Triste fim
Mateus
e Pedro eram casados há quatro anos e, na verdade, não se lembravam bem disto,
pois a convivência fazia parecer que era uma vida. Moravam no 12º andar de um
prédio antigo, mas que ainda sustentava traços de modernidade. Era o que Pedro
pensava quando olhava pelo conjunto de janelas que iam do chão ao teto por todo
o entorno do apartamento, proporcionando uma vista panorâmica da cidade. Raras
vezes ambos abriram as janelas, muitas destas tentativas de causa forçada – uma
comida esquecida ao fogo, algo estragado que empesteava o ambiente, etc.
Não
se pode dizer que não se amavam, mas Mateus olhava Pedro parado de frente para
a janela com a certeza que ambos se matariam, ou que um dos dois cometeria um
suicídio. Não obstante, o sexo entre os dois – apesar de casual – era
acalorado, sempre. Mas no fim, um ou outro chorava, quando não os dois. Pedro
olhava para a cidade lá embaixo, e pensava como reagiriam se ele abrisse a
janela e se jogasse. O mesmo pensava Mateus, mas de um ponto de vista diferente
– talvez, em como ele próprio reagiria se Pedro se jogasse pela janela. Em
algum instante, Pedro não sabia precisar, seu cigarro apagara no cinzeiro,
formando uma haste torcida de cinzas dando a aparência do que um dia foi um
cigarro.
O
apartamento dos dois era amplo, e isso causava um desolamento nos dois. Tinha
uma geladeira, fogão, microondas, algumas panelas empilhadas debaixo da pia,
dois pratos, dois garfos, duas facas. Uma faca grande lhes servia para tudo,
cortar carne ou serrar algo. A sala era vazia. Nas paredes uma amurada de
livros empilhados. No quarto um colchão. No outro fizeram um closet, na
verdade, um varal onde penduravam em cruzetas as roupas e amontoavam nos cantos
os sapatos. Uma caixa servia de gaveta para cuecas e meias, que não se
preocupavam em compartilhar.
Quatro
anos, e essa era a vida dos dois. Mateus saia de casa freqüentemente para ver a
paisagem no entorno do prédio, e aproveitava para levar Lucy para passear, a
cadela da Sra. Laura. Nos momentos de bom humor, Pedro perguntava se Mateus
iria ver a cadela da Sra. Laura, sendo infame com um bobo trocadilho. Se Mateus
também estivesse de bom humor, ria. No trajeto, Mateus aproveitava para comprar
cigarros suficientes até o dia seguinte, quando desse o horário de levar Lucy
para passear. Mateus recebia da Sra. Laura duas moedas de qualquer valor pelo
favor, e Pedro achava certa graça nas moedas – nunca tinham o mesmo valor do
dia anterior, e nunca tinha valor cumulativo: hoje poderia ser duas moedas de
cinco centavos, amanhã duas de um real, e depois de amanhã duas de um centavo,
se dessem sorte.
Um
dia Mateus entrou desolado em casa. Com ele uma aura melancólica que acentuou a
distancia entre ele e Pedro.
-
Vou preparar um chá – disse Pedro.
-
Chá preto, por favor.
As
palavras sempre foram poucas entre eles. Tinham durante aqueles quatro anos
conversado muitas coisas, e refletido muitos assuntos, e descoberto muitas
coisas apenas no ato de falar. Era verdade que os dois não saiam muito. Mateus
era o único que ainda saía para passear com Lucy e, nestas oportunidades, fazia
compras, pagava contas, jogava o lixo. Coisas que fazem a gente sair de casa
contra a vontade. Pedro era mais caseiro. Durante os quatro anos só saiu dali
porque tinha de ser internado no hospital, e isso aconteceu uma única vez –
cortara os pulsos e precisava conter a hemorragia (mudou de ideia antes do fim).
Pedro
sofria de síndrome do pânico, não saia de casa nem mesmo para buscar a
correspondência na portaria. Mateus também, mas depois de certo tempo,
sentira-se mais seguro com a companhia de Lucy.
-
Seu chá preto.
-
Obrigado.
Beberam
o chá preto. Mateus chorou, e Pedro perguntou o que houve.
-
Fui à Sra. Laura buscar Lucy. Mas Lucy morreu.
Pedro
também chorou. Durante algum tempo os dois choraram ali. Uma chuva começou a
cair lá fora, e isso não ajudou muito o ânimo dos dois. Beijaram-se, e
transaram no colchão dentro do primeiro quarto. Depois choraram novamente. Din-dong, apitou a campainha. Era a Sra.
Laura com um bolo feito para animar Mateus. Din-dong,
de novo fez a campainha. Um tiro. Outro tiro. Uma hora se passou. Um policial
arrombara a porta. Mateus e Pedro estavam mortos e abraçados. Um tiro na cabeça
de cada um.





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