sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vazio

Já estou tão acostumado, que nem levanto mais da cama. Faço um mínimo de esforço apenas pra desligar o ventilador, porque ainda tenho uma certa consciência ambiental. Não durmo mais. E o canto dos pássaros na alvorada me irritam, e prefiro chorar do que gritar pedindo socorro. POR FAVOR! PAREM DE CANTAR! PRA QUE CANTAR? É SÓ O SOL! BILHÕES DE ANOS ELE É O MESMO!

Um. Dois dias. É o intervalo entre um sono e outro. Às vezes durmo dois dias seguidos, ou finjo que durmo. Fico só deitado de olhos fechados imaginando um mundo mais interessante pra mim. Já vejo vultos fora da casa. Vultos de pessoas querendo entrar. Todos eles querem entrar e eu estou com tanto medo. Tem uma bandeja caída no chão e o pote de café solúvel ficou aberto na noite anterior. Tenho mais de quarenta ligações não atendidas. Atendi uma. Era meu pai. Ele pediu chorando pra que eu saísse. Pra que eu fosse ir vê-lo... que fosse cuidar do cachorro que ficou doente. Tenho medo de sair. Prometo que vou, mas deito no banheiro e fico criando coragem - sem coragem. O dia acabou, e nem fui.

Sento num banquinho, na cozinha, esperando a água ferver pra um chá. Nada mais me apetece, nem o vício. Volto pra cama não sei porque, porque não tem nada lá. Meus pensamentos já estão muito altos, eles gritam. Tenho a impressão que falo com alguém. Me pego falando com alguém da cozinha e peço pra me trazer água. Nada vem.

As almofadas estão no chão. Ali tem uma aranha morta. Surgiu uma ferida na minha perna. Sinto dores no quadril. A campainha toca e finjo que não estou em casa. É só a correspondência, mas tenho indisposição até pra atendê-la. Já não enxergo direito pelo olho-mágico. Já não enxergo direito há muito tempo.

Esqueci o que é um abraço. Vejo as pessoas por um buraquinho da janela e dá vontade de pedir que me abracem. Nem as conheço.

Me olho no espelho, nu. Tenho nojo de mim. Não pelo que vejo, mas o que vejo por debaixo dessa carne. Ela é o reflexo do que vejo. E sinto nojo dos dois. Meus olhos. Percebo que o que sempre foi o meu orgulho, os meus olhos, já são dois globos opacos e sem vida. Meu sorriso está desagradável. Não suporto mais meu próprio cheiro. Semana passada dormi debaixo do chuveiro, e esqueci ele ligado. Às vezes não quero levantar nem pra fazer as minhas necessidades. Fico sentindo dores. Fico sentido fortes dores. E aí eu vou, mas só pra sentir mais dores.

Está me irritando a alegria dos outros. Está me irritando a cama de cima, que range sobre meu teto denunciando dois amantes felizes em gozada noite. Está me irritando a música melódica que denuncia uma adolescente apaixonada na sua varanda com sua samambaia. As janelas não se abrem mais pra essas coisas, pra evitar mais rancor. E então me irrito comigo mesmo, por me irritar com coisas boas.

Sinto-me culpado. Fico noites sem dormir pensando como sou cruel. Me desligo do mundo com algum filme. Alguma paleta de cores. Alguma imagem que me abstraia. A música ecoa em mim e volta vazia. Nem sequer me relembra amantes, ou discórdias. Não tenho mais luto. Não tenho mais medo. Não tenho mais preocupações...

... nem sequer preocupações!

Esse silêncio me irrita.

ESSE SILÊNCIO ME IRRITA!

ESSE SILÊNCIO ME IRRITA!

SILÊNCIO!

IRRITA!

Olho no relógio e me surpreendo com o quanto que o tempo se passou...

Um mês...

       Dois Meses...

              Seis...

                     Um ano...

                             Dois...

