quem sabe, abrindo minha mente para outros novos posicionamentos, e/ou pensamentos, e/ou idéias. Uma posição de Centro, como eu ensaiei nos outros dois textos, pra mim, é a possibilidade de transitar entre os vários pensamentos políticos existentes hoje, refletindo sobre eles, e selecionando aquilo que me serve - no caso, segundo uma reflexão daquilo que eu tomo por certo ou errado; segundo os meus preceitos e os paradigmas no qual estou inserido.

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Sem link de referência... como é bom escrever sem ter a obrigação de sair justificando e embasando com idéias alheias...

... mas tem sugestão de link. Só um:

Não se defina (Clarion)
http://www.youtube.com/watch?v=LV41BBZ0_iY
(Tem a parte 2, mas lá vocês encontram o link pra essa...)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O irritante e desconfortável Centro (parte 2): Ensaio sobre Centrismo ou o que dele esperar.

No último post sobre Centrismo, "O irritante e desconfortável Centro (parte 1): aonde fica um posicionamento sem ir a extremos", eu falei sobre o Diagrama de David Nolan, que mostra os cinco posicionamentos políticos (Direita, Esquerda e Centro, Progressismo e Estadismo). Sobre cada um dos posicionamentos políticos classificados, há algumas principais correntes de pensamento que se pautam na opinião individual de um ser em relação ao seu Estado, e se este deve, ou não, ser intervencionista. Essas intervenções se pautam em dois critérios, que é o econômico (de onde extraímos a maior parte dos nossos recursos financeiros atuais) e aquele pautado na liberdade pessoal. Falei também sobre o Centrismo, e como esse posicionamento político não atinge extremos - ou seja, está sempre flertando com medidas ora de Direita, ora de Esquerda, e nunca passa disso (o Libertarianismo e o Totalitarismo são extremos além dos extremos, ou seja, não seria possível que decisões Centristas alcançassem esses ultra-extremos).

Antigamente, durante boa parte do século XX, se falava muito da Direita e da Esquerda. Era um pensamento recorrente e bipolar que não dava conta do quadro mundial pós-moderno, e portanto, traçou-se uma linha paralela para definir outros posicionamentos políticos. Na verdade, outras variáveis mediadoras. Além de alguém ser de esquerda, por exemplo, essa pessoa poderia ser libertária - ou seja, preza pelo social, e também pelas liberdades econômicas. O Centrismo, nesse caso, nunca ganhou uma definição fechada, e o máximo que se pode falar sobre ele é divagatório (e sinceramente não encontrei nenhum "tratado" sobre centrismo).

O Centrismo vai surgir delineado em um diagrama com o David Nolan, ganhando um espaço próprio, onde um ponto (o seu posicionamento) pode se localizar mais próximo de qualquer extremo. Caso esse ponto ultrapasse as fronteiras do centro, ele pode situar-se em um posicionamento político de fato. Sobre o Centrismo: é o único pensamento político que, além de possuir consciência de que sua sociedade nunca poderá ter o mercado totalmente livre, também sabe que as liberdades de seu povo, se postas em prática em sua totalidade, podem ser prejudiciais e, diferente do Totalitarismo, não possui nenhum interesse em intervir sem levar em consideração as liberdades pessoais. Percebam que, assim como a Direita, o Centrismo não tem pudores de intervir nas liberdades pessoais, assim como não se pudora em mexer nas liberdades econômicas, tal qual faz a Esquerda. Isso parte do pressuposto de que liberdades sem freios, sem filtros, são possíveis de confrontar-se, gerando uma situação - na pior das hipóteses - caótica, e caos, apesar de ser a origem de muita coisa (ou praticamente tudo), ele gera a total destruição de algo pré-existente.

Alguns progressistas (e alguns radicais, como os anarquistas) podem achar que gerar coisas novas e novos paradigmas é algo positivo, mesmo que esse algo novo nasça do caos. Mas é impossível se destruir tudo para gerar algo novo, porque o preço a se pagar é muito alto. Nesse ponto, o Centrismo nunca chegará a extremos, impondo progressismos ou conservadorismos, como seria numa política Totalitarista, que intervém em absolutamente tudo - geralmente, sem consulta, argumentação, ou aval popular. O Centrismo preza pela liberdade econômica, porque desta sai os recursos que permitem que seu povo tenha a sua liberdade pessoal resguardada; e no entanto, se faz importante regular filtros para que ambas não degringolem. Resumindo, podemos vislumbrar a busca por uma harmonia que transcende as formas de um Estado administrar - implica em buscar estabilização e equilíbrio, sendo o desenvolvimento algo natural (e não imposto).

Como possui características ora da Direita, ora da Esquerda, ele flerta com ambas e entre essas características, ele mantém um pouco do conservadorismo da Direita: o progresso acelerado pode ser problemático; e também mantém em foco o progressismo da Esquerda: o progresso existe, e a sobrevivência de uma nação depende da adequação à ele, assim como existem as dinâmicas sociais que, com o mundo globalizado, são rápidas, e portanto, o Estado precisa acompanhar tais dinâmicas e as liberdades individuais dentro de cada novo paradigma que surge. Isso tudo precisa ocorrer de forma muito natural, sem intervenções, mas acompanhando esse processo evolutivo de uma sociedade. Ele busca ACOMPANHAR as dinâmicas sociais, e garantir que elas aconteçam de forma segura, sem extrapolar. 

