sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Depressão

Vim falar de depressão. Prazer, meu nome é Iago, e tive depressão! :D

Durante muito tempo, relutei bastante em falar do assunto. Era quase um tabu, não sei. Na verdade, falar em público, porque muitos amigos meus sofreram pencas em me aturar - e aqui cabe até um pedido de desculpas. A família percebeu só bem mais tarde, quando eu estava em tratamento.

Durante muito tempo, pensei em escrever sobre minha depressão. Confesso que até rascunhei várias vezes e o cursor repousou sobre o botão "Publicar", mas algo me dizia pra não fazer isso, não naquele momento em que eu ainda estava dentro do furacão. Precisava estar mais distanciado, ver de fora, ver da minha memória e com a menor dor possível, sem que os canais lacrimais se inundassem sem motivos, e o ar ficasse preso na garganta.

Você deve estar se perguntando: mas o que te causou depressão? A resposta é bem simples: não faço a menor ideia. Mesmo sendo acompanhado pela terapeuta, essas respostas estão meio que incólumes e bem protegidas de mim na minha própria psiquê. Hoje em dia, quando chove, ou quando ouço uma música mais melancólica, e me lembro dos momentos difíceis em que passei, eu me pergunto as causas, como cheguei àquele ponto. Mil respostas vêm, mas da mesma forma vão embora.

A depressão não é um caso exclusivo meu. Meu pai teve depressão. Acompanhei o caso dele dos treze anos de idade até pouco antes de entrar na faculdade, quando completava dezoito anos. Foram tempos difíceis, não nego. Mas não lembro daquilo me afetar mais ou menos do que qualquer outra pessoa que tenha problemas de relação com os pais. De fato, meu pai me poupava de muita coisa. Coisas que eu só soube mais tarde, quando ele se sentiu melhor pra falar sobre o assunto. Apenas em duas situações, eu vi que meu pai estava realmente doente: numa, em seu desespero por querer dormir (pois não dormia havia dias) tentou uma superdose e precisamos interná-lo. Acompanhei-o até o hospital psiquiátrico. Naquele dia, o homenzarrão de mãos grandes que cobria as minhas para atravessar a rua era apenas um menino. Ele estava com medo. Estava com vergonha. Envergonhado de estar naquela situação, na minha frente. Na outra, por igual desespero por dormir, me bateu com um cinturão porque brincava com o cachorro, e o cachorro latia e isso não o deixava dormir. Ele chorou muito naquele dia, arrependido. Sempre me pediu desculpas, e eu sempre o desculpei - mas sempre tive a impressão de que ele próprio não se desculpava.

Bem, isso pode te dar uma noção do que seja a depressão. Boa parte dela é medo, outra tanta dose é vergonha, também desespero, e outra tanta é simplesmente o fato de não se perdoar por... por qualquer coisa que você ache que é inaceitável, cruel, medonho ou grotesco - muitas vezes não é... é só algo bobo, mas a depressão não te deixa aceitar que é algo bobo.

Eu sempre tentei ser muito consciente de mim. E houve um dia, no trabalho, vendo os meus companheiros atuando, que percebi que algo estava errado comigo. Aquilo era uma semente do que viria a seguir. A tristeza é um campo fértil para a tristeza. Convivi com pessoas igualmente tristes e deprimidas e, não sei dizer porque, me sentia bem ao lado delas. Talvez porque elas estavam numa situação semelhante, porque entendessem aquela sensação inócua de vazio misturado com escuridão palpável. Pouco a pouco, minha visão ia ficando apurada para a tristeza. Via a tristeza em tudo e, de alguma forma, aquilo me aprazia de uma maneira estranha.