Cheguei. Cheguei até aqui e não consigo afundar mais. E é escuro... como o quarto. Olho pra cima e vejo várias silhuetas. Ouço ecos de vozes pedindo pra que eu não faça isso. Alguns desistem. Não os culpo. Deito e sinto a água cair no meu corpo. Sono. Muito sono. Ainda tenho algumas pílulas... Não há com o que se preocupar, ainda tenho algumas pílulas. E uma seringa. E uma faca. Não lembro porque deixei levarem as cordas... mas tenho o suficiente pra dar fim quando não for mais suportável...

mas

     já


        está


  tão



insuportável!


Toda sexta-feira me arrumo. Espero alguém. Espero que ele venha tocar a campainha. E eu espero.
Não sei bem o que diria. Tenho vergonha que ele me veja assim, então me arrumo o melhor que posso. Ensaio um sorriso que esconda meus dentes. Não sei o que diria. Acho que começaria dizendo que eu sabia que ele viria... talvez pedisse perdão por ter sido covarde... Não. Não sei o que diria.

ESSE

                   SILÊNCIO

                      É

                                                   INSUPORTÁVEL!

(Postagem sem título)

(Corpo do Texto)





















Corpo enterrado...




















Eu me enterrei...

sábado, 17 de agosto de 2013

à dois... de um...

De tudo o que podemos ter na vida, iludimo-nos e esquecemos do efêmero. E de tudo o que nos ditam, o efêmero não é tolerado, ou não toleramos a sensação da efemeridade. Pois de tudo não toleramos que seremos nada. E do nada lembramos que não podemos tudo, e isso é tão desolador.

Pois que, em vão então, procuramos de tudo para que satisfaçamos o nosso nada, e no nada contemplamos a frieza de nós. E na efemeridade assistimos a invalidação de tudo, pois que tudo se fará nada. Pois em dúvida criamos certezas, e em certezas nos satisfazemos em esperança.  Mas que basta a esperança para que duvidemos das certezas, e novamente, contemplamos o nada ainda por preencher.

Pois que esqueçamos o nada, e nele não façamos moradia nem da esperança, nem da certeza, nem da dúvida. Pois que o nada a preencher-se não se completa, nem o tudo se alcança. Pois que adianta o tudo que breve se torna o nada?

Afinal, para que nos serve o nada? Pois na esperança valida-se a dúvida, e na dúvida, corrói-se a certeza. E portanto é inválido que busquemos o tudo? Por certo que não. Pois na busca do tudo, esquecemos do nada, mas sabendo do nada, lembramos que não temos tudo. Portanto, que nos é dado a chance de buscar a sublime degustação de ambos. E que dure tudo até que se complete nada, e que ao fim vejamos calor de ambos. Assim, ao contemplarmos tudo que alcançamos, não pensaremos em nada. E ao contemplar o nada, não invalidemos todo o resto.

Portanto, superado isto, não tememos que tudo até aqui possa vir a ser nada. Nem que temendo tudo, nada seja bom. Pois que em ambos não olhamos para trás para rememorar, nem adiante olhemos para que façamos as moradias da esperança, da dúvida e da certeza. Pois que até aqui, nos satisfazemos no efêmero, pois efêmero sendo, não será dada outra chance. E se dada for, não nos confundamos com a eternidade.

Amar, aprender, ler, cozinhar, comer, beber, fazer sexo, beijar, fumar, comprar, vender, ganhar, perder, sorrir... pois que ao fim nada se torne, não importa, tivemos tudo. Amar, aprender, ler, cozinhar, comer, beber, fazer sexo, beijar, fumar, comprar, vender, ganhar, perder, sorrir. Pois que não tido isso, não adianta buscar tudo... efêmeros seremos em nada.

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A um grande amigo, que sem saber, roeu diversas cordas invisíveis, e que não sendo todas, foi suficiente para aliviar. Obrigado. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A busca pelo frango frito perfeito.

