sexta-feira, 3 de junho de 2016

Complexo de Gaivota - teatro pra quem?



Está em temporada no Ateliê 23 - Casa de criação, todas as sextas-feiras, o espetáculo Complexo de Gaivota, com direção de Taciano Soares, texto de Thais Vasconcelos, que também divide a cena com com os atores Heitor Loris e Tainá Lima. O espetáculo é inspirado no texto A Gaivota de Anton Tchecov e, aqui, o espetáculo faz jus ao dramaturgo que considerava seu texto comédia, apesar de ser sempre interpretado de forma dramática.

Na entrada do Ateliê 23 encontramos, imediatamente, a personagem Nina, em um futurístico figurino, contando a cada novo espectador que chega sobre a sua grande musa, D. Arkádina. Lá dentro, sua musa aguarda com o filho, Trepliev, um artista contemporâneo, ou assim intenta ser, ambos sob um emaranhado de fios, lâmpadas, luzes, como geralmente é os arranjos técnicos improvisados de espetáculos teatrais que visam grandezas imagéticas (o pobre teatro amazonas já recebeu em suas estranhas tais espetáculos que lhes consumira suas centenas de refletores dando ao palco mil cores e nenhuma).

O complexo de gaivota, assim, trata de quem faz teatro. Apresenta arquétipos de profissionais desta arte em que, qualquer um do ramo, se não o é, já cruzou com um alguma vez em sua carreira. Nos assentos do público, os artistas facilmente se reconhecem, dão nome, captam as pequenas piadas escamoteadas numa fala melodiosa, cantada, que Arkádina, principalmente, impõe.

Arkádina é um quadro a parte. Thais Vasconcelos dá à personagem toda ironia velada em humor. Representa aqueles que, seja qual for o motivo, creem piamente em seu talento, em sua capacidade, em seu brilhantismo - e às vezes até de fato são -, mas que infelizmente não conseguem captar o espírito do tempo, as mudanças, o mundo como um fluxo contínuo de constantes alterações, o zeitgeist. Presa ao conservadorismo dos antigos manuais, dos antigos jargões, a um glorioso passado que nunca houve. O teatro, na belle époque, de fato, teve seus dias de glória. Antes, mesmo sendo frequentado pelas elites em seus diversos contextos, na belle époque é que o artista consegue se soltar, mesmo que ainda com ranços, do estigma de gentalha, e passa a circular nos grandes salões como grandes artistas - é aqui a era das grandes musas (mesmo em segredo sendo chamadas de coristas). Conhecemos da história o que se veio depois: o teatro fora assaltado do seu conceito de imagem pelo cinema, o mundo mudou. Mas continuamos, ainda, ansiando o glorioso passado da belle époque.

Chega até a ser compreensível que quem viveu estes tempos gloriosos, dele sintam saudades. Não duvido que a geração seguinte também o sinta. Mas nós, hoje, um século depois, precisamos nos atentar para uma das características intrínsecas da arte: captar o espírito do tempo pela poiesis, pela ars, pela techne e com este espírito dialogar. Esse conservadorismo, essa saudade de um tempo não vivido, cegante, ensurdecedor, incapacita de notarmos as mudanças do tempo e as novas formas de dialogar com o mundo contemporâneo.

Porém não se engane em supor, por exemplo, que grandes avanços pela ruptura estética e manifesta é, por assim dizer, livrar-se de tal conservadorismo. E isto também é cuspido na cara do público. Trepliev é um jovem artista que anseia as máximas contemporâneas e serve-se delas à la carte. Nos lembra de que romper, de fato, é um anseio pessoal muito forte, que antigos modelos talvez não deem mais contas de outros anseios, outras formas de dialogar e expressar-se. Trepliev serve-se de um modelo que hoje deglutimos à exaustão nos círculos intelectuais, na Academia, porém, demonstra que não há, nele, algo a dialogar e expressar se não a sua vontade de romper com a própria mãe, com a geração anterior, deixar uma marca no mundo no qual não sabe ao certo qual é e, ainda assim, não dialoga com o tempo presente, com o espírito de nosso tempo. É neste sentido que a ruptura estética apresenta seu dilema: ela pode, ainda assim, ser conservadora, almejar uma glória não vivida apenas trocando a roupa. Essas mudanças, se não forem na carne, não fazem sentido.