Uma falta no trabalho, e nenhuma vontade de sequer levantar da cama. Um cansaço inexplicável, ou uma dor de cabeça que não tinha sentido. Havia começado a fumar um pouco antes daquele tempo, e o que antes era só uma experiência, virou tabua de salvação - não tinha essa consciência, precisei esperar pra perceber isso hoje. Logo os cigarros tornaram-se mais fortes, as bebidas alcoólicas, antes recreativas, tornaram-se anestésicos. Três dias de falta. Quatro dias de falta. E meu chefe me chamou, e perguntou o que estava havendo. Não consegui não chorar, e ele entendeu tudo. Ele próprio havia passado por aquilo, mas infelizmente, ele não tinha poderes de me ajudar, e seus superiores pediram meu desligamento.

Fui pra casa naquele dia, abracei meu pai, menti sobre o trabalho, e nos mudamos daquela casa naquele mesmo mês. Comecei a escrever um diário e, lendo-o hoje, vejo a trajetória para os tempos mais sombrios que vivi até agora. Sombrios porque as sombras estavam dentro de mim. Quero dizer, esses termos mais poéticos em nada ajudam. Sério mesmo. Ilustram, mas pra quem tem depressão, eles são carregados de conceitos que de fato definem muito do que eles sentem, mas são difíceis de comensurar a profundidade do que eles sentem - daí o problema da minha terapeuta em me ajudar, durante um bom tempo. Eu poderia aqui descrever pra vocês os processos químicos que ocorrem no cérebro de um depressivo, ou as possíveis causas traumáticas, ou a possibilidade de herança genética... e não me assusta se você julga que por causa do meu pai eu tive depressão - não acho que tenha sido isso, desculpa. Mas isso não interessa. No final das contas, essas pessoas sentem medo, vergonha, e a incapacidade de se perdoar.

Outra parte também é a completa falta de prazer. A comida, por mais temperada, era insossa. A água por mais gelada, era insuficiente para saciar. A bebida mais forte, incapaz de anestesiar. Um mês sem sair de casa... Dois meses... E meu pai começou a perceber que havia algo errado. Saí de casa, fui morar com minha tia... Minha doce tia que sempre abriu seus portos quando nenhum outro estava aberto. Um mês, dois meses, três... Não saia de casa sequer pra comprar algo pra comer.

Os amigos... Bem, falei dos amigos, né? A vergonha que sentia era tão grande, que me afastei de boa parte deles. Hoje, faz tanto tempo que me distanciei, que tenho até dúvidas de que possa haver retorno. É que a vida passou, muita coisa mudou. Tentei reatar contato com alguns, mas era meio que tarde pra reatar qualquer coisa. Não que eles sejam incompreensíveis, muitos foram bastante compreensíveis. Mas é que a vida, de fato, seguiu. Uns mudaram-se de estado, outros seguiram carreira em algo que toma-lhes boa parte do tempo - eu próprio fiquei assim. Os que ficaram do meu lado... Bem, os que perceberam o que estava acontecendo, estes não foram embora, nem aceitaram o meu "está tudo bem, preciso só de um tempo pra mim". Pouco a pouco fui sugando-os para minhas sombras. Criei em torno de mim um ambiente inóspito, impossível de se viver e conviver. Dois amigos disseram desistir. Naquele dia, me auto-mediquei e tentei a superdose. Dormi por dois dias, e a única coisa que consegui foram hematomas por todo o corpo - tive sonambulismo. Quando acordei, e vi que ainda estava vivo, tentei me enforcar. Na hora, lembrei quem encontraria meu cadáver. Minha tia. Desfiz a forca, guardei o banco, e fui dormir. No dia seguinte, quando minha tia chegou de viagem, almoçamos juntos, desabafei, e naquele mesmo dia comecei o tratamento com a psicóloga.

As pessoas não entendem muito bem porque tem gente que comete suicídio. E é claro que elas não entendem! Já viu algum cadáver voltar à vida pra explicar porque se matou? Eu nunca! Naquela época a desesperança da vida, a vergonha, o medo, a culpa, o desprazer eram tamanhos, que não valia à pena viver. Sim, pessoas com depressão chegam à constatação de que não vale à pena viver, e não adianta lhes explicar motivos ou argumentos para não desistir da vida. Você não teria ideia do que elas sentem em relação à sua existência. Tudo não passa de um profundo desprazer de viver!