Sobre isso, eu vou dar um exemplo, que é fictício: Imagine o Brasil nos primeiros anos da chamada revolução sexual. Antes dela, vigorava os tabus religiosos. Depois dela, certas liberdades pessoais surgem, e uma parcela da sociedade clama que essas liberdades sejam garantidas, ou seja, não corram o risco de serem proibidas de nenhuma forma possível de fazer com o seu corpo o que bem entenderem. Nesse novo paradigma, os homossexuais decidem que não é preciso mais de segredos, que eles querem andar nas ruas de mãos dadas como as outras pessoas, querem ter o direito de se casar, de constituir família, de deixar seus bens em herança para seus cônjuges, etc.  O que aconteceu: teve o golpe militar, ou seja, o Totalitarismo entrou (não por um acaso, um Totalitarismo tombado pra Direita Conservadora), e saiu prendendo, torturando e matando. O que aconteceria se houvesse uma Estado Centrista? O Estado, muito provavelmente não buscaria intervir, mas como sabemos que há a parcela Conservadora, um grande debate iria surgir, e o máximo que o Estado tentaria fazer seria promover um diálogo entre os dois lados, e propor políticas públicas voltadas para intolerância sexual na área da educação, saúde, cultura, etc. E no máximo, proporia para o Legislativo a discussão de leis que atendam as reivindicações dessa classe da sociedade que surge.

Agora, vamos supor que com os homossexuais mais liberais surgindo no cenário, comece a aumentar consideravelmente o índice de violência contra homossexuais. Seria de se esperar de um Estado com uma postura Centrista, que ele intervisse nessa situação. Aqui, o Estado perde o seu pudor de intervir, independente do fato dele afetar outros direitos - como por exemplo, o de opinião alheia sobre "a homossexualidade ser algo que merece ser extirpado". Muito provavelmente, um Estado Centrista bem estabilizado não precisaria de uma intervenção severa como esta, e o esperado, era que suas políticas de educar a população para o novo paradigma, bastasse. Aqui, percebe-se que o Centrismo é aberto às mudanças naturais, sem importar-se em intervir para acelerá-las, ou reprimi-las. Além de ter um "quê" de vanguardismo, ou seja, estar atento aos novos paradigmas que possam vir a surgir, e pensar em como lidar com eles sem uma interferência negativa.

E isso é um exemplo de intervenção estatal centrista à um fenômeno social. O mesmo seria feito por um Estado Centrista com um fenômeno econômico. Exemplo fictício breve: uma determinada multinacional de tabaco se instala no país. Apesar de atender todas as exigências pré-estabelecidas, a multinacional encontrou brechas legais que a permitam explorar mais que o devido determinados pontos do comércio, que começam a gerar monopólio na comercialização do tabaco. Seria de se esperar de um Estado pautado em políticas centristas, que intervenções fossem feitas para que uma indústria nacional, por exemplo, entrasse em pé de igualdade com a multinacional - ou que incentivasse mais a agricultura familiar que trabalha com a cultura do tabaco (como o cooperativismo, por exemplo). Isso influenciaria os preços, que poderiam aumentar, ou diminuir - e no caso de um monopólio quebrado, a tendencia é diminuir (e isso ainda é relativo). Só que assim como na situação dos homossexuais, um Estado Centrista bem estabilizado não teria grandes problemas nesse sentido, uma vez que provavelmente, as exigências pré-estabelecidas já poderiam ter sido pensadas prevendo determinados problemas, ou a permissão da vinda da multinacional só seria dada, se o governo tivesse um mínimo de certeza de que isso não influenciaria negativamente a economia do tabaco como um todo.

Parece utópico, né? Pode-se dizer que é quase. Estados centristas geralmente só se desenvolvem bem, quando se encontra um terreno político e econômico estabilizado. No Brasil, Tancredo Neves só teve oportunidade de exercer uma política centrista, porque as condições e dinâmicas sociais naquele momento eram propícias. Como ainda há uma grande instabilidade política, ainda advinda da Guerra Fria, a Direita passou a ser alvejada como vilã, e a Esquerda como grande decepção. Surgem aí outras saídas. Quem nunca viu na timeline do facebook alguém desejar a volta da Ditadura? Quem nunca ouviu falar de Libertarianismo, ou Anarcocapitalismo? Exemplos de pensamentos de extrema-direita e totalitaristas que surgem, quando nada mais serve.

Assuntos que abordam temas sociais, como fome, miséria, etc., não estão mais nos livros apenas. Com a globalização e o surgimento da rede mundial de computadores - e com o aumento de usuários dessa rede -, as pessoas estão entrando mais e mais em contato com tais assuntos. Um comercial de TV que fala que tudo está perfeitamente bem, não engana mais. As discussões sobre temas sociais, já saíram das rodas intelectualmente elitizadas e estão se popularizando mais. A "vilanização" da Direita ainda não morreu, e a Esquerda está deploravelmente desacreditada. Mas o que é interessante observar: mais e mais surgem pessoas que, bem ou mal, estão se politizando - sobre a politização de internet e o ativismo de sofá vou fazer um texto a parte, quem sabe -, e portanto, tomando consciência de que seus Estados devem atender às suas populações. Também estão tomando consciência, de que um capitalismo irrefreado é perigoso, ainda mais com a propagação de discussões de cunho ambiental, e os problemas que o planeta vem passando nesse sentido.

Onde mora o Centrismo nessas questões? O mundo está colapsando, e isso tem algum tempo. Os problemas sociais ainda existem, são difíceis e complexos demais pra se resolver, não havendo fórmula pronta e preparada - requerendo, portanto, um esforço intenso por parte do Estado para atuar em soluções pragmáticas. Soma-se a esses problemas sociais, a pressão popular que no inicio do século XXI se intensificou na busca pelas soluções de tais problemas, e pela busca das plenas liberdades. Os problemas ambientais se tornaram algo que está afetando a economia, a sociedade e a qualidade de vida. A economia mundial está fragilizada, e o Mercado não só é parte desse problema, como em alguns casos, é a origem do problema.

