sábado, 15 de dezembro de 2012

Triste fim


Triste fim

Mateus e Pedro eram casados há quatro anos e, na verdade, não se lembravam bem disto, pois a convivência fazia parecer que era uma vida. Moravam no 12º andar de um prédio antigo, mas que ainda sustentava traços de modernidade. Era o que Pedro pensava quando olhava pelo conjunto de janelas que iam do chão ao teto por todo o entorno do apartamento, proporcionando uma vista panorâmica da cidade. Raras vezes ambos abriram as janelas, muitas destas tentativas de causa forçada – uma comida esquecida ao fogo, algo estragado que empesteava o ambiente, etc.

Não se pode dizer que não se amavam, mas Mateus olhava Pedro parado de frente para a janela com a certeza que ambos se matariam, ou que um dos dois cometeria um suicídio. Não obstante, o sexo entre os dois – apesar de casual – era acalorado, sempre. Mas no fim, um ou outro chorava, quando não os dois. Pedro olhava para a cidade lá embaixo, e pensava como reagiriam se ele abrisse a janela e se jogasse. O mesmo pensava Mateus, mas de um ponto de vista diferente – talvez, em como ele próprio reagiria se Pedro se jogasse pela janela. Em algum instante, Pedro não sabia precisar, seu cigarro apagara no cinzeiro, formando uma haste torcida de cinzas dando a aparência do que um dia foi um cigarro.

O apartamento dos dois era amplo, e isso causava um desolamento nos dois. Tinha uma geladeira, fogão, microondas, algumas panelas empilhadas debaixo da pia, dois pratos, dois garfos, duas facas. Uma faca grande lhes servia para tudo, cortar carne ou serrar algo. A sala era vazia. Nas paredes uma amurada de livros empilhados. No quarto um colchão. No outro fizeram um closet, na verdade, um varal onde penduravam em cruzetas as roupas e amontoavam nos cantos os sapatos. Uma caixa servia de gaveta para cuecas e meias, que não se preocupavam em compartilhar.

Quatro anos, e essa era a vida dos dois. Mateus saia de casa freqüentemente para ver a paisagem no entorno do prédio, e aproveitava para levar Lucy para passear, a cadela da Sra. Laura. Nos momentos de bom humor, Pedro perguntava se Mateus iria ver a cadela da Sra. Laura, sendo infame com um bobo trocadilho. Se Mateus também estivesse de bom humor, ria. No trajeto, Mateus aproveitava para comprar cigarros suficientes até o dia seguinte, quando desse o horário de levar Lucy para passear. Mateus recebia da Sra. Laura duas moedas de qualquer valor pelo favor, e Pedro achava certa graça nas moedas – nunca tinham o mesmo valor do dia anterior, e nunca tinha valor cumulativo: hoje poderia ser duas moedas de cinco centavos, amanhã duas de um real, e depois de amanhã duas de um centavo, se dessem sorte.

Um dia Mateus entrou desolado em casa. Com ele uma aura melancólica que acentuou a distancia entre ele e Pedro.

- Vou preparar um chá – disse Pedro.

- Chá preto, por favor.

As palavras sempre foram poucas entre eles. Tinham durante aqueles quatro anos conversado muitas coisas, e refletido muitos assuntos, e descoberto muitas coisas apenas no ato de falar. Era verdade que os dois não saiam muito. Mateus era o único que ainda saía para passear com Lucy e, nestas oportunidades, fazia compras, pagava contas, jogava o lixo. Coisas que fazem a gente sair de casa contra a vontade. Pedro era mais caseiro. Durante os quatro anos só saiu dali porque tinha de ser internado no hospital, e isso aconteceu uma única vez – cortara os pulsos e precisava conter a hemorragia (mudou de ideia antes do fim).

Pedro sofria de síndrome do pânico, não saia de casa nem mesmo para buscar a correspondência na portaria. Mateus também, mas depois de certo tempo, sentira-se mais seguro com a companhia de Lucy.

- Seu chá preto.

- Obrigado.

Beberam o chá preto. Mateus chorou, e Pedro perguntou o que houve.

- Fui à Sra. Laura buscar Lucy. Mas Lucy morreu.

Pedro também chorou. Durante algum tempo os dois choraram ali. Uma chuva começou a cair lá fora, e isso não ajudou muito o ânimo dos dois. Beijaram-se, e transaram no colchão dentro do primeiro quarto. Depois choraram novamente. Din-dong, apitou a campainha. Era a Sra. Laura com um bolo feito para animar Mateus. Din-dong, de novo fez a campainha. Um tiro. Outro tiro. Uma hora se passou. Um policial arrombara a porta. Mateus e Pedro estavam mortos e abraçados. Um tiro na cabeça de cada um.

Fui mãe


Fui mãe

O Hospital Municipal Saint-Exupéry estava silencioso às três da manhã. No restaurante, nenhum barulho além de uma televisão ligada e uma médica roncando, dormindo sentada. Elisa estava num dos quartos, ainda acordada e olhando para a janela de vidro que dava para o longo estacionamento na lateral do prédio – vazio, molhado, com o asfalto brilhando e refletindo a luz dos postes de iluminação. Escorria pelo vidro serpentinas de água e a respiração de Elisa condensava-se no vidro formando um embaçado. Levantou-se da confortável poltrona que ficava no canto do quarto e ajeitou o nó do cinto do roupão. Calçou a chinela e foi em direção à porta – precisava ir ao banheiro.

Mal tocou na maçaneta e os pontuais bips da máquina de monitoramento cardíaco tornaram-se um longo apitar. Um calafrio correu pelo corpo. De repente (depois de algum tempo que Elisa não soube precisar mentalmente), enfermeiras e um médico entravam pela porta, apressados. Quando abriram a porta, estes se esbarraram em Elisa que tombou contra a parede e ali ficou em pé, sem entender absolutamente nada. Realizaram alguns procedimentos, nada que parasse o apitar e normalizasse os bips. Dois minutos apenas, e Lucas (filho de Elisa) estava morto.

As enfermeiras se entreolharam quando, depois de alguns segundos do médico ter declarado a morte do menino, a mãe estranhamente não fez nada. Geralmente elas se jogam em cima do filho pedindo pra eles voltarem, outras desmaiam, outras ainda saem esbofeteando o mundo e culpando-o pela perda. Elisa não, ela simplesmente deixou escorrer uma lágrima e foi até o banheiro atender sua necessidade fisiológica. Cagou.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Meu bom tio


Meu bom tio

Eram tenebrosos os raios de luz que cruzavam as frestas da janela de madeira de minha casa, que cruzavam a escuridão revelando aquela situação em que me encontrava. Sentia o peso dele me sufocando, e o quente sangue dele escorrer por sobre mim. Sentia o fedor da cachaça impregnada nele, sentia a barba por fazer roçar minha pele. A faca, outrora largada numa estante perto de um bagaço de laranja e algumas cascas agora estava encravada nas costas do infeliz.

Meu tio estava doente, era quem cuidava de mim e de meus dois irmãos, isso desde que meu pai falecera há uns anos atrás, não me lembro bem, mas se não me engano foi de uma tuberculose. Meus irmãos, hora ou outra não permitiam que esse fato saísse de minha mente relembrando e remoendo esse fato. Meu pobre tio, no sentido literal, morava em um beco, na zona pobre de Manaus. Ele trabalhava como vendedor ambulante, e o dinheiro que ganhava servia apenas para comprar uns remédios (o que era artigo de luxo), e para comprar um grande pão de forno que deveria durar a semana inteira. Tínhamos um pequeno quintal, nada muito grande, cabia apenas um canteiro com verduras, e um galinheiro pequeno com um galo magro e duas galinhas que nos serviam pondo ovos. Como não alimentávamos os frangos muito bem, eles quase não punham ovos. Certo dia, ficamos sem comer para dar comida a elas e ao galo, numa forma de investimento. “Ficamos sem comer hoje, mas comemos na semana”, afirmava meu tio. O lugar onde vivíamos era úmido, de cômodo único que servia de saleta e cozinha. De banheiro, servia apenas um no fundo do quintal, que era cavado no chão. Meu tio conseguira com um pouco de esforço comprar nosso material escolar, dois cadernos brochurão que deveriam servir para tudo, e três lápis, que não deveria diminuir um centímetro que fosse, e não deveria ser apontado, e muito menos sua ponta quebrada, custe o que custasse.

