terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O que sobrou desta crítica...

Foto retirada da fanpage do Ateliê 23 no Facebook: https://www.facebook.com/Atelie23CasaDeCriacao/



Antes de qualquer coisa, é preciso fazer uma confissão à sociedade civil do Teatro, os espectadores: no Teatro há segredos sobre os quais jamais se terá conhecimento e, portanto, jamais tais anedotas influenciarão vossa apreciação – esta é uma das diversas camadas de filtros que se impõem quando apreciamos uma obra.

Um exemplo meramente ilustrativo: não leríamos a peça Richard III (de William Shakespeare), nem veríamos este monarca como um grande vilão, se por um acaso Henry Tudor não houvesse vencido a batalha de Bosworth em 1485, encerrando assim a famosa Guerra das Rosas. Tampouco veríamos o próprio Henry Tudor como o jovem herói, redentor da Inglaterra, que destronara o tirano que os afligia, mantendo-se oculto a verdadeira natureza do jovem rei unificador das rosas. Na verdade, jamais saberemos as reais facetas destes personagens, o que lhes motivou a cometerem seus atos, se de fato eram vilão e herói. Sabemos apenas o que O Bardo nos permite saber em seu famoso texto.

Dito isto, posso compartilhar acerca do dilema moral que se apresenta ao crítico, especialmente ao crítico de processo, que quando ao abordar uma obra se depara com uma série intrincada de acontecimentos e fatos que influenciaram o surgimento de um espetáculo. Sendo estes acontecimentos parte fecunda do que apreciamos em cena, compõe parte do conjunto de sabores que sentimos no ato de apreciar. O dilema moral se impõe na medida em que tais fatos são temas delicados e muito particulares do artista, que nos joga a seguinte ambiguidade: um fato específico de fórum pessoal é compartilhado, de forma mascarada na poética de uma cena, ao fórum público. Posto este dilema, resta questionar-se até que ponto tornou-se propriedade nossa (do público e da crítica) o fato privado, visto que nos foi dado sob a poética da cena.

Considerando o crítico como o propositor de um diálogo, mas também tradutor daquilo que foi apreciado, cabe a ele a decisão de abordar ou deixar de lado algo que poderia ser valioso de pôr-se em debate – mas valioso para quem? E quem está neste debate? (questões para futuramente tentarmos dissecar).

Aproveitando a metáfora dos “sabores” de uma apreciação, tratemos diretamente de “O que sobrou de nós”, de Taciano Soares, do grupo Ateliê 23.

Variará, de acordo com o palato dos que assistiram, os sabores (e dissabores) envolvidos nesta mistura amarga, porém necessária de se engolir. Vi nos meus acompanhantes de platéia o rubor daquele que se envergonha de reconhecer-se no espelho que deforma. Vi a complacência dos gentis. E também a piedade, algumas vezes sapiente de que havia ali uma verdade, mas também uma piedade arrogante, que ignora o quão somos frágeis quando feridos pelos relacionamentos a que nos dispomos. Relembre-se, porém, ao dilema moral apresentado anteriormente. Aqui, poder-se-ia facilmente abordar os acasos e acontecimentos que levaram à obra, porém sendo elas de fórum inteiramente pessoal do artista, passemos apenas ao que o palato do espectador percebe, se ignorante dos temperos ocultos no cozimento da cena.

Vi cintilarem lágrimas dos que se recordaram de seus corações partidos, e o silêncio dos atentos à uma questão que para si é estranha. Vi aqueles que calaram ante a denúncia de suas fragilidades. Ouvi o silêncio da respiração suspensa que não quis revelar a catarse por vergonha.

Apesar de uma série de ressalvas que se possa fazer (justas ou não, abertas ou ocultas), uma coisa é preciso reconhecer: “O que sobrou de nós” é a perfeita experiência sacra que o Teatro poderia propor. Porque cumpre um dos propósitos mais antigos do Teatro, que é trazer à consciência coletiva aquilo que permanece oculto, não percebido, não discutido, aparentemente irrelevante. É o que muitos classificam como “me toca” ou “não me toca”, confundido às vezes com “gosto” e “não gosto”. O que sobrou de nós, neste sentido, toca com uma força cruel e absurda àquilo que em nossa contemporaneidade está ambiguamente escancarado no virtual e terrivelmente oculto. Solicito a coragem de Taciano Soares à todas as almas que espalham suas dores no virtual, porém contraditoriamente em busca de desesperadamente provar-se sobre-humanas, espíritos elevados, super-homens autossuficientes em suas fortalezas da solidão.

A cada porção que engolimos amargamente daquilo que sobrou de nós, notamos alguns sabores: primeiro, a nossa constante predileção por ignorar aquilo que se oculta no fórum privado do ser humano, e a falha em tentar interiorizar aquilo que se exibe no fórum coletivo. Internamente choramos, e publicamente sorrimos. Porque é indelicado em público chorar.  Internamente praguejamos o ressentimento, externamente somos admirados por nossa benevolência em distribuir perdão. Ignoramos nossas mazelas, pois é proibido mencionar. É indesejável, demonstra a fragilidade, revela a nossa monstruosidade de uma besta ferida e encurralada, tudo ocultado, suprimido, incinerado até que seja esquecido. Taciano nos deixa confortável em uma sala preta para nos lembrar: somos humanos, e nem sempre isso é belo. Essa máscara que exibimos com orgulho trinca ante ao reflexo que admiramos em cena – pela rachadura, nossa purulência escorre.

Então a segunda garfada do prato amargo vem: nosso instinto oculto em julgar o outro, sempre colocando uma lente cuja a ótica é tão severa, que a reprovação viria não só ao réu quanto ao juiz e o carrasco. Ao ser humano acumulado de sofrimentos, damos como sentenças as penas capitais: “carente demais”, “possessivo demais”, “frágil demais”, “infeliz demais”, “sofredor demais”. Nunca uma sentença empática: humano demais. Eis o amargor desta garfada: somos lembrados, pela memória de nossas experiências, que ser um humano é ser, exatamente, feio, doloroso, amargo. Taciano exibe um grande espelho polido e o põe à nossa frente. Aqui: este é você tanto quanto sou eu. O julgamento, breve ou constante, arruína-se. Torna-se insustentável. Revela-se hipócrita. Recolhe-se à uma vergonha interna.

Tenho uma hipótese, uma suspeita que vêm mansa, de que temos o desejo secreto de alcançar uma divindade que mente ser possível. Um desejo de sublevação do fato de que não só somos frágeis, como nossos cacos estão constantemente a perfurar o outro, ferindo-o, intencionalmente ou não.

Por que esses desejos de divindade? Por que a vergonha de nos reconhecermos frágeis? Por que esquecemos da consciência de que podemos sentir dor? Está tudo bem sentir dor, por que nos achamos mesquinhos por isto? Por que é vergonhoso assumir?

Suspeito que alguma lógica, de crescente influência, rondou-nos e nos colocou na posição de produtos e consumidores. Como consumidores, desejamos as melhores texturas, sabores, cores, e com este refinamento exigente, banimos a realidade que é ser parte da humanidade (como ao longo do texto fora posta). E tal como produtos, escondemos nossas validades vencidas, exaltamos nossas qualidades, ao ponto de esquecermos que somos carne podre em enlatado polido. Tanto fomos domados por tal lógica de consumo, que desenvolvemos intolerância às verdades cruéis. Como à Medusa, tememos encarar para não nos tornarmos pedra!


Nesta crítica, não me atreveria ir muito além deste ponto. Não alerto para que haja uma preparação interna, como também não oculto para que haja um violento encontro com nossos reflexos. Eis uma verdade: a caverna onde reside a Medusa estava aberta, e lá se encontrava aquilo que ao ser visto, tornou-me pedra!