Como atuar? Os problemas se correlacionam, e portanto, as soluções (ou seja, as medidas estatais) devem ser "interdisciplinares". Por exemplo: no caso do Brasil, com a economia desaquecendo, a inflação aumentando, os gastos públicos extrapolando os limites da mordomia, as soluções seriam a desoneração do Estado em alguns casos (como a permissão para a iniciativa privada construir portos para desafogar o escoamento de cargas), que reduziriam os gastos excessivos do estado; o investimento pesado em infraestruturas planejadas não apenas para solucionar determinados problemas sociais e econômicos, mas que visem o progresso da economia (como por exemplo, o replanejamento urbano, a construção de meios alternativos de transporte, como linhas férreas para cargas, etc), que viabilizariam um atrativo para o investimento estrangeiro no país; e por último, uma reformulação nas administrações de determinados serviços básicos (como saúde, educação, segurança, etc); abrir mão de pudores em tornar efetiva a proteção das liberdades individuais (como a descriminalização de certas drogas, do aborto, do livre exercício de opinião e pensamento), se tornam saídas viáveis.

Quem tem PODER pra isso? O Estado. Quem tem CORAGEM de usar o Estado para atitudes assim? Vai saber... A Direita é castrada pela maioria conservadora, como a bancada evangélica. A Esquerda ainda possui muitos pudores de abrir mão de seus mecanismos de controle, e possui dificuldades em lidar com o Mercado, e muitas vezes, suas medidas são perigosas num cenário de economia mundial em crise. O Centrismo, no caso, iria desagradar gregos e troianos. A resposta, provavelmente, pode residir no espirito democrático, mas isso demora tempo. Seja qual for os posicionamentos capazes, o Centrismo é aquele mais aproximado de uma liberdade ideológica capaz de permitir uma livre transição entre políticas de esquerda e de direita, e de intervir não só pautado em ideologias, mas nas necessidades do seu povo.

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The Political Compass
(para saber seu posicionamento político. Está em inglês, e não leva em consideração o centrismo)
http://politicalcompass.org/index

Diagrama de Nolan
(Outro teste para saber o posicionamento político, em português, e considerando o centrismo como posição política)
http://www.diagramadenolan.com.br/o-que-e-o-diagrama-de-nolan?locale=pt

Blog "A Matrix Política", com artigo sobre Espectro Político, e o Diagrama de Nolan.
http://matrixpolitica.blogspot.com.br/2012/08/espectro-politico-3-aplicando-o-grafico.html




sexta-feira, 26 de julho de 2013

ERRATA/ADENDO: Sobre Emenda 79 e o Estado Laico.

Primeiro eu quero agradecer a quem leu o meu primeiro texto sobre a Emenda 79, e depois, pedir desculpas por certos equívocos sintáticos que causaram falha na compreensão. Eu queria muito tentar ser sucinto, mas não dá. No próprio texto da Emenda 79 eu busquei ser sucinto com tudo, e ainda assim, saiu um monte de informações para serem refletidas. Percebam: é um assunto bem grande que requer VÁRIAS reflexões. Então, vou aproveitar esse texto pra corrigir algumas coisas que eu disse, TENTAR desfazer alguns equívocos de partes soltas do texto, e tocar em outras coisas que não couberam no primeiro texto, que já ficou GIGANTE.

OBSERVAÇÃO: Quem faz faculdade de alguma área que preza mais pela pesquisa do que o ensino, sabe que erros acontecem, e a gente tem de aprender a reconhecê-los. É uma principio básico do conhecimento científico. QUERO DEIXAR BEM CLARO: Aqui, neste blog, eu não escrevo textos científicos, APESAR de ter adotado pra minha vida uma postura semelhante àquela utilizada na pesquisa: eu só acredito em algo se ela é comprovada. Então, por mais que eu me utilize de cientificismos, isso aqui NÃO É CIÊNCIA. É OPINIÃO. E opinião/ideia/posicionamento deve ser refletido e filtrado, e não tomado como verdade. E é até bom que hajam divergências, porque isso implica em um debate que pode gerar novas ideias, ou novas saídas.

1. Sobre a Emenda 79 estar certa ou errada: O perfil do Anonymous Gospel, no Facebook, me citou em um post, alegando que a emenda não fere a lei (eu acho que ele quis dizer Constituição). O trecho, em especial, é um paragrafo que eu deixei solto para destacar um argumento de que, em termos práticos, eventos artísticos religiosos podem ser configurados como eventos culturais, e portanto, não haveria problema em serem amparados por instituições públicas como a Manauscult.

Eu não achei que precisasse, mas eu vou ter de exemplificar (mais que isso, só desenhando): se a minha igreja quer montar um Festival de Músicas Gospel, e eu não tenho palco, não tenho suporte de iluminação ou som, eu poderia recorrer à Manauscult para tanto - alugaria um palco, alugaria aparelhagem de som, pagaria algum profissional para operá-lo, etc. Isso é possível. Os fins são artísticos apesar da temática, e assim como alguns artistas vendem CD no seu show, ou passam o chapéu, mesmo sendo o evento montado com verbas públicas... não vejo problemas legais no pastor pedir oferta depois. Há uma coisa que admiro nos artistas, é que a maioria tem um respeito muito grande pelo patrimônio público, e geralmente eles não fazem isso.

Aí alguns podem pular dizendo: "Mas eles pedem oferta pra ganhar dinheiro em cima da fé!". PROBLEMA DELES. Se tem idiota que cai nessa, eu não tenho nada haver com isso! E fica essa discussão PRA VOCÊS. Aliás, é uma discussão velha: a de que igrejas devam declarar seus bens à Receita Federal, a de que paguem impostos como o Imposto de Renda, etc. E eu concordo. Concordo tanto, que super apoiaria também incluir nesse meio instituições como a Federação das Indústrias, que recebem quantias ABSURDAS de contribuintes industriários, e assim como as igrejas, não declaram nem pagam impostos. São quase um país dentro de outro país - o que explica as pessoas se importarem tanto com a opinião do presidente da Federação Nacional das Indústrias.