Cansei de ser cabeçudo. É legal escrever no meu blog sobre arte, sobre crítica teatral, sobre política... me faz refletir sobre essas coisas. Mas cansei. Vamos falar trivialidades! E a trivialidade de hoje é: a busca pelo frango frito perfeito.

Minha avó, D. Sarah, ela conseguia fazer um frango fito que ficava PERFEITO! Não tinha aquele cheiro horroroso de frango de granja, que aqui no Amazonas chamamos de pitiú (o cheiro da galinha, não a galinha). Enfim. Meu pai usa vinagre, vinho (quando rola um vinho), alho (muito alho, e eu adoro), pimenta do reino, sal, e se rolar, um temperinho Sazon - porque ninguém é de ferro e tempero industrializado é um primor da invenção humana. Isso resolve o cheirinho incomodo do frango, e dá um super sabor. Mas o frango da vó Sarah era sequinho, mesmo frito. Meu pai consegue deixá-lo suculento, apetitoso. Vó Sarah, não. Ela deixava o frango dela crocante, mas sem aquele óleo entranhado na carne.

De uns tempos pra cá, vi que tinha na geladeira uma riqueza de coxas de galinha, e que na preguiça do dia a dia, parar pra temperar, esperar apurar e fazer o frango seria um sacrilégio. Tomei coragem. Estava eu e meu primo em casa, nada pra comer, então fui temperar rapidinho (que nem meu pai ensinou). Lá pelas tantas, enquanto deixei o frango apurando o tempero, lembrei que tinha sobrado um trigo do último empadão que fiz - meu pai chama de "empadão", mas pra "torta de carne", tanto faz. E lembrei de OUTRO frango frito, que pra mim também era perfeito: O frango frito da Vó Neuda (Vó Sarah, mãe de mamãe, falecida. Vó Neuda, mãe de papai, viva - só pra esclarecer). Uma vez, e desde que eu me lembro, nunca mais, a vó Neuda achou de fazer frango empanado. NOSSA. Que era aquilo... O Frango tinha uma crosta tão crocante, tão deliciosa... e a carne não estava rosadinha ou meio crua. Estava PERFEITA. Sem o cheirinho incômodo, sem um sabor estranho da carne, sem o azeite entranhado... era PERFEITO. Daí, eu separei três partes do meu frango temperado para os experimentos.

Uma, eu ia fritar como meu pai frita: espera a carne fritar, depois adiciona o molho do tempero na frigideira, pra, depois de frita, cozinhar no próprio molho. Fica uma delicia, suculenta. Mas com cuidado: se colocar o molho muito cedo, corre o risco do óleo queimar por completo o molho, dando gosto de queimado à carne ainda meio crua. Se colocar tarde demais, a carne vai passar do ponto, sem ter tido tempo suficiente para apurar o molho da frigideira. Só que ao contrário do modo de preparar do papai, fiz o seguinte: preparei numa vasilha o trigo, pimenta do reino, e cheiro verde bem picado. Coloquei mais óleo de soja na frigideira do que o normal, porque eu não queria que o trigo se desfizesse, nem a carne ficasse crua. Empanei as coxinhas, e coloquei pra fitar. Quando a crosta estava dourada, adicionei o molho do tempero em cima.

Resultados e Descobertas: O trigo normalmente se desfaz na frigideira, logo o azeite tem de estar BEM QUENTE, pra fritar rápido e não desfazê-lo. Só que isso gera um problema, a carne não frita bem, e até o ponto dela fritar bem, a crosta queima. Eu ainda estou pensando em como fazer, e aceito dicas. Meu pai falou que farinha de rosca é melhor que o trigo, só que já era tarde demais. Sobre o cheiro-verde no trigo: ficou bom. Não ficou ruim. Mas sabe aquela certeza de que se fosse outra erva, estaria MUITO melhor? Pois é. Assim que eu me sentia enquanto comia. Outro ponto: frango empanado, coma na hora. Depois eu fui percebendo que a carne absorveu muito do azeite, e, quando fomos comer no jantar, o azeite tinha passado da carne para a crosta, deixando ela meio melequenta - fiquei triste.