Meu tio contraíra a doença alguns meses depois de nossa ida a sua casa. Ele passara semanas sentado em uma velha cadeira de balanço que dava para o quintal. De olhar distante, pensando na morte do velho e querido irmão. Um dia levantou-se e deu uma tossida braba, quase morremos de gargalhar do engasgo dele, e depois dele se recuperar começou a rir também. Mal sabíamos que aquela era a primeira de muitas tossidas que ele daria. Meu irmão mais velho alcançara seus 17 anos, e já trabalhava como aprendiz de ferreiro, enquanto que meu outro irmão tinha 14 anos e fazia alguns bicos, que iam desde arrumar quintal a ir para a praça central servir de engraxate. Eu tinha oito anos e ajudava meu velho tio na casa, lavando as louças e varrendo a casa. Meu tio saía de casa às 5 da manhã e voltava de tardezinha, lá para as 6 horas. Deixava-me com meus irmãos, já acordados, de pé, prontos para irem à escola antes de ir-se.

Adolfo, meu irmão do meio, vez ou outra matava aula para ir para a barbearia de Dom Ricardão para servir de aprendiz. Dom Ricardo era apenas apelido, não era nobre nem nada, mas seu jeitão hispânico fazia dele tal nobre. Adolfo me deixava na escola e em seguida seguia para seu lazer: fazer a barba das pessoas mais ilustres da cidade. Alguns não gostavam, e pediam apenas para que engraxassem os sapatos. Outros, curiosos com a experiência, deixavam que o jovem fizesse a barba. Dom Ricardo adorava ficar admirando o trabalho do rapaz, e hora ou outra dava umas dicas, e alguns puxões de orelha. Frederico, meu irmão mais velho, já saíra da escola, mas sonhava em entrar na tão cobiçada faculdade de Direito. “Sonho”, dizia meu tio, mas em seguida dizia “se conseguir juntar dinheiro o suficiente com teu trabalho, ajudo-te com algumas economias”.

Eu sonhava junto de Frederico em cursar a faculdade de Direito, e imaginava como seria andar pelas ruas vestido com roupas cheias de fru-fru e ser chamada de doutora Elisa. Algumas vezes, nós, junto de Frederico, puxávamos a orelha de Adolfo quanto matar aulas para ir para à barbearia. Numa dessas meu tio ouviu, e foi um pito que até eu e Frederico entramos no meio. Passado o susto, meu tio começou a deixar Adolfo na porta da escola, e dali só saía depois de ver o rapazote entrar e conversar com a professora, alertando que o jovem era esperto, e sabia driblar. A professora olhava sempre por cima dos óculos sabendo perfeitamente como era. Frederico e eu acompanhávamos meu tio nessa trajetória, e em seguida íamos para o colégio.

Frederico já tinha um ano servindo de aprendiz de Ferreiro e suas mãos estavam por demais calejadas e grossas, apesar das luvas que usava. Ele e meu tio sempre conversavam ao fim do dia (quando meu irmão ao menos estava em casa) sobre meu futuro. Diziam que um dia eu ia ser moça, e teria de casar-me, e teria também de arranjar um bom partido. Comentavam de como arranjar o meu dote.

- Ora meu tio, Elisa será moça! Pretendo trabalhar arduamente para que ela tenha um gordo dote e para que ela tenha um bom partido. De beleza ela será farta em sua mocidade...

- Compreendo tua preocupação, meu sobrinho. Mas e teu sonho de cursar a faculdade de direito?
- Esqueça tio, o que importa é Elisa!

- Confesso que até pensei no caso várias e várias vezes. Tua Irmã é nova, alcançara ainda os oito anos, mas se juntarmos dinheiro a partir de agora, acredito que teremos bom dote para ela no futuro...

E então ficavam a conversar. E quase toda a noite que meu irmão dormia em casa, o assunto era o mesmo. Os gastos eram reduzidos, ate o vicio do cachimbo meu tio largou para poupar mais saúde, e poupar o dinheiro dos remédios. Por duas vezes Adolfo tentara pegar do dinheiro acumulado, mas meu tio o corrigira com uma colher quente na mão para que aprendesse, e acho que aprendeu visto que nunca mais se metera a besta com a caixinha de dinheiro que meu tio escondia debaixo do colchão.

***

Certo dia meu tio chegara bêbado em casa. Eu já havia chego do colégio, e meus irmãos estavam fora. Meu tio puxara umas laranjas e sacou seu canivete e pôs-se a descascá-las. Algum tempo depois, enquanto cozinhava a sopa que preparava para a janta, percebia que meu tio olhava demasiadamente para mim. Nunca meu bom tio chegara bêbado em casa, tampouco se embebedara. Era contra a bebida, sempre alertava meus irmãos. Talvez, um dos seus amigos o convidara para uma roda de boteco e ali ficara embriagado. O que me intrigava ao máximo era por que meu tio ficava me encarando. Ele tirou da bolsa de trecos – onde colocava as coisas que vendia – uma grande garrafa de pinga, e começou a beber. Pegou um copo de café e ficou no exercício de encher o copo e ficar bebendo de goladas longas e rápidas.

Quando a garrafa secou, ele continuou no seu exercício de ficar encarando-me. Havia eu terminado de aprontar a sopa, e a tardezinha caia lentamente. O sol batia na janela aberta e iluminava toda a saleta. Meu tio então fechou a porta, depois a janela e ficou em pé me olhando. Senti um calafrio correr por meu pescoço! Então, alguns segundos depois e ele avançou sobre mim. Algo tão estranho... Meu tio! Ele começou a beijar-me, vejam só! Eu virava o rosto e suplicava que ele parasse. Era horrível sentir o hálito dele, sentia nojo, sentia repulsa. Ele me comparava com minha falecida tia, me segurava firme. Numa das minhas tentativas de me livrar dele, fui jogada na cama com força, bati com a cabeça na parede, me vieram náuseas. Ele montou em cima de mim, e abriu minhas pernas. Eu era só uma criança! Só uma criança! Debatia-me, então senti uma dor descomunal em meu ventre. Senti como se minha carne fosse rasgada, como se fosse encravada uma faca em mim.

Sentia um líquido escorrer por entre minhas pernas. Sentia dor, muita dor. Cada vez fui ficando fraca, até ver a canivete junto dos bagaços de laranja, em cima da velha penteadeira, ao lado da cama. Forcei meu braço para alcançar. O peso dele me sufocava e me fazia afundar na cama. Estiquei-me, mas, faltava só um pouco. Só um pouco. Quando alcancei, ele estava próximo ao gozo. Segurei-a firme e sem pensar a estanquei nas costas. Ouvi apenas um gemido abafado, apenas um murmúrio de dor. O sangue agora escorria das costas dele e inundava a cama. Eram tenebrosos os raios de luz que cruzavam as frestas da janela de madeira de minha casa, que cruzavam a escuridão revelando aquela situação em que me encontrava. Sentia o peso dele me sufocando, e o quente sangue dele escorrer por sobre mim. Sentia o fedor da cachaça impregnada nele, sentia a barba por fazer roçar minha pele. A faca, outrora largada numa estante perto de um bagaço de laranja e algumas cascas agora estava encravada nas costas do infeliz. E eu, morta também.


Iago Leandro Luniére Teixeira, escrito em 25 de abril de 2008.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Conto de uma filha


CONTO DE UMA FILHA

Casamento é um assunto tão clichê para se escrever, só quem passou por um pode escrever sobre, e como eu não passei exatamente por um, posso falar apenas do que eu vi acontecer. E ao falar sobre, imaginamos logo culpas – quem é o culpado de termos chegado ao fim? É meio estranho dizer “a culpa foi dele” ou “foi culpa dela” – e é estranho até mesmo dizer “foi culpa dos dois”. Não sou uma filha que entra em desespero, faz birra, ou entra em depressão, acha-se culpada pelo fato – e também acho muito pedante da minha parte dizer que sou adulta, bem resolvida; no fundo ninguém o é. Enfim, de onde começar? Talvez, mais um clichê: desde o principio.

Então, vamos lá: tudo começou em 1991, quando meus pais se conheceram – até então, é isso tudo o que eu sempre ouvi deles. Minha mãe, segundo meu pai, era a menina mais doce, mais meiga, e mais delicada da faculdade. Só que ela, segundo ela mesma, era a mais desengonçada, menos elegante, e mais NERD da faculdade. Meu pai, segundo minha mãe, era o homem mais lindo, mais atlético, mais tudo da faculdade. Ele, segundo ele próprio, era tudo isso mesmo – ou seja, humildade não era seu forte, mas, por favor, não comecem a contar o placar para que no final disto possam dizer “Eu concordo com ela” ou “eu concordo com ele”. Aliás, até hoje eu me pergunto com quem concordar.