2. A emenda 79 ainda está errada, mas não totalmente: como visto, tecnicamente não está errada. MAS NEM TODO EVENTO RELIGIOSO É ARTÍSTICO, e apesar da religião ser uma característica da Cultura de um povo, nem todas as dinâmicas da religião é da conta do Estado. Ele não tem nada haver com isso, por isso É LAICO. Eu achei que tinha deixado isso claro no último texto. Então, quando o vereador colocou lá na justificativa dele que os eventos tinham cunho evangelizador, ele deu um tiro no próprio pé! Porque o Estado não tem o DEVER de investir em um evento para conseguir fiéis para A SUA RELIGIÃO. Eu acho que esses dois pontos devam estar bem esclarecidos.

3. A emenda 79 é inviável administrativamente: Eu deixei isso BEM CLARO. E ainda falei que deveria ser um dos principais argumentos a serem clamados pelos movimentos contrários à Emenda. E AINDA CONVIDEI OS CRISTÃOS A SE UNIREM PELO AUMENTO DE VERBAS À CULTURA! Nada contra vocês, evangélicos. Mas são vocês MAIS os católicos, os espíritas, os umbandistas, os candomblecistas, e mais UM MONTE DE RELIGIÕES. A parcela de dinheiro destinada à cultura é muito pouca pra atender TODO MUNDO. E é injusto atender somente a uma religião - mas eu vou abordar isso no próximo ponto. Um bom administrador sabe que quando não se pode dar conta de tudo, pelo menos as prioridades devem ser atendidas. No setor da cultura, QUAIS AS PRIORIDADES? A resposta é bem óbvia. AS ARTES. Se colocarmos a Religião na lista, a gente (artistas) quebramos - aliás, estamos quebrados a um bom tempo. E as artes ela tem obrigação a atender a todos independente da religião.

4. A emenda 79 FERE o estado laico: Aqui, eu quero PEDIR PERDÕES. Eu não levei em consideração nas minhas reflexões que o Estado é Laico para poder atender IGUALMENTE a todos - nesse caso, A TODAS AS RELIGIÕES. Se os evangélicos tem o direito de eventos artísticos apoiados pelo estado, TODAS AS OUTRAS RELIGIÕES DEVEM TER IGUAL DIREITO. Se isto é impossível para o Estado, ele não tem obrigação de fazer. PONTO.

5. "As igrejas tem dinheiro suficiente que não precisam do estado para seus eventos": Verdade. Igrejas não pagam impostos, não declaram seus bens, e possuem suas regras quanto ao uso de seu dinheiro pautados na Bíblia. Portanto, apesar de você pagar imposto, evangélico, se você quer um evento religioso, use do dinheiro da sua religião, não dos impostos - que também é constituído das contribuições dos católicos, dos espíritas, dos religiosos de matrizes africanas, etc. Quanto ao carnaval, boi-bumbá, etc.: são eventos artísticos que viraram tradição. Tradição é uma parte da cultura, e portanto, o Estado pode investir aí, SIM. Agora, se você não concorda com o que as pessoas fazem nesses eventos, problema seu! Vá resolver com essas pessoas, e não com o evento inteiro!

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PONTOS PESSOAIS E REFERÊNCIAS E SUGESTÕES DE LEITURA:

Acho que esclarecido a maioria dos pontos, a partir daqui, lê quem quiser.

Não sou simpatizante de nenhuma religião. Não acredito em nenhuma religião. NÃO CONCORDO COM A MAIORIA DELAS. Sinto um profundo desprezo por alguns religiosos fundamentalistas, mas isso não vem ao caso das minhas opiniões DO QUE É JUSTO. E ainda assim, é O QUE EU PENSO SER JUSTO. Até comecei a escrever algo parecido com um ensaio sobre Centrismo, onde buscarei explicar que em muitos dos casos, os conflitos políticos podem encontrar uma saída harmoniosa, que atenda os dois lados de tal conflito. Queria muito ter ido ao debate público promovido pelo Conselheiro de Cultura Douglas Rodrigues, mas infelizmente, não pude por motivos de saúde. Queria muito ter ido pra tentar mostrar minhas opiniões acerca de certos pensamentos anti-teísta que insistem em surgir no meio de mobilização como a deles.

Aqui eu publico opiniões pautadas nas minhas reflexões daquilo que pesquiso - majoritariamente, sobre TEATRO. Como Teatro envolve quase TUDO da nossa realidade, eu me arrisco nos ensaios políticos, e em temas importantes da atualidade - e apesar de não opinar sobre religião, às vezes não tem como [:/]. Não sou jurista, não sou cientista político, e portanto, se eu falei alguma leseira, podem comentar me corrigindo, e assim como eu estou escrevendo essa errata/adendo, eu vou me corrigir sem problemas algum.

Agradeço quando compartilham ou comentam o meu texto em outras redes. Mas me citar colocando TRECHOS FORA DO CONTEXTO, gerando equívocos SÉRIOS, eu não concordo, e peço que se algum amigo ver isso, que possa me avisar - como fez o Paulo Queiroz, me dando oportunidade de explicar que não era bem assim. Isso e mentira, é a mesma coisa. É utilizar-se de uma descontextualização para ludibriar outras pessoas a acreditarem em algo que não é verdade - e isso pra mim é intolerável.

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Clarion: O Estado Laico e os Cristãos:

Meu texto: "A Emenda 79 não está totalmente errada - o tiro no pé do Vereador, e os argumentos esquecidos..."