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Iago Lunière - crítico de processo criativo e protótipo ridículo de intelectual. É dono de um pequeno jardim que sente o desejo de receber um jasmineiro como hóspede perpétuo. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

No Teatro, vaidade das vaidades... Tudo é vaidade?

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WALTERHOUSE, J. W. Eco and Narcisus, 1903.  Walker Art Gallery, Liverpool.

"Vaidade das vaidades, diz o pregador, vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr. Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol".(Eclesiastes 1:2-9).

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O diretor envaidece-se de sua boa condução, astúcia e percepção. O ator envaidece-se de sua performance, da sua capacidade de atender à necessidade do outro. O técnico envaidece-se de seu pleno domínio maquínico. O espectador envaidece-se de seu poder legitimador. O crítico... Vaidade das vaidades.
Mas e o que é vaidade? Tomamos o exemplo do livro do Eclesiastes, o proferimento do sábio rei Salomão: nada apresenta de novo, nem é em si um resultado palpável de todo o esforço que se aplica para manter em alta este sentimento. Nada transforma, senão a quem alimenta. E o que alimenta? Que bolsa estomacal oca preenche a vaidade? E o que antes preenchia? Existia algo previamente ali posto que não há mais? Perseguir um objetivo para a vaidade é perseguir nossa recusa de que, antes dela, nada há; que é despropositada, que é uma ilusão sobre a qual nos sentimos satisfeitos. Por isso o Eclesiastes a lamenta.

Seria possível, então, a existência sem a vaidade? Se o vento vai para o sul e faz sua curva para o norte, independente dos envaidecidos homens com seus feitos e seus dons, se o sol continua a nascer no leste e por-se no oeste e todos os rios insistem em seguir para o mar, de nada vale a vaidade? Mas como seria sem ela? O que seria dos homens?

Ojerizamos a vaidade, cuspimos no humano vaidoso. Vaidoso pela sua beleza. Pela sua inteligência e sagacidade. Pela sua sabedoria. Pelo seu talento. Pelo seu martírio. Em tudo, pura vaidade. Por que? Porque reconhecemos que é ela o artifício humano para ocupar vazios, e não há denúncia maior destes vazios que a vaidade. No outro, se reconhecemos a vaidade, imediatamente reconhecemos o vazio. E que triste é perceber o vazio. Que desolador é para o humano perceber seu despropósito, sua miudeza e pequenez.

Culpa-se de vazio o belo pela sua vaidade, mas escamoteia-se em inteligência para esconder seu vazio de beleza. Culpa-se o intelectual pela sua pomposidade em assento monárquico, mas escamoteia-se em frivolidade. Escrito foi o poema pelo poeta para satisfazer sua vaidade. Maquiada foi a dama para satisfazer sua vaidade. Erguidos foram os prédios, para satisfazer a vaidade do arquiteto. Incansável foram os ensaios do ator, para que em cena fosse satisfeita a vaidade do ator. Se dela não escapamos, é a ela que em algum grau deveríamos agradecer o poema, a beleza da dama, o prédio erguido e a cena apresentada?

Egocêntrico, ególatra, ego. Palavras que no tempo certo vêm à baila das acusações entre os artistas. Mas afinal, se não por vaidade, por que o Teatro? Que missão redentora do mundo há em atuar, se não para envaidecer-se que rendeu ao mundo? Investigue quaisquer objetivos aos quais levam o individuo a fazer teatro, e todos tratar-se-ão de querer realizar algum feito sobre o qual poderia envaidecer-se. Mesmo os mais despropositados, que nada mais querem que sentir a poética da arte cênica e expressá-la, até mesmo estes envaidecem-se de sua capacidade de exercer este prazer sobre si. E envaidece-se ao julgar aquele que busca ávido por envaidecer-se também.

Disse Pascal: "A vaidade está tão ancorada no coração do homem que um soldado, um lacaio, um cozinheiro, um carregador se gaba e quer ter seus admiradores, e os próprios filósofos os querem, e os que escrevem contra querem ter a glória de ter escrito bem, e os que os lêem querem ter a glória de tê-los lido, e eu que escrevo isto tenho talvez essa vontade, e talvez os que o lerem..." (Pensamentos, 627-150).

"Saber-se vaidoso, no entanto, já é sê-lo menos", complementa Comte-Sponville ao trecho anterior. Reconhecer que a vaidade não é ultraje, e rir-se dela, e de si, já basta. Rir-se, ridicularizar, desconsiderar seriedade. A que adianta acusar o outro da vaidade se ela nos é inerente?

O crítico... Não concluí sobre o crítico. Sim, ele envaidece-se. É vaidoso da sua astúcia. Astuto em perceber, mas também astuto em enganar. Engana o leigo com belas palavras, e ao especialista com trivialidades. Astuto porque cria em cima do que outro criou. Astuto porque desnuda, desvela, escancara. É vaidoso porque detém poder. Mas que poder detém o escritor que não é lido? Que poder detém o crítico cuja crítica é desconsiderada? Que vaidade nisto há?

Saber-se vaidoso, no entanto, já é sê-lo menos. A crítica vaidosa se importa em permanecer. A crítica que sabe-se vaidosa, e portando, escamoteadora de vazio, pouco compromisso possui em satisfazer aqueles que alimentam a vaidade. Ri-se de sua impermanência. Reconhece-se vazia. E que possibilidades criadoras há no vazio!



Perceber a vaidade, me parece, é aceitá-la de bom grado. É com ela permitir-se alegre e frívolo, ou culpado e miserável - em ambos os casos, uma questão de escolha. Aceitar-se vaidoso, portanto, é assumir posição de decisão. Dizem ser triste o vaidoso que não se percebe como tal. Me preocupa, porém, os que se ocupam da vaidade alheia. Me parece não perceberem a sua própria. Não percebem que, vaidade das vaidades, no fim, tudo é vaidade.

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Iago Lunière - Ser insone às 4:00 da matina, tabagista convicto que adora pensar coisa inútil. Escreve por vaidade, e aceita de bom grado o fato (ou não).









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- Sobre Vaidade, vi: COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário de Filosofia. Eduardo Brandão [trad.]. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Ouvi boatos de que existe PDF :^)

- Peripatético ep.1 - Vaidade: https://www.youtube.com/watch?v=DFFoL4TBfcw (Sim, é o Pondé... me julgue)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Teatro a 220V... Isso tá errado.



Amiguinhos do teatro: se existe na sua dieta diária alguma droga que o ajuda a ter mais energia para enfrentar uma rotina pesada (dois litros de café, por exemplo), outras para te ajudarem a relaxar (cervejinhas rotineiras, nicotina, cannabis, calmantes, etc.), tem mais de três projetos em andamento, dorme muito tarde e acorda muito cedo, está conectado o tempo todo e não suporta a idéia de assim não estar, e entre tudo isso, ainda mantém aquele app atualizado pra manter uma atividade sexual semanal bastante agitada... CUIDADO. Estou com você nessa, e acabei de me dar conta que estamos indo bem mal.

Cinco amigos diferentes sentaram ao meu lado e comentaram: “Eu estou muito cansado”. Normal, não? Quem não está? Vejamos. “Quero logo que esse semestre acabe”, disse outro. Fiquei pensando, “mas o semestre já acabou”. A pessoa já estava se referindo ao segundo semestre.

Eu me peguei pensando, “preciso de férias...”. Espere um minuto, eu tive férias! Mas ao mesmo tempo, não tenho férias há um bom tempo. Estou falando de férias de verdade. Um período do ano em que eu realmente descanse. O que tem acontecido nos últimos tempos (vai fazer dois anos, e não, não parece pouco, nem deveria) que quando tenho férias no trabalho, não o tenho nos estudos. Quando tenho nos estudos, não o tenho no trabalho.