Deve ter sido uma luta para minha mãe ter o meu pai, controlá-lo. Fico imaginando como deveria ser – várias mulheres em cima dele, qual mosca em cima do doce na vitrine de uma padaria nada higiênica. Imagino-a sempre distante, apenas sonhando com uma ilusão. Mas segundo eles me contam, era réveillon, meu pai tinha perdido o irmão dele quando foi para um lugar isolado na faculdade ficar um pouco só. Ela estava lá, sentada, tomando uma taça de champagne enquanto assistia aos fogos de artifício. Ela o viu, aproximou-se, se olharam. O único ato dela foi abraçá-lo. Ali tiveram a certeza que se consolariam durante anos, que seriam companheiros, que seriam marido e mulher, que um era feito para o outro. Até outubro de 2008.

criado em 26/10/2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

I love you so


I Love you So

Madrugada. Cosme olha para a rua fantasmagoricamente deserta, mal iluminada, úmida de uma chuva breve que caíra. Andava de um canto a outro da casa preocupado, pois seu filho Tadeu não havia chegado ainda. O telefone tocou. Apressadamente tomou-o do gancho e disse “alô” antes mesmo de aprontá-lo ao ouvido.

- Pai – um momento de respiração ofegante entremeou antes da fala continuar - presta muita atenção no que vou dizer...

- Menino! – berrou Cosme ao telefone - Onde ‘cê’ tá? Quer me matar do...

- Presta atenção... pai.

Cosme tomou-se de assombro com o tom do filho. Desatou milhões de perguntas mais, mas Tadeu não respondia nada além de uma respiração ofegante e tosses carregadas.

- Pai... Vão lhe ligar...

Cosme começava a sentir um pânico assombrar-lhes o corpo. Escutava atenciosamente o filho, desejando chorar.

- Vão lhe ligar e dizer que morri...

Cosme desabou em um choro. Repetia “filho” diversas vezes pedindo para que a brincadeira acabasse.

- E quando isso... quando isso acontecer... Saiba que eu te amo... Tá? E eu quis... eu quis isso... (Te amo, pai).

Um bip de ligação encerrada seguiu-se daí. Cosme engasgava com choro e tentava retornar a ligação para o filho, mas suas ligações caiam diretamente na caixa postal. Cada vez que a fria voz da secretária eletrônica avisava a impossibilidade de completar ligação, Cosme berrava palavrões e o nome do filho – quando não se engasgava com o choro. Soltou um berro, um grito estridente, desesperado, doloroso, mal agourado. Sua carne sentia as dores daquele sentimento que começava a pulsar-lhes o peito.

Na avenida Pedro Teixeira, caído e recostado num muro de um terreno baldio, Tadeu se arrastava e via o sangue esvair-se pelo tórax.

Três tiros irromperam-lhe a carne. Um acertou o estômago – tiro dado distante -, o outro perfurara-lhe um pulmão e o terceiro o ombro (este a queima roupa). Sentia a vida escapar-lhe. Nunca foi valente o suficiente para encarar a vida e sempre ansiou a morte, mas desta vez era diferente, clamava mais tempo de vida tão somente para saborear com mais calma a morte. Recolocou o fone do MP4 no ouvido, e a maestria de Burwell inundou sua mente. Acendeu um cigarro, tremelicando-o nos dedos e empapando-o de sangue e, quando tragou, a garganta se inundou de mais sangue com uma tosse carregada. Deitou-se e viu o céu com uma dúzia de estrelas, poucas que o céu metropolitano lhe permitia enxergar. 

Viu uma viatura de polícia parar perto, e mesmo com os fones no ouvido, conseguiu escutar o barulho de seu freio. Um policial desceu, e ele escutava-o falar alto alguma coisa ininteligível. Depois de repetida a frase, entendeu que o policial perguntava “Está bem, filho? Calma, o socorro vai chegar”. Viu seu cigarro ser tirado da mão, mas não conseguia protestar. Um sono invadia-lhes a mente. Quando o fone ia ser tirado do ouvido pelo mesmo policial, ele simplesmente levantou capengamente a mão acenando para que não o fizesse. O policial espremeu os lábios e concordou. Os olhos se fecharam, e por fim dormiu.

Estava morto Tadeu Procópio, 20 anos, ninguém importante e sem função. Morto a tiros, sem saber por quem e nem por que. Conseguiu dizer o que tinha de dizer, fumar o seu cigarro e ouvir a sua música pouco antes da morte. Levou da vida o que a morte geralmente nega aos moribundos: a chance do adeus.

Inspirado em “We Love you so” de Carter Burwell

domingo, 2 de dezembro de 2012

Mais um pro brejo da luz


Vitor aguardava a moça terminar de preparar seu café enquanto procurava notas avulsas dentro da bolsa para paga-la. Encontraram-se algumas moedas, vários restos de tabaco de cigarros outrora largados na mochila e fumados com dó, alguns trapos, uma caneta. Contaram-se cinco reais, completos de moedas velhas, algumas notas sujas, e outra já parcialmente rasgada. Saiu da cafeteria concentrando-se na habilidade em segurar o copo de café com uma mão, e encontrar às cegas os cigarros Hollywood na mochila, empregando posteriormente o mesmo esforço em achar o isqueiro.

Quando olhou em torno, já de cigarro aceso, caminhava por uma avenida molhada recentemente por uma torrencial chuva. Era noite e as luzes alaranjadas iluminavam parcamente o ambiente, e Vitor, com seus olhos de ressaca e cigarro amassado à boca, esquadrinhava o entorno do ponto de ônibus em busca de algo que não sabia exatamente o que era, mas tinha certeza que, quando procurava o isqueiro, sentiu algo cair da bolsa.

Olhava para o fim da avenida desesperançado com um breve surgimento do ônibus. Calculou que terminaria o café ao tempo de fumar três cigarros acendendo-os um no outro. Conformou-se com isso. Quando acendia o terceiro, percebeu que provavelmente não seria bem assim. Diminuiu o ritmo das goladas e sentia a boca sem paladar (resultado da primeira golada desavisada de uma temperatura maior que a esperada).

No fone de ouvido, uma música deprimente qualquer. Enquanto esperava, começou a pensar em várias coisas, muitas deles questionando quem era Vitor, qual a função dele no mundo, qual contribuição ele tinha dado ao planeta além de algumas gramas de fezes diárias, ou o que tinha feito na vida além de respirar. Quando se apercebeu da realidade, já havia passado seu ônibus, fumava o filtro do cigarro que lhes queimara o dedo (o que o acordou do devaneio) e o copo de café jazia vazio, mas com aquele meladinho que ninguém resiste passar o dedo para saborear.
Tencionou entrar num taxi. Desistiu. Lembrou-se dos cigarros minguados e pensou que amanhã precisaria comprar mais. Esperou mais um pouco e ficou na dúvida em tomar outro ônibus, desta vez no sentido oposto, dando a volta em vários bairros antes de seguir para o seu, refazendo o caminho.

Surgiu, por fim e ao fim da avenida o ônibus de rota 824, e por algo ele finalmente se animou. Entrou, cumprimentou ao motorista visivelmente irritado com um motorista de moto, que ilegalmente lhes cortou a frente pela direita. Falou igualmente com o cobrador que, com um muxoxo, disse-lhes um triste “boa noite”. “Talvez ele devesse estar em casa, debaixo de um edredom com a esposa, talvez assistindo a um filme com os filhos... Talvez.”. Enquanto pensava no cobrador, sentou-se no fundo do ônibus e dormiu. Acordou providencialmente antes do momento de descer. Saltou da escada do ônibus na calçada e esboçou um escorregão – foi por pouco. Chegou a rua de sua casa e refez mentalmente o dia: nada, simplesmente andou por aí.

Olhou sua casa, lotada ao longe. Caminhou lentamente, pensando no que devia estar acontecendo. Deparou-se com uma multidão e isso não era comum. Passou por entre um monte de gente, maioria conhecida. Entrou em casa, bateu os pés no carpete para tirar a poeira e, ao levantar o olhar, viu um caixão. Apavorou-se. “Minha mãe morreu, puta que pariu!”. Avançou e olhou o caixão, apavorado. Viu sua mãe chorando sentada ao lado dele, e alivio-se por pouco tempo, pois se lembrou do pai. Também não era, pois ele entrava pela porta trazendo a esposa um copo com água. Foi então que viu o que nunca esperou ver, pois era ele próprio deitado ao caixão.