A depressão tem múltiplas causas, e demorou um longo tempo pra minha psicóloga entender meu quadro, e outro tanto pra tentar me convencer o contrário de tudo aquilo que estava incutido em mim. O monstrinho da depressão que sussurrava coisas horripilantes, pouco a pouco ia pro cantinho pra ficar de castigo. Durou um tempo pra entender que não havia do que ter medo, nem do que se envergonhar, e que eu precisava me perdoar mais, e buscar sentir prazer em coisas simples e banais: assistir um filme com um amigo, pintar um quadro, olhar o por-do-sol, ler uma piada e morrer de rir dela. Não preciso (e nem quero) reproduzir pra você como foi minha terapia. Meu caso, foi meu caso. Pode ser diferente de outros tantos que ocorrem por aí. Mas com o tempo, a depressão deixou de me assombrar. Algumas vezes ela vem fazer uma visita, mas ela já não me atinge como fazia antes. Hoje eu me conheço suficiente pra acionar minhas estratégias de prevenção.

É difícil, eu sei. Durante um bom tempo, você precisa mudar sua personalidade, seus costumes, suas formas de pensar. E essas coisas ninguém muda do dia pra noite, nem por uma decisão ou por um decreto. Durante um bom tempo, tentei mudar a forma como caminho, ou como soa a minha risada, e até como é minha personalidade. Tentei ser engraçado, intelectual, sério, risonho, estereótipo e criativo. Experimentei outros estilos de música, ler outros tipos de livros, pintar outros tipos de quadros. Cada tentativa, eu me conhecia mais, e via aquilo em que me adequava e aquilo que definitivamente não cabia em mim. Ainda tenho experimentado, e ainda estou encontrando aquilo que me cabe e aquilo que não me serve em nada. Durante algum tempo, isso também pode se tornar doentio. Porque o medo é um dos últimos que somem. Medo de voltar a estar naquele estado. Então o desejo de ser cada vez melhor se torna uma obsessão. Quando me senti melhor, eu não desisti da terapia, continuei. Afinal, se não tivesse continuado, provavelmente essa obsessão me levaria à frustração de não conseguir atender minhas expectativas, e provavelmente voltaria àquele estado anterior. Pouco a pouco, você olha onde está, e lembra de onde estava, e o medo vai desaparecendo. No lugar, a autoconfiança vai surgindo e tomando forma.

Hoje em dia encaro algumas coisas (que antes me eram complexas) de forma muito simples. Coisas banais pararam de me atingir como me atingiam antes. Claro, muita coisa ainda está lá, empoeirando, ou escondido em armários, pronto para saltarem. Mas quando chegar o momento, cuidarei delas, com calma. A construção de mim, desse novo eu, certamente não acabou, e tem muito do que continuar. E se você, por algum motivo conhece alguém que está passando por isso, ou se você próprio está passando por isso, não tenha medo! Procure ajuda! Não guarde isso pra você, não oculte isso de ninguém! Não cause vergonha a quem passa por isso, nem sinta vergonha e nem deixe alguém fazer você se sentir envergonhado. Esse peso pode diminuir assim como em mim diminuiu, até que um dia ele desapareça!

domingo, 14 de setembro de 2014

Isso é não amor, sou eu!

"Não. Eu não te amo. Eu te desejo como propriedade! E te quero como meu, de mais ninguém e a mais alguém além de mim que mora aqui... Aqui dentro... Isento, carnívoro, desejoso, estrondoso...

Frio...

Vazio...

De relance te olho, desejando consumir cada parte do seu corpo, pés, mãos, barriga, carne, e osso. Querendo sentir teu prazer, e mais ainda poder ser aquilo que gostaria de ti: que me tornes inteiro... Que me tornes preenchido!