É sempre essa inversão. E a galera do teatro tem vivido assim: trabalho para sustento da dispensa, teatro para sustento da alma, e nisto vem os estudos, “eventos”, apresentações, temporadas... As férias nunca vêm para o todo. Vem para um dos itens da lista de compromissos em que magicamente nos vemos envolvidos. Mas o descanso total, nunca! O ritmo não pode decrescer. Aí um dos projetos vai mal, qualidade nada boa... Não dá pra perceber que, talvez, seriamos muito mais produtivos se desacelerássemos?

Foi quando eu tive uma crise de ansiedade e me vi em casa, três da manhã, fazendo faxina, tudo porque não conseguia dormir, que vi o tamanho do problema.

Sabe quando você liga um aparelho de 110V numa tomada de 220V? Alguma vez na vida alguém já cometeu esse erro e se deu conta do tamanho da burrada que fez... Pois é, estamos conectados em tomadas de 220V, estamos sobrecarregados, não damos conta dessa carga, mas insistimos.

Já parou pra pensar que, provavelmente, você tá fazendo errado?

Sendo bem chatinho com a descrição a seguir, eis o que acontece com o seu corpo: ele não aguenta o ritmo, e precisa de energia. MAIS ENERGIA. Daí você passa a ter uma propensão BEM MAIOR àqueles alimentos ricos em gordura, sal e açúcar. A falta de tempo para desacelerar e curtir uma refeição saudável colabora, então as cantinas e alimentos pré-prontos se tornam alvos fáceis. Mas olha só que coisa: esses mesmos alimentos, aliado à essa rotina doida que você mantém, desregulam sua produção de certos hormônios bem legaizinhos pro seu cérebro, e a falta ou excesso deles faz de você uma pessoa bem diferente.

Seu cérebro entra em curto: na hora de dormir, ele está a mil pensando em todas as coisas em que você está envolvido, logo, o sono nunca vêm ou é bastante irregular. Isso se dá por conta da alta carga de açúcar e, provavelmente, das drogas que você consumiu ao longo do dia, especialmente cafeina. Na hora de realizar esses afazeres, o cérebro está tão cansado que não consegue processar... ou seja, sua atenção fica baixa e, consequentemente, você, improdutivo.

Pra não falar que, provavelmente, seu coração está trabalhando o dobro, porque o coquetel de cafeína, nicotina, gordura, sal, açúcar e tudo aquilo que você está consumindo pra se manter está tornando seu sistema circulatório um encanamento impossível de fazer o transporte adequado de sangue oxigenado.

Logo, muito provavelmente, exercícios físicos inexistem na sua rotina. Então, cadê dopamina, serotonina, e todas aquelas coisinhas maravilhosas que nosso corpo produz e nos deixam felizes?

Esse é um ponto interessante que talvez não seja pra todo mundo, mas se é seu caso, cuidado: seu ritmo sexual, a troca constante de parceiros determinado pela pergunta “passivo ou ativo?” ou pelo Match naquele aplicativo de relacionamentos faz com que seu cérebro desenvolva um vício incrível por ocitocina, hormônio que, além de outras tantas origens e funções, liberamos com o sexo. Esse hormônio causa no seu cérebro a famosa sensação chamada amor (é liberada nas gestantes para ajudar nas contrações, lactação, e após o sexo também). Mas olha que coisa... com a troca contínua de parceiros, seu cérebro fica: “ué?”. O banho constante desse hormônio faz o cérebro acostumar, e ficamos mais... resistentes. Quando você se dá conta, está tendo dificuldades de manter uma relação saudável em relacionamentos mais sérios, exatamente porque seu cérebro não está associando aquela dose de ocitocina à esta nova situação - não vamos nos aprofundar muito na moralidade da monogamia, mas é pra refletir.

Depois dessa bagunça toda, por conta de todo esse fuzuê que você tem feito da sua vida, não vai me surpreender nem um pouco o fato de você entrar em depressão, esse estado de irritação que já te fez perder amigos, essas crises de ansiedade, as insônias severas, ou qualquer outro sintoma dessa vida agitada que está mantendo.

Parando pra pensar, não sou só nisto, nem você. A nossa sociedade inteira tá nesse ritmo. A sociedade inteira está assim. Criamos esse padrão horrível do ultraprodutivo como meta. E de quebra, se você não é assim, essa mesma sociedade faz você se sentir uma pessoa horrível.

Mas, calminha aí. Errada está a sociedade, não você. Então, relaxa...

Ah! E se você é um daqueles iniciantes de teatro que tem uma imagem romântica na cabeça do artista boêmio, ultratalentoso e intelectual, que pede pros amigos te ensinarem a fumar e é todo empolgadinho pra sentar numa mesa de bar ouvindo Chico... quero te dizer que mais errado está você, que isso não é critério pra ser artista. Isso se chama estereótipo, imagem de construção social!


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Iago Lunière – dono de três cães, dois reais, um abstrato que visita de vez em quando. De fato toma dois litros de café por dia, e está tentando reduzir isso. Escreveu esse texto mais para si mesmo do que para os leitores.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Complexo de Gaivota - teatro pra quem?



Está em temporada no Ateliê 23 - Casa de criação, todas as sextas-feiras, o espetáculo Complexo de Gaivota, com direção de Taciano Soares, texto de Thais Vasconcelos, que também divide a cena com com os atores Heitor Loris e Tainá Lima. O espetáculo é inspirado no texto A Gaivota de Anton Tchecov e, aqui, o espetáculo faz jus ao dramaturgo que considerava seu texto comédia, apesar de ser sempre interpretado de forma dramática.

Na entrada do Ateliê 23 encontramos, imediatamente, a personagem Nina, em um futurístico figurino, contando a cada novo espectador que chega sobre a sua grande musa, D. Arkádina. Lá dentro, sua musa aguarda com o filho, Trepliev, um artista contemporâneo, ou assim intenta ser, ambos sob um emaranhado de fios, lâmpadas, luzes, como geralmente é os arranjos técnicos improvisados de espetáculos teatrais que visam grandezas imagéticas (o pobre teatro amazonas já recebeu em suas estranhas tais espetáculos que lhes consumira suas centenas de refletores dando ao palco mil cores e nenhuma).

O complexo de gaivota, assim, trata de quem faz teatro. Apresenta arquétipos de profissionais desta arte em que, qualquer um do ramo, se não o é, já cruzou com um alguma vez em sua carreira. Nos assentos do público, os artistas facilmente se reconhecem, dão nome, captam as pequenas piadas escamoteadas numa fala melodiosa, cantada, que Arkádina, principalmente, impõe.

Arkádina é um quadro a parte. Thais Vasconcelos dá à personagem toda ironia velada em humor. Representa aqueles que, seja qual for o motivo, creem piamente em seu talento, em sua capacidade, em seu brilhantismo - e às vezes até de fato são -, mas que infelizmente não conseguem captar o espírito do tempo, as mudanças, o mundo como um fluxo contínuo de constantes alterações, o zeitgeist. Presa ao conservadorismo dos antigos manuais, dos antigos jargões, a um glorioso passado que nunca houve. O teatro, na belle époque, de fato, teve seus dias de glória. Antes, mesmo sendo frequentado pelas elites em seus diversos contextos, na belle époque é que o artista consegue se soltar, mesmo que ainda com ranços, do estigma de gentalha, e passa a circular nos grandes salões como grandes artistas - é aqui a era das grandes musas (mesmo em segredo sendo chamadas de coristas). Conhecemos da história o que se veio depois: o teatro fora assaltado do seu conceito de imagem pelo cinema, o mundo mudou. Mas continuamos, ainda, ansiando o glorioso passado da belle époque.

Chega até a ser compreensível que quem viveu estes tempos gloriosos, dele sintam saudades. Não duvido que a geração seguinte também o sinta. Mas nós, hoje, um século depois, precisamos nos atentar para uma das características intrínsecas da arte: captar o espírito do tempo pela poiesis, pela ars, pela techne e com este espírito dialogar. Esse conservadorismo, essa saudade de um tempo não vivido, cegante, ensurdecedor, incapacita de notarmos as mudanças do tempo e as novas formas de dialogar com o mundo contemporâneo.