Mãe em choros ao lado, pai recebendo as condolências em pé. Lembrou-se de quando acordou. Tinha alguém com ele deitado na cama. Lembrou-se de achá-lo parecido consigo, mas lembrou-se também da noite anterior chegar alcoolizado e drogado, não sabendo se chegou acompanhado. Por fim, teve certeza: era ele ali, morto. Alguém apareceu por trás. Alguém que o surpreendeu apenas dizendo: “Vamos, filho? Tá na hora... É por aqui.”

sábado, 17 de novembro de 2012

A Crisálida que nunca vira borboleta

A crisálida numa eterna metamorfose, jamais será borboleta. Sempre a mesma coisa, e a ilusão de um ganho de moedas de prata. Só.

Cito

"Pedro recebeu qualquer ligação, levantou-se e despediu-se de Mateus com um aperto de mão. Ambos partiram para cada lado, e Mateus entendeu que ali residia um fim. Um fim que, atravessando a rua se tornou real. Neste fim, Mateus lembrava-se apenas de ver um sol, de raios suaves que lhes acariciava a pele, secando-lhes as gotas de água que ainda caiam garoando. Um sol esmaecido de nuvens ou coisa assim. Entendeu que ali era, depois de tudo, o seu fim." (Sol Esmaecido, 2012)

Les Jours Tristes - Yann Tiersen



It's hard
Hard not to sit on your hands
Bury your head in the sand
Hard not to make other plans
And claim that you've done all you can
All alone
And life
Must go on

It's hard
Hard to stand up for what's right
And bring home the bacon each night
Hard not to break down and cry
When every ideal that you tried
Has been wrong
But you must
Carry on

It's hard
But you know it's worth the fight
'Cause you know you've got the truth on your side
When the accusations fly
Hold tight!
Don't be afraid of what they'll say
Who cares what cowards think? Anyway,
They will understand one day
One day

It's hard
Hard when you're here all alone
And everyone else's gone home
Harder to know right from wrong
When all objectivity's gone
And it's gone
But you still
Carry on

'Cause you
You are the only one left
And you've got to clean up this mess
You know you'll end up like the rest
Bitter and twisted, unless
You stay strong
And you carry on

It's hard
But you know it's worth the fight
'Cause you know you've got the truth on your side
When the accusations fly
Hold tight!
Don't be afraid of what they'll say
Who cares what cowards think? Anyway,
They will understand one day
One day

It's hard
But you know it's worth the fight
'Cause you know you've got the truth on your side
When the accusations fly
Hold tight!
Don't be afraid of what they'll say
Who cares what cowards think? Anyway,
They will understand one day
One day
One day

domingo, 11 de novembro de 2012

...


♪"Não canto mais Babete nem Domingas,
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil,
Nem Ana nem Luiza, do maior
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara de Chico
Nem Yoko, a nipônica de Lennon,
Nem a cabocla de Tinoco e de Tonico.

Nem a Tigresa nem a Vera gata
Nem a Branquinha de Caetano
Nem mesmo a Linda Flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano
Nem Risoflora, a flor de Chico Science,
Nenhuma continua nos meus planos
Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcett
Nem Anna Júlia do Los Hermanos.

Só você
Hoje eu canto só você
Só você
Que eu quero porque quero, por querer.

Não canto de Melô Pérola Negra,
De Brown e Herbert, nem uma brasileira
De Ari, nem a baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem minha faceira
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã
Divina garota de Ipanema,
Nem Iracema, de Adoniran.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda
De Michael Jackson, nem a Billie Jean
De Jimi Hendrix, nem a Doce Angel
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico
Até das trinta Leilas de Donato
E da Layla, de Clapton, eu abdico.

Só você,
Canto e toco só você
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto
E nem Michelle-me-belle, do beatle Paul,
Nem Isabel - Bebel - de João Gilberto
Nem b.b., la femme de Serge Gainsbourg,
Nem, de Totó, na malafemmená,
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho,
Nem a mulata mulatinha de Lalá;

E nem a carioca de Vinícius
E nem a tropicana de Alceu
E nem a escurinha de Geraldo
E nem a pastorinha de Noel
E nem a namorada de Carlinhos
E nem a superstar do tremendão
E nem a malaguenha de Lecuona
E nem a popozuda do Tigrão.

Só você,
Hoje elejo e elogio só você
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.

De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia,
Nenhuma tem meus ''vivas'' e meus ''salves''
E nem Angie, do stone Mick Jagger
E nem Roxanne, de Sting, do Police
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina pá - do mano Xis!

Loira de Hervê, loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Daniel, o trovador
Ana do rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião
Nenhuma delas hoje cantarei,
Só outra reina no meu coração:

Só você,
Rainha aqui é só você
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.

Se um dia me surgisse uma moça
Dessas que, com seus dotes e seus dons,
Inspira parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madallene, de Jacques Brel
Ou como Madalena, de Martinho
Ou Mabellene e a Sixteen de Chuck Berry
Ou a manequim do tímido Paulinho

Ou como, de Caymmi, a moça prosa
E a musa inspiradora Doralice
Se me surgisse uma moça dessas,
Confesso que eu talvez não resistisse
Mas, veja bem, meu bem, minha querida,
Isso seria só por uma vez.
Uma vez só em toda a minha vida,
Ou talvez duas, mas não mais que três!

Só você,
Mais que tudo é só você
Só você,
As coisas mais queridas você é:

Você pra mim é o sol da minha noite,
É como a Rosa Luz de Pixinguinha
É como a estrela pura Aparecida,
A estrela a refulgir do Poetinha
Você, ó floré como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.

Você é pra mim o meu amor
Crescendo como mato em campos vastos
Mais que a gatinha pra Erasmo Carlos,
Mais que a cigana pra Ronaldo Bastos,
Mais que a divina dama pra Cartola,
Que a domna pra Ventadorn, Bernart
Que a honey baby para Waly Salomão
E a Funny Valentine para Lorenz Hart!

Só você,
Mais que tudo e todas, é só você
Só você
Que é todas elas juntas num só ser!"

(E se leres tudo, então sei que é você!)♪♫♪♫

"Todas elas num só ser" de Ana Carolina

sábado, 29 de setembro de 2012

Redoma - Filipe Catto




Redoma

Filipe Catto

Hoje eu cansei de saudade
E vou mandar te trazer
Nem que precisem mais de mil cavalos brancos
Pra te convencer
Nessa espera eu te guardo
Numa redoma de cetim
Que eu teci enquanto cantava
Naquele dia em que eu te conheci
Se eu fosse um rei
Eu te dava abrigo no meu país
Mas eu não sou
Por isso segues como exilado
Sem saber de mim
Hoje não importa nem teu nome
Insisto em te afirmar
Que essa espera é só uma gota
Que só se faz transbordar
Se eu fosse quem você espera
Juro faria-te um ser
Muito maior do que tu sonhas
Muito mais livre do que se possa crer


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Sabe aquelas músicas que te lembram algo e não importa quantas vezes escute, será essa a música que te marca a vida inteira? Pois é, Catto, você conseguiu.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Linha de costura.

Existe uma sequencia de acontecimentos, de experiências, de interpretações dos acontecimentos e das experiências, que levam a um resultado - bom ou ruim, sendo o ruim um resultado nulo ou negativo. Frederico apanhou do pai quando criança apenas por ver, sem querer, a irmã pelada. Frederico levou seu filho, Mateus, a um bordel quando este tinha 12 anos para transar com qualquer uma daquelas mulheres, a(s) que ele quisesse - não deu certo, Mateus tinha visto um amiguinho pelado na escola, no vestiario masculino e se encantou pelo mesmo sexo. Acabou apanhando do pai por não gostar de mulheres.

Mateus fugiu de casa para viver com um homem mais velho quando tinha 17 anos. Mateus foi abandonado pelo homem mais velho por outro mais jovem. Resultado de tudo: linearidade, ou não? O avô de Mateus tinha culpa?

José era um homem amável, adorava beber com os amigos. Não podia embebedarsse que já saia brigando com todos e batendo na esposa. Gregório, filho mais velho de José passou a bater na esposa cada vez que ela não fazia o que ele queria, terminando, geralmente, em estupro. Pedro tornou-se um viciado em crack, é filho de Gregório, e não suporta o ambiente familiar.

Quando se deve intervir? Quando não é tarde demais? E, principalmente, quando não é cedo demais? Sabe, esses dias vinha pensando nessas coisas. Estava observando como isso é comum, essa linearidade de acontecimentos que desencadeiam outros de forma igual, de experiências que se repetem nas gerações seguintes, de erros que se repetem, de crimes que ressurgem com novos personagens. Alivio-me com uma coisa: alguém, em algum momento, sob alguma circunstancia, vai intervir - só duvido que aconteça com essa sociedade capitalista e, naturalmente, individualista.