E com o que? Com quem? Não sei, talvez você ou alguém...

E inutilmente olho em volta e esqueço de mim. De que isso sou eu, e mim, e só.

Me esvaio. E oco, eu murcho. Sem ossos que me sustentem, sem fibras que constituam meus músculos. Murcho, e viro água. E me despejo ao ralo, me esparramo no chão, me faço lama e sujo tua mão, mancho tua alma  tal qual a minha é manchada, destroçada, deslocada, rebelada contra mim!

E eu ainda em ousadia te peço... Peço em suplicas que acaricie meu ego. Me desespero, me desarranjo, me desconstruo e me afogo nessa solidão... Me tornando plenamente inconsciente de mim, de minha razão, de minha culpa em acreditar que és tu do meu sentimento o ladrão!

NÃO!

Sou eu!

E eu te culpabilizo por me destruir, te responsabilizo por me reconstruir, me reerguer, me constranger com um olhar que me reprove e ao mesmo tempo me contemple sem julgamento ou indiferença!

Não, eu não te amo! Nem eu me amo, e ainda assim te obrigo a crer naquilo que igualmente me obriguei: que a culpa é tua! É tua a culpa do meu choro, do meu lamento, e há quem diga sem nenhum tormento de que isto é amor...

Não! Isso jamais será amor!

Isso sou eu!

Eu!

Sou eu, aqui, te pondo no que deveria ser minha função... me amar!

E te convido para morar em mim, nessa casa vazia, inteiramente à revelia daquilo que vi em ti. E o que vi em ti é o que veria em qualquer outro, um desbotado e intenso consolo, a quem ofereceria impiedosa tarefa, a de heroicamente tornar-se aquilo que me completa, fazendo de mim inteiro.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Companhia de Mercenários... Vai dar merda!

Maquiavel, em sua obra "O Príncipe", aborda sobre como deve proceder um bom líder de estado. A este, ele chama de Príncipe, não interessando se seu estado é uma república democrática, ou uma monarquia absolutista - estadista, portanto, é aquele que lidera um estado [PONTO]. Em vistas maiores, falamos de um líder, ou seja, daquele que busca uma visão panorâmica do todo a fim de coordenar um grupo em relação ao seu meio ambiente (incluindo outros grupos, e outros ambientes). Em teatro, portanto, o Diretor é pode ser considerado esse líder. Não importa a filosofia daquele grupo, ou a metodologia que este optara, ou o(s) ambiente(s) em que se situa, o Diretor de Teatro é o tal Príncipe.

Há pouco mais de meia décadas, era de se observar uma lógica teatral na cidade: existia um mestre, ao eu podia me aliar, e das duas, uma: morro com ele, ou me alio a outro mestre - não de forma aleatória, mas sistemática. Traição, portanto. E não julgo o mestre que considera essa opinião sobre aquele pupilo que desertara. Deserção é traição, não importa o motivo.

Ocorreu que vislumbramos uma transição de tal lógica. Fundou-se uma Universidade e, antes dela, havia-se formado um germe, que era o Liceu de Artes Cláudio Santoro ("era", pois sua mecânica aparentemente é diferente daquela de mais de dez anos atrás). A Lógica portanto era a de que havia um centro de formação sem mestres, sem uma configuração ética de como funcionaria tal ensino e formação. O objetivo era claro: formar novos atores. Sabia-se do que precisavam: um centro de formação. Sabiam como precisavam fazer: formando turmas e ensinando progressivamente o básico para se tornar ator. Mas a ética de tal procedimento, não fora estabelecido. Os diretores ou aqueles que faziam teatro antes do Liceu, tornaram-se mestres. Daí a nova lógica. Ali, os diretores de teatro viram uma fonte para recrutar novos talentos às suas fileiras de elenco. A formação que davam aos alunos fora influenciada pela corrida violenta por adquirir "novos talentos" aos seus grupos. Potenciais talentos foram formados sob uma cultura de "alie-se a mim e conheça a glória, ou alie-se àquele, e torne-se um pária". Mas com quem me torno pária e com quem me torno glorioso? Não se sabia. Ia e descobria. As grandes queixas que se tinha (ou ainda tem) sobre essa lógica canibal, é porque a ética não fora pré-estabelecida enquanto havia tempo. Se há pouco menos de quatro anos nos queixávamos sobre a ética do Festival de Teatro da Amazônia, ou sobre a ética dos atores em grupos de Teatro, deve justamente à esta lógica nascida do Liceu. Por fim, concluiu-se como tal ética deveria ter sido, mas já era tarde demais. Uma lógica canibal havia sido estabelecida.