Porém não se engane em supor, por exemplo, que grandes avanços pela ruptura estética e manifesta é, por assim dizer, livrar-se de tal conservadorismo. E isto também é cuspido na cara do público. Trepliev é um jovem artista que anseia as máximas contemporâneas e serve-se delas à la carte. Nos lembra de que romper, de fato, é um anseio pessoal muito forte, que antigos modelos talvez não deem mais contas de outros anseios, outras formas de dialogar e expressar-se. Trepliev serve-se de um modelo que hoje deglutimos à exaustão nos círculos intelectuais, na Academia, porém, demonstra que não há, nele, algo a dialogar e expressar se não a sua vontade de romper com a própria mãe, com a geração anterior, deixar uma marca no mundo no qual não sabe ao certo qual é e, ainda assim, não dialoga com o tempo presente, com o espírito de nosso tempo. É neste sentido que a ruptura estética apresenta seu dilema: ela pode, ainda assim, ser conservadora, almejar uma glória não vivida apenas trocando a roupa. Essas mudanças, se não forem na carne, não fazem sentido.

Nina, a personagem que conosco aguardava a entrar no espetáculo, é aquela que está no meio disto tudo. É a que vê a superfície, tanto de Arkádina quanto de Trepliev, mas nada além disto. Que crê que o teatro de Arkádina é repleto de glórias, e em Trepliev, a genialidade. É o arquétipo daquele que engole a tudo o que lhes é oferecido e se retorce em uma congestão. Assim como percebe somente as superfícies, percebe também as incongruências, mas ao invés de acionar em si um postura crítica, prefere fingir que não vê e, assim, executa, reproduz.

Mas o espetáculo toca estas coisas com o humor. A sátira é bem endereçada, mas a quem? Aos artistas? Sim, com certeza. A sala de espetáculo onde se apresenta o Complexo de Gaivota não esconde nada, nem a equipe técnica, e em seus rostos, podemos perceber que tudo isto é, além de uma sátira, um desabafo. Há incômodos instalados em cada desdobramento. "Ria disto, pois falo do outro. Mas aquilo é incômodo de rir, porque eu sei que é você", o espetáculo confidencia. 

Experimentar o espetáculo Complexo de Gaivota é experimentar, em pouco mais de trinta minutos, toda a lógica instalada na classe artística de Manaus - não só em cena, mas no rito teatral em si. As faces na sala de espetáculo são conhecidas, sabemos de quem estamos rindo, sabemos de quem estamos satirizando, sabemos inclusive que é sobre nós. Ao olhar em volta, poder-se-ia sentir constrangido de rir pela presença daquele outro que está sendo satirizado. Os poucos rostos não-familiares, porém, estão isolados. Tive a oportunidade de apresentar o espetáculo a um não-artista, que nunca teve uma experiência como espectador teatral. A ele, toda a complexidade subjetiva do espetáculo não chegou. Viu, sim, um ator de voz "impostada", e também uma menina tola, e uma mulher asquerosa de riso falso, bufões em cenas escrachadas, porém não compreendeu que se tratava de uma ironia - tanto a voz "impostada" dos atores que rasgam suas cordas vocais matando cada letra do subtexto das dramaturgias, quanto a atriz incapaz de não ser ela mesma ao interpretar uma personagem. Isto suscita a questão: sim, é endereçada aos artistas, mas e aos não artistas?

Poderíamos argumentar que o espetáculo oportuniza ao espectador não-especializado a chance de perceber quem somos, classe teatral. Como agimos por detrás das cortinas da coxia e o que fazemos depois do discurso emocionado ao receber um prêmio. Mas infelizmente isto não ocorre, o que parece ser natural - a necessidade deste desabafo se demonstra maior. Por isto, é acessível apenas aos artistas, e talvez, isto possa ser um problema - mas aparentemente, não é desconhecido, e até mesmo proposital. Porém, sem querer falar muito sobre crise do teatro, uma das questões que muito se faz neste tema, é acerca do fato que o teatro resiste como bolha isolada de maneira insustentável: os artistas, que fazem espetáculos, garante os assentos da plateia ocupados com outros artistas. O novo espectador, muito provavelmente, é um iniciante de teatro. Nossas obras, também, estão tão tecnicamente rebuscadas, filosoficamente embasadas, metodologicamente construídas, que os espectadores, cada vez mais, precisam ser especialistas para se ter acesso. Não quero aqui propor um ato para subestimarmos ao espectador, ou de contermos nossos impulsos criativos pensando em um espectador específico. Porém, é talvez uma atitude importante, refletir acerca da medida de nosso alcance. Neste sentido, o Complexo de Gaivota nos apresenta um espelho de nós mesmos e, por ora, um convite a rirmos. O espetáculo se apresenta todas as sextas, às vinte horas, no Ateliê 23 - Casa de Criação.

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Iago Lunière - estudante de teatro, pesquisador, e já está cansado de limpar xixi de cachorro da geladeira.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Espaços Culturais Alternativos e Manaus

Espaço Ateliê 23, r. Tapajós, Centro.

Desde 2013 venho anotando uma coisa muito curiosa em Manaus: a fundação de espaços alternativos de cultura. É um fenômeno que tem me intrigado bastante e que ainda não consigo entender direito. Vejamos, com o início da era PT, políticas culturais interessantes (questionáveis, mas interessantes) foram postas em prática, o que rendeu à classe artística no Brasil uma maior prospecção além da costumeira. Antes de mais nada: não, não estou enaltecendo o que parece ser o partido mais odiado da nação, e no caso dos artistas de que falo, é aquele humilde artista que pra ter algum sustento, tentava de alguma maneira sobreviver no magistério, ou que possuía dois empregos, o de artista e o que de fato lhe rendia o sustento e investimento em sua Arte.

A crescente magnífica muito bem embalada pelo boom das commodities foi até 2008, a grande crise internacional. Antes do povo desesperar com os EUA aparentemente quebrando (lembro da sensação de que eu presenciava Golias caindo), por aqui correu o boato de que a crise viria como uma marola. Demorou, mas aqui, a crise chegou SIM. E não, não é coisa só nossa. A economia global está demasiadamente lenta na produção de riqueza. China, a máquina mundial onde tudo se produz, está com uma balança corrente em 2.7%, quando antes de 2008 estava acima de 10%. Estados Unidos, sequer rompeu o 0%. Em termos de crescimento anual do PIB, poucos países rompem a taxa de crescimento anual de 10%. China, antes de 2008, quase bateu os 16%*.

Okay, a breve aula de economia aí em cima é só pra demonstrar que entre 2002 e 2008, rolou um período muito bom. Bom mesmo! E isso de certa forma se refletiu na Cultura. Só pra gente se situar: no Brasil tivemos incentivos em forma de patrocínio, premiação ou incentivo fiscal de diversas modalidades, esferas de poder, etc.: para incentivar a formação de público consumidor de Arte, para levar Arte às periferias urbanas e comunidades periféricas e/ou rurais, para formação de artistas, para intercâmbio cultural e... o que me interessa pra esse texto: para a fundação de espaços culturais, ou como é/era chamado, Pontos de Cultura.

Em Manaus, entre as diversas queixas correntes dos artistas locais, havia a questão da inacessibilidade a espaços adequados ao exercício de sua arte. Falando de Teatro, temos pouco mais de dez teatros públicos, fechados, ou parcialmente abertos sob uma rígida e burocrática política mediada pelos inconstantes editais da Secretaria de Cultura do Estado do Amazonas, liderada pelo mesmo secretário desde 1997.

