domingo, 27 de outubro de 2013

Depressão - uma caminhada num sábado ensolarado

Essa palavra me assusta bastante, "depressão". Nos últimos meses li uma infinidade de blogs de pessoas que tem Depressão, artigos de jornais, de sites especializados, Papers, Pesquisas... e ainda assim, me assusta. Me é incompreensível. Tristeza, qualquer um em algum momento da vida já passou, mas ter isso maximizado dentro da cabeça, e de forma contínua, é aterrorizante!

A palavra que melhor uso pra definir, é um estado/sensação de estar completamente vazio. Mas não vazio de forma qualquer, mas um Vazio denso, preenchido de vácuo, vedado de pressão, grande demais que ocupa o peito e se torna torturante. O prazer inexiste, portanto. Não há prazer em comer, beber, dormir, estar acompanhado ou só. Com o tempo, a mente começa a ver tudo cinza, as coisas começam a perder textura, e o tempo parece parar.

Não se tem sobre o que pensar. Ou pensa-se demais, com mil coisas ao mesmo tempo, ou não se pensa nada. Às vezes, tenho a impressão de não estar pensando em absolutamente nada. Então me escondo numa fantasia qualquer - geralmente, me escondo na casa de minha avó, entre pomares e grama orvalhada. E com o tempo, sem contato algum com o prazer, a gente vai definhando. E quando vamos percebendo que estamos conectados com um mundo de pessoas, mesmo que poucas, a gente percebe que nos tornamos um fardo. Por que um fardo? Porque nos tornamos inúteis, mas ainda vivemos. E se não somos nós quem batalhamos para nos manter assim, as pessoas que nos cercam o fazem, mesmo não sendo sua obrigação. E isso nos afeta MUITO. Percebemos, portanto, que sendo um fardo, devemos nos dar ao menos ao luxo de não dar trabalho. E seguindo uma lógica intrincada, vamos percebendo que a solução ideal, é a morte.

Sempre ouvi falar da morte como uma solução definitiva. É reconfortante imaginar que ao morrer, deixaremos de sofrer uma infinidade de problemas da qual somos cercados enquanto vivos. Abandonamos a condição humana, a frustração de não saber quem somos nem pra onde vamos... descansamos! Encontramos alívio. Então, a morte se torna tentadora. O que nos salva são as crenças que nos cercam e que foram usadas para nos moldar. Céu, Inferno, Purgatório, Reencarnação, Karma...

Mas um torturado, depois de longo tempo de tortura, perde até mesmo as suas crenças. E a tortura é longa demais, e quando é dentro de si, é pior. Então a morte se torna cada vez mais tentadora e as crenças não são mais nosso firewall (ou o nosso bloqueio contra esse ato operacional do cérebro). Não há remédios, poções, cirurgias... Há tratamento, mas nunca ouvi quem tenha se curado. E o tempo passa e voa, e aquela escuridão ainda está lá. Ainda está ali, encrustada.

Neste sábado, acordei deprimido. Tive nas duas últimas semanas uma crise depressiva. Não tão forte quanto das vezes em que pensei seriamente em me matar, mas suficiente para repensar essa possibilidade. Depois de ficar algumas semanas enfurnado em casa, decidi sair. Juntei meu caderno, minha caneta, alguns papéis, uma garrafa com água, e parti de casa. Sentei e desenhei duas árvores que via de onde estava sentado, além do prédio atrás delas. Era muita beleza, ali. Daí dois jovens sentaram do meu lado e ofereceram maconha. Dei uma tragada, mas não aconteceu nada. Me levantei, e saí andando. Tinha levado uma garrafa de vinho, pra ir bebendo enquanto tentava abstrair da vida. Lembrei de uma reunião que ia ter na casa de uma amiga, estava passando por perto, e fui lá.

Foi uma tarde divertida. O vinho, acabei compartilhando com outra amiga. Jogamos War, Baralho, Mímica... mas ainda não era aquilo. Voltando pra casa, decidi perambular mais. Foi quando vi um senhor dentro de um carro. Estava estacionado na frente de uma casa de festas, onde uma baita confraternização estava rolando. Acho que ele não me viu, mas fiquei observando. Ele estava lá, sentado no banco do motorista, fumando. Foi tempo suficiente para alguém da festa vir pro carro, caso ele estivesse parado e esperando por alguém. Mas ninguém veio. A festa rolava solta lá dentro, e ele estava lá fora, dentro do carro, fumando. Podia ter sido só uma saída pra um cigarro, mas ele acendeu outro. Não esperei pra ver se haveria um terceiro cigarro, mas certamente, fiquei curioso pra saber o que o fez abandonar a festa pra ficar lá, fumando. Um homem bonito, de meia idade, bem vestido... por que não se juntar aos amigos? Por que não confraternizar-se? Não.

E vim com essas duas experiências na cabeça e, enquanto bolava meu cigarro de palha, cheguei à conclusão que aquelas três pessoas (os dois jovens e o senhor no carro) estavam fugindo de algo. Algo particular a cada um deles. Um dos jovens falava dos amigos e suas mães ultra liberais com um tom de admiração fantástico. Fiquei pensando como seriam suas mães. Aquele senhor no carro, não queria estar lá dentro. Então de que fugia? Pensei em mim. Quando eu assinei aquele bilhete e o deixei em cima da mesa, avisando que eu ia sair... de que eu fugia? Sentar pra desenhar no meio de um nada, era uma fuga de que? Por que tão avidamente eu desenhava, como quem tentasse congelar o lugar em que eu estava, naquele papel? De que realidade eu fugia? Enquanto caminhava, olhava sempre pra trás marcando o trajeto. De quem eu me distanciava? E voltei pra casa e encontrei tudo como estava. Tudo continuava ali. Uma gaveta pra martelar, uma grade pra pintar... Voltei e ainda era eu, e dentro de mim, ainda era vácuo. Não adiantou. Me irritei, mas ao mesmo tempo me entristeci mais ainda. E como num ciclo viciado, despenquei e morri naquele dia. Mais um pedaço de mim morreu. Mais uma parte de resistência foi embora. E assim é que é. Dia após dia. Semana após semana. FIM.

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