sábado, 15 de dezembro de 2012

Triste fim


Triste fim

Mateus e Pedro eram casados há quatro anos e, na verdade, não se lembravam bem disto, pois a convivência fazia parecer que era uma vida. Moravam no 12º andar de um prédio antigo, mas que ainda sustentava traços de modernidade. Era o que Pedro pensava quando olhava pelo conjunto de janelas que iam do chão ao teto por todo o entorno do apartamento, proporcionando uma vista panorâmica da cidade. Raras vezes ambos abriram as janelas, muitas destas tentativas de causa forçada – uma comida esquecida ao fogo, algo estragado que empesteava o ambiente, etc.

Não se pode dizer que não se amavam, mas Mateus olhava Pedro parado de frente para a janela com a certeza que ambos se matariam, ou que um dos dois cometeria um suicídio. Não obstante, o sexo entre os dois – apesar de casual – era acalorado, sempre. Mas no fim, um ou outro chorava, quando não os dois. Pedro olhava para a cidade lá embaixo, e pensava como reagiriam se ele abrisse a janela e se jogasse. O mesmo pensava Mateus, mas de um ponto de vista diferente – talvez, em como ele próprio reagiria se Pedro se jogasse pela janela. Em algum instante, Pedro não sabia precisar, seu cigarro apagara no cinzeiro, formando uma haste torcida de cinzas dando a aparência do que um dia foi um cigarro.

O apartamento dos dois era amplo, e isso causava um desolamento nos dois. Tinha uma geladeira, fogão, microondas, algumas panelas empilhadas debaixo da pia, dois pratos, dois garfos, duas facas. Uma faca grande lhes servia para tudo, cortar carne ou serrar algo. A sala era vazia. Nas paredes uma amurada de livros empilhados. No quarto um colchão. No outro fizeram um closet, na verdade, um varal onde penduravam em cruzetas as roupas e amontoavam nos cantos os sapatos. Uma caixa servia de gaveta para cuecas e meias, que não se preocupavam em compartilhar.

Quatro anos, e essa era a vida dos dois. Mateus saia de casa freqüentemente para ver a paisagem no entorno do prédio, e aproveitava para levar Lucy para passear, a cadela da Sra. Laura. Nos momentos de bom humor, Pedro perguntava se Mateus iria ver a cadela da Sra. Laura, sendo infame com um bobo trocadilho. Se Mateus também estivesse de bom humor, ria. No trajeto, Mateus aproveitava para comprar cigarros suficientes até o dia seguinte, quando desse o horário de levar Lucy para passear. Mateus recebia da Sra. Laura duas moedas de qualquer valor pelo favor, e Pedro achava certa graça nas moedas – nunca tinham o mesmo valor do dia anterior, e nunca tinha valor cumulativo: hoje poderia ser duas moedas de cinco centavos, amanhã duas de um real, e depois de amanhã duas de um centavo, se dessem sorte.

Um dia Mateus entrou desolado em casa. Com ele uma aura melancólica que acentuou a distancia entre ele e Pedro.

- Vou preparar um chá – disse Pedro.

- Chá preto, por favor.

As palavras sempre foram poucas entre eles. Tinham durante aqueles quatro anos conversado muitas coisas, e refletido muitos assuntos, e descoberto muitas coisas apenas no ato de falar. Era verdade que os dois não saiam muito. Mateus era o único que ainda saía para passear com Lucy e, nestas oportunidades, fazia compras, pagava contas, jogava o lixo. Coisas que fazem a gente sair de casa contra a vontade. Pedro era mais caseiro. Durante os quatro anos só saiu dali porque tinha de ser internado no hospital, e isso aconteceu uma única vez – cortara os pulsos e precisava conter a hemorragia (mudou de ideia antes do fim).

Pedro sofria de síndrome do pânico, não saia de casa nem mesmo para buscar a correspondência na portaria. Mateus também, mas depois de certo tempo, sentira-se mais seguro com a companhia de Lucy.

- Seu chá preto.

- Obrigado.

Beberam o chá preto. Mateus chorou, e Pedro perguntou o que houve.

- Fui à Sra. Laura buscar Lucy. Mas Lucy morreu.

Pedro também chorou. Durante algum tempo os dois choraram ali. Uma chuva começou a cair lá fora, e isso não ajudou muito o ânimo dos dois. Beijaram-se, e transaram no colchão dentro do primeiro quarto. Depois choraram novamente. Din-dong, apitou a campainha. Era a Sra. Laura com um bolo feito para animar Mateus. Din-dong, de novo fez a campainha. Um tiro. Outro tiro. Uma hora se passou. Um policial arrombara a porta. Mateus e Pedro estavam mortos e abraçados. Um tiro na cabeça de cada um.