Agora, o problema do quadro que descrevo: se de 2008 pra cá temos um desaquecimento da economia global e o Brasil está vivenciando fortemente tal crise agora, levando o Governo nas três esferas a realizar diversos cortes no erário público, seria de se esperar que os artistas seriam imediatamente afetados - como de fato, já estão em diversos casos. Mas a linha do crescimento de espaços culturais em Manaus cresceu. Como disse, desde 2013 venho anotando o surgimento de tais espaços. Primeiro, fui anotando os de Teatro, mas um fato curioso: os espaços não se fechavam somente para o Teatro, e transitam ali outras Artes: música, dança e exposições de Artes Visuais. Também servem de locais de lazer e encontro, mantendo em suas estruturas o funcionamento de um bar e ou eventos festivos direcionados a um determinado nicho: geralmente jovens, público LGBT, etc. Então o que define "espaço alternativo cultural"? É a primeira pergunta.

Estes espaços tem entre suas características o funcionamento múltiplo, primeiro, de Linguagens da Arte (Artes Cênicas, Artes Visuais, Artes Performáticas). Segundo, de função: espaço de prática e apreciação destas Artes; de função pedagógica, visto que é corriqueiro o uso para oficinas e cursos livres e a manutenção de um acervo próprio para consulta; e de entretenimento, a partir do momento em que são utilizados para eventos, festas, baladas, etc. Alguns espaços não acumulam todas estas características, e às vezes, sendo bastante seletivo quanto à sua função: alguns espaços não são utilizados, por exemplo, para entretenimento no sentido descrito.

Capa da fan page do espaço Casa de Chico

Somam-se, na minha conta, 14 espaços culturais em funcionamento, atualmente. Quer dizer, o mais expressivo destes seria o espaço do Teatro Experimental do SESC, mas este encontra-se ainda em reforma. O primeiro, suponho ser o da Cia. Pompal de Teatro, a julgar pelo tempo de existência do grupo, mas talvez o próprio espaço do TESC compita com ele, seria preciso averiguar as datas. Para não falarmos da Casa de Luz, que pouco registros possuímos e/ou trabalhos historiográficos deste espaço que foi de suma importância para as Artes em Manaus na década de 1970-80. O mais recente**, é o Espaço Chico, da Souffle de Bodó Company, companhia também recente e fruto do desmembramento da Cia. Cacos de Teatro. Só no ano de 2015 foram fundados três espaços alternativos: Espaço das Cias, comandado majoritariamente pela Cia. de Intérpretes Independentes; O Espaço Ateliê 23, do grupo teatral de mesmo nome; e o Espaço Uma das Artes, comandado majoritariamente pelo artista e performer Francisco Rider¹.

Coletivo Akasha.
R. Comendador Clementino, 439 - Centro.
Agora, a característica fundamental: em nenhuma instância há gerenciamento público do espaço. São iniciativas basicamente privadas, mesmo que para sua manutenção se faça uso de captações por meio de editais. Isso define o "alternativo" do termo, pois para os espaços públicos fechados (ou parcialmente e insuficientemente abertos) há estas outras opções. O que eu tenho percebido disto: é incongruente um crescimento numa hora mais errada, se pararmos para pensar economicamente, mas por outro lado, parece estar ocorrendo um fenômeno político muito importante aqui.

Acompanhei, em 2015, o grupo teatral Ateliê 23 em seu processo de montagem do espetáculo Persona - Face um. A montagem coincidiu com a ocupação do espaço e seu período de reforma. Em minha análise, descrevi como o espaço influenciou o processo, mas algo me ocorre agora: a importância do fato de ter o espaço em si. Houve uma liberdade e uma profundidade qualitativa no processo de criação, pesquisa e montagem do grupo só pôde ser viável graças à liberdade de uso de um espaço. Oportunidade de aprofundar-se demasiadamente naquilo que criavam, sem as amarras que são inerentes ao edificio público, são fatores importantes no processo criativo. Locais públicos de Manaus como Ideal Clube, Teatro da Instalação e, relativamente aqui incluso, o próprio Teatro Amazonas, impõe determinadas restrições por conta de seu valor arquitetônico e histórico. No espaço alternativo há perfeitamente a possibilidade de um grupo realizar determinados experimentos que, eventualmente, causem sujeira, danos parciais, etc. Há também a questão do tempo de uso. Na experiência com o Ateliê 23, presenciei o grupo se dedicando horas a fio, que no caso do espaço público, tem determinadas restrições por conta da mão-de-obra envolvida: porteiros, secretários, administradores, etc.

A manutenção a médio e longo prazo destes espaços dependem da captação de recursos cuja fonte primária é o setor público. E, mesmo assim, os artistas em Manaus estão paulatinamente tornando-se independentes do espaço público e, consequentemente, do poder vigente. Isso parece ser compatível com a noção de que Teatro e Poder Vigente são incongruentes um ao outro. O teatro facilmente promove dissenso, e muitas vezes toca ferozmente naquilo que é caro ao poder. Quando o setor público fornece meios de que tais espaços alternativos captem recursos, dificilmente ele terá poder de ação direta na questão política do grupo. Diferentemente, um grupo teatral que cai no desagrado de um grupo político, por exemplo, pode facilmente ver diversas portas sendo fechadas. Um paradoxo? Parece que sim. O que eu posso afirmar é que estes artistas em seus espaços saíram do território do poder público, apesar de ainda carecerem dos recursos dele. A diferença do estado anterior para o atual é que, agora, estes artistas têm mais regras próprias e menos regras impostas.

Vale lembrar que nestes espaços não circulam apenas o grupo fundador, mas também grupos sem espaço. Uma ação cooperativa deste modo implica não só num trânsito e intercâmbio cultural, como também uma ampliação das fontes de captação de recurso. Ou seja, dos espaços alternativos existentes, não são somente os grupos fundadores alcançaram essa posição mais independente, mas também aqueles que circundam e coabitam e que, eventualmente, já traçam seus planejamentos de fundar seu próprio espaço - afinal, trocaram apenas um espaço que não é seu e com regras incompatíveis às suas por outro. Esse fenômeno também é muito particular dos últimos anos. O próprio Ateliê 23 e a Souffle de Bodó Company, oriundas de um grupo anterior, a Cia. Cacos de Teatro (ainda em funcionamento), utilizavam à época do espaço Casarão de Idéias, da Cia. de Idéias, dirigida por João Fernandes. Hoje, os dois grupos possuem seus próprios espaços.

Mesmo o espaço público pode ser considerado alternativo. Vale lembrar da Escola Superior de Artes e Turismo que, eventualmente, cede seus espaços para as companhias utilizarem, graças ao vínculo institucional que alguns membros de tais grupos possuem com a Universidade do Estado do Amazonas - geralmente, alunos. Esse trânsito também é interessante de se perceber.

Em conversa com o diretor amazonense Nonato Tavares, quando à época eu participava de seu grupo, a Cia. Vitória Régia, antes dos ensaios no prédio do Ideal Clube, ele comentara comigo que uma saída interessante seria um edital bianual que cederia os espaços públicos à uma companhia local para que, neste período, realizasse ali não só o uso do espaço como também a sua manutenção. Manutenção no sentido de administrar os recursos, empregá-los de forma conveniente ao seu processo de pesquisa, captar seus próprios recursos. A iniciativa do Estado seria apenas na forma de ceder o espaço e fornecer recursos mínimos para a manutenção deste. Saída viável? Provavelmente. Haveria algum interesse político em uma ação desta magnitude? Sendo pessimista, creio que não. Se, caso houvesse, seria à base de um movimento social com força suficiente para gerar tal interesse.

Com esse cenário, agora, podemos trabalhar diversas perspectivas. Primeiro: o interesse coletivo de sediar-se no Centro da capital amazonense tem se demonstrado bastante aparente², logo levanta-se o questionamento acerca das periferias e, também, no novo acesso aos municípios de Iranduba e Manacapuru, que constituem parte do Centro Metropolitano de Manaus. Neste ponto, enfrentamos um possível problema de acesso destas comunidades, gerando o que poderia ser uma provável elitização (ou melhor, acesso para poucos e iniciados). Mas este fator não me parece ser de responsabilidade dos grupos que possuem a iniciativa de criar um espaço, mas sim, do poder público, que é quem tem maior capacidade de gerenciar o desenvolvimento urbano.