Outro texto meu: "O desconfortável e irritante Centro (parte 1): aonde fica um posicionamento sem ir a extremos?"
http://habillee.blogspot.com.br/2013/07/o-desconfortavel-e-irritante-centro.html







quinta-feira, 25 de julho de 2013

O desconfortável e irritante Centro (parte 1): aonde fica um posicionamento sem ir a extremos.

Tem um tempo que eu estava cozinhando esse tema nos meus rascunhos. Na verdade, eu tinha pretendido escrever por conta de um comentário do Marcelo Tas, apresentador do CQC e eterno professor Tibúrcio, que afirmou em uma entrevista que Esquerda e Direita hoje em dia é uma lenda. Aí vieram os protestos do mês de junho, e o vlogueiro Pc Siqueira deu uma explicação - bem didática - do que é Direita e Esquerda, e acho que muita gente, em algum momento da vida, já ouviu falar essas duas palavrinhas.

Eu vou buscar explicar aqui o que é Direita e Esquerda, mas porque é preciso pra poder explicar o que é Centro, e outros novos tipos de posicionamento que o cientista político David Nolan sistematizou, de forma que a bipolaridade da Direita e Esquerda não mais fosse suprema. Enfim, num debate político, ou mesmo que você não tenha interesses pela política, você está assumindo um posicionamento. Esse posicionamento, antes, dizia muito de você, mas hoje em dia isso é relativo. Como eu disse, tem quem não se interesse por política, e ainda assim, essa mesma pessoa tem um posicionamento político. E isso depende de muita coisa, desde o fato de você se interessar ou não por política (política pública, econômica, cultural, religiosa, etc), até o fato de você pertencer a determinada camada social, classe econômica, ou grupo cultural qualquer.

Quando pensamos criticamente a política, basicamente estamos pensando em como é que o Estado está gerindo, e qual o seu funcionamento. Só que você não está sozinho nessa, e tem um monte de gente pensando igual, e por isso, esse grupo é definido, segundo Nolan, pelos conceitos de: Direita (Conservador), Centro, Esquerda (Progressista), Libertarianismo (Libertário) e Estatismo (Totalitário). Basicamente, você pode estar inserido em um destes cinco grupos segundo a sua opinião acerca dos Direitos e Deveres do Estado, bem como os seus próprios Direitos e Deveres. Ou o que você pensa que seria correto afirmar que é um Direito, ou um Dever - independente se você luta por isso, ou não. E isso tem muito haver com o tanto que o Estado tem haver com a sua vida, ou o até que ponto ele pode interferir na sua vida, segundo o desejo de confirmar determinado pensamento. Por exemplo, você acha que o Estado tem direito de proibir que casais homossexuais adotem uma criança? Imagine que você é um homossexual: É a sua decisão de adotar uma criança e amá-la, e criá-la, e educá-la. Você acha justo que o estado lhe proíba desses direitos?

A concordância que temos quanto à medida de Intervenção, ou Liberação que o Estado possui, é um fator que nos define de que área dos cinco posicionamentos políticos temos. E o oposto é justo. Exemplo: Você acha que justo que um deputado evangélico proponha leis que forcem pessoas ateístas a tomarem certas atitudes com as quais elas não concordam? Imagine-se um ateísta: você não acharia justo ter o direito de argumentar e intervir na ação deste deputado, uma vez que você e outros pares sofrerão com isso? Portanto, a medida de intervenção ou liberação pessoal também conta pra definir o seu posicionamento.

Daí, vem as cinco categorias. As mais conhecidas, como dito antes, é a Direita e a Esquerda. A Direita é, geralmente, conhecida pelo seu caráter conservador nas questões sociais, no entanto mais flexível nas questões econômicas. No Brasil, o maior exemplo de governo de Direita foi a do Presidente Fernando Henrique Cardoso (também vou usar esse exemplo porque é recente), e duas características fortes desse governante, foi a privatização de bens públicos, e o combate ao narcotráfico. Hoje em dia o FHC é apoiador da descriminalização do uso de drogas, mas isso é consequência dos seus anos de experiência combatendo as drogas - não tem nada haver com o posicionamento dele (aliás, o fato de desonerar o estado dessa luta inútil é, em si, um posicionamento esperado da Direita).

Mas veja essa dicotomia: o posicionamento de Direita não vê problemas em uma liberdade arraigada do comércio, que traz tantos benefícios quanto malefícios sociais, no entanto, se importa que você - como indivíduo dotado de livre arbítrio e pensamento - use drogas. Os benefícios da Direita: se algo é oneroso ao Estado, o Estado não deve se responsabilizar por esse algo, e deixar que ele se crie só. Se criando só, esse algo aprenderá a se virar sozinho, superando suas necessidades - e o dinheiro poupado com esse setor oneroso poderia ser investido em setores da economia que multipliquem a prosperidade de uma nação (gerando mais empregos), ou em pontos de infraestrutura que assegurem o pleno desenvolvimento da economia e da qualidade de vida dos cidadãos. Tem os malefícios: acho que um dos GRANDES exemplos de como isso pode dar errado é a área da saúde nos Estados Unidos. Lá, há pessoas que não podem pagar por determinados tipos de procedimento clínico e seus planos de saúde não dão conta de todos os custos. O presidente Barack Obama até tentou tomar atitudes que melhorassem o setor, mas como a extrema direita por lá é grande, não deu muito certo - e o povo quase que tá na mesma. Outro malefício é o da sustentabilidade. Atualmente, as correntes econômicas e filosóficas que estão debaixo do grande guarda-chuva da Direita não conseguiram encontrar saídas viáveis para seu pleno desenvolvimento, sem causar grandes impactos no meio ambiente - e impactos negativos, o que é um sério problema. 

