quinta-feira, 4 de junho de 2015

Intolerância Estética – entre o ignorante e o militante

No final de 2014, uma performance ocorrida na entrada da Escola Superior de Artes e Turismo gerou uma grande polêmica. A reitoria da Universidade do Estado do Amazonas fora diretamente envolvida, e os professores do curso de teatro, convidados a prestar esclarecimentos. O curso se reuniu para a leitura de uma carta de repúdio à intolerância estética, os alunos e professores debateram sobre o tema, e até aquele momento, tudo acalmara-se – apesar de continuar as linhas burocráticas e processuais.

Pouco tempo depois, um professor de outro curso inicia uma séria discussão durante a aula de uma das professoras do curso de Teatro. O tema da aula: teatro político. Não passou de gritaria nos corredores, e por algum tempo durou em boatos, ameaças de processos, boletim de ocorrência por uma “agressão”, e esquecido depois, também ficou.

Na sequência, com tempo suficiente para que o evento anterior fosse esquecido, e outro docente do curso de Teatro recebe uma intimação: um processo fora instaurado contra ele, alegando diversas acusações contraditórias (em uma parte do processo, é chamado de homofóbico, noutra, afirma que obrigou alunos do mesmo sexo a se beijarem). Viu-se obrigado a prestar esclarecimentos e presenciar uma sequência sórdida de depoimentos contra a sua pessoa, em silêncio. Sete alunos assinaram o processo. Muitos outros ficaram neutros, por terem seus ressentimentos com o professor “exigente”, como se pontualidade e disciplina fossem males a serem evitados, enquanto um grande grupo militou a permanência e a defesa do professor em questão. Resultado: paira no ar a possibilidade de que professor possa ir embora da cidade, e Manaus possa perder um excelente profissional.

Recentemente, uma intervenção cênica realizada por alunos do curso de teatro, que consiste em atores interpretando prostitutas seminuas (como a que estamos acostumados a presenciar pelas obscuras avenidas da cidade de Manaus), fora rechaçada por um docente de outro curso. A polícia fora chamada, pois a intervenção configuraria “ato obsceno”, ou algum tipo de atentado à moral e bons costumes qualquer. O fato está em andamento, e os alunos do curso de teatro, chocados, debatem: como reagir a atos de censura (de novo, porque isso foi feito no primeiro fato supracitado, lembram)?

Vivemos tempos de intolerância. Somos de direita coxinha ou esquerda caviar petralha. Somos defensores da fé, ou guerreiros da liberdade LGBT. Somos alunos da UEA, ou somos Dinossauros. Nestes casos citados, existe também um jogo de extremismos e intolerância.

A intolerância estética possui seus extremos. Presenciamos dois tipos de intolerantes: o Ignorante e o Militante. O Ignorante é aquele que, por desconhecer, por não estar acostumado, não consegue imaginar as possibilidades estéticas da Arte e, portanto, possui um senso estético com determinadas atrofias – e tais atrofias surgem tão somente porque tiveram uma deficiente formação em Arte no seu ensino básico, fundamental e médio, ou na educação familiar. O ignorante pouco reage à Arte, pois se gosta, contenta-se, e se não gosta critica aqui e ali, encontra algum rótulo para pendurar naquilo que aprecia (maluquice, sem-vergonhice, chato, etc.). O mundo, para ele, divide-se entre aquilo que ele gosta e aquilo que não gosta. Reage, mas só se muito incomodado em sua rotina, em seus territórios cotidianos. Ao intolerante estético que sofre de ignorância, há um bom remédio: diálogo, paciência, dedicação, experimentação, oportunidade de conhecer a Arte.

Mas há também o intolerante militante. Este, talvez, não tenha uma formação estética tão deficiente assim. Mas defende o que é Arte com unhas e dentes. Suas críticas, algumas vezes é fundada, mas embasadas no seu desejo por denegrir aquilo que é diferente do que ele considera Arte. Suas ideologias influenciam a decisão entre o carimbo da boa arte, e da obscenidade. Dificilmente contextualizam a obra que apreciam. Colocam-na em caixinhas. Verificam minuciosamente se elas acatam às suas condições de boa arte, como se arte fosse um produto industrial que deva atender à pré-requisitos estabelecidos. O intolerante militante é sempre a vanguarda do conservadorismo, que vira e mexe ataca novas propostas estéticas.


