Vim falar de depressão. Prazer, meu nome é Iago, e tive depressão! :D
Durante muito tempo, relutei bastante em falar do assunto. Era quase um tabu, não sei. Na verdade, falar em público, porque muitos amigos meus sofreram pencas em me aturar - e aqui cabe até um pedido de desculpas. A família percebeu só bem mais tarde, quando eu estava em tratamento.
Durante muito tempo, pensei em escrever sobre minha depressão. Confesso que até rascunhei várias vezes e o cursor repousou sobre o botão "Publicar", mas algo me dizia pra não fazer isso, não naquele momento em que eu ainda estava dentro do furacão. Precisava estar mais distanciado, ver de fora, ver da minha memória e com a menor dor possível, sem que os canais lacrimais se inundassem sem motivos, e o ar ficasse preso na garganta.
Você deve estar se perguntando: mas o que te causou depressão? A resposta é bem simples: não faço a menor ideia. Mesmo sendo acompanhado pela terapeuta, essas respostas estão meio que incólumes e bem protegidas de mim na minha própria psiquê. Hoje em dia, quando chove, ou quando ouço uma música mais melancólica, e me lembro dos momentos difíceis em que passei, eu me pergunto as causas, como cheguei àquele ponto. Mil respostas vêm, mas da mesma forma vão embora.
A depressão não é um caso exclusivo meu. Meu pai teve depressão. Acompanhei o caso dele dos treze anos de idade até pouco antes de entrar na faculdade, quando completava dezoito anos. Foram tempos difíceis, não nego. Mas não lembro daquilo me afetar mais ou menos do que qualquer outra pessoa que tenha problemas de relação com os pais. De fato, meu pai me poupava de muita coisa. Coisas que eu só soube mais tarde, quando ele se sentiu melhor pra falar sobre o assunto. Apenas em duas situações, eu vi que meu pai estava realmente doente: numa, em seu desespero por querer dormir (pois não dormia havia dias) tentou uma superdose e precisamos interná-lo. Acompanhei-o até o hospital psiquiátrico. Naquele dia, o homenzarrão de mãos grandes que cobria as minhas para atravessar a rua era apenas um menino. Ele estava com medo. Estava com vergonha. Envergonhado de estar naquela situação, na minha frente. Na outra, por igual desespero por dormir, me bateu com um cinturão porque brincava com o cachorro, e o cachorro latia e isso não o deixava dormir. Ele chorou muito naquele dia, arrependido. Sempre me pediu desculpas, e eu sempre o desculpei - mas sempre tive a impressão de que ele próprio não se desculpava.
Bem, isso pode te dar uma noção do que seja a depressão. Boa parte dela é medo, outra tanta dose é vergonha, também desespero, e outra tanta é simplesmente o fato de não se perdoar por... por qualquer coisa que você ache que é inaceitável, cruel, medonho ou grotesco - muitas vezes não é... é só algo bobo, mas a depressão não te deixa aceitar que é algo bobo.
Eu sempre tentei ser muito consciente de mim. E houve um dia, no trabalho, vendo os meus companheiros atuando, que percebi que algo estava errado comigo. Aquilo era uma semente do que viria a seguir. A tristeza é um campo fértil para a tristeza. Convivi com pessoas igualmente tristes e deprimidas e, não sei dizer porque, me sentia bem ao lado delas. Talvez porque elas estavam numa situação semelhante, porque entendessem aquela sensação inócua de vazio misturado com escuridão palpável. Pouco a pouco, minha visão ia ficando apurada para a tristeza. Via a tristeza em tudo e, de alguma forma, aquilo me aprazia de uma maneira estranha.
Uma falta no trabalho, e nenhuma vontade de sequer levantar da cama. Um cansaço inexplicável, ou uma dor de cabeça que não tinha sentido. Havia começado a fumar um pouco antes daquele tempo, e o que antes era só uma experiência, virou tabua de salvação - não tinha essa consciência, precisei esperar pra perceber isso hoje. Logo os cigarros tornaram-se mais fortes, as bebidas alcoólicas, antes recreativas, tornaram-se anestésicos. Três dias de falta. Quatro dias de falta. E meu chefe me chamou, e perguntou o que estava havendo. Não consegui não chorar, e ele entendeu tudo. Ele próprio havia passado por aquilo, mas infelizmente, ele não tinha poderes de me ajudar, e seus superiores pediram meu desligamento.