Divagação mode_on

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O chato é o chato, não as chatices...

Como de costume, estava me atualizando nas leituras de alguns blogs que aprecio, e vi numa coluna da Claudia Matarazzo algo sobre a deselegância dos que são pra baixo - aqueles de energia negativa pesadíssima, contagiante... deselegante. Desse mal eu sofro, tanto na questão achar deselegante e me afastar imediatamente de quem é pra baixo, como sou chatinho e miador de mazelas.

Sabe, tem duas coisas que eu não suporto: perguntarem como estou, e dizerem "vai passar, é só uma fase". Quando entro na minha deprê, me isolo do mundo, porque o mundo não precisa de mim assim, tem gente demais desse jeito. O mais chato, é voltar tendo de dar explicações, como se eu fosse um irresponsável, um vagabundo, ou algo parecido. Não sou. Primeiro, não preciso da atenção de quem não pode fazer absolutamente nada por mim. Segundo, odeio a piedade alheia. Terceiro, sou mais eu isolado me reerguendo de meus golpes, tratando meus ferimentos, do que dezenas de pessoas me tratando com mil dedos.

Fico me sentindo pior, quando vejo os olhares e os cochichos dizendo "ai, lá vem ele com seus murmúrios" e daí decretei: parei! Falso alto astral mode_on. É difícil, nem sempre convence, e sempre tem um amigo pra te desmentir, mas é bem melhor do que a chatice de ter um chato por perto. Sempre tem aquela pessoa maldita que te persegue, torcendo para que você dê-lhes um motivo para te infernizar, mesmo não sendo sua intenção. Quando você tá deprê, fica mais ainda por estar em ambiente que lhes é hostil, em meio a pessoas que lhes parecem hostis. Não, disso eu fujo. "Tou me sentindo mal" é o mais perto da verdade que digo as pessoas, e ainda forço uma tossezinha para acreditarem que é físico, e não emocional.

Nos últimos meses tem sido pior (desabafo), estou péééééssimo (pronto, falei). Nem o falso alto astral tem dado certo, então, fujam para as montanhas. A melhor coisa pra mim tem sido esse retiro, esse isolamento. "Cadê você?", "Ei, você sumiu!" já está cansativo de ouvir. Mas pior é ter de ouvir o maldito "vai passar, é só uma fase...". Não, não é uma fase. Não, não é normal. Normal é você dar uma topada na rua, é um pombo cagar na sua cabeça, é você pegar um resfriado de vez em quando. Fica a dica para aqueles que se preocupam comigo: obrigado pela sua preocupação, espero estar em suas orações. Mas por enquanto, até algum dia.

domingo, 24 de junho de 2012

EU NÃO TENHO LICENÇA PRA POÉTICA!

Nenhuma palavra diz algo, mas sim a vírgula

É muito importante saber que a mente não se estuda, é impossível estudar algo que é abstrato, invisível, não é palpável, nem se pode sentir por qualquer outro sentido, muito menos monitorável por qualquer ferramenta humana. O que se pode alcançar na busca da compreensão da mente, é o estudo do comportamento, que é resultado daquela. Daí o conceito da Psicologia: ciência que estuda a mente e o comportamento.

O comportamento aqui é uma definição generalizada, pode ser verbal, não-verbal, gestual, etc. Logo, desde a forma como o individuo dorme, de que forma acorda, o tom com que fala, a organização do seu discurso, o modo como anda ou cumprimenta alguém na rua... tudo pode dar pistas que possam definir a personalidade, a história de vida, a classe social, o nível cultural, sua origem, entre outras características de determinado individuo que podem, ou não, ter influenciado a construção de sua psique.

Freud encontra determinadas origens para determinados costumes de individuo na fase adulta (fase retal, fase da mama, etc); enquanto que Piaget define que a formação da psique parte da formação do cérebro, estando o individuo sujeito a algumas fases da vida (pré-operatório, operatório, etc) até que esteja plenamente formado; Vygotski já afirma que o ser humano é sujeito do seu contexto sócio-histórico (na fase fetal já é preparado para a língua utilizada pelos pais, a escola onde estudará determinará seu circulo social, o bairro onde mora determinará seus costumes, a religião de seu país ou de seus familiares terão peso maior na sua escolha religiosa, enfim).

A partir do comportamento podemos conhecer facetas da mente, estudá-la. Vendo um aluno meu, ano passado, pude perceber - pelo seu comportamento - que ele estava sofrendo problemas familiares, uma desconfiança comum, tendo em vista que sua relação com os demais alunos era satisfatória no inicio do curso e passou, gradativamente, a ser deficiente até o fim do primeiro semestre. O comportamento protecionista de seu irmão, algumas séries a frente dele, confirmava que esses problemas eram reais. A incomum empatia deste aluno com a coordenadora do projeto indicava a ausência fraternal da mãe. Resultado: buscando contato com a família dos dois alunos, verificou-se que a mãe havia abandonado o lar, e o pai, trabalhando constantemente para manter o sustento dos filhos, mantinha-se ausente na vida das duas crianças, sobrecarregando o filho mais velho com a responsabilidade paternal. Esse é só mais um exemplo dos vários que vivenciei - alunos com características psicopáticas, depressivas, etc.

Para o trabalho de ator, isso é fundamental. Acho que devo à arte teatral esse dom para discernir a partir do comportamento o estado mental de alguns indivíduos. A construção da personagem, do tom de voz, da personalidade, parte primeiro do estudo comportamental da personagem que o autor imprime no texto, partindo para um estudo psicológico para, só então, infligir as características que o ator acha importante para a sua construção da personagem. Isso também me ajudou na vida. Posso saber se um amigo está precisando da minha ajuda com um olhar - mintam para mim o quanto tentem. Falando nisso, posso pegar uma mentira no ar, porque nenhuma palavra, nenhuma informação diz algo, mas sim a vírgula, a organização do discurso. Uma vírgula no lugar errado, uma contradição no discurso, me faz sacar a mentira, o porque da mentira, e em alguns caso, a verdade - o olhar que não aceita fitar o meu, o punho que cerra involuntariamente, ou a pura tentativa de se interpretar uma sinceridade que sabe-se ser falsa.

Dificilmente me engano, por isso que as pessoas me chamam de antipático quando eu acabo de conhecer alguém e logo digo: não fui com a cara desse fulano. Por isso, costumo dizer: não tente me enganar, que é feio e Papai do Céu não gosta... Jesus adooooooora quem mente. Quando eu digo que é, dificilmente eu erro - chamem-me de arrogante quanto quiserem.

domingo, 20 de maio de 2012

O que é o "cuntipuraneo" (possível parte I)

Instalação Metragem, de Edith Derdyk.
Revista Select Art 3º Ed. Janeiro, 2012.
Poderia começar com um título do tipo "Mistura de todas as Artes - o contemporâneo e a tal performance", "Volta ao Ritual -  o contemporâneo e a tal performance ", "O que não é performance", "Anarquia literal"... e passei a perceber que isso seriam argumentos para uma possível divagação sobre o que seria o Contemporâneo e sua principal ferramenta, a Performance. Escolhi esse título, definindo a complexidade que não pode ser abordada em um simples texto divagatório.

Divagação, porque tudo o que se lê sobre esses dois termos é para muitos uma total divagação, apesar de seguir a rígida metodologia científica em publicações diversas, que se multiplicam. Pode-se argumentar infinitamente o que seria Contemporâneo, o que seria Performance, e tudo o que se pode concluir é que, o que é palpável, o que é verbalizável, é o que não seria a performance, e o que não seria o contemporâneo. É importante salientar, que Contemporâneo aqui é referido a um movimento (pulsante) artístico que ocorre agora, nos tempos atuais, nessa geração, herdada da anterior, parida das vanguardas, sempre em transformação, perdendo o sentido etimológico que conhecemos de Contemporâneo quando estudamos a História.

Logo, direciono a atenção para a Performance, que é a principal ferramenta do Contemporâneo e... o que é Performance? O que posso adiantar, é que você terá de ter o mesmo trabalho que eu pra poder saber, se não, não terá graça. E o que posso dizer, também, é que o que você irá descobrir é o que não é Performance. Uma palavra, até agora, definiu muito bem pra mim o que seria a Performance: Anarquia.