Fui mãe


Fui mãe

O Hospital Municipal Saint-Exupéry estava silencioso às três da manhã. No restaurante, nenhum barulho além de uma televisão ligada e uma médica roncando, dormindo sentada. Elisa estava num dos quartos, ainda acordada e olhando para a janela de vidro que dava para o longo estacionamento na lateral do prédio – vazio, molhado, com o asfalto brilhando e refletindo a luz dos postes de iluminação. Escorria pelo vidro serpentinas de água e a respiração de Elisa condensava-se no vidro formando um embaçado. Levantou-se da confortável poltrona que ficava no canto do quarto e ajeitou o nó do cinto do roupão. Calçou a chinela e foi em direção à porta – precisava ir ao banheiro.

Mal tocou na maçaneta e os pontuais bips da máquina de monitoramento cardíaco tornaram-se um longo apitar. Um calafrio correu pelo corpo. De repente (depois de algum tempo que Elisa não soube precisar mentalmente), enfermeiras e um médico entravam pela porta, apressados. Quando abriram a porta, estes se esbarraram em Elisa que tombou contra a parede e ali ficou em pé, sem entender absolutamente nada. Realizaram alguns procedimentos, nada que parasse o apitar e normalizasse os bips. Dois minutos apenas, e Lucas (filho de Elisa) estava morto.

As enfermeiras se entreolharam quando, depois de alguns segundos do médico ter declarado a morte do menino, a mãe estranhamente não fez nada. Geralmente elas se jogam em cima do filho pedindo pra eles voltarem, outras desmaiam, outras ainda saem esbofeteando o mundo e culpando-o pela perda. Elisa não, ela simplesmente deixou escorrer uma lágrima e foi até o banheiro atender sua necessidade fisiológica. Cagou.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Meu bom tio


Meu bom tio

Eram tenebrosos os raios de luz que cruzavam as frestas da janela de madeira de minha casa, que cruzavam a escuridão revelando aquela situação em que me encontrava. Sentia o peso dele me sufocando, e o quente sangue dele escorrer por sobre mim. Sentia o fedor da cachaça impregnada nele, sentia a barba por fazer roçar minha pele. A faca, outrora largada numa estante perto de um bagaço de laranja e algumas cascas agora estava encravada nas costas do infeliz.

Meu tio estava doente, era quem cuidava de mim e de meus dois irmãos, isso desde que meu pai falecera há uns anos atrás, não me lembro bem, mas se não me engano foi de uma tuberculose. Meus irmãos, hora ou outra não permitiam que esse fato saísse de minha mente relembrando e remoendo esse fato. Meu pobre tio, no sentido literal, morava em um beco, na zona pobre de Manaus. Ele trabalhava como vendedor ambulante, e o dinheiro que ganhava servia apenas para comprar uns remédios (o que era artigo de luxo), e para comprar um grande pão de forno que deveria durar a semana inteira. Tínhamos um pequeno quintal, nada muito grande, cabia apenas um canteiro com verduras, e um galinheiro pequeno com um galo magro e duas galinhas que nos serviam pondo ovos. Como não alimentávamos os frangos muito bem, eles quase não punham ovos. Certo dia, ficamos sem comer para dar comida a elas e ao galo, numa forma de investimento. “Ficamos sem comer hoje, mas comemos na semana”, afirmava meu tio. O lugar onde vivíamos era úmido, de cômodo único que servia de saleta e cozinha. De banheiro, servia apenas um no fundo do quintal, que era cavado no chão. Meu tio conseguira com um pouco de esforço comprar nosso material escolar, dois cadernos brochurão que deveriam servir para tudo, e três lápis, que não deveria diminuir um centímetro que fosse, e não deveria ser apontado, e muito menos sua ponta quebrada, custe o que custasse.

Meu tio contraíra a doença alguns meses depois de nossa ida a sua casa. Ele passara semanas sentado em uma velha cadeira de balanço que dava para o quintal. De olhar distante, pensando na morte do velho e querido irmão. Um dia levantou-se e deu uma tossida braba, quase morremos de gargalhar do engasgo dele, e depois dele se recuperar começou a rir também. Mal sabíamos que aquela era a primeira de muitas tossidas que ele daria. Meu irmão mais velho alcançara seus 17 anos, e já trabalhava como aprendiz de ferreiro, enquanto que meu outro irmão tinha 14 anos e fazia alguns bicos, que iam desde arrumar quintal a ir para a praça central servir de engraxate. Eu tinha oito anos e ajudava meu velho tio na casa, lavando as louças e varrendo a casa. Meu tio saía de casa às 5 da manhã e voltava de tardezinha, lá para as 6 horas. Deixava-me com meus irmãos, já acordados, de pé, prontos para irem à escola antes de ir-se.

Adolfo, meu irmão do meio, vez ou outra matava aula para ir para a barbearia de Dom Ricardão para servir de aprendiz. Dom Ricardo era apenas apelido, não era nobre nem nada, mas seu jeitão hispânico fazia dele tal nobre. Adolfo me deixava na escola e em seguida seguia para seu lazer: fazer a barba das pessoas mais ilustres da cidade. Alguns não gostavam, e pediam apenas para que engraxassem os sapatos. Outros, curiosos com a experiência, deixavam que o jovem fizesse a barba. Dom Ricardo adorava ficar admirando o trabalho do rapaz, e hora ou outra dava umas dicas, e alguns puxões de orelha. Frederico, meu irmão mais velho, já saíra da escola, mas sonhava em entrar na tão cobiçada faculdade de Direito. “Sonho”, dizia meu tio, mas em seguida dizia “se conseguir juntar dinheiro o suficiente com teu trabalho, ajudo-te com algumas economias”.

