terça-feira, 10 de maio de 2016

Espaços Culturais Alternativos e Manaus

Espaço Ateliê 23, r. Tapajós, Centro.

Desde 2013 venho anotando uma coisa muito curiosa em Manaus: a fundação de espaços alternativos de cultura. É um fenômeno que tem me intrigado bastante e que ainda não consigo entender direito. Vejamos, com o início da era PT, políticas culturais interessantes (questionáveis, mas interessantes) foram postas em prática, o que rendeu à classe artística no Brasil uma maior prospecção além da costumeira. Antes de mais nada: não, não estou enaltecendo o que parece ser o partido mais odiado da nação, e no caso dos artistas de que falo, é aquele humilde artista que pra ter algum sustento, tentava de alguma maneira sobreviver no magistério, ou que possuía dois empregos, o de artista e o que de fato lhe rendia o sustento e investimento em sua Arte.

A crescente magnífica muito bem embalada pelo boom das commodities foi até 2008, a grande crise internacional. Antes do povo desesperar com os EUA aparentemente quebrando (lembro da sensação de que eu presenciava Golias caindo), por aqui correu o boato de que a crise viria como uma marola. Demorou, mas aqui, a crise chegou SIM. E não, não é coisa só nossa. A economia global está demasiadamente lenta na produção de riqueza. China, a máquina mundial onde tudo se produz, está com uma balança corrente em 2.7%, quando antes de 2008 estava acima de 10%. Estados Unidos, sequer rompeu o 0%. Em termos de crescimento anual do PIB, poucos países rompem a taxa de crescimento anual de 10%. China, antes de 2008, quase bateu os 16%*.

Okay, a breve aula de economia aí em cima é só pra demonstrar que entre 2002 e 2008, rolou um período muito bom. Bom mesmo! E isso de certa forma se refletiu na Cultura. Só pra gente se situar: no Brasil tivemos incentivos em forma de patrocínio, premiação ou incentivo fiscal de diversas modalidades, esferas de poder, etc.: para incentivar a formação de público consumidor de Arte, para levar Arte às periferias urbanas e comunidades periféricas e/ou rurais, para formação de artistas, para intercâmbio cultural e... o que me interessa pra esse texto: para a fundação de espaços culturais, ou como é/era chamado, Pontos de Cultura.

Em Manaus, entre as diversas queixas correntes dos artistas locais, havia a questão da inacessibilidade a espaços adequados ao exercício de sua arte. Falando de Teatro, temos pouco mais de dez teatros públicos, fechados, ou parcialmente abertos sob uma rígida e burocrática política mediada pelos inconstantes editais da Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas, liderada pelo mesmo secretário desde 1997.

Agora, o problema do quadro que descrevo: se de 2008 pra cá temos um desaquecimento da economia global e o Brasil está vivenciando fortemente tal crise agora, levando o Governo nas três esferas a realizar diversos cortes no erário público, seria de se esperar que os artistas seriam imediatamente afetados - como de fato, já estão em diversos casos. Mas a linha do crescimento de espaços culturais em Manaus cresceu. Como disse, desde 2013 venho anotando o surgimento de tais espaços. Primeiro, fui anotando os de Teatro, mas um fato curioso: os espaços não se fechavam somente para o Teatro, e transitam ali outras Artes: música, dança e exposições de Artes Visuais. Também servem de locais de lazer e encontro, mantendo em suas estruturas o funcionamento de um bar e ou eventos festivos direcionados a um determinado nicho: geralmente jovens, público LGBT, etc. Então o que define "espaço alternativo cultural"? É a primeira pergunta.

Estes espaços tem entre suas características o funcionamento múltiplo, primeiro, de Linguagens da Arte (Artes Cênicas, Artes Visuais, Artes Performáticas). Segundo, de função: espaço de prática e apreciação destas Artes; de função pedagógica, visto que é corriqueiro o uso para oficinas e cursos livres e a manutenção de um acervo próprio para consulta; e de entretenimento, a partir do momento em que são utilizados para eventos, festas, baladas, etc. Alguns espaços não acumulam todas estas características, e às vezes, sendo bastante seletivo quanto à sua função: alguns espaços não são utilizados, por exemplo, para entretenimento no sentido descrito.