Fui pra casa naquele dia, abracei meu pai, menti sobre o trabalho, e nos mudamos daquela casa naquele mesmo mês. Comecei a escrever um diário e, lendo-o hoje, vejo a trajetória para os tempos mais sombrios que vivi até agora. Sombrios porque as sombras estavam dentro de mim. Quero dizer, esses termos mais poéticos em nada ajudam. Sério mesmo. Ilustram, mas pra quem tem depressão, eles são carregados de conceitos que de fato definem muito do que eles sentem, mas são difíceis de comensurar a profundidade do que eles sentem - daí o problema da minha terapeuta em me ajudar, durante um bom tempo. Eu poderia aqui descrever pra vocês os processos químicos que ocorrem no cérebro de um depressivo, ou as possíveis causas traumáticas, ou a possibilidade de herança genética... e não me assusta se você julga que por causa do meu pai eu tive depressão - não acho que tenha sido isso, desculpa. Mas isso não interessa. No final das contas, essas pessoas sentem medo, vergonha, e a incapacidade de se perdoar.
Outra parte também é a completa falta de prazer. A comida, por mais temperada, era insossa. A água por mais gelada, era insuficiente para saciar. A bebida mais forte, incapaz de anestesiar. Um mês sem sair de casa... Dois meses... E meu pai começou a perceber que havia algo errado. Saí de casa, fui morar com minha tia... Minha doce tia que sempre abriu seus portos quando nenhum outro estava aberto. Um mês, dois meses, três... Não saia de casa sequer pra comprar algo pra comer.
Os amigos... Bem, falei dos amigos, né? A vergonha que sentia era tão grande, que me afastei de boa parte deles. Hoje, faz tanto tempo que me distanciei, que tenho até dúvidas de que possa haver retorno. É que a vida passou, muita coisa mudou. Tentei reatar contato com alguns, mas era meio que tarde pra reatar qualquer coisa. Não que eles sejam incompreensíveis, muitos foram bastante compreensíveis. Mas é que a vida, de fato, seguiu. Uns mudaram-se de estado, outros seguiram carreira em algo que toma-lhes boa parte do tempo - eu próprio fiquei assim. Os que ficaram do meu lado... Bem, os que perceberam o que estava acontecendo, estes não foram embora, nem aceitaram o meu "está tudo bem, preciso só de um tempo pra mim". Pouco a pouco fui sugando-os para minhas sombras. Criei em torno de mim um ambiente inóspito, impossível de se viver e conviver. Dois amigos disseram desistir. Naquele dia, me auto-mediquei e tentei a superdose. Dormi por dois dias, e a única coisa que consegui foram hematomas por todo o corpo - tive sonambulismo. Quando acordei, e vi que ainda estava vivo, tentei me enforcar. Na hora, lembrei quem encontraria meu cadáver. Minha tia. Desfiz a forca, guardei o banco, e fui dormir. No dia seguinte, quando minha tia chegou de viagem, almoçamos juntos, desabafei, e naquele mesmo dia comecei o tratamento com a psicóloga.
As pessoas não entendem muito bem porque tem gente que comete suicídio. E é claro que elas não entendem! Já viu algum cadáver voltar à vida pra explicar porque se matou? Eu nunca! Naquela época a desesperança da vida, a vergonha, o medo, a culpa, o desprazer eram tamanhos, que não valia à pena viver. Sim, pessoas com depressão chegam à constatação de que não vale à pena viver, e não adianta lhes explicar motivos ou argumentos para não desistir da vida. Você não teria ideia do que elas sentem em relação à sua existência. Tudo não passa de um profundo desprazer de viver!
A depressão tem múltiplas causas, e demorou um longo tempo pra minha psicóloga entender meu quadro, e outro tanto pra tentar me convencer o contrário de tudo aquilo que estava incutido em mim. O monstrinho da depressão que sussurrava coisas horripilantes, pouco a pouco ia pro cantinho pra ficar de castigo. Durou um tempo pra entender que não havia do que ter medo, nem do que se envergonhar, e que eu precisava me perdoar mais, e buscar sentir prazer em coisas simples e banais: assistir um filme com um amigo, pintar um quadro, olhar o por-do-sol, ler uma piada e morrer de rir dela. Não preciso (e nem quero) reproduzir pra você como foi minha terapia. Meu caso, foi meu caso. Pode ser diferente de outros tantos que ocorrem por aí. Mas com o tempo, a depressão deixou de me assombrar. Algumas vezes ela vem fazer uma visita, mas ela já não me atinge como fazia antes. Hoje eu me conheço suficiente pra acionar minhas estratégias de prevenção.