Nina, a personagem que conosco aguardava a entrar no espetáculo, é aquela que está no meio disto tudo. É a que vê a superfície, tanto de Arkádina quanto de Trepliev, mas nada além disto. Que crê que o teatro de Arkádina é repleto de glórias, e em Trepliev, a genialidade. É o arquétipo daquele que engole a tudo o que lhes é oferecido e se retorce em uma congestão. Assim como percebe somente as superfícies, percebe também as incongruências, mas ao invés de acionar em si um postura crítica, prefere fingir que não vê e, assim, executa, reproduz.

Mas o espetáculo toca estas coisas com o humor. A sátira é bem endereçada, mas a quem? Aos artistas? Sim, com certeza. A sala de espetáculo onde se apresenta o Complexo de Gaivota não esconde nada, nem a equipe técnica, e em seus rostos, podemos perceber que tudo isto é, além de uma sátira, um desabafo. Há incômodos instalados em cada desdobramento. "Ria disto, pois falo do outro. Mas aquilo é incômodo de rir, porque eu sei que é você", o espetáculo confidencia. 

Experimentar o espetáculo Complexo de Gaivota é experimentar, em pouco mais de trinta minutos, toda a lógica instalada na classe artística de Manaus - não só em cena, mas no rito teatral em si. As faces na sala de espetáculo são conhecidas, sabemos de quem estamos rindo, sabemos de quem estamos satirizando, sabemos inclusive que é sobre nós. Ao olhar em volta, poder-se-ia sentir constrangido de rir pela presença daquele outro que está sendo satirizado. Os poucos rostos não-familiares, porém, estão isolados. Tive a oportunidade de apresentar o espetáculo a um não-artista, que nunca teve uma experiência como espectador teatral. A ele, toda a complexidade subjetiva do espetáculo não chegou. Viu, sim, um ator de voz "impostada", e também uma menina tola, e uma mulher asquerosa de riso falso, bufões em cenas escrachadas, porém não compreendeu que se tratava de uma ironia - tanto a voz "impostada" dos atores que rasgam suas cordas vocais matando cada letra do subtexto das dramaturgias, quanto a atriz incapaz de não ser ela mesma ao interpretar uma personagem. Isto suscita a questão: sim, é endereçada aos artistas, mas e aos não artistas?

Poderíamos argumentar que o espetáculo oportuniza ao espectador não-especializado a chance de perceber quem somos, classe teatral. Como agimos por detrás das cortinas da coxia e o que fazemos depois do discurso emocionado ao receber um prêmio. Mas infelizmente isto não ocorre, o que parece ser natural - a necessidade deste desabafo se demonstra maior. Por isto, é acessível apenas aos artistas, e talvez, isto possa ser um problema - mas aparentemente, não é desconhecido, e até mesmo proposital. Porém, sem querer falar muito sobre crise do teatro, uma das questões que muito se faz neste tema, é acerca do fato que o teatro resiste como bolha isolada de maneira insustentável: os artistas, que fazem espetáculos, garante os assentos da plateia ocupados com outros artistas. O novo espectador, muito provavelmente, é um iniciante de teatro. Nossas obras, também, estão tão tecnicamente rebuscadas, filosoficamente embasadas, metodologicamente construídas, que os espectadores, cada vez mais, precisam ser especialistas para se ter acesso. Não quero aqui propor um ato para subestimarmos ao espectador, ou de contermos nossos impulsos criativos pensando em um espectador específico. Porém, é talvez uma atitude importante, refletir acerca da medida de nosso alcance. Neste sentido, o Complexo de Gaivota nos apresenta um espelho de nós mesmos e, por ora, um convite a rirmos. O espetáculo se apresenta todas as sextas, às vinte horas, no Ateliê 23 - Casa de Criação.

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Iago Lunière - estudante de teatro, pesquisador, e já está cansado de limpar xixi de cachorro da geladeira.