Capa da fan page do espaço Casa de Chico

Somam-se, na minha conta, 14 espaços culturais em funcionamento, atualmente. Quer dizer, o mais expressivo destes seria o espaço do Teatro Experimental do SESC, mas este encontra-se ainda em reforma. O primeiro, suponho ser o da Cia. Pompal de Teatro, a julgar pelo tempo de existência do grupo, mas talvez o próprio espaço do TESC compita com ele, seria preciso averiguar as datas. Para não falarmos da Casa de Luz, que pouco registros possuímos e/ou trabalhos historiográficos deste espaço que foi de suma importância para as Artes em Manaus na década de 1970-80. O mais recente**, é o Espaço Chico, da Souffle de Bodó Company, companhia também recente e fruto do desmembramento da Cia. Cacos de Teatro. Só no ano de 2015 foram fundados três espaços alternativos: Espaço das Cias, comandado majoritariamente pela Cia. de Intérpretes Independentes; O Espaço Ateliê 23, do grupo teatral de mesmo nome; e o Espaço Uma das Artes, comandado majoritariamente pelo artista e performer Francisco Rider¹.

Coletivo Akasha.
R. Comendador Clementino, 439 - Centro.
Agora, a característica fundamental: em nenhuma instância há gerenciamento público do espaço. São iniciativas basicamente privadas, mesmo que para sua manutenção se faça uso de captações por meio de editais. Isso define o "alternativo" do termo, pois para os espaços públicos fechados (ou parcialmente e insuficientemente abertos) há estas outras opções. O que eu tenho percebido disto: é incongruente um crescimento numa hora mais errada, se pararmos para pensar economicamente, mas por outro lado, parece estar ocorrendo um fenômeno político muito importante aqui.

Acompanhei, em 2015, o grupo teatral Ateliê 23 em seu processo de montagem do espetáculo Persona - Face um. A montagem coincidiu com a ocupação do espaço e seu período de reforma. Em minha análise, descrevi como o espaço influenciou o processo, mas algo me ocorre agora: a importância do fato de ter o espaço em si. Houve uma liberdade e uma profundidade qualitativa no processo de criação, pesquisa e montagem do grupo só pôde ser viável graças à liberdade de uso de um espaço. Oportunidade de aprofundar-se demasiadamente naquilo que criavam, sem as amarras que são inerentes ao edificio público, são fatores importantes no processo criativo. Locais públicos de Manaus como Ideal Clube, Teatro da Instalação e, relativamente aqui incluso, o próprio Teatro Amazonas, impõe determinadas restrições por conta de seu valor arquitetônico e histórico. No espaço alternativo há perfeitamente a possibilidade de um grupo realizar determinados experimentos que, eventualmente, causem sujeira, danos parciais, etc. Há também a questão do tempo de uso. Na experiência com o Ateliê 23, presenciei o grupo se dedicando horas a fio, que no caso do espaço público, tem determinadas restrições por conta da mão-de-obra envolvida: porteiros, secretários, administradores, etc.

A manutenção a médio e longo prazo destes espaços dependem da captação de recursos cuja fonte primária é o setor público. E, mesmo assim, os artistas em Manaus estão paulatinamente tornando-se independentes do espaço público e, consequentemente, do poder vigente. Isso parece ser compatível com a noção de que Teatro e Poder Vigente são incongruentes um ao outro. O teatro facilmente promove dissenso, e muitas vezes toca ferozmente naquilo que é caro ao poder. Quando o setor público fornece meios de que tais espaços alternativos captem recursos, dificilmente ele terá poder de ação direta na questão política do grupo. Diferentemente, um grupo teatral que cai no desagrado de um grupo político, por exemplo, pode facilmente ver diversas portas sendo fechadas. Um paradoxo? Parece que sim. O que eu posso afirmar é que estes artistas em seus espaços saíram do território do poder público, apesar de ainda carecerem dos recursos dele. A diferença do estado anterior para o atual é que, agora, estes artistas têm mais regras próprias e menos regras impostas.