Mas há um oposto. A Esquerda pensa tanto nas liberdades de cada indivíduo, que para ela é necessário que o Estado forneça todos os meios possíveis para que essas liberdades aconteçam. Por isso, a Esquerda tem tendências de interferir insistentemente na economia, em prol dessas liberdades - e essas liberdades CUSTAM CARO. Benefícios: a esquerda geralmente se preocupa tanto com as liberdades individuais, que ela poucas vezes assume partido de alguma corrente filosófica conservadora, ou religiosa. No caso, dificilmente as pessoas de esquerda acharão justo que uma pessoa seja proibida de ser vegana. No máximo, essas pessoas vão se importar se é justo ou não o Estado subsidiar condições para que aquela exerça o seu direito de ser vegana - como um bom salário mínimo, por exemplo. Malefícios: como eu disse, essas liberdades subsidiadas pelo Estado CUSTAM CARO. O que significa aumento da taxa de impostos, super intervenção do Estado à Economia, e consequentemente, aumento da inflação de determinados produtos - afinal, é normal o ser humano querer lucrar e, portanto, ninguém quer o Estado regulando o tempo inteiro o preço do seu produto que tanto lhe dá trabalho pra produzir.

Durante muito tempo essas duas formas de pensamento predominaram o mundo, bipolarizando-o, e até gerando guerras armadas - e chegou bem pertinho de uma guerra nuclear. E como visto, os dois posicionamentos políticos chegaram a se mostrar falhos em diversos pontos. E surgiu nessa briga toda o Centrismo. Mas antes de explicar o centrismo, vou explicar o Libertarianismo e o Estatismo.

Esses dois são os extremos de cada lado (Direita-Esquerda). O Libertarianismo, assim como a Direita, preza pela liberdade econômica, desoneração do Estado em setores públicos, etc. Mas ao contrário da Direita, não tem objetivo nenhum de interferir na vida das pessoas. Se as pessoas querem usar drogas, tudo bem. Se querem casar com alguém do mesmo sexo, tudo bem, também. Se não querem votar, okay. Só que me preocupa no Libertarianismo, é as consequências desta plena liberdade, afinal, um dos pontos que mantém a Direita invicta até os dias atuais é sua questão moral, que quer queira, quer não, norteiam inclusive as decisões econômicas. Isso me remete aos problemas sociais e ambientais que uma corrente de pensamento como esta pode levar, caso seja bem sucedida dentro de um Estado. E no oposto a verdade é a mesma. O Estatismo é "favorável a intervenção governamental tanto na economia quanto na vida pessoal". Ou seja, além da intervenção constante nas liberdades humanas, o estatismo se utiliza de intervenções governamentais para que seja bem sucedido o seu intento, e aí entram em riscos sociais, ambientais e POLÍTICOS.

No Centro, há o permeamento de todos esses posicionamentos. Isso me rendeu sérias dúvidas do meu próprio posicionamento político, antes de saber bem as definições e conceitos. Basicamente, posicionamentos centristas levam muito em consideração que a liberdade econômica é muito importante, pois é através dela que se obtém recursos necessários para se garantir as liberdades pessoais. Só que é levado em consideração, também, que essa liberdade não pode ser total, pois corre-se alguns riscos - é o caso do chamado "Capitalismo Selvagem", ou o lucro a qualquer custo. É entendido pelos centristas que muitas vezes as liberdades pessoais entram em conflito, e isso pode gerar, inclusive, danos à economia - de onde saem maior parte dos recursos sem impactar as liberdades pessoais - e, portanto, se faz necessário intervir em algumas situações. Se o conflito entre religiosos e ativistas homossexuais é um problema que está prestes a gerar um problema social e econômico, então é importante intervir e garantir os direitos dos dois lados. No oposto, se determinadas atividades econômicas estão degradando o meio-ambiente, gerando altos lucros para os empresários, sem retornar à sociedade bens materiais e culturais que lhes assegurem suas liberdades pessoais, então o governo interfere. Mas não é interferir por interferir. É interferir quando não há outras alternativas, pois é claro para um Estado Centrista que as intervenções governamentais são necessárias, mas que em demasia são prejudiciais.

Basicamente o posicionamento de Centro é a justa medida das coisas. E é o que deveria pressupor uma democracia e um estado laico, o que no Brasil ainda é um problema - em ambas as características de nossa República. Isso porque a Direita ainda é esmagadora, e a Esquerda, muito popularizada e atualmente desacreditada por conta da corrupção. A Direita emplaca leis e atos governamentais que viabilizam o pleno desenvolvimento da economia sem se preocupar em subsidiar estruturas fundamentais para tal desenvolvimento - como infraestrutura, capacitação da mão-de-obra, etc. E a esquerda é um total oposto, gasta excessivamente em políticas sociais que só oneram mais o poder público, e cometem o mesmo erro que a Direita - não investem na economia como devia. Os centristas são pouquíssimos nos Três Poderes - e geralmente são ignorados pela esmagadora maioria extremista.

O bom nisso tudo - se é que há coisa boa nesse quadro - é que a presença de centristas atualmente é tão pequena quanto a de libertarianistas e estatistas, e esses últimos são mais ignorados ainda - alguns, ridicularizados, até. Infelizmente, a saída desse quadro reside em intervenções mais severas do Estado, mas de formas cirúrgicas. Investir mais na infraestrutura, na capacitação de mão-de-obra, na economia, e etc. E isso o quanto antes! Os bons ventos da economia internacional já não sopram mais a favor do Brasil, ou seja, o prazo pra se fazer essas intervenções com folga e sem se preocupar com a margem de erro já se foi - ou faz agora, ou assiste o principio de um colapso econômico e social parecido com a do período antes da política do Real. Os problemas sociais se agravam, ou seja, as liberdades pessoais começam a entrar em risco, e investir aí é entrar em estado crítico - e olha que o colapso gerou muitos dos protestos. Geralmente, em situações como esta, a Direita sempre leva a melhor, porque geralmente é a que mais tem coragem de fazer aquilo que ninguém mais tem: se abster das liberdades pessoais até que tudo esteja sanado.