Mas há, entre o Ignorante e o Militante, o pior de todos: o Intolerante que é ignorante e militante. A ele falta-lhe tudo o que falta ao Ignorante. Mas é irremediável, pois milita a sua intolerância ignorantemente. Ao contrário do que só é militante, é quase que incapaz de debater criticamente. Mas assume posições radicais. Instaura processos, invade aulas com gritarias, dissemina mentiras, chama a polícia - como se coubesse à polícia censurar a Arte. Não adianta explicar-lhes o que é diversidade estética, nem esmiuçar a proposta, o contexto, os signos, a simbologia por detrás da obra. Transforma o que poderia ser um belo debate estético e uma dicotomia entre certo e errado, quando na Arte, a última coisa que contemporaneamente se deseja, é apontar certo e errado – mas propor reflexões sobre o que poderia ser estas duas coisas entre tantas outras. Como fazedores de Arte, de Teatro, precisamos nos atentar aos Intolerantes. Paciência e didática aos que precisam de paciência e didática. Argumento e embasamento aos que militam um conservadorismo na Arte. E militância e resistência àqueles que querem fazer imperar o obscurantismo, pois é isto o que lhes interessa, e é isto que jamais podemos aceitar.


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Iago Lunière - curioso que só a peste, gasta boa parte do tempo pesquisando abobrinhas e observando meio mundo com um fascínio sobre aquilo percebe. Tem dois cães e um CPF.

Interpretar - Entre ele e eu, os conflitos internos (ou porque não gosto de interpretar)

Diversas vezes já houve momentos em que me estressei com o diretor. Às vezes nem era culpa do coitado, afinal, ele estava tentando tirar leite de pedra. Mas me irrita quando o diretor resolve se dedicar à mim, as repetições que ele me exige porque seu gênio artístico ainda não captou a cinergia exata da cena, quando ele vai dizendo para que eu tente de uma outra maneira, ou literalmente diz o que eu tenho de fazer, qual o movimento, quando o gesto e... Não, pera. Gênio? Cinergia? Outra maneira?

É, um dos motivos de eu ter saltado desse trem chamado Interpretação e pegar o bonde chamado Pesquisa foi justamente tentar entender esse monte de coisas que acontece com quem se dedica a ser ator/atriz. Tem gente que tem talento, e tem gente que é esforçada - não, aqui não tem ironia (risos). Tem gente que simplesmente tem isso que chamei de gênio, e não sou eu quem está dando esse nome, isso realmente existe. É um talento nato da pessoa, que não se sabe explicar muito bem como faz, só sabe que faz. Essa genialidade por muito tempo foi considerada misteriosa, mas na verdade, a ciência tá dissecando isso já tem um tempo, e de mistério não tem nada. O que vamos descobrindo à medida que pesquisamos, é que de potencial criativo (artístico) todo mundo tem, e que esse potencial pode ser adquirido! A genialidade não consegue se explicar sozinha, e quem faz parte do outro grupo, o dos esforçados, enfrenta uma série de dificuldades na hora de encenar. Mas os resultados da genialidade podem sim ser alcançados. Nessas horas a gente precisa de um bom diretor, e de um bom senso de observação não só do mundo à nossa volta, mas do mundo dentro de nós. Essas dificuldades, quando não superadas, implicam numa série de sintomas que vão salpicando uma peça teatral: a tal cinergia da cena, por exemplo, às vezes torna-se pode ser maçante, tediosa, incompatível - ou acelerada, fugaz, incompreensível. 

E então vamos tentando de outras maneiras, até que cansamos, nos entediamos, e lá se vai um processo pro ralo que só volta com muita força de vontade (e às vezes, nem isso). Um destes sintomas que surgem, logo de cara, se apresenta dentro de um processo criativo teatral: o conflito entre eu (o ator) e ele (personagem). É bom que isso aconteça, principalmente dentro do processo criativo, porque é ali o lugar deste conflito ocorrer.