Vale lembrar que nestes espaços não circulam apenas o grupo fundador, mas também grupos sem espaço. Uma ação cooperativa deste modo implica não só num trânsito e intercâmbio cultural, como também uma ampliação das fontes de captação de recurso. Ou seja, dos espaços alternativos existentes, não são somente os grupos fundadores alcançaram essa posição mais independente, mas também aqueles que circundam e coabitam e que, eventualmente, já traçam seus planejamentos de fundar seu próprio espaço - afinal, trocaram apenas um espaço que não é seu e com regras incompatíveis às suas por outro. Esse fenômeno também é muito particular dos últimos anos. O próprio Ateliê 23 e a Souffle de Bodó Company, oriundas de um grupo anterior, a Cia. Cacos de Teatro (ainda em funcionamento), utilizavam à época do espaço Casarão de Idéias, da Cia. de Idéias, dirigida por João Fernandes. Hoje, os dois grupos possuem seus próprios espaços.

Mesmo o espaço público pode ser considerado alternativo. Vale lembrar da Escola Superior de Artes e Turismo que, eventualmente, cede seus espaços para as companhias utilizarem, graças ao vínculo institucional que alguns membros de tais grupos possuem com a Universidade do Estado do Amazonas - geralmente, alunos. Esse trânsito também é interessante de se perceber.

Em conversa com o diretor amazonense Nonato Tavares, quando à época eu participava de seu grupo, a Cia. Vitória Régia, antes dos ensaios no prédio do Ideal Clube, ele comentara comigo que uma saída interessante seria um edital bianual que cederia os espaços públicos à uma companhia local para que, neste período, realizasse ali não só o uso do espaço como também a sua manutenção. Manutenção no sentido de administrar os recursos, empregá-los de forma conveniente ao seu processo de pesquisa, captar seus próprios recursos. A iniciativa do Estado seria apenas na forma de ceder o espaço e fornecer recursos mínimos para a manutenção deste. Saída viável? Provavelmente. Haveria algum interesse político em uma ação desta magnitude? Sendo pessimista, creio que não. Se, caso houvesse, seria à base de um movimento social com força suficiente para gerar tal interesse.

Com esse cenário, agora, podemos trabalhar diversas perspectivas. Primeiro: o interesse coletivo de sediar-se no Centro da capital amazonense tem se demonstrado bastante aparente², logo levanta-se o questionamento acerca das periferias e, também, no novo acesso aos municípios de Iranduba e Manacapuru, que constituem parte do Centro Metropolitano de Manaus. Neste ponto, enfrentamos um possível problema de acesso destas comunidades, gerando o que poderia ser uma provável elitização (ou melhor, acesso para poucos e iniciados). Mas este fator não me parece ser de responsabilidade dos grupos que possuem a iniciativa de criar um espaço, mas sim, do poder público, que é quem tem maior capacidade de gerenciar o desenvolvimento urbano.

Um questionamento também válido, é de ordem estética. Tenho percebido e, claro, posso estar enganado, que em tais espaços há uma verticalização, um aprofundamento de estéticas contemporâneas (pós-dramático, performático, por exemplo)³. Isso é resultado da propiciabilidade qualitativa inerente a um espaço com regras próprias ao grupo e que possui maior independência e liberdade para aprofundar-se em suas pesquisas. Numa perspectiva maior, e levando em conta a dificuldade de acesso da comunidade periférica, fica uma indagação quanto a: 1. formação de espectadores e como tornamos acessível a arte teatral para comunidades que não estão acostumados à ir ao teatro; 2. o lugar da arte popular e, consequentemente, o exercício de uma prática teatral com características identitárias próprias da região Norte; 3. possibilidade de renovo antropofágico. Sobre este último ponto, quero falar precisamente de como importamos do sul e sudeste as idéias pós-dramáticas e performáticas, que por sua vez foram importadas de outros lugares, e como podemos deglutir isto e se apropriar e imprimir uma característica nossa.

Se um estudo fosse realizado, seria importante verificar: caso haja oportunidade para experimentar uma liberdade política maior do que aquela vivenciada no espaço público, essa liberdade é usufruída afim de causar efeitos, se não práticos, mas pelo menos indiretos no contexto sociopolítico (considerado o momento em que vivemos)? Novamente, uso o exemplo do grupo Ateliê 23, que trabalhou no primeiro semestre de 2015 a questão social e psicológica dos transexuais; ou o exemplo do Casarão de Idéias, que mantém seu evento Cênicas Autorais, afim de manter aquecido uma certa discussão sobre a escrita e publicação de obras de Artes Cênicas.

