quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Fedro... uma espantosa metáfora.

Recentemente li o artigo O diálogo Fedro de Platão como meta-dialético, da professora Maria Cecília L. Gomes dos Reis, do Centro de Ciências Naturais e Humanidades da Universidade Federal do ABC, e fiquei muito absorto com alguns paralelos mentais que tracei com a realidade do Teatro feito em Manaus. Fedro era um jovem que encantou-se por um momento com um discurso do orador Lísias, que tratava da escolha dos jovens sobre com quem estes devem deitar-se: se com aqueles a quem amam, ou aqueles à quem não devem amor algum. Não é novidade que, na Grécia Antiga, era natural que a maioria dos homens mais velhos selecionassem para si um varão para manter como amante, afim de introduzi-los (olha o trocadilho maldito) à vida pública. A sociedade grega daquela época achava isso normal. Mas o que Lísias propunha, era que se os jovens fossem seduzidos pelo amor em sua escolha a quem ceder, certamente não teriam tantos ganhos quanto àquele que escolhessem racionalmente, que de fato lhes desse algum retorno. Fedro, então reproduz o discurso de Lísias para Sócrates, e Sócrates faz a sua réplica,  desmantelando o discurso de Lísias e demonstrando os tipos de amor, mas sem que este fosse seu objetivo. Seu objetivo era demover Fedro do caminho que seguia para longe da Filosofia, e do verdadeiro Discurso.

O artigo, publicado no periódico Sala Preta (v.14, n.2, p. 72-84) da USP, fala deste texto de Platão, mas na perspectiva de que Sócrates usou da performatividade para atingir Fedro. Também, de como Platão usava-se da dramaticidade para cunhar textos com fins didáticos. Mas o que me suscitou mesmo, foi a história de Fedro.

Sócrates via no interesse de Fedro pelo discurso de Lísias um talento para a Filosofia, mas este seguia-se seduzido pelos sofistas e seus belos discursos. Sócrates tomou, então, como posicionamento ético, fazer com que Fedro se distanciasse desse caminho equivocado, e seguisse pelo caminho da busca pela Verdade, com a qual tratava a sua Dialética.

Traçando paralelos para Manaus, o que observo são dezenas de Fedros que possuem enorme talento teatral, interesse, disponibilidade... solos fecundos para a arte dramática. Mas tais Fedros ainda seduzem-se por belos discursos infundados de Lísias. Fedros que seduzem-se pelos ganhos e não pelo amor à Arte - e mais me horroriza é quando é uma escolha completamente consciente e deliberada. Me pergunto, será que não é perceptível que um Teatro assim, é exatamente distanciar-se do Teatro de Verdade? Falo do Teatro como sacerdócio, como caminho de elevar-se espiritualmente, corpo e intelecto, tensionamento entre consciência e abstração. Os Lísias que dirigem esses grupos arrolam em seus ensinamentos apenas a inconsciência e a abstração. Não nutrem seus pupilos, não põe-lhes o antebraço sob os pés dos recém-nascidos na arte para que estes propulsionem seu engatinhar. Ao contrário, a partir do momento que aprendem a andar na arte por si só, os abandonam, renegam. Interessam-se pelos mutilados, pelos facilmente seduzíveis, pelos talentos natos.

Se faz necessário hoje posturas como a de Sócrates. Sócrates seguia muito bem seu percurso de buscar a Verdade. Não era carente de seguidores, muitos encantavam-se pelo seu modo de vida, pela sua busca por uma verdade, pela sua sabedoria. Mas Sócrates entendeu que era uma posição Ética sair de seu conforto, dirigir-se para fora dos muros da cidade, junto à um regato, num dia verão, ao som de cigarras, para tentar convencer um jovem de que o caminho pelo que este seguia não iria à Verdade, mas a uma ilusão desta. A beleza do discurso nada mais fazia que mascarar vazios. É a paciência e a persistência de Sócrates de que necessitamos. Fedro, apesar de convencido de que o discurso de Lísias não era aquilo que parecia ser, ainda assim não havia sido atraído para a Filosofia, para o caminho correto da busca pela Verdade. Sócrates, novamente, reinicia sua tarefa de convencê-lo, parando somente quando conseguiu. Eis um problema da tal relatividade. Falta-nos persistência para demover os Fedros de seus caminhos desastrosos, mas também a escolha de se propor à isto. É de se esperar pensar: mas ele quem escolheu este caminho, é de seu livre arbítrio. Mas um espírito acorrentado precisa ter suas correntes quebradas, tornar-se livres, para que só então se deem conta que de fato possuem livre arbítrio.