Recentemente, em uma montagem com alguns amigos, lidei com o problema da criação da personagem. A coisa em que mais empacava, era exatamente em como trazer a personagem à cena, como interpretá-la. Eu e meus colegas passamos um mês dissecando o texto teatral, pesquisando as personagens, tentando entendê-las, montá-las. Eu tinha a visão da personagem, conhecia como a mim mesmo. Mas na hora de experimentar uma cena, ou uma fala, a coisa mais comum a acontecer era um "Desculpa, vamos repetir?". Não que repetir seja ruim. Mas recomeçar é que são elas. De fato, eu estava tão vidrado em tentar fazer uma boa cena, de fazer tudo certo, de pensar cada movimento, ou cada fala, ou cada expressão, que a concentração, fator importante para o ato de interpretar, passava a ser um problema.

Somente depois de muito tempo eu conseguia breves momentos de desligamento. Com desligamento, quero dizer que eram breves momentos em que eu relaxava de tudo, não pensava na personagem, mas pensava como a personagem. E o resto todo fluía: a fala, o andar, o corpo... Por mais que muita coisa do ator estivesse ali, sentia que não era eu ali, mas alguma outra coisa.

Aí, o risco: um contentamento, um alívio. Um relaxar e um acreditar de que está bom, e na primeira situação não programada, nos vemos em uma situação embaraçosa, não há um protocolo a seguir, e então, a improvisação pode ser ou a salvação, ou a ruína - e nestes casos, é um cara ou coroa incerto. O engraçado é que eu sempre percebi esses conflitos entre a personagem e o ator (eu). Sempre percebi que, de alguma maneira, eu bloqueava a personagem e dificilmente acontecia alguma coisa ali, na cena. Nunca entendi como eu conseguia fazer isso, logo, eu não sabia como driblar essa situação. Foi em uma pesquisa de campo que tive a oportunidade de presenciar um caso semelhante: um ator, que tinha de fazer uma cena em que sua personagem monologava sobre si e sobre sua situação de opressão, constantemente parava a cena e pedia desculpas aos observadores, recomeçando a sua fala após alguns minutos de concentração. Foram quase uma dezena de tentativas, até que uma deu certo, e ele foi longe, se entregou. Três minutos depois, a platéia já totalmente imersa na cena que o ator estava fazendo foi castrada novamente com um pedido de desculpas, mais alguns minutos de concentração, e um novo recomeço.

Observando aquele ator, eu ficava assombrado de notar seu alto grau de exigência (sobre si, sobre a cena, sobre sua voz e sobre o seu corpo), o que mais empacava do que deixava fluir o seu processo de interpretação. Quase que eu podia ver através de seu semblante, aquilo que se passava em sua mente: racionalizando a fala, repassando-a mentalmente afim de poder entoa-la. E lá se vinham pausas e mais pausas (exatamente o que eu fazia em cena, no meu processo, e nunca entendia quando reclamavam que eu pausava demais). Eu ainda estava no modo manual: quem trabalha ali é o intelecto, parte por parte - uma relembra o texto, outra analisa o tom das palavras, das frases... quando a fala é realmente dita, lá se foi o ritmo, o tempo, o tom...

Depois daquele ensaio, na saída, enquanto conversava com alguns atores, fui percebendo que o ator em si conhecia muito bem sua personagem - tal como eu conhecia a minha. E ele falava dela com um brilho no olhar, com um reconhecimento. Não tenho dúvidas que, enquanto esculpia, Michelangelo deveria ter aquele mesmo brilho no olhar, que sabia muito bem o que estava criando. Mas o ator não conseguia colocar aquela personagem em cena. Eu também não conseguia por minha personagem em cena. Foi então que caiu como um raio a constatação: o conflito entre eu (ator) e ele (personagem) estava justamente na minha inabilidade de relaxar meus estados de ânimos e simplesmente interpretar, pôr em cena, a escultura não está fora, está em mim. Eu sou o mármore, o cinzel e o escultor. 

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Iago Lunière - curioso que só a peste, gasta boa parte do tempo pesquisando abobrinhas e observando meio mundo com um fascínio sobre aquilo percebe. Tem dois cães e um CPF.


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Dicas de leitura:

- KUSNET, Eugênio - O ator e o método

- ARNHEIM - Intuição e Intelecto

- Os escritos de Grotowski e Barba também muito tratam sobre estes estados de relaxamento, mas como ainda estou deglutindo esses, a recomendação é de todas as obras.