Um questionamento também válido, é de ordem estética. Tenho percebido e, claro, posso estar enganado, que em tais espaços há uma verticalização, um aprofundamento de estéticas contemporâneas (pós-dramático, performático, por exemplo)³. Isso é resultado da propiciabilidade qualitativa inerente a um espaço com regras próprias ao grupo e que possui maior independência e liberdade para aprofundar-se em suas pesquisas. Numa perspectiva maior, e levando em conta a dificuldade de acesso da comunidade periférica, fica uma indagação quanto a: 1. formação de espectadores e como tornamos acessível a arte teatral para comunidades que não estão acostumados à ir ao teatro; 2. o lugar da arte popular e, consequentemente, o exercício de uma prática teatral com características identitárias próprias da região Norte; 3. possibilidade de renovo antropofágico. Sobre este último ponto, quero falar precisamente de como importamos do sul e sudeste as idéias pós-dramáticas e performáticas, que por sua vez foram importadas de outros lugares, e como podemos deglutir isto e se apropriar e imprimir uma característica nossa.

Se um estudo fosse realizado, seria importante verificar: caso haja oportunidade para experimentar uma liberdade política maior do que aquela vivenciada no espaço público, essa liberdade é usufruída afim de causar efeitos, se não práticos, mas pelo menos indiretos no contexto sociopolítico (considerado o momento em que vivemos)? Novamente, uso o exemplo do grupo Ateliê 23, que trabalhou no primeiro semestre de 2015 a questão social e psicológica dos transexuais; ou o exemplo do Casarão de Idéias, que mantém seu evento Cênicas Autorais, afim de manter aquecido uma certa discussão sobre a escrita e publicação de obras de Artes Cênicas.

Tenho atualmente trabalhado na análise de artigos elaborados pelos alunos do curso de teatro da UEA na disciplina Análise dos Espetáculos 1. Nesta disciplina, os alunos vão até os grupos afim de acompanhar seus processos criativos e analisá-los, por meio de metodologia particular da crítica genética, ou crítica de processos criativos, e o que tenho notado, é que o espaço tem sido um fator muito importante para o exercício da arte teatral em Manaus e que, eventualmente, deve ser estudado. Este foi um dos motivos que me levaram a propor acima esta que tem sido uma percepção minha do tempo presente de nossa arte em nossa cidade, e também as reflexões que me assaltam ao perceber este quadro.

Mais uma vez (neste texto, mas tendo feito em outros também) advogo em nome do campo teórico, a partir do momento em que o registro do tempo presente é muito importante para que possamos discernir a diferença entre um conjunto de árvores e uma floresta. Precisamos ver a floresta, o conjunto, a totalidade. A problemática da concentração da prática teatral no Centro da cidade não nos era um problema até pouco tempo atrás. Pelo contrário, era uma solução, uma vez que o trânsito entre as demais zonas confluem para lá e, portanto, tem-se a sensação de que é o local mais próximo de todos. Mas agora, surge a problemática: a floresta é densa demais deste lado quando no outro só há restinga. Já é sensível, por exemplo, que quando dois espaços alternativos competem num mesmo dia e horário por público, um ou outro fica desfalcado. E mesmo tendo sido sensível algum crescimento no público, leve, quase imperceptível, capaz de ser notado por aqueles que frequentam teatro e já conhecem as faces de todos que compartilham da parte espectadora, mesmo assim, o público têm sido insuficiente para tanto***.  Não só como tarefa do teórico, o registro e pesquisa é um dever daqueles que estão inseridos nestes contextos e praticam. Registrar o tempo presente é tarefa de cada um na intenção de obter material de orientação existencial/temporal****. Tenho por opinião que também é importante para que deixemos de herança para as futuras gerações o que pensávamos, o que fizemos, como fizemos, onde erramos e onde poderíamos ter acertado - uma ação ética, digamos assim. 

De forma prática, serve para estarmos cientes de que um movimento novo ocorre e ele não surge do nada, mas é paulatino, latente, pouco a pouco. Se, hoje em dia, alguns consideram veementemente adquirir um espaço, penso naqueles que temeram. Fora necessário um primeiro passo, e ele vem ocorrendo. A cada novo espaço, uma comprovação de que é possível uma independência dos interesses políticos escamoteados no poder público.

A consciência do tempo presente pode nos alertar para as possíveis problemáticas que se constroem. O crescimento do PIB estadounidense, por exemplo, não consegue sair do negativo já há algum tempo, e não há perspectivas boas de que no Brasil ocorra diferente. A situação política, também, é desfavorável, uma vez que a cada tempo de crise a Direita se fortalece e a visão utilitarista se renova, e Arte e Teatro certamente não parece ser útil à visão da Direita.

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Notinhas pro texto não ficar mais maluco do que já é:

1 - Gente, desculpa as imprecisões no tempo de existência ou nome certinho dos espaços. Apesar destes dados serem completamente casuais, ou seja, registros que realizei ao acaso, é ainda impreciso. Vale lembrar que essa é a minha conta, daquilo de que tive acesso, visitando, sendo informado, convidado, e alguns grupos e companhias são de amigos. Se a gente fosse levar a sério qualquer pesquisa, poderíamos ir bem longe. Mas trata-se de um post de Diário Virtual, né... quer dizer...

2 - De novo, gostaria de dar precisão nisto. Mas os estudos de TCC da Carla Menezes (2015), graduada no curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas são bastante ilustrativos quanto à isto, demonstrando que os espaços culturais concentram-se fortemente na zona Centro e Centro-Sul da cidade. O material encontra-se disponível no acervo da Escola Superior de Artes e Turismo.

3 - Chego à essa conclusão com as experiências na Escola Superior de Artes e Turismo, em que, apesar das propostas de experimentação serem bastante diversas, parece ser uma tendência muito forte entre os alunos e grupos teatrais dos quais estes alunos se originam, e que comungam o espaço, de aderir à estéticas mais contemporâneas. Não há nenhum mistério no anseio de ser contemporâneo, claro. Mas talvez seja o ponto em que comecemos a refletir criticamente sobre isto.

* - Até a postagem desse texto, era o Espaço de Chico. Agora temos o Espaço do coletivo Akasha.

** - A fonte foi http://www.tradingeconomics.com/about-te.aspx. Além de checar os dados, sugiro muito que façam as comparações da situação brasileira com outros países e o contexto global para perceberem que não estamos sozinhos na situação atual.

*** - Sobre isto, indico a leitura de O Teatro é Necessário? (2014) do autor Denis Guenóun. Ele faz uma análise das diversas noções de espectador que tivemos ao longo da existência da Arte Teatral e chega à conclusão de que, hoje, o espectador vai ao teatro para ver a técnica, não a personagem ou a "imagem" de uma cena ou para entrar em um simulacro, e propõe que os grupos convidem as comunidades para aprender teatro, entenderem a técnica e, assim, teremos um respiro de nossa Arte.

**** - A memória nos serve para nos orientarmos no tempo presente diante de problemas atuais, servindo-se das experiências passadas. O termo orientação existêncial empresentei do historiador Jörn Rüsen - quem curte história, fiquem à vontade pra pesquisar.

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Iago Lunière - estudante de teatro, pesquisador, e já está cansado de limpar xixi de cachorro da geladeira.