A Universidade, entre outras coisas, foi a segunda tentativa, com vistas à esta ética. Pensou-se sobre como seria sua ética, e a adotaram. Os mestres até podiam adotar os alunos como pupilos, mas aos pupilos era ofertada a chance de refletir quais caminhos eram/são existentes. Uma segunda lógica portanto nasce. Eu, como estudante de Teatro, preciso conhecer os caminhos para só então, pela experiência, trilhar por eles. Claro, já havia a tradição de atores que trilhavam de Companhia em Companhia, fazendo uma montagem aqui e ali, descobrindo os métodos, procedimentos e processos de cada diretor, mas é com a busca de experiências (aleatória, ou seja, "não importa o quê, vamos experimentar"), é que nasce um ator declaradamente mercenário. Chamo de mercenário, não num sentido pejorativo. Mas num sentido em que, um mercenário, é aquele que não tem raízes em um grupo ou bandeira, e possui a liberdade de lutar por aquele que lhe oferece chances melhores de crescimento enquanto individuo. No teatro, um mercenário é portanto aquele que não deve lealdade à Um mestre ou Uma Companhia, mas àquele que lhe dá chances de obter lucros de experiência.

Creio que essa é uma fase transitória. Uma hora, esses mercenários encontrarão (ou já estão encontrando) seus caminhos, e portanto, trilharão (ou já estão trilhando) sobre eles. Já desenham suas próprias bandeiras, e criam suas próprias Companhias. E sobre o termo "companhia", quero me aprofundar.

Companhia, presume-se um coletivo de pessoas primorosamente organizadas, e este termo também usado entre os militares, e estes bem sabem: à deserção e motim, não há misericórdia - a pena é a morte! O diretor de teatro, ou seja, o Príncipe, não pode parar no caminho do objetivo para diálogos e barganha, pois um membro que vacila é um peso que mais atrapalha do que contribui. Quer desertar? Deserte morto! Querem motim? Busquem outro objetivo. Parar para barganhar benefícios numa determinada jornada, é perder tempo para, mais tarde, descobrir que o fracasso é tão real quanto o encerramento consciente da missão proposta. Como Príncipe, o Diretor de Teatro lida com a deserção de forma rápida e concreta. E para evitá-la, tem por opção: contratar mercenários, ou se tornar amado ao ponto de ser seguido. Maquiavel alerta aos príncipes sobre os mercenários: facilmente estes o traem em busca de ganhos maiores. Facilmente lhe abandonam, quando a crise se instala. E facilmente estão ao seu lado, se você é vitorioso, sugando seus lucros de tal vitória.