É difícil, eu sei. Durante um bom tempo, você precisa mudar sua personalidade, seus costumes, suas formas de pensar. E essas coisas ninguém muda do dia pra noite, nem por uma decisão ou por um decreto. Durante um bom tempo, tentei mudar a forma como caminho, ou como soa a minha risada, e até como é minha personalidade. Tentei ser engraçado, intelectual, sério, risonho, estereótipo e criativo. Experimentei outros estilos de música, ler outros tipos de livros, pintar outros tipos de quadros. Cada tentativa, eu me conhecia mais, e via aquilo em que me adequava e aquilo que definitivamente não cabia em mim. Ainda tenho experimentado, e ainda estou encontrando aquilo que me cabe e aquilo que não me serve em nada. Durante algum tempo, isso também pode se tornar doentio. Porque o medo é um dos últimos que somem. Medo de voltar a estar naquele estado. Então o desejo de ser cada vez melhor se torna uma obsessão. Quando me senti melhor, eu não desisti da terapia, continuei. Afinal, se não tivesse continuado, provavelmente essa obsessão me levaria à frustração de não conseguir atender minhas expectativas, e provavelmente voltaria àquele estado anterior. Pouco a pouco, você olha onde está, e lembra de onde estava, e o medo vai desaparecendo. No lugar, a autoconfiança vai surgindo e tomando forma.
Hoje em dia encaro algumas coisas (que antes me eram complexas) de forma muito simples. Coisas banais pararam de me atingir como me atingiam antes. Claro, muita coisa ainda está lá, empoeirando, ou escondido em armários, pronto para saltarem. Mas quando chegar o momento, cuidarei delas, com calma. A construção de mim, desse novo eu, certamente não acabou, e tem muito do que continuar. E se você, por algum motivo conhece alguém que está passando por isso, ou se você próprio está passando por isso, não tenha medo! Procure ajuda! Não guarde isso pra você, não oculte isso de ninguém! Não cause vergonha a quem passa por isso, nem sinta vergonha e nem deixe alguém fazer você se sentir envergonhado. Esse peso pode diminuir assim como em mim diminuiu, até que um dia ele desapareça!
Durante muito tempo, relutei bastante em falar do assunto. Era quase um tabu, não sei. Na verdade, falar em público, porque muitos amigos meus sofreram pencas em me aturar - e aqui cabe até um pedido de desculpas. A família percebeu só bem mais tarde, quando eu estava em tratamento.
Durante muito tempo, pensei em escrever sobre minha depressão. Confesso que até rascunhei várias vezes e o cursor repousou sobre o botão "Publicar", mas algo me dizia pra não fazer isso, não naquele momento em que eu ainda estava dentro do furacão. Precisava estar mais distanciado, ver de fora, ver da minha memória e com a menor dor possível, sem que os canais lacrimais se inundassem sem motivos, e o ar ficasse preso na garganta.
Você deve estar se perguntando: mas o que te causou depressão? A resposta é bem simples: não faço a menor ideia. Mesmo sendo acompanhado pela terapeuta, essas respostas estão meio que incólumes e bem protegidas de mim na minha própria psiquê. Hoje em dia, quando chove, ou quando ouço uma música mais melancólica, e me lembro dos momentos difíceis em que passei, eu me pergunto as causas, como cheguei àquele ponto. Mil respostas vêm, mas da mesma forma vão embora.
A depressão não é um caso exclusivo meu. Meu pai teve depressão. Acompanhei o caso dele dos treze anos de idade até pouco antes de entrar na faculdade, quando completava dezoito anos. Foram tempos difíceis, não nego. Mas não lembro daquilo me afetar mais ou menos do que qualquer outra pessoa que tenha problemas de relação com os pais. De fato, meu pai me poupava de muita coisa. Coisas que eu só soube mais tarde, quando ele se sentiu melhor pra falar sobre o assunto. Apenas em duas situações, eu vi que meu pai estava realmente doente: numa, em seu desespero por querer dormir (pois não dormia havia dias) tentou uma superdose e precisamos interná-lo. Acompanhei-o até o hospital psiquiátrico. Naquele dia, o homenzarrão de mãos grandes que cobria as minhas para atravessar a rua era apenas um menino. Ele estava com medo. Estava com vergonha. Envergonhado de estar naquela situação, na minha frente. Na outra, por igual desespero por dormir, me bateu com um cinturão porque brincava com o cachorro, e o cachorro latia e isso não o deixava dormir. Ele chorou muito naquele dia, arrependido. Sempre me pediu desculpas, e eu sempre o desculpei - mas sempre tive a impressão de que ele próprio não se desculpava.