Tenho atualmente trabalhado na análise de artigos elaborados pelos alunos do curso de teatro da UEA na disciplina Análise dos Espetáculos 1. Nesta disciplina, os alunos vão até os grupos afim de acompanhar seus processos criativos e analisá-los, por meio de metodologia particular da crítica genética, ou crítica de processos criativos, e o que tenho notado, é que o espaço tem sido um fator muito importante para o exercício da arte teatral em Manaus e que, eventualmente, deve ser estudado. Este foi um dos motivos que me levaram a propor acima esta que tem sido uma percepção minha do tempo presente de nossa arte em nossa cidade, e também as reflexões que me assaltam ao perceber este quadro.

Mais uma vez (neste texto, mas tendo feito em outros também) advogo em nome do campo teórico, a partir do momento em que o registro do tempo presente é muito importante para que possamos discernir a diferença entre um conjunto de árvores e uma floresta. Precisamos ver a floresta, o conjunto, a totalidade. A problemática da concentração da prática teatral no Centro da cidade não nos era um problema até pouco tempo atrás. Pelo contrário, era uma solução, uma vez que o trânsito entre as demais zonas confluem para lá e, portanto, tem-se a sensação de que é o local mais próximo de todos. Mas agora, surge a problemática: a floresta é densa demais deste lado quando no outro só há restinga. Já é sensível, por exemplo, que quando dois espaços alternativos competem num mesmo dia e horário por público, um ou outro fica desfalcado. E mesmo tendo sido sensível algum crescimento no público, leve, quase imperceptível, capaz de ser notado por aqueles que frequentam teatro e já conhecem as faces de todos que compartilham da parte espectadora, mesmo assim, o público têm sido insuficiente para tanto***.  Não só como tarefa do teórico, o registro e pesquisa é um dever daqueles que estão inseridos nestes contextos e praticam. Registrar o tempo presente é tarefa de cada um na intenção de obter material de orientação existencial/temporal****. Tenho por opinião que também é importante para que deixemos de herança para as futuras gerações o que pensávamos, o que fizemos, como fizemos, onde erramos e onde poderíamos ter acertado - uma ação ética, digamos assim. 

De forma prática, serve para estarmos cientes de que um movimento novo ocorre e ele não surge do nada, mas é paulatino, latente, pouco a pouco. Se, hoje em dia, alguns consideram veementemente adquirir um espaço, penso naqueles que temeram. Fora necessário um primeiro passo, e ele vem ocorrendo. A cada novo espaço, uma comprovação de que é possível uma independência dos interesses políticos escamoteados no poder público.

A consciência do tempo presente pode nos alertar para as possíveis problemáticas que se constroem. O crescimento do PIB estadounidense, por exemplo, não consegue sair do negativo já há algum tempo, e não há perspectivas boas de que no Brasil ocorra diferente. A situação política, também, é desfavorável, uma vez que a cada tempo de crise a Direita se fortalece e a visão utilitarista se renova, e Arte e Teatro certamente não parece ser útil à visão da Direita.

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Notinhas pro texto não ficar mais maluco do que já é:

1 - Gente, desculpa as imprecisões no tempo de existência ou nome certinho dos espaços. Apesar destes dados serem completamente casuais, ou seja, registros que realizei ao acaso, é ainda impreciso. Vale lembrar que essa é a minha conta, daquilo de que tive acesso, visitando, sendo informado, convidado, e alguns grupos e companhias são de amigos. Se a gente fosse levar a sério qualquer pesquisa, poderíamos ir bem longe. Mas trata-se de um post de Diário Virtual, né... quer dizer...

2 - De novo, gostaria de dar precisão nisto. Mas os estudos de TCC da Carla Menezes (2015), graduada no curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas são bastante ilustrativos quanto à isto, demonstrando que os espaços culturais concentram-se fortemente na zona Centro e Centro-Sul da cidade. O material encontra-se disponível no acervo da Escola Superior de Artes e Turismo.

3 - Chego à essa conclusão com as experiências na Escola Superior de Artes e Turismo, em que, apesar das propostas de experimentação serem bastante diversas, parece ser uma tendência muito forte entre os alunos e grupos teatrais dos quais estes alunos se originam, e que comungam o espaço, de aderir à estéticas mais contemporâneas. Não há nenhum mistério no anseio de ser contemporâneo, claro. Mas talvez seja o ponto em que comecemos a refletir criticamente sobre isto.