Anarquia, porque atualmente, a Performance não se encaixa em nenhuma linguagem que conhecemos, nem se pode afirmar (ou precisa ter um enorme cacife para assim fazer) que é uma Arte específica: sabe-se que nasceu nas Artes Plásticas, apropriou-se de elementos e técnicas do Teatro, Dança e Música, negou a palavra, reutilizou-a posteriormente, e qualquer tentativa de conceituar a Performance tornou-se falha, pois sempre surge alguém, que faz algo, que logo contesta e, ainda assim, não sai da Performance... E nos questionamos: aonde se encontra a Performance, onde ela se encaixa e, principalmente, é possível conceituá-la?

René Descartes
Essa falta de alocação e, claro, a necessidade da conceituação, nos remete diretamente a Descartes. Está impregnado no TUTANO o que esse senhor apresentou ao Ocidente em seu Discurso sobre o Método. Ali, compreende ser correto e coerente que tudo que merece ser considerado objeto de estudo deva ser esquadrinhado, dividido até onde se pode, e estudado por cada uma dessas partes divididas até que se compreenda o todo. Daí nasce o processo científico que conhecemos hoje, consequente de Descartes e posteriores a ele que contribuíram com essa ideia. Se Performance não tem conceito e, quando ganha um, passa a ser refutado, cria-se a incômoda sensação de que, se não é conceituável, se não pode estar na brochura de um livro, logo não é nada. Curioso, é que se não é nada, não pode ter relevância, não pode influir em nada, mas é relevante e influi. Por que a Performance, então, incomoda?

Fritjof Capra
Fritjof Capra em seu O Tao da Física afirma que a Ciência entra em uma grandiosa transformação após passar por um longo tempo de calmaria. Einstein revolucionou o campo da Física quando, em sua época, a Física Moderna se contentava com as Leis Newtonianas, que durou por longo tempo, configurando o tal tempo de calmaria. Antes de Einstein apresentar ao mundo a sua teoria da Relatividade, a Ciência começava a sofrer uma decadência quando não conseguia responder a determinados questionamentos. Capra, encontrando no Taoísmo a explicação para certas coisas que a Ciência não consegue explicar, afirma que a resposta para essa periodicidade pode ser encontrada no símbolo do Yin e Yang. Um representa a razão, e outro a intuição e, quando um termina, o outro começa, seja seu fim em uma ascensão, ou decadência. Partindo desse princípio explicou-se como, por intuição, Einstein conseguiu revolucionar o campo da Física e da Ciência, desbravando caminhos desconhecidos.

Exposição Alexandre Mury,  galeria
Laura Marsiaj, 2011.
Que fique registrado que eu falei isso, caso ninguém tenha dito. Acredito que a Performance caminha nesse sentido, ainda contaminada pela razão - quando trabalhada pautada na Pesquisa -, onde saímos do racional e retornamos aos primórdios da Arte. Na necessidade de transgressão, na impossibilidade de transgredir o século XX, retorna-se ao anterior e, nessa busca, a Performance caminha para Ritual. Aí encontro outra palavra que defina a Performance: Ritual. Talvez se explique, aí, a pouca necessidade de público, às vezes, a pouca importância que se dá à ele; a riqueza dos símbolos; a ‘intuitividade’ clara e presente, etc.

Resta-nos, as perguntas clichês: será esse o novo caminho da Arte? Hoje, o que é Arte? Arte é razão, intuição, ou os dois? O que vem depois do Ritual? Pra onde mais transgredir? Falo corriqueiramente, quando se fala do ‘Teatro Contemporâneo’, que pra entender devemos matar Brecht todos os dias. Realmente, devemos esquecer a empanada, o tablado, as coxias, a palavra, o gestus, aquilo que é como é. Pra entender o contemporâneo, tem-se de estar aberto aos símbolos e, pra cada um, tem o seu significado. Acredito que essa é uma possível “Parte I”... não sei por quê.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Porque habillée, e um relato grotesco!

Quando eu criei esse blog, nem sabia pra que ele serviria, ou melhor dizendo, sobre o assunto geral pelo qual ele iria servir. Habillée foi um presente que recebi de alguma entidade inspiradora. Lendo o blog da Cláudia Matarazzo, vi esse termo que deve ser lido "black tie", e me simpatizei. Pra quem não sabe o que é habillée ou black tie, são termos que definem o traje a ser usado em determinado evento e quer dizer, para os homens, a obrigatoriedade do uso do smoking completo.

A escolha do Habillée me abria diversas possibilidades. Primeiro, eu poderia falar do que mais gosto: Teatro. Em segundo, eu poderia falar das minhas experiências sociais, das relações humanas, da força que o social inflige ao ser e, nesse aspecto, podemos citar política, religião, ética, etiqueta, etc.

Esse é Habillée, mas até agora eu tratei apenas do Teatro. Cada vez que escrevia novo artigo falando de outro tema, se não o Teatro ou a Arte, eu pensei que estava além da minha alçada, que eu estava entrando em um Universo que não era do meu direito tratar sobre ele - e por isso, reservava os artigos para um momento oportuno. Queiram ou não, o Teatro é minha matéria de domínio, não que eu seja um mestre nisso - sou um iniciante, talvez nem isso e só um nada. Mas o Teatro é o meu Universo, é onde vivo: é nele que eu reflito, é ele que me dá vida e inspiração. Cada novo dia, cada novo ensinamento de alguns dos meus mestres, descubro que é no Teatro que devo sobreviver.

Mas agora não é sobre o Teatro que devo tratar. Agora o Habillée tratará daquilo pelo qual eu o nomeei. Dia 14 de abril foi realizada a festa de recepção dos calouros de Teatro da UEA, e foi sensacional. Certamente, uma festa que estará marcada nas nossas memórias e, no meu caso, estará marcada no corpo. Naquela festa, pude ver as relações humanas que se sucederam, e mais, as relações humanas de artistas, de pessoas desprendidas da moral dogmática da sociedade ocidental brasileira.

Apesar da grande diversão da festa, me senti muito incomodado com uma coisa que não dá pra passar despercebido: se divertir não lhe dá o direito de acabar com a diversão dos outros. Os organizadores, e entre eles eu me incluo, demos aos calouros um presente de coração, demos as boas vindas à essa nova vida, à esse universo que é o Teatro. E para que esse presente fosse perfeito, zelamos para que assim o fosse - nos esforçando dentro de todas as nossas capacidades.

Uma pessoa me provou que sempre temos de ter limites, e isso não é papo de conservador, é papo de pessoa com bom senso. Compartilhando no facebook, comentei: é natural todos passarmos, uma vez na vida, por um porre vergonhoso que acabe com nossa reputação. No entanto, limites existem e cada um deve respeitar o seu. Teimar em superá-los e fazer cagadas faraônicas já é uma baixaria que tolerar, é pra paciência de monge!

Quem nunca teve de lidar com bêbados chatos? Lidei com alguns, e com eles encontrei o meu limite, pois a sua vergonha me era alheia. Cada vez, conscientizo-me que libertar-se e extravasar é bom, mas destruir o pouco de reputação que se tem é, no mínimo, vergonhoso. Na minha função por zelar pela diversão de todos, inevitavelmente sacrifiquei um pouco a minha - mas não me arrependo - e tive de lidar com esses deselegantes seres bêbados. Pra finalizar, digo: cuidado para que, na sua diversão, no seu extravasar, não acabe com a diversão dos outros. Cuidado para não passar do seu limite, acarretando em problemas pra você - e aporrinhação para os outros.

Iago Lunière











quinta-feira, 5 de abril de 2012

"A Cruz e a moça"... e eu também!

Me senti de volta a casa de mãinha (como filhos e netos costumam chamar a minha avó) quando fui assistir "A Cruz e a Moça", encenado por Ana Paula Oliveira, Francis Madson, Dyego Monnzaho, Taciano Soares, Carol Santa Ana e Jonatas Amaral. A catarse foi tão intensa que, não pude parar pra ficar observando detalhes, ou ser descartiano. O que posso dizer é que tudo foi tão bem costurado, cada elemento foi tão bem alinhado na composição, que me restou apenas assistir, e me sentir de novo na casa de mãinha.

Os louros devem ser dados a Ricardo Risuenho pelo espetáculo, que conseguiu me transportar de volta ao Ceará... lembrei-me de imediato dos picotes, da vaca Manguera, dos sinos nos pescoços dos bodes, das cercas vivas cheinhas de cobra cipó - que infortunadamente atracou-se nas canela de Chiquinho e deu-lhes umas lambadas. Lembrei do açude de água quente no fim do dia ensolarado, das pedrinhas bonitas que tinham no fundo do terrero, das árvores de galho seco, da tia Luíza, do Chiquinho (aquele da cobra), que adorava sair atrás de um picote com uma baladeira - era nosso jantar... ui, o sabor do picote, fritinho e só ao sal!