O Diretor tirano, dificilmente conquista o amor dos seus atores, podendo quem sabe conquistar o respeito, mas não o amor. Se é tirano, é portanto impositor. Se é impositor, é porque suas idéias não encontra ecos naquele grupo, nem as idéias do grupo encontra ecos em si. Portanto, ou contrata mercenários que desejam aprender consigo sua ideia, ou perde tempo tentando conseguir voluntários dispostos. Um diretor amado - mesmo na crise, ou nas dificuldades inciais do caminho daquele grupo - assim o é porque marcha junto com suas fileiras, assumindo para si tanto as decisões fáceis quanto as difíceis, e delegando ao seu grupo a mesma oportunidade. Em outro ponto, não nega aos seus atores a oportunidade de enriquecerem suas experiências. Ao contrário. Incentiva-os a testarem novas linguagens, métodos, experiencias. Reflete com seus atores, com outros diretores, com outros grupos. Um ator que percebe que aquele grupo pode lhe proporcionar essas buscas, prefere nele se estabelecer, ao invés de fazê-las em cada grupo, de cada vez. Logo, o grupo ganha forças de sobrevivência, e portanto dura, pois este é seu sucesso. Tal sucesso não se mede pelo alcance de um objetivo, mas pelo seu tempo de duração. Assim foi o  Irish Republican Army (I.R.A), que durou 86 anos, e até hoje seus ideais são lembrados, em detrimento ao Movimento de Libertação Popular (Molipo), que lutou contra a Ditadura Militar Brasileira no século XX e caiu no esquecimento pouco tempo depois de desmantelado.

O Diretor amado, talvez nunca encare suas fileiras prestes a amotinar-se ou desertar. Estes são sintomas da inanição ou tirania. Há de se deparar, talvez, com a anarquia, mas dela pode prever oportunidade de mudança. Poderá encontrar-se diante de indivíduos que vacilam, mas por motivos alheios ao grupo, que logo o ajudam a superar tais problemas para manter-se firme. Percebe-se, que um diretor amado logo perde sua identidade individual, e sua obra se torna coletiva, e de fato, uma Companhia se estabelece - não importando quem a dirige, ou quem nela atua. O Grupo, portanto, sobrevive.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