A segunda parte das coxas, eu tentei ASSAR. FICOU MUITO BOM. Eu coloquei as cochas numa bandeja de metal pincelada com manteiga, e depois, eu fiquei em dúvida se seria suficiente, então pincelei em cima com azeite. Distribui as cochas na bandeja, e coloquei no forno. Eu gostei porque ficou sequinho e a carne não ficou rosadinha ou meio crua. Mas como a manteiga derreteu, formou no fundo da forma um poça de azeite e manteiga que deixou um lado das coxinhas super molhado. Saboroso, fritinho, o terror de qualquer veia entupida (mas ainda assim saboroso). Dispensei o cheiro-verde, mantive a pimenta do reino, e ficou dez. O detalhe é que a crosta ainda não estava aproximado ao da Vó Neuda, pois estava fina de mais, e apesar de crocante, não era tanto.

Enfim, a terceira parte eu fritei normalmente, mas sem empanar. Nessa eu quase me aproximei do frango da Vó Sarah. Ficou sequinho, crocante, sem azeite entranhado. Mas como eu usei o tempero do papai, o gosto evidentemente ficou diferente. Mas textura, muito parecido.

Trivialidade culinária...

... como é bom, né?

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O irritante e desconfortável Centro (parte 3): neutralidade, ou liberdade de posicionamento?

Quero agradecer a quem está lendo os meus textos sobre Centrismo, e agora eu queria falar alguns dos meus posicionamentos sobre o assunto. No primeiro texto eu expliquei sobre os posicionamentos políticos classificados, e como eles abordam as posições de cada individuo sobre a economia, e sobre o social - ou seja, sobre as liberdades individuais de cada individuo dentro de uma sociedade. No segundo texto, abordei sobre o centrismo e uma das características dele segundo posicionamentos relativos à economia e às liberdades individuais. Agora, vou falar mais um pouco sobre o Centrismo, e sobre alguns equívocos que eu próprio tinha, e que durante o tempo que vim "pesquisando" para escrever os textos, e refletindo o assunto, eu passei a desanuviar mais a mente.

O primeiro ponto que eu queria abordar, é sobre a neutralidade. Geralmente pensamos - e assim pensei durante certo tempo - que um posicionamento centrista, seria um posicionamento neutro. Por exemplo: casamento entre homossexuais - seria de se imaginar que, como centrista, eu seria neutro sobre o assunto, o que seria uma inverdade. Em real, quando pensamos politicamente (na verdade sobre quase tudo o que pensamos sobre nossa sociedade, cultura, etc.), pensamos em outras coisas a qual a política abarca. É um campo vasto que tem dentro de si aberturas para outros campos vastos. Pensar sobre determinado assunto, quando nos propomos a pensar profundamente neles, é algo exaustivo. Os filósofos nascem a partir do momento que eles se dedicam a pensar profundamente acerca de determinados assuntos (ou temas, ou conceitos) em busca de uma verdade limpa de variáveis, ou seja, uma verdade máxima ao qual podemos nos debruçar e partir para várias possibilidades. O que acontece com o posicionamento político, é que por ele ter essas várias aberturas, não conseguimos achar uma verdade máxima ao qual podemos partir em busca de respostas. Se eu tenho um posicionamento tomado como uma verdade máxima, quando eu caio em uma destas aberturas para outros campos vastos, posso me descobrir com um posicionamento aproximado do oposto do qual me defini - ou distante demais do que imaginei que fosse.

Então eu pensava que o posicionamento em um espectro político era algo fixo, mas então fui percebendo (e como essa terceira parte é mais sobre uma reflexão minha, não saí a caça de alguém que tenha teorizado isso) que na verdade, o posicionamento político além de ser um ponto em determinado espectro, seria também um centro do qual podemos partir flexivelmente por uma área estabelecida. Vou usar o meu posicionamento como exemplo. Calhou de meu resultado ser centro-esquerda, e portanto, este é o ponto. Ele define a área pelo qual esse ponto pode transitar segundo o posicionamento acerca de um determinado assunto. Se eu for me posicionar sobre transporte público, provavelmente eu vou estar mais aproximado da esquerda liberal, na contrapartida que se eu for me posicionar acerca de aeroportos, eu vou estar mais aproximado de uma direita-liberal. Ou seja, o meu posicionamento, além de um ponto no espectro, também é o ponto de partida de uma área pelo qual eu transito.