Ética, ethos, teatro... Precisamos sentar pra conversar

Grandes temas tem girado em torno das discussões sobre o teatro em Manaus. É importante citar a necessidade de mais pesquisas que desmistifiquem algumas conclusões que repetimos como jargão para o quadro geral da cena manauara, e assim, conhecendo mais, saberemos se estão certas estas constatações sociais, políticas e econômicas do nosso cenário. Por exemplo, falamos muito acerca de uma abertura a novas estratégias de incentivo cultural por parte do poder público (estadual e municipal), mas que estratégias seriam estas? Será que elas dariam conta de um fenômeno manauara particular da última década, que é a abertura de espaços culturais fora do poder público? Porém, creio que todas estas discussões vêm a esbarrar com uma temática mais preliminar e urgente de se por em pauta: a ética/ethos da comunidade artística na cidade de Manaus.

Apesar do termo ética derivar do termo ethos (que no grego trata do caráter moral), atualmente essas palavras são um pouco desassociadas, dependendo da área de que é tratada. Aqui, assumo o ethos utilizado na antropologia, que trata dos hábitos e costumes, do comportamento que define um grupo - e, quanto a ética, tratemos como conjunto de princípios e valores morais.

É bastante delicado tratar dessas temáticas. Delicado, pois falar de ética e ethos na classe artística de Manaus torna-se debate escabroso quando esta comunidade é tão heterogênea e volátil. É difícil definirmos um grupo quando não o conhecemos sem isenções. A supracitada carência de pesquisas seriam interessantes para, conhecendo e descrevendo este grupo com o máximo de reservas, possamos destrinchar caminhos e debates diversos.

O curso de teatro da Universidade do Estado do Amazonas tem dado algumas contribuições nesse sentido, mesmo que de forma tímida. Não é difícil encontrar um trabalho que, em algum momento, esbarra com um dilema ético em processos criativos, como é o caso dos trabalhos que analisam processos criativos.

Quando o teatro em Manaus têm sofrido intensos ataques por diversas frentes (seja pela censura que se avoluma na academia, ou nos cortes de verbas e políticas públicas que afetam a produção local) e as reações parecem ser poucas ou quase ineficazes, especificamente quando os desacordos quanto ao ethos são postos à mesa, desarticulando defensivas, precisamos articular movimentos fortes de práticas éticas como necessidade de sobrevivência, e essa discussão não pode permanecer velha, mas aplicada.

Mas de que posturas (ethos) estaríamos falando, afinal, de que modo adotá-las e, portanto, assumi-las como modelo para garantir mudanças na cena teatral local? Para não falar das práticas antiéticas (evitemos por ora o termo criminosa) do uso indevido ou inapropriado das verbas públicas liberadas para o fomento da Arte. Foi triste saber da constatação de um colega de pesquisa que, ao debruçar-se sobre seu objeto de estudo (um grupo local), averiguou que o mesmo, apesar de ter recebido incentivos financeiros, pouco se dedicavam ao seu processo criativo, mantinham posturas de irresponsabilidade não só para com a arte da cena, mas para com o dinheiro público investido. Não é difícil lembrarmos de alguns grupos que, mantenedores de uma prática dedicada, não possuem acesso a tais verbas e, portanto, traçamos aqui um parâmetro para questionamentos: ora, por que a verba não tem sido direcionada ao grupo que melhor faria uso?

E como teríamos acesso a este relato, à estes casos? A abertura das companhias às investigações críticas de iniciativa acadêmica tem sido reveladora destes casos. Primeiro, que a presença de um estranho no processo criativo impõe a necessidade do grupo apresentar alguma seriedade, algum método, alguma coisa diferente de teatro por hobby e menos amador. Mas o mais interessante, são as relações de poder expostas. Será preciso, em algum momento, por exemplo, o fim da lógica de "começar pela coxia" que alguns grupos impõe aos seus atores mais jovens.

Em certa ocasião, aguardando o inicio de um espetáculo, um senhor veio me questionar porque os alunos da UEA são tão, segundo suas palavras, boçais. Cobram cachê desde o inicio, querem saber como será a divisão do recebimento do "prêmio", e por aí vai. De fato, ele não falou para mim, mas a um outro senhor sentado ao meu lado, mas fez questão de falar em alto e bom tom, comigo entre os dois. Hoje, lamento não ter respondido. Porque ser boçal, ao que parece, é ser um profissional como outro qualquer, que quer ter todos os termos de seu exercício de função devidamente esclarecidos entre ambas as partes - isto não seria uma postura ética, portanto?

Este é, ao meu ver, uma discussão ética que devemos entrar. E isto nada tem a ver somente com a questão teatral, mas lembremos dos constantes castings que são divulgados em grupos do facebook, pedindo atores e atrizes de toda ordem e característica, com cachês de R$ 100,00 (cem reais) para ter sua imagem veiculada em comerciais televisivos por tempo indeterminado. Ao meu ver, isto é um problema ético grave que precisamos averiguar. Qualquer "mercado" que queiramos abrir, qualquer ar de profissionalismo que queiramos dar ao teatro local, requer, em algum momento, passar por estas questões.

Outra exemplo se trata da postura que deveríamos ter em relação aos regulamentos e editais, em que pesem o respeito ao que neles consta. Sei que virou até uma piada interna de que, nos festivais, pelo menos uma vaga dos selecionados deve ser dedicada à uma grandiosa estréia. E me pergunto, sempre, duas coisas: qual a funcionalidade de um impedimento de estreias, e por que permitem quando é público e notório que o grupo/companhia montou, nas coxas, o espetáculo somente para adentrar no festival e ganhar o tal "prêmio". Este tipo de postura permissiva, apesar de lidarmos com bom humor algumas vezes, brincando de que "é café com leite, ali pode", é preciso ser revista, que discutamos seriamente este fato, afinal fragiliza e desmoraliza uma comunidade inteira.

Uma aposta, no entanto, parece driblar estas questões todas. A livre iniciativa. Grupos locais que conseguem seus espaços, que dão exemplo de posturas firmes de práticas éticas, desmoralizam cada vez mais grupos que ainda preferem antigas lógicas. Estes grupos, quando recebem incentivos, os fazem valer e agregam valor aos financiadores, patrocinadores, tanto do poder público quanto do privado. As novas gerações de artistas independentes, acadêmicos e iniciantes teatrais, também, ganham novos parâmetros a quem se esmerar e, o próprio público, agora tem acesso à um tipo de práxis teatral que melhor dialoga e apresenta estas questões. Teatro lotado, hoje, não significa mais um sinal de sucesso quando os rostos são os mesmos e conhecidos, mas sim, as plateias lotadas de novos rostos e, principalmente, de novos rostos consumidores. Isto também é uma sinalização de uma mudança no caráter moral da nossa comunidade de espectadores. Espectador pagante é aquele que financia e, portanto, demanda qualidade e uma prática teatral eticamente aceitável. A ferida da ética, SEMPRE, precisa ser remexida para alavancarmos mudanças importantes.

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Iago Lunière - pesquisador ligado ao Núcleo de Pesquisa e Experimentações das Teatralidades Contemporâneas e Interfaces Pedagógicas - Tabihuni da Universidade do Estado do Amazonas e pesquisador-bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas - FAPEAM. Continua dono de dois pinschers.

segunda-feira, 28 de março de 2016

A cúmplice Segunda Face.

Fonte: Fan Page do grupo Ateliê 23.



Existe um relógio. Esse relógio, defeituoso, mostra horas de modo estranho, talvez errado, e as pessoas que se guiam por este aparelho, planejam suas vidas, mediam suas ações, calculam suas palavras e seus relacionamentos. Alguém, porém, notou o erro deste tipo de relógio. Ninguém sabe quem foi essa pessoa, talvez um relojoeiro com uma visão bastante crítica sobre como deve ser um bom relógio e, outras pessoas, notando também o erro depois de avisadas pelo anônimo relojoeiro, decidiram concertar de alguma maneira tais aparelhos medidores do tempo. O grupo Ateliê 23 pode ser considerado um corajoso grupo que decidiu mexer nesse maquinário. Com seu primeiro espetáculo, o Persona - Face um, assistimos a uma tentativa de mexer nesse relógio. Com explosivo plástico C4 e dinamite, esse espetáculo nos expôs, demonstrou que estávamos pautando-nos na hora errada, no tempo errado, num relógio quebrado. O segundo espetáculo, porém, Persona - Face Dois, toma as peças explodidas e remontam o aparelho com uma precisão de relojoeiro, com uma ironia, técnica e refinamento elegante ante um tema que não está mais sendo engolfado pelo silêncio.