Bem, isso pode te dar uma noção do que seja a depressão. Boa parte dela é medo, outra tanta dose é vergonha, também desespero, e outra tanta é simplesmente o fato de não se perdoar por... por qualquer coisa que você ache que é inaceitável, cruel, medonho ou grotesco - muitas vezes não é... é só algo bobo, mas a depressão não te deixa aceitar que é algo bobo.
Eu sempre tentei ser muito consciente de mim. E houve um dia, no trabalho, vendo os meus companheiros atuando, que percebi que algo estava errado comigo. Aquilo era uma semente do que viria a seguir. A tristeza é um campo fértil para a tristeza. Convivi com pessoas igualmente tristes e deprimidas e, não sei dizer porque, me sentia bem ao lado delas. Talvez porque elas estavam numa situação semelhante, porque entendessem aquela sensação inócua de vazio misturado com escuridão palpável. Pouco a pouco, minha visão ia ficando apurada para a tristeza. Via a tristeza em tudo e, de alguma forma, aquilo me aprazia de uma maneira estranha.
Uma falta no trabalho, e nenhuma vontade de sequer levantar da cama. Um cansaço inexplicável, ou uma dor de cabeça que não tinha sentido. Havia começado a fumar um pouco antes daquele tempo, e o que antes era só uma experiência, virou tabua de salvação - não tinha essa consciência, precisei esperar pra perceber isso hoje. Logo os cigarros tornaram-se mais fortes, as bebidas alcoólicas, antes recreativas, tornaram-se anestésicos. Três dias de falta. Quatro dias de falta. E meu chefe me chamou, e perguntou o que estava havendo. Não consegui não chorar, e ele entendeu tudo. Ele próprio havia passado por aquilo, mas infelizmente, ele não tinha poderes de me ajudar, e seus superiores pediram meu desligamento.
Fui pra casa naquele dia, abracei meu pai, menti sobre o trabalho, e nos mudamos daquela casa naquele mesmo mês. Comecei a escrever um diário e, lendo-o hoje, vejo a trajetória para os tempos mais sombrios que vivi até agora. Sombrios porque as sombras estavam dentro de mim. Quero dizer, esses termos mais poéticos em nada ajudam. Sério mesmo. Ilustram, mas pra quem tem depressão, eles são carregados de conceitos que de fato definem muito do que eles sentem, mas são difíceis de comensurar a profundidade do que eles sentem - daí o problema da minha terapeuta em me ajudar, durante um bom tempo. Eu poderia aqui descrever pra vocês os processos químicos que ocorrem no cérebro de um depressivo, ou as possíveis causas traumáticas, ou a possibilidade de herança genética... e não me assusta se você julga que por causa do meu pai eu tive depressão - não acho que tenha sido isso, desculpa. Mas isso não interessa. No final das contas, essas pessoas sentem medo, vergonha, e a incapacidade de se perdoar.
Outra parte também é a completa falta de prazer. A comida, por mais temperada, era insossa. A água por mais gelada, era insuficiente para saciar. A bebida mais forte, incapaz de anestesiar. Um mês sem sair de casa... Dois meses... E meu pai começou a perceber que havia algo errado. Saí de casa, fui morar com minha tia... Minha doce tia que sempre abriu seus portos quando nenhum outro estava aberto. Um mês, dois meses, três... Não saia de casa sequer pra comprar algo pra comer.
Os amigos... Bem, falei dos amigos, né? A vergonha que sentia era tão grande, que me afastei de boa parte deles. Hoje, faz tanto tempo que me distanciei, que tenho até dúvidas de que possa haver retorno. É que a vida passou, muita coisa mudou. Tentei reatar contato com alguns, mas era meio que tarde pra reatar qualquer coisa. Não que eles sejam incompreensíveis, muitos foram bastante compreensíveis. Mas é que a vida, de fato, seguiu. Uns mudaram-se de estado, outros seguiram carreira em algo que toma-lhes boa parte do tempo - eu próprio fiquei assim. Os que ficaram do meu lado... Bem, os que perceberam o que estava acontecendo, estes não foram embora, nem aceitaram o meu "está tudo bem, preciso só de um tempo pra mim". Pouco a pouco fui sugando-os para minhas sombras. Criei em torno de mim um ambiente inóspito, impossível de se viver e conviver. Dois amigos disseram desistir. Naquele dia, me auto-mediquei e tentei a superdose. Dormi por dois dias, e a única coisa que consegui foram hematomas por todo o corpo - tive sonambulismo. Quando acordei, e vi que ainda estava vivo, tentei me enforcar. Na hora, lembrei quem encontraria meu cadáver. Minha tia. Desfiz a forca, guardei o banco, e fui dormir. No dia seguinte, quando minha tia chegou de viagem, almoçamos juntos, desabafei, e naquele mesmo dia comecei o tratamento com a psicóloga.