Isso me leva a uma liberdade de posicionamento, logo, uma posição num espectro não é suficiente para apresentar possibilidades de posicionamento, muito menos limitação reflexiva. Mas pode apresentar as tendências que eu geralmente tomo quando me posiciono, e, reforçando, essas tendências ainda são vastas para apontar possibilidades. Por exemplo: alguém me questiona meu posicionamento sobre apoio financeiro à companhias de teatro. Seria errôneo alguém afirmar que por eu, Iago, ser de centro, não apoio a total dependência destas companhias do Estado. Porque meu posicionamento é contrário. Assim como se me questionam sobre Reforma Agrária, se eu fosse de Esquerda, as pessoas já afirmassem que eu apoio a intervenção do Estado. Não, eu defendo a propriedade privada. Se o estado quer minha propriedade pra dividir com quem não tem, ele que compre de mim minha terra. Percebem?

Então, pra que saber o posicionamento político? Eu encaro a função do saber o posicionamento num espectro político como qualquer outro tipo de saber, aquele que eu utilizo para sobreviver em determinado meio. Saber que eu sou Centrista, pra mim, serve para eu ter uma base sobre a qual eu reflita, e parta para encontrar outros posicionamentos acerca de qualquer assunto. Serve para que eu tenha consciência de certos posicionamentos meus, e as possibilidades pelas quais esse posicionamento pode transitar e, quem sabe, abrindo minha mente para outros novos posicionamentos, e/ou pensamentos, e/ou idéias. Uma posição de Centro, como eu ensaiei nos outros dois textos, pra mim, é a possibilidade de transitar entre os vários pensamentos políticos existentes hoje, refletindo sobre eles, e selecionando aquilo que me serve - no caso, segundo uma reflexão daquilo que eu tomo por certo ou errado; segundo os meus preceitos e os paradigmas no qual estou inserido.

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Sem link de referência... como é bom escrever sem ter a obrigação de sair justificando e embasando com idéias alheias...

... mas tem sugestão de link. Só um:

Não se defina (Clarion)
http://www.youtube.com/watch?v=LV41BBZ0_iY
(Tem a parte 2, mas lá vocês encontram o link pra essa...)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O irritante e desconfortável Centro (parte 2): Ensaio sobre Centrismo ou o que dele esperar.

No último post sobre Centrismo, "O irritante e desconfortável Centro (parte 1): aonde fica um posicionamento sem ir a extremos", eu falei sobre o Diagrama de David Nolan, que mostra os cinco posicionamentos políticos (Direita, Esquerda e Centro, Progressismo e Estadismo). Sobre cada um dos posicionamentos políticos classificados, há algumas principais correntes de pensamento que se pautam na opinião individual de um ser em relação ao seu Estado, e se este deve, ou não, ser intervencionista. Essas intervenções se pautam em dois critérios, que é o econômico (de onde extraímos a maior parte dos nossos recursos financeiros atuais) e aquele pautado na liberdade pessoal. Falei também sobre o Centrismo, e como esse posicionamento político não atinge extremos - ou seja, está sempre flertando com medidas ora de Direita, ora de Esquerda, e nunca passa disso (o Libertarianismo e o Totalitarismo são extremos além dos extremos, ou seja, não seria possível que decisões Centristas alcançassem esses ultra-extremos).