Trazer de volta à minha memória a viagem que eu e mãinha fizemos à sua terra natal foi consequência... A peça me fez rememorar essas lembranças pela matutice das personagens, pelos estereótipos dell'arte que existem também no sertão e que eu vi, estavam lá! Tio Tiago, marido de tia Luiza... Chiquinho com seus planos mirabolantes... Eu assisti um pouquinho de casa. A ambientação amarelada, em figurinos perfeitamente compostos por Luís Ferreira, o cenário de Magli, Divan Fernandes e Risuenho.

Ri, chorei - em parte pelas memórias que me vinham à cabeça -, ginguei com a maravilhosa trilha sonora, senti inveja pela execução magistral da coreografia por parte dos atores... Parabéns à Cia. de Interpretes Independentes, à Cia. Cacos de Teatro (em especial, Francis Madson que estava fabuloso), e a Ricardo Risuenho, a quem desejo muito sucesso e, principalmente, que voltem logo com "A Cruz e a Moça".

Iago Lunière

terça-feira, 27 de março de 2012

Um lembrete da nossa missão: formadores de opinião!


Dia 21 de março, a Arte foi mais uma vez feita, como ritual. Foi feita aqui, enquanto no mundo inteiro se realizava... Enquanto o Festival Breves Cenas se anunciava, vale lembrar. Não muito tempo depois, uma notícia de grande repercussão cibernética causada pelo impacto que a Arte causou naqueles que não a entenderam, que não a conheciam – e isso é muito natural.

Dessa vez, não sei por que, pretendi não me manifestar à respeito. Muitos fizeram melhor que eu, defenderam sua Arte melhor que eu defenderia a minha. Ocorreu, no entanto, que no dia 21 os alunos do curso de Artes Plásticas resolveram realizar uma Performance envolvendo o corpo, e a monotipia. E aí houve uma séria discussão em redes sociais (acompanhei algumas delas pelo facebook) e outras no próprio site do jornal online que publicou a matéria. Depois de uma longa discussão com uma amiga das Artes, e de refletir bastante no assunto, decidi escrever.

Escrevo, em primeiro lugar, à senhorita Mônica Dias. Espero, com total fé, que a senhorita possa aproveitar o impacto que sua matéria causou, e não permita que ela se torne uma simples matéria para cobrir espaços vagos no jornal online em que trabalha. Saiba, que causou uma discussão que pouco se tem em Manaus, sobre as Artes. Investigue junto aos alunos e professores que realizaram o evento o que vem a ser a linguagem utilizada, aprofunde mais, esclareça, incite o pensamento crítico - eu não sei muito bem do jornalismo, não é minha área, mas por favor, aprofunde o quanto puder, desdobre o quanto puder, não permita que isso esfrie! A Arte entra em dívida com a senhorita só pelo simples fato de ter realizado seu trabalho, no entanto, A Arte será eternamente grata por não deixar ficar somente por ai. Assim como nós, artistas, a senhorita é uma formadora de opinião e, desde já, os meus parabéns, aplausos, e todo o tipo de congratulações.

Em segundo lugar, escrevo aos alunos que defenderam tão bem o trabalho do seu colega e se penalizaram – ou se revoltaram – com os comentários dos leigos: O Teatro e as Artes Plásticas andam de mãos dadas desde os primórdios, somos Arte Velha, Arte Antiga. Se tem uma coisa da qual nos orgulhamos, é de realizar o nosso trabalho. Devemos estar cientes, no entanto, que somos Arte, e Arte não possui vínculos com Política, com Economia, com nada disso. Somos reflexo disso, mas nunca, jamais, dependeremos disso. Formamos opiniões e, apesar do que tanto almejamos, devemos nos contentar: somos pra poucos, a massa jamais nos entenderá – quem sabe, no futuro, hoje é raro, pois estamos a frente do nosso tempo. Não somos contemporâneos, somos pós-contemporâneos, apesar de todo o conservadorismo impregnado em nós.

O impacto causado pela performance do Fabiano Barros, que se me permite a audácia, chamarei de “A Pintura do Impacto de um Pinto”, é sinal de que foi atingido um alvo muito importante a ser discutido: não se  o nu é ou deixa de ser Arte, e sim o porque assistimos secretamente a filmes pornôs, eróticos, às sombras de nossos quartos trancados; por que assistimos em todas as outras mídias o nu gratuito e sem intenção alguma, se não o do atrativo comercial e, principalmente, porque ficamos tão escandalizados quando vemos o nu, na Arte. Por que não entendemos seu significado? Por que ele está ali e, infelizmente, não é pra nos satisfazer?

Nos conformamos com o nu quando sabemos que ele tem a função de nos excitar? Ou ficamos conformados com o nu que tem por propósito, nos incitar ao consumo?

Quero concluir dizendo, também, aos alunos das Artes Plásticas. Não se revoltem, não se escandalizem, nem tenham ojeriza daqueles que, enfurnados em seus preconceitos e falta de conhecimento, deram críticas tão pequenas, tão ínfimas, tão rasas. Ao contrário de tudo isso, tenham pena e, a certeza de que como formadores de opinião, todos vocês artistas plásticos, nós atores e fazedores de teatro, eles músicos e dançarinos temos uma seara muito grande a trabalhar, e muitas opiniões a formar - comecemos por esses. Aproveito que fiz um convite tão direto à senhorita Mônica Dias, faço outro ao Fabiano Barros: o Teatro se orgulharia demais, em assistir sua apresentação, se assim concordar. Pela Arte vivemos, mas para a Arte, temos uma missão, e nunca se esqueçam essa missão.

Iago Lunière

sexta-feira, 23 de março de 2012

II Conferência da Juventude – uma breve reflexão sobre experiências com jovens do estado do Amazonas.

Imagem reblogada de Tumblr "Alecrim!"
https://illuniere.tumblr.com
As novas gerações (juventude) das mais diversas artes vêm a naturalmente corroborar para um processo de mudanças na própria forma da Arte. Em Teatro, renová-lo é uma missão que muitos desses jovens tentaram abarcar, para tão somente descobrir, sob sábio conselho dos mais velhos, que Teatro não cria nova forma, ele cria nova vertente. Ele cresce.

Quando falamos de juventude na linha de frente de movimentos de vanguarda, necessita-se esclarecer que não falamos apenas de uma juventude num sentido cronológico, de faixa etária. Em um sentido mais profundo, esses movimentos de vanguarda são afirmativamente constituídos por uma maioria de jovens, mas com outros indivíduos de gerações anteriores que, já em sua juventude estavam à frente de seu tempo - e acompanhando o processo histórico, parecem ter se encontrado na linha do tempo nestes movimentos de vanguarda que decorrem com gerações posteriores à sua. Logo, qual o sentido de juventude em Arte?

Eu e a professora Gislaine Regina Pozzetti monitoramos, no meio do ano passado, uma acalorada discussão acerca da "juventude e a cultura no estado do Amazonas", durante a Segunda Conferência da Juventude e, podemos perceber claramente, que estes jovens ainda precisam bem mais auxílio e conselhos do que imaginávamos, ou podíamos oferecer. Agora, meses depois do evento, fico refletindo sobre as possibilidades e a importância do evento ao qual participei, e me orgulho muito, que aqueles jovens puxavam reinvidicações de forma organizada e enérgica. Essa movimentação toda, não sei porque, me lembra dos movimentos de vanguarda, a influência da juventude, o desejo de mudar a situação político-social vigente... O principal objetivo daqueles jovens eram movimentar a cultura, alterar as políticas públicas. Mas qual a relação da cultura e política? Qual o papel dos jovens? Quem são esses jovens?

Esses movimentos de vanguarda, ou movimentos artísticos, constituem um processo de transformação social e, em um sentido amplo, uma ferramenta política. É de se entender que Arte e Política são distantes enquanto próximas, ao analisar num sentido que sendo a Arte subjetiva e subversiva, não interessa à ela a política, nem à politicagem interessa a Arte. É de se saber, no entanto, que essa correlação se faz necessária para a sobrevivência de ambas. As políticas públicas voltadas para a Cultura são um fundamental instrumento de fomento à Arte, e em contrapartida, os produtos culturais – advindos da Arte, ou não –, são interessante à Política para o exercício social, ainda considerando a Arte um transformador político.