Para ser Sócrates aos Fedros, e para ser Fedro em busca de um Sócrates, é preciso reconhecer que a diferença entre um Sócrates e um Lísias, é precisamente o caráter investigador, questionador, irrequieto, uma alma perturbada pela necessidade de alcançar a Verdade. 

---

Iago Lunière - amante de informação boba, gasta pelo menos duas horas do seu tempo na frente do computador vendo vídeos de gatos e cães enquanto deveria ser acadêmico do curso de Teatro.





domingo, 15 de fevereiro de 2015

A pecha de teórico

Eles estão sentados nos cantos das salas de debate e palestras, eles levantam a mão timidamente e sua opinião quase se confunde com uma análise semiótica e, muito provavelmente, ele já lhe irritou bastante com uma informação pela qual você não se deu conta, que poderia sequer fazer diferença para o que você fez de leitura de uma obra de arte, algumas vezes lhe faz sentido o que ele diz, e é um choque não ter percebido isso antes. Às vezes, não faz sentido algum, uma informação desnecessária é o que eles às vezes dão. Eles se chamam... teóricos!

Antes de mais nada, tratarei dos teóricos do teatro. Teóricos são profissionais muito importantes para diversos campos do saber, diversas disciplinas da ciência. Um teórico mais pop notável no mundo contemporâneo, Albert Einstein, apenas no campo teórico desenvolveu o conceito de relatividade, que foi suficiente para revolucionar não somente a Física, seu campo de conhecimento, mas também a Filosofia, a Arte, e as Civilizações Atuais - disclaimer: as influencias da relatividade na Filosofia aparentemente são objeto de crítica pelos físicos, que consideram a pós-modernidade como escola filosófica que se apropria erroneamente (e perigosamente) de alguns conceitos da Ciência, como o principio de incerteza de Heisemberg, por exemplo.

Isso é interessante de se pensar. Eles estudam, buscam, se perguntam, gastam horas observando os seus objetos de estudo... Mas chamar uma pessoa de teórico, em Teatro, ainda é uma verdadeira pecha. E isso, pra mim, é uma grande injustiça. Existe uma certa ojeriza quanto à teoria, como se esta fosse inútil, inqualificável dentro da Arte. Necessária somente em uma medida pequena, bastante o suficiente para o fazer artístico mais elegante e ponto, nada mais além. Isso tudo é advindo da binaridade Teoria x Prática, em que ambas se consideram opostos, cada um homogêneo, como água e óleo - não se misturam. Se pararmos para pensar melhor, isto se mostra é uma inverdade completa.

Teoria também é uma prática. Apreciar uma obra de arte também é uma prática, bem como analisá-la sob critérios sistemáticos, objetivos, enunciados sob rígida lógica. É no campo das teorias que a Estética, por exemplo, se desenvolve. Observar um processo criativo, descrever suas dinâmicas, desenvolver enunciações verbais sobre o pensamento estético, compete mais à prática da elaboração teórica do que à prática artística, pois ao artista, saber sobre os processos sinápticos do estudo de um texto dramático é tão importante quanto ao peixe ser fundamental saber de hidrodinâmica - parafrase de mal-gosto. Não digo que pensar teoria da arte não compete ao artista, seria perfeito se a bagagem teórica do artista fossem tão complexa como a bagagem prática. Mas o que se observa, é uma má disposição para com a Teoria, para com aqueles que se dedicam à ela.

O que hoje temos chamado de Crítica Genética, por exemplo, é um procedimento científico completamente voltado para a Arte e suas linguagens. A Filosofia da Arte tem corrido atrás do tempo perdido (milênios, desde a fundação da Filosofia Ocidental), e insistentemente tenta formular postulados para a Arte assim como no passado, os  filósofos se dedicaram a enunciar postulados para a Lógica, a Ética, a Dialética, entre outras temáticas. Neste sentido, a Estética sempre veio de carona nestes pensamentos, nunca de forma prioritária, mas sempre deixando em aberto para a subjetividade a sua compreensão. Existe, ao que parece, uma má disposição para refletir arte de forma sistemática, objetiva. É compreensível que Arte, em alguns momentos, é tão constituída de subjetividade que parece ser hercúleo a tarefa de enunciá-la por outras formas do pensamento. Minha simbologia para interpretar tristeza pode ser completamente diferente de Pedro, por exemplo, mas a nós dois compete lógica igual, a apropriação de signos de nossa vivência. Talvez seja essa disposição para refletir a Arte de forma subjetiva uma herança da Psicanálise? Ainda pensamos como no inicio do século, e já se faz mais que hora de darmos valor à objetividade tanto quanto à subjetividade, inclusive para que uma reflita sobre a outra. O pensamento objetivo sobre Arte parece ser inalcançável e, ainda impregnados pela relatividade, deixamos pra lá a tentativa de sua compreensão, como se isso não nos competisse.