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REFERÊNCIAS E SUGESTÕES

Diagrama de Nolan (pra saber qual é o seu posicionamento político):

O Mito da eficiência empresarial no governo, ou porque excelentes empresários acabam sendo maus governantes:

Capitalismo:

Portal Libertarianismo:

Portal Ordem Livre:

Blog "O Centrismo":

A Rússia depois das eleições: do centrismo ao centro-esquerda.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Emenda 79 não está totalmente errada - o tiro no pé do Vereador, e os argumentos esquecidos...

Arte "Church vs State"
de Alice Meichi, portal DeviantArt
extraído em 23/7/2013
ERRATA/ADENDO: Sobre Emenda 79 e o Estado Laico.
http://habillee.blogspot.com.br/2013/07/errataadendo-sobre-emenda-79-e-o-estado.html

Isso mesmo. Até agora, o que se pode observar da Emenda 79 do projeto de lei orçamentário para o ano de 2014, proposta pelo vereador Carlos Alberto (PRB), não está completamente errado DO PONTO DE VISTA CONCEITUAL. Há uma série de reflexões que precisam ser expostas para que se explique esse posicionamento que, apesar de parecer, não é pró-teísta, mas simplesmente democrático. Não vou me ater aos possíveis objetivos subjacentes desta emenda, que poderiam ser intenções eleitoreiras, uso indevido do erário público, etc. Mas simplesmente aos conceitos básicos que envolvem a política democrática, Constituição, etc.

Eu li a proposta de emenda do vereador Carlos Alberto, do Partido Republicano Brasileiro (PRB) - diga-se de passagem, um partido de Direita (abaixo, link sobre Direita e Esquerda do vlog "Eu,Ateu" que também tá recheado de referências da internet sobre o assunto) -, e logo em seguida eu li o parecer do Conselheiro Municipal de Cultura, Douglas Rodrigues, também diretor de Teatro. Pra resumir, eu sugiro muito que antes de terminarem de ler essa publicação, leiam os dois textos, que eu deixei link abaixo.

Bem, a história começa com o sr. Vereador (Carlos Alberto - PRB) propondo uma emenda que basicamente requer que instituições públicas como a Manauscult apoiem eventos de cunho religioso, mais precisamente evangélicos, dando total suporte à esses eventos. Sim, o apoio inclui dinheiro, haja vista que a emenda foi feita à lei orçamentária que regula como será utilizado o erário municipal no ano de 2014. Um dos argumentos do vereador, era de que como esses eventos majoritariamente tinham cunho artístico, TAMBÉM, essa destinação de verba e suporte seria absolutamente normal, pois configuraria um evento cultural.

O Conselheiro Municipal de Cultura (Douglas Rodrigues), por sua vez, enviou um parecer sobre a proposta de emenda, já aprovada, definindo posições contrárias, com argumentações bastante interessantes - e não novas - sobre o fato de tal proposta ferir o estado laico e, portanto, ser inconstitucional. Também argumentou que a proposta seria um impasse às parcas reservas destinadas às artes, uma vez que tais reservas seriam compartilhadas com esses eventos evangélicos.

Bem, só pra esclarecer: propor que eventos religiosos recebam incentivo público, bem como suporte, NÃO FERE AO ESTADO LAICO. O estado é laico, pois subentende-se que ele não toma posicionamentos perante questões de cunho religioso, mas mantém-se neutro e imparcial. Só que manter-se neutro e imparcial, não significa também manter-se indiferente à essas questões. O estado laico visa, portanto, imparcialidade tal que, em justa medida, ele possa transitar em diversas questões e delegar posicionamentos que, pondo em miúdos, não tome partido algum - mas ainda assim, delega posicionamentos. A religião, em uma sociedade, é parte da cultura desta. E isso é averiguável em toda a história da humanidade, com raríssimas exceções. Uma destas exceções é uma tribo de índios que vive dentro do município de Manicoré, chamada tribo dos Pirarãs, que não possuem nenhum tipo de crença religiosa, e todas as tentativas de conversão deles a qualquer religião se mostrou absurdamente falha. Logo, religião e cultura caminham juntas, e o estado laico pode, sim, preservar os direitos religiosos como características culturais, firmando posicionamentos como o incentivo a eventos culturais de cunho religioso.

O problema máximo desta questão, é que com a globalização e a sociedade totalmente pós-moderna (ou contemporânea?) as características religiosas de uma cultura começam a perder soberania em uma análise sociológica. No blog "Ensino Religioso" tem, inclusive, um artigo bastante interessante que trata das relações entre cultura e religião, ao qual cito o trecho: "a pluralidade advinda da globalização afeta não apenas os terrenos econômico e social, mas igualmente os  políticos, culturais e também religiosos".

O vereador Carlos Alberto, pra infelicidade dele, não argumentou isso em sua justificativa, e agora está com essa polêmica nas mãos. Mas pra ser sincero, não acho que seria uma coisa a se justificar, pois a bem da verdade, seria algo minimamente do saber daqueles que se interessaram, em algum momento, em ler sua proposta. Mas não para por aí. Não contente em criar uma justificativa cheia de argumentos irrelevantes, ele coloca, bem no final - e pra fazer um gol contra - o seguinte trecho: "[...] mesmo com esse crescimento populacional dos evangélicos eles ainda encontram dificuldades no que concerne apoio para realização desses eventos que servem não somente para divulgar os talentos e músicas evangélicas[,] mas também COM O OBJETIVO MAIOR DE PROPAGAR O EVANGELHO". Pois é, um tiro no pé. ISSO SIM, É FERIR O ESTADO LAICO.