* - Até a postagem desse texto, era o Espaço de Chico. Agora temos o Espaço do coletivo Akasha.

** - A fonte foi http://www.tradingeconomics.com/about-te.aspx. Além de checar os dados, sugiro muito que façam as comparações da situação brasileira com outros países e o contexto global para perceberem que não estamos sozinhos na situação atual.

*** - Sobre isto, indico a leitura de O Teatro é Necessário? (2014) do autor Denis Guenóun. Ele faz uma análise das diversas noções de espectador que tivemos ao longo da existência da Arte Teatral e chega à conclusão de que, hoje, o espectador vai ao teatro para ver a técnica, não a personagem ou a "imagem" de uma cena ou para entrar em um simulacro, e propõe que os grupos convidem as comunidades para aprender teatro, entenderem a técnica e, assim, teremos um respiro de nossa Arte.

**** - A memória nos serve para nos orientarmos no tempo presente diante de problemas atuais, servindo-se das experiências passadas. O termo orientação existêncial empresentei do historiador Jörn Rüsen - quem curte história, fiquem à vontade pra pesquisar.

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Iago Lunière - estudante de teatro, pesquisador, e já está cansado de limpar xixi de cachorro da geladeira.

Ética, ethos, teatro... Precisamos sentar pra conversar

Grandes temas tem girado em torno das discussões sobre o teatro em Manaus. É importante citar a necessidade de mais pesquisas que desmistifiquem algumas conclusões que repetimos como jargão para o quadro geral da cena manauara, e assim, conhecendo mais, saberemos se estão certas estas constatações sociais, políticas e econômicas do nosso cenário. Por exemplo, falamos muito acerca de uma abertura a novas estratégias de incentivo cultural por parte do poder público (estadual e municipal), mas que estratégias seriam estas? Será que elas dariam conta de um fenômeno manauara particular da última década, que é a abertura de espaços culturais fora do poder público? Porém, creio que todas estas discussões vêm a esbarrar com uma temática mais preliminar e urgente de se por em pauta: a ética/ethos da comunidade artística na cidade de Manaus.

Apesar do termo ética derivar do termo ethos (que no grego trata do caráter moral), atualmente essas palavras são um pouco desassociadas, dependendo da área de que é tratada. Aqui, assumo o ethos utilizado na antropologia, que trata dos hábitos e costumes, do comportamento que define um grupo - e, quanto a ética, tratemos como conjunto de princípios e valores morais.

É bastante delicado tratar dessas temáticas. Delicado, pois falar de ética e ethos na classe artística de Manaus torna-se debate escabroso quando esta comunidade é tão heterogênea e volátil. É difícil definirmos um grupo quando não o conhecemos sem isenções. A supracitada carência de pesquisas seriam interessantes para, conhecendo e descrevendo este grupo com o máximo de reservas, possamos destrinchar caminhos e debates diversos.

O curso de teatro da Universidade do Estado do Amazonas tem dado algumas contribuições nesse sentido, mesmo que de forma tímida. Não é difícil encontrar um trabalho que, em algum momento, esbarra com um dilema ético em processos criativos, como é o caso dos trabalhos que analisam processos criativos.

Quando o teatro em Manaus têm sofrido intensos ataques por diversas frentes (seja pela censura que se avoluma na academia, ou nos cortes de verbas e políticas públicas que afetam a produção local) e as reações parecem ser poucas ou quase ineficazes, especificamente quando os desacordos quanto ao ethos são postos à mesa, desarticulando defensivas, precisamos articular movimentos fortes de práticas éticas como necessidade de sobrevivência, e essa discussão não pode permanecer velha, mas aplicada.

Mas de que posturas (ethos) estaríamos falando, afinal, de que modo adotá-las e, portanto, assumi-las como modelo para garantir mudanças na cena teatral local? Para não falar das práticas antiéticas (evitemos por ora o termo criminosa) do uso indevido ou inapropriado das verbas públicas liberadas para o fomento da Arte. Foi triste saber da constatação de um colega de pesquisa que, ao debruçar-se sobre seu objeto de estudo (um grupo local), averiguou que o mesmo, apesar de ter recebido incentivos financeiros, pouco se dedicavam ao seu processo criativo, mantinham posturas de irresponsabilidade não só para com a arte da cena, mas para com o dinheiro público investido. Não é difícil lembrarmos de alguns grupos que, mantenedores de uma prática dedicada, não possuem acesso a tais verbas e, portanto, traçamos aqui um parâmetro para questionamentos: ora, por que a verba não tem sido direcionada ao grupo que melhor faria uso?