É uma cama muito cômoda manter o conhecimento objetivo sobre Arte neste nível aqui em Manaus, mas foram as primeiras formulações de Arte que nos tiraram do misticismo xamãnico do inicio de nossa espécie - portanto, não seria a hora de darmos mais avanços para esse conhecimento? Tentar descobrir como transgredir a própria Arte? Juntarmo-nos àqueles que no restante do mundo se dedicam nessa árdua tarefa? Será que para isso, não seriam necessárias mais posturas objetivas?

Sobre todas estas temáticas, debruça-se o Teórico de Arte. E que avanços demos não só para a comunidade artística como um todo (não só na realidade de Manaus), mas para a sociedade, com as pesquisas acadêmicas. A história da Arte deu à sua mãe, a História, a capacidade de entender que uma obra de arte também é um documento analisável e enunciável por outras formas de pensar além do estético - podemos ler uma obra de arte como um documento histórico e entender o passado, assim como a um papiro. A psicologia cognitivo-comportamental e a neurociência começam a nos mostrar os caminhos pelos quais processamos o pensamento estético, e portanto, como fazemos nascer a Arte. A Sociologia, a Antropologia, e a Filosofia, tem nos dado ferramentas, perspectivas, modos pensar a Arte tão significativas que no último século produzimos mais conhecimento sobre a Arte do que o Teatro mambembe, ensinado oralmente de pai pra filho, produziu - e isso é só um exemplo.

Em Manaus, a prática da formulação teórica sobre Arte é muito recente - três décadas, pelo menos. Ainda nos desconhecemos, e não só no campo da prática artística, mas da pedagogia, por exemplo. O Teatro reclama de seu público quase imutável, quando sequer sabe como se ensinam nas escolas municipais a leitura estética de uma peça teatral - é óbvio que novas gerações de platéia serão difíceis de se angariar. Fortemente ainda estamos presos a palcos italianos, quando pequenos focos começam a apontar para espaços alternativos - como é que vamos descobrir um Teatro genuinamente amazônico, se nem sobre estas pequenas transgressões globalizadas conseguimos entender? Ainda recorremos ao gestus  do inicio do século XX, quando o mundo começa a repensar a ambiguidade dos signos corporais do ator, propostas pela escola pós-moderna (o Teatro Contemporâneo). Ainda confundimos as exceções de vanguarda, quando nem sempre isso quer dizer um anuncio de mudança. Se paro pra pensar, como membro do Teatro de Manaus, que alguns grupos pesquisam estéticas pós-modernas, me assusta ser pego pelo raciocínio de que está havendo mudanças, pois traçando parâmetro com outros tantos grupo de Teatro, percebo que os primeiros ainda são uma minoria - e que a proliferação desses grupos, em alguns casos, não se deu pela adoção de uma estética, mas pela mitose de um grupo. Me assusta, mais ainda: qualquer formulação sobre esta realidade só fica no campo da suposição, na percepção subjetiva da realidade.

Falta-nos mais pesquisa, mais conhecimento epistemológico sobre nós mesmos. A pecha de teórico precisa começar a ser repensada, não ao ponto de dar louros a quem decide se dedicar à esta profissão, mas ao ponto de, como artistas, também sermos mais pesquisadores, mais formuladores de idéias epistemológicas. Talvez aí, resida uma chance de refletirmos concretamente sobre nossa realidade artística, para só então desenvolvermos mudanças igualmente concretas, transgressões potencialmente palpáveis.

---

Iago Lunière - amante de informação boba, gasta pelo menos duas horas do seu tempo na frente do computador vendo besteiras enquanto deveria ser acadêmico do curso de Teatro.