50 Anos desde o Golpe de 1964

Agora, calminho, depois do tsunami de informações sobre os 50 anos do Golpe de 1964... quero perguntar: alguém aí sabe MAIS OU MENOS as heranças que temos disso tudo?
Falando sobre política na fila do banco, hoje, um senhor me diz a seguinte frase: "A solução desse país é pegar todo mundo [políticos], jogar fora, e por novos!". "Okay, é uma 'boa' sugestão", pensei. Mas eu percebi na exaltação daquele senhor um tom tão radical, que me assustei. Preferi não comentar nada, e só aquiesci. Como tirar todos eles? Que força é essa, capaz de fazer tamanha mudança? Que meios tomaríamos para seguir essa idéia? (Sentiu a pegada Radical no tom do cara?).
Pra falar a verdade, essa é uma lógica [radicalismo] que, pelas minhas conclusões, o povo tinha naquela época.
Por que a partir das minhas conclusões? Porque o que a gente tá vendo hoje, são sobreviventes da Ditadura contando, cada um, uma versão que, por causa de ser proveniente de uma fonte viva, é tida como verdade. Verdade esta, que de ambos os lados (opressor e oprimido), exaltam idéias BELÍSSIMAS, mas escondem seus podres. Em quem acreditar? Qual fonte tomar pra si como confiável? Daí parti pra pensar nas consequências.
"O fim justifica os meios". Essa máxima NUNCA foi dita por Maquiavel, mas de sua obra nasceu. E é analisando os fins, pensando nas nossas heranças de hoje, é que posso tirar as minhas conclusões dos meios. Tirar minhas conclusões a partir das versões contadas. Falei outro dia que, no ano de 2013, os protestos me assustaram. Participei de alguns, e fiquei REALMENTE assustado e perdido sobre aquela bolota de acontecimentos. Nesse ano, a coisa tá ficando mais assustadora pra mim. Réplicas de marchas da família com Deus por sei lá o que... Direitistas querendo reinaugurar o ARENA... Lei Antiterrorismo com redação perniciosa... Radicais Conservadores ganhando voz no Senado e Câmara dos Deputados... Radicalismos como o daquele senhor, na fila do banco, sendo ditos com fervorosidade!
Não se enganem! Vem tanto da Direita quanto dos Liberais - estes, que pra manter uma nova ordem mais liberal, lançam mão de discursos radicais, transformando todo o papo deles num novelo de incoerência.
A Ditadura foi cruel? Sim, foi cruel. Mas é preciso lembrar que a Esquerda da época mantinha um radicalismo igual ao daquele que instituiu o AI5? É preciso lembrar que "Terroristas" não foi um adjetivo tirado do nada pelos militares, pois entre a perseguida Esquerda havia, de fato, alguns terroristas?
Tanto a Direita quanto a Esquerda não aceitavam causas como a dos homossexuais, que queriam mudanças tanto quanto os Esquerdistas, e ordem tanto quanto os da Direita. Direitos como o da Mulher nunca foram prioridade dos dois lados. Tanto a Direita quanto a Esquerda queria impor suas idéias na base do Golpe. Qual fosse o lado vitorioso, teríamos o mesmo resultado: liberdades individuais em risco ou, como de fato aconteceu, inexistentes, substituidas por uma ilusão de liberdade (É livre quem pensa igual à mim! O resto, desaparece com ele).
Os militares trouxeram a Ordem que tanto queremos HOJE, e foi pela imposição. Essa é a mesma imposição que alguns de nós vê como solução para os problemas do HOJE. Os militares "faxinaram a casa" do mesmo modo que queremos que a casa seja "faxinada" HOJE. Sabe... essas coisas matam a minha surpresa de ver jovens (que nem sabem quem é Médici) querendo que um novo Golpe ocorra.
Pode parecer que defendo o Golpe, mas não defendo. Eu entendo. A esquerda pode pular gritando "Eles favoreceram à elite!". Assim como a Direita hoje pula gritando que a Esquerda está favorecendo alguns poucos (vamos falar dos escândalos político-econômicos da última década?). Os problemas não mudaram, mas a idéia de solucioná-lo também não! A paciência do povo para com o cenário político-econômico HOJE está acabando e, nesses limiares, o radicalismo ganha força como a grande solução. E isso também não me assusta, porque isso não tá sendo ensinado. As informações ainda estão inacessíveis. Gerações estão brotando sem saber de tudo isso, e portanto, vão sendo encaminhadas para repetir erros.
Sabe... a idéia de Democracia tá sendo vendida errada. A idéia de Esquerda AINDA está sendo vendida errada. A idéia de Direita AINDA tá sendo vendida errada. E TÁ TODO MUNDO COMPRANDO! Apareceu na timeline um vídeo sobre Ditadura, e aquele se torna todo o conhecimento do 'caboco'! Essa aura mística e aterrorizante em torno deste período de nossa história está MATANDO o único benefício que o Golpe de 1964 pode nos ofertar: saber que os problemas continuam até hoje, e esse tipo de solução [radicalismo, golpe] DEFINITIVAMENTE não funciona - seja lá quem proponha, Direita ou Esquerda.

sábado, 8 de março de 2014

INSÔNIA

“Tom? Tom, você consegue me ouvir? Espero que consiga me ouvir, porque é muito importante o que eu quero te dizer neste exato momento. Tom, você acaba de morrer”.

Um ressalto. Onde estou? Certamente esse é o teto do meu quarto. Sim, é o teto do meu quarto e estou na minha cama. Mas que diabos está... Espera. Está chovendo lá fora. Está frio. Posso sentir a brisa úmida. Mas a cama está suada. Era um pesadelo. Mas que droga de pesadelo! Olho pro lado e vejo o Pedro, tranquilo. Filha da mãe, era provável que eu tivesse um infarto do lado dele e ele nunca acordaria. Quando começamos a namorar, e eu tinha esses pesadelos, era eu acordar ressaltado e ele avançava pra cima de mim tentando me acalmar, nem parecendo que estava dormindo há alguns segundos atrás.

