Recentemente li o artigo O diálogo Fedro de Platão como meta-dialético, da professora Maria Cecília L. Gomes dos Reis, do Centro de Ciências Naturais e Humanidades da Universidade Federal do ABC, e fiquei muito absorto com alguns paralelos mentais que tracei com a realidade do Teatro feito em Manaus. Fedro era um jovem que encantou-se por um momento com um discurso do orador Lísias, que tratava da escolha dos jovens sobre com quem estes devem deitar-se: se com aqueles a quem amam, ou aqueles à quem não devem amor algum. Não é novidade que, na Grécia Antiga, era natural que a maioria dos homens mais velhos selecionassem para si um varão para manter como amante, afim de introduzi-los (olha o trocadilho maldito) à vida pública. A sociedade grega daquela época achava isso normal. Mas o que Lísias propunha, era que se os jovens fossem seduzidos pelo amor em sua escolha a quem ceder, certamente não teriam tantos ganhos quanto àquele que escolhessem racionalmente, que de fato lhes desse algum retorno. Fedro, então reproduz o discurso de Lísias para Sócrates, e Sócrates faz a sua réplica, desmantelando o discurso de Lísias e demonstrando os tipos de amor, mas sem que este fosse seu objetivo. Seu objetivo era demover Fedro do caminho que seguia para longe da Filosofia, e do verdadeiro Discurso.
O artigo, publicado no periódico Sala Preta (v.14, n.2, p. 72-84) da USP, fala deste texto de Platão, mas na perspectiva de que Sócrates usou da performatividade para atingir Fedro. Também, de como Platão usava-se da dramaticidade para cunhar textos com fins didáticos. Mas o que me suscitou mesmo, foi a história de Fedro.
Sócrates via no interesse de Fedro pelo discurso de Lísias um talento para a Filosofia, mas este seguia-se seduzido pelos sofistas e seus belos discursos. Sócrates tomou, então, como posicionamento ético, fazer com que Fedro se distanciasse desse caminho equivocado, e seguisse pelo caminho da busca pela Verdade, com a qual tratava a sua Dialética.
Traçando paralelos para Manaus, o que observo são dezenas de Fedros que possuem enorme talento teatral, interesse, disponibilidade... solos fecundos para a arte dramática. Mas tais Fedros ainda seduzem-se por belos discursos infundados de Lísias. Fedros que seduzem-se pelos ganhos e não pelo amor à Arte - e mais me horroriza é quando é uma escolha completamente consciente e deliberada. Me pergunto, será que não é perceptível que um Teatro assim, é exatamente distanciar-se do Teatro de Verdade? Falo do Teatro como sacerdócio, como caminho de elevar-se espiritualmente, corpo e intelecto, tensionamento entre consciência e abstração. Os Lísias que dirigem esses grupos arrolam em seus ensinamentos apenas a inconsciência e a abstração. Não nutrem seus pupilos, não põe-lhes o antebraço sob os pés dos recém-nascidos na arte para que estes propulsionem seu engatinhar. Ao contrário, a partir do momento que aprendem a andar na arte por si só, os abandonam, renegam. Interessam-se pelos mutilados, pelos facilmente seduzíveis, pelos talentos natos.
Se faz necessário hoje posturas como a de Sócrates. Sócrates seguia muito bem seu percurso de buscar a Verdade. Não era carente de seguidores, muitos encantavam-se pelo seu modo de vida, pela sua busca por uma verdade, pela sua sabedoria. Mas Sócrates entendeu que era uma posição Ética sair de seu conforto, dirigir-se para fora dos muros da cidade, junto à um regato, num dia verão, ao som de cigarras, para tentar convencer um jovem de que o caminho pelo que este seguia não iria à Verdade, mas a uma ilusão desta. A beleza do discurso nada mais fazia que mascarar vazios. É a paciência e a persistência de Sócrates de que necessitamos. Fedro, apesar de convencido de que o discurso de Lísias não era aquilo que parecia ser, ainda assim não havia sido atraído para a Filosofia, para o caminho correto da busca pela Verdade. Sócrates, novamente, reinicia sua tarefa de convencê-lo, parando somente quando conseguiu. Eis um problema da tal relatividade. Falta-nos persistência para demover os Fedros de seus caminhos desastrosos, mas também a escolha de se propor à isto. É de se esperar pensar: mas ele quem escolheu este caminho, é de seu livre arbítrio. Mas um espírito acorrentado precisa ter suas correntes quebradas, tornar-se livres, para que só então se deem conta que de fato possuem livre arbítrio.
Para ser Sócrates aos Fedros, e para ser Fedro em busca de um Sócrates, é preciso reconhecer que a diferença entre um Sócrates e um Lísias, é precisamente o caráter investigador, questionador, irrequieto, uma alma perturbada pela necessidade de alcançar a Verdade.
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Iago Lunière - amante de informação boba, gasta pelo menos duas horas do seu tempo na frente do computador vendo vídeos de gatos e cães enquanto deveria ser acadêmico do curso de Teatro.