Quando discutimos a aparente ausência ou inexistência de políticas públicas com recorte especificamente juvenil, devemos compreender as diferenças (e contrapontos) entre Cultura e Arte para, nesse momento, entender que em se tratando de Arte, toda linguagem considerada contemporânea é vivida por jovens – em especial quando tratamos das artes cênicas, caracterizadas pela efemeridade[1] de sua existência, que tem vida apenas durante o espetáculo. Logo, existe uma linguagem ou um recorte juvenil ao qual se devem promover políticas públicas, ou os jovens sempre serão promotores de Cultura e Arte? Deve-se promover políticas públicas em prol da cultura, ou simplesmente gerar políticas públicas focadas em artes distintas, com uma diversidade tão imensa que, hoje, imbricam-se formando um grandioso mix?

É interessante, no entanto, compreender que é necessário promover essas políticas públicas gerando o fomento às novas gerações de fazedores de Arte, descentralizando a concentração de fomento de outros já existentes, dos mesmos que recebem quase que uma aposentadoria precoce até o fim de suas vidas sob o pretexto do fomento à Arte. Esse processo pode vir a ser mais interessante à uma causa antiga das novas gerações de fazedores de Arte, constituindo quase um sistema de seleção natural a ser superado.

Para se discutir essas políticas públicas voltadas para a juventude, com as especificidades destacadas pelas propostas na II Conferencia da juventude, faz necessário inferir algumas observações – a considerar a realidade Amazônica – pertinentes que reforçam tais propostas, ou a indeferem no sentido de sua incoerência com a realidade na cidade de Manaus.

Quando falamos de uma juventude, generalizamos e alargamos a análise. Quando se propõe apoio a programas de produção cultural juvenil, possivelmente podemos estar subestimando a variedade cultural presente dentro de uma mesma geração. Em antropologia, considera-se classificar a atual geração de jovens de geração Z, nascida no meio de uma nova era (digital e a internauta) que vem a caracterizar esses jovens pela grande capacidade de gerar conexões e grandes fluxos de informação em curtos períodos de tempo por todo o globo. Esse fácil acesso com o mundo advindo da globalização, parece diluir as fronteiras políticas e culturais, formando assim um cosmopolitismo aparentemente forte entre a atual geração de jovens, mas ao mesmo tempo que integra, socializa e gera características em comum entre vários jovens. 

Esse mesmo cosmopolitismo também fomenta um processo de singularidade das características que constituem a identidade de jovens de uma determinada região. É de considerar ainda, que até mesmo dentro desta mesma região, e em destaque os centros urbanos, onde podemos notar a variedade de identidades sociais singulares que ainda é vasta. Nesse cenário, como o Estado pode definir o que é uma produção cultural juvenil ou não? A quem fornecer apoio? Os espaços a fornecer para estas culturas juvenis contempla a todas, ou destaca somente algumas?

A formação cultural da juventude é um ponto de discussão importantíssimo. Considerando o acesso que estes jovens possuem ao conhecimento sem filtragens na rede mundial de computadores, esse cosmopolitismo e pós-modernidade que caracterizam não só a geração Z, mas especialmente a X e Y, faz com que estes jovens sejam uma seara bastante receptiva e apta à formação cultural através da Dança, Teatro, Artes Plásticas, Música, Moda, Arquitetura, Literatura, etc. Porém, que entraves impossibilita a realização desta formação cultural? Este, certamente, é um ponto de discussão a ser levantado e, possivelmente, o mais relevante a ser debatido.

Levando em consideração que formação cultural consiste em um processo educacional – logo, uma transmissão de saberes de uma geração à próxima –, podemos claramente entender que esta próxima geração não será a única a ser beneficiada, tendo em vista que se a atual juventude adquiri ferramentas para seu pleno desenvolvimento cultural, muito terão a ensinar e transmitir às próximas gerações. Então, por que não é visível nas esferas municipais este fomento à cultura, considerando um processo de longo prazo a ocorrer de forma contínua? Quais os entraves que impossibilitam a realização destas iniciativas?

Por enquanto, assiste-se a incentivos à festivais, à shows e, no entanto, sentimos que a Cultura ainda não está sendo incentivada, apenas no discurso de quem incentiva. Por que esse sentimento? Certamente, algo está errado, e precisamos averiguar isso.  Agora, esperarei ansioso pela Terceira Conferência.

por Iago Luniére

[1] Em Teatro, algumas obras da Grécia Helenística sobreviveram ao tempo e chegou até nós, no entanto, considerando essa efemeridade do Teatro, ao longo de tantos séculos essas obras ainda nos emocionam, sendo representadas por quantas gerações forem necessárias.

sábado, 17 de março de 2012

Amigo é coisa pra se guardar...

“Amigos são a família que escolhemos ter”. Essa frase sempre foi máxima na minha vida que, sempre foi tão repleta de amigos. Mas não repleta na quantidade dos amigos, mas na qualidade, no sentido de que cada um me custa (ou infelizmente, custava). Mais que um mar de pessoas a me cobrir de amor, mais que um exército a me defender, mais que qualquer outra coisa. Eles são, ou foram, meus amigos!

Tive amigos que junto de mim, descobrimos um mundo, descobrimos novas melodias, novas crenças, ideologias, pensamentos, certezas e opções. Infelizmente, a vida nesse momento passou uma peneira, e através do destino fomos para lados distintos. Hoje, quando passamos um pelo outro na rua e dizemos “Olá!”, soa algo tão frio, mas dentro do meu peito ecoa os bons momentos que vivemos, a amizade que jamais se esqueceu. Nessas horas, percebo quanto o tempo é cruel, e o peso dos anos tem a capacidade de destruir laços, até mesmo da amizade – o tempo não é só a cura pro amor, mas é o veneno da fraternidade também.

Numa nova fase, onde fui descobrindo novas possibilidades e meu maniqueísmo de pré-adolescente ia começando a se esfacelar, fiz novos amigos. Para a surpresa dos meus pais, alguns destes amigos tinha a idade deles! Professores, amigos dos meus pais, amigos dos meus tios. Estes amigos tiveram ímpar contribuição na minha vida, inclusive um certo professor de Redação que jamais esquecerei de nossa amizade. Os meus outros amigos que fiz nessa segunda fase são os que levarei para o resto da vida, são aqueles que irão tomar chá na minha casa quando tivermos idosos, que chorarei em seus funerais, ou estes chorarão no meu. Estes, nem mesmo o tempo e a distância vão conseguir esfacelar, se conseguir, vai ser depois de uma guerra brutal!

No entanto, a vida passou uma segunda peneira. Carreiras diferentes, vidas diferentes, cotidianos diferentes. Estamos longe, mas quando passamos um pelo outro na rua, cancelamos nossos compromissos: aquela esquina vai ter registrado na memória trinta minutos de papo entre bons amigos. Entrando num novo mundo, conheci mais amigos. Na faculdade fiz amigos que certamente vou também levar para a vida. Não vivemos tão intensamente quanto o que vivi com os que a segunda peneira levou, mas sim, teremos uma longa trajetória juntos ao qual vamos sempre ter contato, sempre se manter juntos.

Eli Martins, Sarah Neves. Amigas de primeiras séries que jamais esquecerei. Juntos descobrimos sons, descobrimos verdades, descobrimos pensamentos. Josephine Muelas, Bárbara Gutierres, Marcos Rodrigo. Amigos de colegial. Juntos descobrimos a vida, ou aprendi com eles a vida, juntos nós trilhamos por nossas verdades, aprendemos uns com os outros, nos digladiamos e nos amamos - a noite nunca era suficiente. E mesmo no silêncio do horário do almoço, eram momentos inesquecíveis. Um tarot, um fone de ouvido tocando The Birthday Massacre, um copo de vodka ou um cigarro sempre me lembram vocês! E nem preciso disso pra lembrar, moram em meu peito. Janilson Serudo, grandioso amigo, juntos vivemos tanto tempo juntos, mas somente nos 45 minutos do segundo tempo descobrimos que existia entre nós uma amizade que dura. Vivemos, muito provavelmente, uma vida anterior onde fomos soldados de linha de frente, que lutamos lado a lado com espadas em mão.

Suellen Vasconcelos, Tayane Cristine, Mauriane Kaist, Léo Pinheiro... amigos que estavam sempre ali. O conselho dos sábios. Aqueles que não viam lados negativos, iam além, transformava-os em positivo, davam cor ao obscurantismo da tristeza, ou ao branco da confusão. Thiago Sandim, Patricia Thais, Jeferson Sandim, Gabriela Leite, Gerson Paixão, Suzani Xavier... my little freaks, amigos eternos. Juntos estaremos jogando carteado e conversando sobre a vida na velhice, tenho certeza.

Amo-os de paixão. Trilharão junto de mim boa parte de minha vida, perto ou longe!

P.S: Piero Caíque, você sempre, sempre, sempre... estará no meu coração!