Esta crítica não se direciona a um espectador desconhecido. O lugar desta crítica parte daquele que acompanhou o processo de debate criativo proposto pelos artistas Daniel Braz, Ediel Castro, Eric Lima, Fabiele Vieira, Isabela Catão, Larissa Rufino, Laury Gitana e Taciano Soares sobre a questão da transsexualidade - (bosta!). O espetáculo não se desvincula do trabalho anterior do grupo, e por isto, a crítica é remetida aos que já estão iniciados no debate. Refletir a Face Dois isoladamente é incorrer em posicionamentos injustos.

As palavras sarcasmo e ironia, isoladas, não dão conta da sutileza com que foram trabalhadas neste espetáculo, mesmo quando o escracho é utilizado. É neste ponto que a percepção da obra pode se tornar injusta para quem não acompanhou a primeira face. Ver atores cisgêneros operando este tipo de humor que põe em dúvida o riso pode causar um impacto inicial, fazendo com que julgamentos precipitados os tirem do lugar de debatedores da opressão para o lugar de opressores. Este, talvez, é o ponto que mais tenha me preocupado: numa sociedade que está tão polarizada e ressentida, essa percepção pode parecer justa. Resguardada esta eventual confusão, a segunda face sorri com intimidade, sarcástica, confidente, cúmplice.

Enquanto a primeira face explodia todas as peças de nosso maquinário de conceitos e percepções, a segunda face é um convite a reconhecermos, por nós mesmos, que o relógio está muito defeituoso, dando um riso na boca e um aperto no peito de arrependimento por rir. Este tipo de efeito é elegante, sutil, desmascara - mesmo quando achamos que tiramos a máscara. Esse jogo de trapaça, que flagra a calça arriada, é embalada por uma musicalidade corpórea. O espetáculo também demonstra a potencia teatral que tem se tornado o grupo Ateliê 23 no Amazonas no que tange à questão da pesquisa e da técnica. A questão da técnica é ousada, mesmo que ouvidos mais sensíveis sintam os arranhos ocorridos aqui e ali causados por problemas de musicalidade - mas, ainda assim, a considerar a ousadia e a qualidade, os arranhos não passam a ser mais do que são: arranhos (leves, sutis).

Ironia, Sarcasmo, Leveza, Lucidez no diálogo. Tudo isto fica bastante evidente também no cenário e figurino, brancos, alvos, claros. Primeiro, seguindo um oposto completo à paleta barroca do primeiro espetáculo, envolvidas de negrume. Porém, todo este branco é uma demonstração simbólica de que a segunda face propõe um debate elevado, que puxa para si perspectivas muito espinhosas - é preciso estarmos bastante abertos para este debate, sermos página branca. Só assim podemos perceber como seria um mundo onde a questão de (identidade) gênero é o menor de nossos problemas, em que corpos não comunicam mais as identidades, e as relações entre eles não tem regras e pode ser bastante randômica. Mesmo o mais consciente acerca da questão de identidade de gênero fica com tela azul quando vislumbra uma mulher trans, interpretado por ator homem cis, que sente tesão por um homem trans, interpretado por uma mulher cis. Este tipo de relação, tão oculta, tão inimaginável por nossa tão cara moralidade, revela a nossa incapacidade de perceber (ou imaginar) a grandiosa diversidade no mundo - amplia nossa visão de mundo, transforma.

Para aqueles que acharam que o debate havia morrido num fuzilamento dentro de uma casa abandonada e escura, ledo engano, viram somente a primeira face - a segunda, teima em gritar. A segunda está sorridente e à mostra todos os sábados, às 20h, no espaço do Ateliê 23, na r. Tapajós, 166, Centro. Direção de Taciano Soares, equipe técnica com Ediel Castro, Laury Gitana e Fabiele Vieira, e atuação de Larissa Rufino, Isabela Catão, Daniel Braz e Eric Lima. Esta crítica se importa em informar que este espetáculo recebeu, por meio de edital, patrocínio público da Prefeitura de Manaus, por meio da Manauscult. Esta informação é para que os moradores de Manaus saibam que seus impostos foram muito bem aplicados no grupo Ateliê 23, que com este espetáculo faz jus à sua responsabilidade social (e ética) em relação ao erário público - exemplo que esperamos multiplicar-se no Teatro de Manaus.

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Iago Lunière - acadêmico de teatro que considera seriamente os efeitos de uma possível abstenção de nicotina e cafeína. Atualmente segue em busca da bolinha do cachorro perdido debaixo de algum móvel.

sexta-feira, 11 de março de 2016

O monólogo "A Tabacaria", soco em tua máscara.




Um dia um amigo me telefonou para ter uma daquelas conversas de amigos. Rimos das boas novas, falamos sobre alguns problemas, trocamos conselhos, e neste ponto da conversa, disfarçando a voz que denunciava um choro recente, ele disse que queria que eu lesse um poema que o havia tocado muito. Ele leu ao telefone, e eu li junto, na tela do computador. Aquele poema me tocou também, profundamente. Poema em linha reta, naquela experiência, me desnudou. E julgo que pode ser o mesmo com qualquer um. Esse foi meu primeiro contato com Fernando Pessoa.

E li e reli. E tantos outros que me contavam de Fernando Pessoa e seus heterônimos, diziam como eram tocados profundamente. E isso, por um lado, me gerava muito incômodo até que entendi: até aqui, no meu âmbito privado de apreciação, Fernando Pessoa ainda incute em minha ridícula existência que "Tive grandes ambições e sonhos dilatados — mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente".

O monólogo "A Tabacaria", de Geraldo Langbeck, é uma cirurgia precisa de ampliação de nosso senso de pequenês. Primeiro, o espaço. O Alienígena é um espaço alternativo onde poucos se encontram para um momento sagrado da arte teatral. Seguindo para este espaço escondido, temos uma sensação de destaque, de único, de que somos um dos poucos a ter acesso a algo. Ao adentrarmos no espaço, entre livros e vinis, aguardamos ao espetáculo. Abre-se uma portinhola pela qual entramos, subimos a escada para um sótão pequeno. Cada momento deste percurso é uma sensação de crime e segredo. Tudo para assistir à um monólogo que irá nos desnudar de toda a pseudo-importância que possamos ter de nós mesmos.

Geraldo Langbeck não nos oferece uma interpretação visceral, a cena não nos impressiona com nenhum grande artifício secreto da guilda dos artistas, mas como disse, a cirurgia é feita com precisão! Confundindo-nos com a impressão de estarmos a assistir a nós mesmos, a Fernando Pessoa, ou simplesmente ao poema entoado vivo. A máscara que agora é colada está rachada na tentativa de arrancarmos com a força com que Geraldo Langbeck nos oferece a sua cena, mas também com um alívio de aceite desta verdade e uma oportunidade de refletirmos o que construir a partir disto. De fato, o monólogo é uma demonstração bélica do arsenal de um ator que, se usado por inteiro, provoca uma destruição irreversível da obra e, se de forma contida, torna-a insustentável. Porém Geraldo Langbeck utiliza-se bem de seu arsenal, oferecendo-nos "A Tabacaria", de Fernando Pessoa, com sonoplastia de Socorro Langbeck e direção de Theo Correa, todas as quintas, 19h30, no Espaço Alienígena, temporada durante todo o mês de março de 2016.


p.S: Excepcionalmente nesta quinta (17), ocorrerá sua apresentação no Espaço do Casarão de Idéias.

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Iago Lunière - tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil.