quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quero morrer de outro jeito...

Tenho raiva de mim mesmo, às vezes. Não, eu tenho raiva do meu inconsciente. Não, tenho raiva das minhas "disfunções de lógica", como diria minha terapeuta. O fato é, que essa raiva vem da lógica, do meu pensar acerca do meu pensar - e também do sentir e do reagir.

Acontece que eu recebi um elogio de uma pessoa, alguém que disse que me achava bonito. E era alguém sem comprometimento algum comigo - pai, mãe, tia, amigo, conhecido. Era uma pessoa desconhecida, que até aquele momento nunca tinha me visto, nunca tinha ouvido falar de mim, nunca sequer tinha ouvido a minha história. Ela simplesmente me viu, e me disse: "Nossa, você é tão bonito". Eu ri, na hora. Fiz troça. Lembro de comentar comigo mesmo que aquela pessoa, certamente, tinha um gosto duvidoso...

Hoje estava deitado, aproveitando que o clima foi fiasco pro meu ânimo pra tudo, e lembrei disso. Como assim eu reagi daquela maneira diante de um elogio? Sim, fiquei nu diante de um espelho e me olhei durante uns dez minutos, e agora ninguém pode dizer que não tenho espelho em casa. Foi tão libertador. Sabe por que? Por que apesar das minhas "disfunções de lógica", apesar de certas convicções filosóficas de que a erradicação da vida humana seria um benefício enorme pro universo... eu aproveito meus minutos de vida! Sim. Não estou surfando no Havaí, nem degustando charutos cubanos em Havana, muito menos saboreando a culinária italiana em Roma, mas eu aproveito meus minutos de vida de uma forma que talvez muita gente ache ser perda de tempo.

Sabe o que é perda de tempo pra mim? Trabalhar exaustivamente e reduzir as poucas horas de prazer que essa vida ocidental incute na gente. Pior, usar as poucas horas ociosas em atividades com objetivos fúteis! Gente que torra seu dinheiro em academias, dietas, cosméticos... tudo pra alcançar um padrão de beleza que em parte é ditado pelo mercado, mas em parte é ditado por esse sentimento bobo que nós mesmos criamos. Isso é perda de tempo pra mim. As poucas vezes que decidi fazer uma dieta, ou ir à uma Academia, eu parei pra pensar em quantos pratos deliciosos que a minha cultura desenvolveu durante séculos, e que ainda não degustei. Quantos temperos o homem descobriu durante toda a sua existência, que eu ainda não tenha experimentado. As horas que eu estarei sentado numa máquina gastando energia solitariamente, e que poderia estar gastando tal tempo conversando com um amigo... mesmo que por Skype.

E por que alcançar esse padrão? Não sou contra quem faz dieta porque tem cuidado com saúde, nem quem vai à academia pelo mesmo motivo. Mas eu acho um absurdo quem os faz pra ter um corpo padrão, afim de conseguir prazer com outros corpos padrões. Faz para ser aceito. Faz para ser mais um. Desperdiça o pouco tempo da vida corrida pra algo que, em 40 anos, vai ser como o de todo mundo: velho, flácido, enrugado e correndo risco de a qualquer minuto parar de funcionar.

Podem ir para as suas academias, fazerem suas dietas. Quer saber? Vou comer um bom guisado de frango com os amigos, preparar um delicioso empadão para um almoço de domingo, tomar uma cerveja bem gelada num boteco com a galera, fumar um cigarro depois da janta, beber um vinho encorpado acompanhado de uma deliciosa macarronada. Vou sentar pra conversar com um amigo, vamos rir juntos. Vou caminhar quatro quadras de madrugada pra comprar cigarro... não pelo cigarro, mas pela maravilhosa sensação de que eu sou único, de que há silêncio num ambiente caótico, para lembrar que posso tombar ali adiante pelo motivo mais fútil e todo o resto de nada me adiantou.

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