Mas afinal, com o que eu sonhei? Acabei de acordar de um pesadelo, mas não consigo lembrar o que cargas d’água era o pesadelo! Não era mais fácil não ter tido o pesadelo e simplesmente ter continuado a dormir? Agora estou acordado, que droga! Serão trinta minutos tentando encontrar a posição certa, mais quinze pensando em um monte de coisas, até que os pensamentos comecem a transitar entre o consciente e o inconsciente. Daí quando eu menos esperar, estarei dormindo. Quarenta e cinco minutos! Que horas são?
São quatro da manhã? Mas que droga! Ainda agora eram 2:15hs. Isso quer dizer que dormir por uma hora e quarenta e cinco minutos. Mas tenho de estar de pé às cinco, o que significa que se voltar a dormir e demorar quarenta e cinco minutos, estarei com mais... quinze minutos de sono? Que droga. Droga!

Quero transar. Depois de transar sempre me dá sono. Pedro não acordaria pra transar nem que Brad Pitt estivesse nu ao lado dele só de paetê. Posso me masturbar. Sim, me masturbar.

Amanhã tenho que terminar aquele maldito projeto. Porque aquela vadia cafona quer pagar uma fortuna pra um arquiteto fazer o que ela quer, sendo que ela não aceita porcaria nenhuma do que ele aceita? Será que eu falo pra ela que almofadas com fronhas de crochê é cafona demais hoje em dia? Mas ela tá pagando bem, pegaria mal eu fazer isso. Certamente era perder a cliente, e eu não posso me dar a esse luxo. Maldito cartão de crédito, eu odeio crédito! Serve só pra gente se endividar! Antes melhor se privar de um monte de gastos desnecessários, juntar o dinheiro e comprar à vista. Tenho certeza que teria comprado aquela TV à vista. E pra que? Pro Pedro assistir futebol! Ele não podia ser um namorado comum? Simplesmente... gay? Ele tem que ser tão másculo? Ele poderia... droga. Droga! Argh! Argh!...

Merda, gozei na porra do edredom. Agora vai ficar melecado e enquanto estiver dormindo, minha pele vai roçar nessa porra, daí eu vou acordar. Eu deveria ter posto a outra mão, depois podia ter lavado e voltava pra cama. Mas aí eu teria perdido o efeito do orgasmo e não teria adiantado de nada, eu não ia voltar a dormir. Mas que porra! Agora que tinha conseguido dormir, já tá na hora?

sábado, 1 de março de 2014

Só pra constar, estou vivo...

Bem, estou vivo. Apesar de... independente de... além de... acima de...

Sim, sumido, mas vivo. É meio estranho retomar algumas de nossas rotinas antigas, ou programas antigos, porque quando reencontramos pessoas que fazem estes mesmos programas ou frequentam a mesma rotina, e que por um acaso, estavam dentro do nosso circulo social, boom... perguntas mil surgem. Sempre rola uma explicação meia-boca pro "Por que você sumiu?" ou "E agora? Que cê anda fazendo?".

Passei por uns maus bocados, isso não é segredo. Depressão, fobias, novas atitudes que eu ainda preciso me acostumar. Mas a parte ruim passou. Daqui pra frente é reconstruir, se preocupar com a taxa de juros da previdência, da poupança, da fatura que vai vencer mês que vem, do que fazer da vida daqui por diante.

Muita coisa ainda precisa ser feita. Retomar os estudos, o trabalho, meus projetos pessoais. Terminar coisas inacabadas, conhecer gente nova, deletar gente velha que não vai fazer falta. Tentar me misturar na fluidez da vida e ser fluido que nem ela, pra não ficar parado no tempo. Aliás, ninguém fica parado no tempo. Fica parado, e só. O tempo rola tranquilo e a vida vai seguindo mansa nos seus altos e baixos (e cantarolando, se duvidar).

Só pra constar, ainda estou vivo. Estou voltando, e não se surpreenda. Surpresa seria receber convite pra funeral de gente que não vemos a um bom tempo. Surpresa de gente que ainda está viva não é nem surpresa, é só informação avulsa.