Esse simples trecho abre pórticos que vão além do incentivo à cultura, abrindo oportunidades para eventos sem fins artísticos, mas evangelizadores - visando conseguir (lucrar) mais adeptos à uma religião em especial, quando a cultura de nossa sociedade está repleta de outras religiões. Há um argumento, que muito provavelmente pode ser levantado, de que a evangelização é uma característica de tal religião, que por sua vez, é uma das características da cultura de nossa sociedade. No entanto, esse argumento se torna falho, quando observamos que, por ser laico, o estado não possui obrigação de incentivar as DINÂMICAS de uma religião, nem torná-las algo estatal. E aqui vence os argumentos do conselheiro Douglas Rodrigues, que poderia ter explorado em mais profundidade a questão do estado laico. Daí surge o impasse: o estado pode, sim, dar incentivos a eventos artísticos religiosos, mas não pode interferir nas dinâmicas dogmáticas de uma religião. No caso, o vereador teria de adequar sua emenda, mais precisamente NESTE TRECHO, de forma que não a tornasse por inteira INCONSTITUCIONAL.

O evento, claro, levantou uma séria polêmica que sensibilizou os artistas manauaras contra a Emenda, mas o que mais me chamou a atenção, é como algumas reações nas redes sociais tinham um cunho anti-teísta, e aí sim, reside um perigo pelo qual os dirigentes do movimento contra a emenda precisam tomar cuidado. É que mexer no tema Estado-Religião e, principalmente, Estado-Evangélicos, mostrou-se nos acontecimentos políticos ser um entrave político-ideológico, uma briga que quase todo mundo quer comprar, independente do motivo, mais: mostrou-se ser o erro que nenhum pragmático busca cometer.

O canal do youtube Pirulla25 fala justamente sobre o assunto, mas no seu vídeo "Ateu, neo-ateu ou antiteísta? (ou exemplo de intolerância ao teísmo?)" ele explica que as relações de opressão entre anti-teístas, e teístas, é como se fosse uma mola, onde a opressão é um estado de pressão à esta mola, e que um estado de pressão nunca volta ao estado de repouso, pelo contrário, extrapola (efeito toin-oin-oin) - e somente depois de algum tempo, nas indas e vindas da mola, é que esta volta ao seu estado de repouso. A fervorosidade evangélica, talvez, encontra como explicação um estado de extrapolamento de opressões religiosas e anti-teístas advindas da globalização, e entrar numa briga com essa parcela da sociedade (muito bem representada, o que não significa ser eticamente representada), significa alterar o delicado estado de repouso dessa relação Arte-Religião. (MINHA OPINIÃO EM 5, 4...) E intolerância seria a única coisa pela qual deveríamos ser intolerantes, e mesmo que bem intencionados, há quem não esteja. E mesmo que sejamos pragmáticos, é impossível suprimirmos nossas crenças - logo, não seria de se espantar que um movimento que preze pela democracia, se torne um movimento anti-teísta (OPINIÃO ENCERRADA).

A saída pragmática que seria de se esperar de uma situação tão delicada como esta, seria ambas as partes abrirem mão de determinados pontos que levam somente ao desgastante debate já existente e que, não por um acaso, se mostrou diversas vezes inconclusivo, e em outras, nada construtivos. Nada de palpável sai de uma discussão como esta. A classe artística poderia focar suas reivindicações em coisas mais palpáveis, ou em argumentos mais sérios, focados, e irredutíveis.

O primeiro argumento que eu sugestiono, seria o fato de que a parcela do erário público destinado à cultura, não supre as necessidades básicas de determinadas maiorias atualmente, logo, seria um erro administrativo onerar o estado com tal obrigação. Aqui, os evangélicos costumam utilizar - como utilizou o vereador em sua justificativa da emenda - que esta é uma parcela da sociedade em ascensão e, portanto, constitui uma maioria. Realmente, no entanto, se juntarmos as associações de Teatro, Dança, Música, Cinema, etc., teríamos uma maioria significativa, e com propósitos pelos quais devem ser prioridade dentro das políticas culturais. Administrativamente, portanto, É INVIÁVEL TAL PROPOSTA. Esse argumento foi sutilmente abordado pelo Conselheiro Douglas Rodrigues, mas acredito ser uma das teclas que mais devem ser apertadas. E este é um argumento construtivo até, pois angaria forças para reivindicações pertinentes ao aumento do investimento público na cultura, de tal modo, que a proposta do vereador possa ser atendida, sem por em risco os demais setores artísticos que compõem o cenário cultural da cidade. Seria, inclusive, um convite de aliança com a OMEAM por uma causa em comum, e muito provavelmente, geradora de debates democráticos muito mais construtivos que poderiam ser levantados.

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REFERÊNCIAS

Lista com Propostas de Emendas para Lei Orçamentária referente ao ano de 2014:
http://issuu.com/informatica_cmm/docs/emenda_001-2013_parte2?e=8512184%2F3599191

Parecer do Conselheiro Douglas Rodrigues sobre a ementa:
https://docs.google.com/file/d/0B6wPP3GRcCphRm9hSTRQNFN6NTQ/edit

Direita ou Esquerda: Temos Que Escolher?
http://youtu.be/H22IgCxmwT0

Clarion: Estado Laico e os Cristãos (e um convite aos cristãos pelo Estado Laico)
http://www.youtube.com/watch?v=29ikshSAdHQ

Portal da Manauscult:
http://manauscult.manaus.am.gov.br/

Blog "Ensino Religioso", com o artigo "Religião e Cultura" de Maria Clara Bingemer:
http://ensinoreligioso-serafimjonas.blogspot.com.br/2010/04/religiao-e-cultura-por-maria-clara.html

Pirulla25: Ateu, neo-ateu ou antiteísta? (ou exemplo de intolerância ao teísmo?)
http://www.youtube.com/watch?v=xcmNSgHuPRc