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| Instalação Metragem, de Edith Derdyk. Revista Select Art 3º Ed. Janeiro, 2012. |
Poderia começar com um título do tipo
"Mistura de todas as Artes - o contemporâneo e a tal performance",
"Volta ao Ritual - o
contemporâneo e a tal performance ", "O que não é
performance", "Anarquia literal"... e passei a perceber que isso
seriam argumentos para uma possível divagação sobre o que seria o Contemporâneo
e sua principal ferramenta, a Performance. Escolhi esse título, definindo a
complexidade que não pode ser abordada em um simples texto divagatório.
Divagação, porque
tudo o que se lê sobre esses dois termos é para muitos uma total divagação,
apesar de seguir a rígida metodologia científica em publicações diversas, que
se multiplicam. Pode-se argumentar infinitamente o que seria Contemporâneo, o
que seria Performance, e tudo o que se pode concluir é que, o que é palpável, o
que é verbalizável, é o que não seria a performance, e o que não seria o
contemporâneo. É importante salientar, que Contemporâneo aqui é referido a um
movimento (pulsante) artístico que ocorre agora, nos tempos atuais, nessa
geração, herdada da anterior, parida das vanguardas, sempre em transformação,
perdendo o sentido etimológico que conhecemos de Contemporâneo quando estudamos
a História.
Logo, direciono a
atenção para a Performance, que é a principal ferramenta do Contemporâneo e...
o que é Performance? O que posso adiantar, é que você terá de ter o mesmo
trabalho que eu pra poder saber, se não, não terá graça. E o que posso dizer,
também, é que o que você irá descobrir é o que não é Performance. Uma palavra,
até agora, definiu muito bem pra mim o que seria a Performance: Anarquia.
Anarquia, porque
atualmente, a Performance não se encaixa em nenhuma linguagem que conhecemos,
nem se pode afirmar (ou precisa ter um enorme cacife para assim fazer) que é
uma Arte específica: sabe-se que nasceu nas Artes Plásticas, apropriou-se de
elementos e técnicas do Teatro, Dança e Música, negou a palavra, reutilizou-a
posteriormente, e qualquer tentativa de conceituar a Performance tornou-se falha,
pois sempre surge alguém, que faz algo, que logo contesta e, ainda assim, não
sai da Performance... E nos questionamos: aonde se encontra a Performance, onde
ela se encaixa e, principalmente, é possível conceituá-la?
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| René Descartes |
Essa falta de
alocação e, claro, a necessidade da conceituação, nos remete diretamente a
Descartes. Está impregnado no TUTANO o que esse senhor apresentou ao Ocidente
em seu Discurso sobre o Método.
Ali, compreende ser correto e coerente que tudo que merece ser considerado
objeto de estudo deva ser esquadrinhado, dividido até onde se pode, e estudado
por cada uma dessas partes divididas até que se compreenda o todo.
Daí nasce o processo científico que conhecemos hoje, consequente de Descartes e
posteriores a ele que contribuíram com essa ideia. Se
Performance não tem conceito e, quando ganha um, passa a ser refutado, cria-se
a incômoda sensação de que, se não é conceituável, se não pode estar na
brochura de um livro, logo não é nada. Curioso, é que se não é nada, não pode
ter relevância, não pode influir em nada, mas é relevante e influi. Por que a
Performance, então, incomoda?
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| Fritjof Capra |
Fritjof Capra em
seu O Tao da Física afirma que a Ciência entra em uma
grandiosa transformação após passar por um longo tempo de calmaria. Einstein
revolucionou o campo da Física quando, em sua época, a Física Moderna se
contentava com as Leis Newtonianas, que durou por longo tempo, configurando o
tal tempo de calmaria. Antes de Einstein apresentar ao mundo a sua teoria da
Relatividade, a Ciência começava a sofrer uma decadência quando não conseguia
responder a determinados questionamentos. Capra, encontrando no Taoísmo a
explicação para certas coisas que a Ciência não consegue explicar, afirma que a
resposta para essa periodicidade pode ser encontrada no símbolo do Yin e Yang.
Um representa a razão, e outro a intuição e, quando um termina, o outro começa,
seja seu fim em uma ascensão, ou decadência. Partindo desse princípio
explicou-se como, por intuição, Einstein conseguiu revolucionar o campo da
Física e da Ciência, desbravando caminhos desconhecidos.
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| Exposição Alexandre Mury, galeria Laura Marsiaj, 2011. |
Que fique
registrado que eu falei isso, caso ninguém tenha dito. Acredito que a
Performance caminha nesse sentido, ainda contaminada pela razão - quando
trabalhada pautada na Pesquisa -, onde saímos do racional e retornamos aos
primórdios da Arte. Na necessidade de transgressão, na impossibilidade de
transgredir o século XX, retorna-se ao anterior e, nessa busca, a Performance caminha
para Ritual. Aí encontro outra palavra que defina a Performance: Ritual. Talvez
se explique, aí, a pouca necessidade de público, às vezes, a pouca importância
que se dá à ele; a riqueza dos símbolos; a ‘intuitividade’ clara e presente,
etc.
Resta-nos, as perguntas clichês: será esse
o novo caminho da Arte? Hoje, o que é Arte? Arte é razão, intuição, ou os dois?
O que vem depois do Ritual? Pra onde mais transgredir? Falo corriqueiramente,
quando se fala do ‘Teatro Contemporâneo’, que pra entender devemos matar Brecht
todos os dias. Realmente, devemos esquecer a empanada, o tablado, as coxias, a
palavra, o gestus, aquilo que é como é. Pra entender o contemporâneo, tem-se de
estar aberto aos símbolos e, pra cada um, tem o seu significado. Acredito que
essa é uma possível “Parte I”... não sei por quê.