E como teríamos acesso a este relato, à estes casos? A abertura das companhias às investigações críticas de iniciativa acadêmica tem sido reveladora destes casos. Primeiro, que a presença de um estranho no processo criativo impõe a necessidade do grupo apresentar alguma seriedade, algum método, alguma coisa diferente de teatro por hobby e menos amador. Mas o mais interessante, são as relações de poder expostas. Será preciso, em algum momento, por exemplo, o fim da lógica de "começar pela coxia" que alguns grupos impõe aos seus atores mais jovens.

Em certa ocasião, aguardando o inicio de um espetáculo, um senhor veio me questionar porque os alunos da UEA são tão, segundo suas palavras, boçais. Cobram cachê desde o inicio, querem saber como será a divisão do recebimento do "prêmio", e por aí vai. De fato, ele não falou para mim, mas a um outro senhor sentado ao meu lado, mas fez questão de falar em alto e bom tom, comigo entre os dois. Hoje, lamento não ter respondido. Porque ser boçal, ao que parece, é ser um profissional como outro qualquer, que quer ter todos os termos de seu exercício de função devidamente esclarecidos entre ambas as partes - isto não seria uma postura ética, portanto?

Este é, ao meu ver, uma discussão ética que devemos entrar. E isto nada tem a ver somente com a questão teatral, mas lembremos dos constantes castings que são divulgados em grupos do facebook, pedindo atores e atrizes de toda ordem e característica, com cachês de R$ 100,00 (cem reais) para ter sua imagem veiculada em comerciais televisivos por tempo indeterminado. Ao meu ver, isto é um problema ético grave que precisamos averiguar. Qualquer "mercado" que queiramos abrir, qualquer ar de profissionalismo que queiramos dar ao teatro local, requer, em algum momento, passar por estas questões.

Outra exemplo se trata da postura que deveríamos ter em relação aos regulamentos e editais, em que pesem o respeito ao que neles consta. Sei que virou até uma piada interna de que, nos festivais, pelo menos uma vaga dos selecionados deve ser dedicada à uma grandiosa estréia. E me pergunto, sempre, duas coisas: qual a funcionalidade de um impedimento de estreias, e por que permitem quando é público e notório que o grupo/companhia montou, nas coxas, o espetáculo somente para adentrar no festival e ganhar o tal "prêmio". Este tipo de postura permissiva, apesar de lidarmos com bom humor algumas vezes, brincando de que "é café com leite, ali pode", é preciso ser revista, que discutamos seriamente este fato, afinal fragiliza e desmoraliza uma comunidade inteira.

Uma aposta, no entanto, parece driblar estas questões todas. A livre iniciativa. Grupos locais que conseguem seus espaços, que dão exemplo de posturas firmes de práticas éticas, desmoralizam cada vez mais grupos que ainda preferem antigas lógicas. Estes grupos, quando recebem incentivos, os fazem valer e agregam valor aos financiadores, patrocinadores, tanto do poder público quanto do privado. As novas gerações de artistas independentes, acadêmicos e iniciantes teatrais, também, ganham novos parâmetros a quem se esmerar e, o próprio público, agora tem acesso à um tipo de práxis teatral que melhor dialoga e apresenta estas questões. Teatro lotado, hoje, não significa mais um sinal de sucesso quando os rostos são os mesmos e conhecidos, mas sim, as plateias lotadas de novos rostos e, principalmente, de novos rostos consumidores. Isto também é uma sinalização de uma mudança no caráter moral da nossa comunidade de espectadores. Espectador pagante é aquele que financia e, portanto, demanda qualidade e uma prática teatral eticamente aceitável. A ferida da ética, SEMPRE, precisa ser remexida para alavancarmos mudanças importantes.

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Iago Lunière - pesquisador ligado ao Núcleo de Pesquisa e Experimentações das Teatralidades Contemporâneas e Interfaces Pedagógicas - Tabihuni da Universidade do Estado do Amazonas e pesquisador-bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas - FAPEAM. Continua dono de dois pinschers.