As pessoas não entendem muito bem porque tem gente que comete suicídio. E é claro que elas não entendem! Já viu algum cadáver voltar à vida pra explicar porque se matou? Eu nunca! Naquela época a desesperança da vida, a vergonha, o medo, a culpa, o desprazer eram tamanhos, que não valia à pena viver. Sim, pessoas com depressão chegam à constatação de que não vale à pena viver, e não adianta lhes explicar motivos ou argumentos para não desistir da vida. Você não teria ideia do que elas sentem em relação à sua existência. Tudo não passa de um profundo desprazer de viver!
A depressão tem múltiplas causas, e demorou um longo tempo pra minha psicóloga entender meu quadro, e outro tanto pra tentar me convencer o contrário de tudo aquilo que estava incutido em mim. O monstrinho da depressão que sussurrava coisas horripilantes, pouco a pouco ia pro cantinho pra ficar de castigo. Durou um tempo pra entender que não havia do que ter medo, nem do que se envergonhar, e que eu precisava me perdoar mais, e buscar sentir prazer em coisas simples e banais: assistir um filme com um amigo, pintar um quadro, olhar o por-do-sol, ler uma piada e morrer de rir dela. Não preciso (e nem quero) reproduzir pra você como foi minha terapia. Meu caso, foi meu caso. Pode ser diferente de outros tantos que ocorrem por aí. Mas com o tempo, a depressão deixou de me assombrar. Algumas vezes ela vem fazer uma visita, mas ela já não me atinge como fazia antes. Hoje eu me conheço suficiente pra acionar minhas estratégias de prevenção.
É difícil, eu sei. Durante um bom tempo, você precisa mudar sua personalidade, seus costumes, suas formas de pensar. E essas coisas ninguém muda do dia pra noite, nem por uma decisão ou por um decreto. Durante um bom tempo, tentei mudar a forma como caminho, ou como soa a minha risada, e até como é minha personalidade. Tentei ser engraçado, intelectual, sério, risonho, estereótipo e criativo. Experimentei outros estilos de música, ler outros tipos de livros, pintar outros tipos de quadros. Cada tentativa, eu me conhecia mais, e via aquilo em que me adequava e aquilo que definitivamente não cabia em mim. Ainda tenho experimentado, e ainda estou encontrando aquilo que me cabe e aquilo que não me serve em nada. Durante algum tempo, isso também pode se tornar doentio. Porque o medo é um dos últimos que somem. Medo de voltar a estar naquele estado. Então o desejo de ser cada vez melhor se torna uma obsessão. Quando me senti melhor, eu não desisti da terapia, continuei. Afinal, se não tivesse continuado, provavelmente essa obsessão me levaria à frustração de não conseguir atender minhas expectativas, e provavelmente voltaria àquele estado anterior. Pouco a pouco, você olha onde está, e lembra de onde estava, e o medo vai desaparecendo. No lugar, a autoconfiança vai surgindo e tomando forma.
Hoje em dia encaro algumas coisas (que antes me eram complexas) de forma muito simples. Coisas banais pararam de me atingir como me atingiam antes. Claro, muita coisa ainda está lá, empoeirando, ou escondido em armários, pronto para saltarem. Mas quando chegar o momento, cuidarei delas, com calma. A construção de mim, desse novo eu, certamente não acabou, e tem muito do que continuar. E se você, por algum motivo conhece alguém que está passando por isso, ou se você próprio está passando por isso, não tenha medo! Procure ajuda! Não guarde isso pra você, não oculte isso de ninguém! Não cause vergonha a quem passa por isso, nem sinta vergonha e nem deixe alguém fazer você se sentir envergonhado. Esse peso pode diminuir assim como em mim diminuiu, até que um dia ele desapareça!