Antigamente, durante boa parte do século XX, se falava muito da Direita e da Esquerda. Era um pensamento recorrente e bipolar que não dava conta do quadro mundial pós-moderno, e portanto, traçou-se uma linha paralela para definir outros posicionamentos políticos. Na verdade, outras variáveis mediadoras. Além de alguém ser de esquerda, por exemplo, essa pessoa poderia ser libertária - ou seja, preza pelo social, e também pelas liberdades econômicas. O Centrismo, nesse caso, nunca ganhou uma definição fechada, e o máximo que se pode falar sobre ele é divagatório (e sinceramente não encontrei nenhum "tratado" sobre centrismo).

O Centrismo vai surgir delineado em um diagrama com o David Nolan, ganhando um espaço próprio, onde um ponto (o seu posicionamento) pode se localizar mais próximo de qualquer extremo. Caso esse ponto ultrapasse as fronteiras do centro, ele pode situar-se em um posicionamento político de fato. Sobre o Centrismo: é o único pensamento político que, além de possuir consciência de que sua sociedade nunca poderá ter o mercado totalmente livre, também sabe que as liberdades de seu povo, se postas em prática em sua totalidade, podem ser prejudiciais e, diferente do Totalitarismo, não possui nenhum interesse em intervir sem levar em consideração as liberdades pessoais. Percebam que, assim como a Direita, o Centrismo não tem pudores de intervir nas liberdades pessoais, assim como não se pudora em mexer nas liberdades econômicas, tal qual faz a Esquerda. Isso parte do pressuposto de que liberdades sem freios, sem filtros, são possíveis de confrontar-se, gerando uma situação - na pior das hipóteses - caótica, e caos, apesar de ser a origem de muita coisa (ou praticamente tudo), ele gera a total destruição de algo pré-existente.

Alguns progressistas (e alguns radicais, como os anarquistas) podem achar que gerar coisas novas e novos paradigmas é algo positivo, mesmo que esse algo novo nasça do caos. Mas é impossível se destruir tudo para gerar algo novo, porque o preço a se pagar é muito alto. Nesse ponto, o Centrismo nunca chegará a extremos, impondo progressismos ou conservadorismos, como seria numa política Totalitarista, que intervém em absolutamente tudo - geralmente, sem consulta, argumentação, ou aval popular. O Centrismo preza pela liberdade econômica, porque desta sai os recursos que permitem que seu povo tenha a sua liberdade pessoal resguardada; e no entanto, se faz importante regular filtros para que ambas não degringolem. Resumindo, podemos vislumbrar a busca por uma harmonia que transcende as formas de um Estado administrar - implica em buscar estabilização e equilíbrio, sendo o desenvolvimento algo natural (e não imposto).

Como possui características ora da Direita, ora da Esquerda, ele flerta com ambas e entre essas características, ele mantém um pouco do conservadorismo da Direita: o progresso acelerado pode ser problemático; e também mantém em foco o progressismo da Esquerda: o progresso existe, e a sobrevivência de uma nação depende da adequação à ele, assim como existem as dinâmicas sociais que, com o mundo globalizado, são rápidas, e portanto, o Estado precisa acompanhar tais dinâmicas e as liberdades individuais dentro de cada novo paradigma que surge. Isso tudo precisa ocorrer de forma muito natural, sem intervenções, mas acompanhando esse processo evolutivo de uma sociedade. Ele busca ACOMPANHAR as dinâmicas sociais, e garantir que elas aconteçam de forma segura, sem extrapolar. 

Sobre isso, eu vou dar um exemplo, que é fictício: Imagine o Brasil nos primeiros anos da chamada revolução sexual. Antes dela, vigorava os tabus religiosos. Depois dela, certas liberdades pessoais surgem, e uma parcela da sociedade clama que essas liberdades sejam garantidas, ou seja, não corram o risco de serem proibidas de nenhuma forma possível de fazer com o seu corpo o que bem entenderem. Nesse novo paradigma, os homossexuais decidem que não é preciso mais de segredos, que eles querem andar nas ruas de mãos dadas como as outras pessoas, querem ter o direito de se casar, de constituir família, de deixar seus bens em herança para seus cônjuges, etc.  O que aconteceu: teve o golpe militar, ou seja, o Totalitarismo entrou (não por um acaso, um Totalitarismo tombado pra Direita Conservadora), e saiu prendendo, torturando e matando. O que aconteceria se houvesse uma Estado Centrista? O Estado, muito provavelmente não buscaria intervir, mas como sabemos que há a parcela Conservadora, um grande debate iria surgir, e o máximo que o Estado tentaria fazer seria promover um diálogo entre os dois lados, e propor políticas públicas voltadas para intolerância sexual na área da educação, saúde, cultura, etc. E no máximo, proporia para o Legislativo a discussão de leis que atendam as reivindicações dessa classe da sociedade que surge.

Agora, vamos supor que com os homossexuais mais liberais surgindo no cenário, comece a aumentar consideravelmente o índice de violência contra homossexuais. Seria de se esperar de um Estado com uma postura Centrista, que ele intervisse nessa situação. Aqui, o Estado perde o seu pudor de intervir, independente do fato dele afetar outros direitos - como por exemplo, o de opinião alheia sobre "a homossexualidade ser algo que merece ser extirpado". Muito provavelmente, um Estado Centrista bem estabilizado não precisaria de uma intervenção severa como esta, e o esperado, era que suas políticas de educar a população para o novo paradigma, bastasse. Aqui, percebe-se que o Centrismo é aberto às mudanças naturais, sem importar-se em intervir para acelerá-las, ou reprimi-las. Além de ter um "quê" de vanguardismo, ou seja, estar atento aos novos paradigmas que possam vir a surgir, e pensar em como lidar com eles sem uma interferência negativa.

E isso é um exemplo de intervenção estatal centrista à um fenômeno social. O mesmo seria feito por um Estado Centrista com um fenômeno econômico. Exemplo fictício breve: uma determinada multinacional de tabaco se instala no país. Apesar de atender todas as exigências pré-estabelecidas, a multinacional encontrou brechas legais que a permitam explorar mais que o devido determinados pontos do comércio, que começam a gerar monopólio na comercialização do tabaco. Seria de se esperar de um Estado pautado em políticas centristas, que intervenções fossem feitas para que uma indústria nacional, por exemplo, entrasse em pé de igualdade com a multinacional - ou que incentivasse mais a agricultura familiar que trabalha com a cultura do tabaco (como o cooperativismo, por exemplo). Isso influenciaria os preços, que poderiam aumentar, ou diminuir - e no caso de um monopólio quebrado, a tendencia é diminuir (e isso ainda é relativo). Só que assim como na situação dos homossexuais, um Estado Centrista bem estabilizado não teria grandes problemas nesse sentido, uma vez que provavelmente, as exigências pré-estabelecidas já poderiam ter sido pensadas prevendo determinados problemas, ou a permissão da vinda da multinacional só seria dada, se o governo tivesse um mínimo de certeza de que isso não influenciaria negativamente a economia do tabaco como um todo.

Parece utópico, né? Pode-se dizer que é quase. Estados centristas geralmente só se desenvolvem bem, quando se encontra um terreno político e econômico estabilizado. No Brasil, Tancredo Neves só teve oportunidade de exercer uma política centrista, porque as condições e dinâmicas sociais naquele momento eram propícias. Como ainda há uma grande instabilidade política, ainda advinda da Guerra Fria, a Direita passou a ser alvejada como vilã, e a Esquerda como grande decepção. Surgem aí outras saídas. Quem nunca viu na timeline do facebook alguém desejar a volta da Ditadura? Quem nunca ouviu falar de Libertarianismo, ou Anarcocapitalismo? Exemplos de pensamentos de extrema-direita e totalitaristas que surgem, quando nada mais serve.

Assuntos que abordam temas sociais, como fome, miséria, etc., não estão mais nos livros apenas. Com a globalização e o surgimento da rede mundial de computadores - e com o aumento de usuários dessa rede -, as pessoas estão entrando mais e mais em contato com tais assuntos. Um comercial de TV que fala que tudo está perfeitamente bem, não engana mais. As discussões sobre temas sociais, já saíram das rodas intelectualmente elitizadas e estão se popularizando mais. A "vilanização" da Direita ainda não morreu, e a Esquerda está deploravelmente desacreditada. Mas o que é interessante observar: mais e mais surgem pessoas que, bem ou mal, estão se politizando - sobre a politização de internet e o ativismo de sofá vou fazer um texto a parte, quem sabe -, e portanto, tomando consciência de que seus Estados devem atender às suas populações. Também estão tomando consciência, de que um capitalismo irrefreado é perigoso, ainda mais com a propagação de discussões de cunho ambiental, e os problemas que o planeta vem passando nesse sentido.

Onde mora o Centrismo nessas questões? O mundo está colapsando, e isso tem algum tempo. Os problemas sociais ainda existem, são difíceis e complexos demais pra se resolver, não havendo fórmula pronta e preparada - requerendo, portanto, um esforço intenso por parte do Estado para atuar em soluções pragmáticas. Soma-se a esses problemas sociais, a pressão popular que no inicio do século XXI se intensificou na busca pelas soluções de tais problemas, e pela busca das plenas liberdades. Os problemas ambientais se tornaram algo que está afetando a economia, a sociedade e a qualidade de vida. A economia mundial está fragilizada, e o Mercado não só é parte desse problema, como em alguns casos, é a origem do problema.

Como atuar? Os problemas se correlacionam, e portanto, as soluções (ou seja, as medidas estatais) devem ser "interdisciplinares". Por exemplo: no caso do Brasil, com a economia desaquecendo, a inflação aumentando, os gastos públicos extrapolando os limites da mordomia, as soluções seriam a desoneração do Estado em alguns casos (como a permissão para a iniciativa privada construir portos para desafogar o escoamento de cargas), que reduziriam os gastos excessivos do estado; o investimento pesado em infraestruturas planejadas não apenas para solucionar determinados problemas sociais e econômicos, mas que visem o progresso da economia (como por exemplo, o replanejamento urbano, a construção de meios alternativos de transporte, como linhas férreas para cargas, etc), que viabilizariam um atrativo para o investimento estrangeiro no país; e por último, uma reformulação nas administrações de determinados serviços básicos (como saúde, educação, segurança, etc); abrir mão de pudores em tornar efetiva a proteção das liberdades individuais (como a descriminalização de certas drogas, do aborto, do livre exercício de opinião e pensamento), se tornam saídas viáveis.

Quem tem PODER pra isso? O Estado. Quem tem CORAGEM de usar o Estado para atitudes assim? Vai saber... A Direita é castrada pela maioria conservadora, como a bancada evangélica. A Esquerda ainda possui muitos pudores de abrir mão de seus mecanismos de controle, e possui dificuldades em lidar com o Mercado, e muitas vezes, suas medidas são perigosas num cenário de economia mundial em crise. O Centrismo, no caso, iria desagradar gregos e troianos. A resposta, provavelmente, pode residir no espirito democrático, mas isso demora tempo. Seja qual for os posicionamentos capazes, o Centrismo é aquele mais aproximado de uma liberdade ideológica capaz de permitir uma livre transição entre políticas de esquerda e de direita, e de intervir não só pautado em ideologias, mas nas necessidades do seu povo.

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The Political Compass
(para saber seu posicionamento político. Está em inglês, e não leva em consideração o centrismo)
http://politicalcompass.org/index

Diagrama de Nolan
(Outro teste para saber o posicionamento político, em português, e considerando o centrismo como posição política)
http://www.diagramadenolan.com.br/o-que-e-o-diagrama-de-nolan?locale=pt

Blog "A Matrix Política", com artigo sobre Espectro Político, e o Diagrama de Nolan.
http://matrixpolitica.blogspot.com.br/2012/08/espectro-politico-3-aplicando-o-grafico.html