Eu sonhava junto de Frederico em cursar a faculdade de Direito, e imaginava como seria andar pelas ruas vestido com roupas cheias de fru-fru e ser chamada de doutora Elisa. Algumas vezes, nós, junto de Frederico, puxávamos a orelha de Adolfo quanto matar aulas para ir para à barbearia. Numa dessas meu tio ouviu, e foi um pito que até eu e Frederico entramos no meio. Passado o susto, meu tio começou a deixar Adolfo na porta da escola, e dali só saía depois de ver o rapazote entrar e conversar com a professora, alertando que o jovem era esperto, e sabia driblar. A professora olhava sempre por cima dos óculos sabendo perfeitamente como era. Frederico e eu acompanhávamos meu tio nessa trajetória, e em seguida íamos para o colégio.

Frederico já tinha um ano servindo de aprendiz de Ferreiro e suas mãos estavam por demais calejadas e grossas, apesar das luvas que usava. Ele e meu tio sempre conversavam ao fim do dia (quando meu irmão ao menos estava em casa) sobre meu futuro. Diziam que um dia eu ia ser moça, e teria de casar-me, e teria também de arranjar um bom partido. Comentavam de como arranjar o meu dote.

- Ora meu tio, Elisa será moça! Pretendo trabalhar arduamente para que ela tenha um gordo dote e para que ela tenha um bom partido. De beleza ela será farta em sua mocidade...

- Compreendo tua preocupação, meu sobrinho. Mas e teu sonho de cursar a faculdade de direito?
- Esqueça tio, o que importa é Elisa!

- Confesso que até pensei no caso várias e várias vezes. Tua Irmã é nova, alcançara ainda os oito anos, mas se juntarmos dinheiro a partir de agora, acredito que teremos bom dote para ela no futuro...

E então ficavam a conversar. E quase toda a noite que meu irmão dormia em casa, o assunto era o mesmo. Os gastos eram reduzidos, ate o vicio do cachimbo meu tio largou para poupar mais saúde, e poupar o dinheiro dos remédios. Por duas vezes Adolfo tentara pegar do dinheiro acumulado, mas meu tio o corrigira com uma colher quente na mão para que aprendesse, e acho que aprendeu visto que nunca mais se metera a besta com a caixinha de dinheiro que meu tio escondia debaixo do colchão.

***

Certo dia meu tio chegara bêbado em casa. Eu já havia chego do colégio, e meus irmãos estavam fora. Meu tio puxara umas laranjas e sacou seu canivete e pôs-se a descascá-las. Algum tempo depois, enquanto cozinhava a sopa que preparava para a janta, percebia que meu tio olhava demasiadamente para mim. Nunca meu bom tio chegara bêbado em casa, tampouco se embebedara. Era contra a bebida, sempre alertava meus irmãos. Talvez, um dos seus amigos o convidara para uma roda de boteco e ali ficara embriagado. O que me intrigava ao máximo era por que meu tio ficava me encarando. Ele tirou da bolsa de trecos – onde colocava as coisas que vendia – uma grande garrafa de pinga, e começou a beber. Pegou um copo de café e ficou no exercício de encher o copo e ficar bebendo de goladas longas e rápidas.

Quando a garrafa secou, ele continuou no seu exercício de ficar encarando-me. Havia eu terminado de aprontar a sopa, e a tardezinha caia lentamente. O sol batia na janela aberta e iluminava toda a saleta. Meu tio então fechou a porta, depois a janela e ficou em pé me olhando. Senti um calafrio correr por meu pescoço! Então, alguns segundos depois e ele avançou sobre mim. Algo tão estranho... Meu tio! Ele começou a beijar-me, vejam só! Eu virava o rosto e suplicava que ele parasse. Era horrível sentir o hálito dele, sentia nojo, sentia repulsa. Ele me comparava com minha falecida tia, me segurava firme. Numa das minhas tentativas de me livrar dele, fui jogada na cama com força, bati com a cabeça na parede, me vieram náuseas. Ele montou em cima de mim, e abriu minhas pernas. Eu era só uma criança! Só uma criança! Debatia-me, então senti uma dor descomunal em meu ventre. Senti como se minha carne fosse rasgada, como se fosse encravada uma faca em mim.

Sentia um líquido escorrer por entre minhas pernas. Sentia dor, muita dor. Cada vez fui ficando fraca, até ver a canivete junto dos bagaços de laranja, em cima da velha penteadeira, ao lado da cama. Forcei meu braço para alcançar. O peso dele me sufocava e me fazia afundar na cama. Estiquei-me, mas, faltava só um pouco. Só um pouco. Quando alcancei, ele estava próximo ao gozo. Segurei-a firme e sem pensar a estanquei nas costas. Ouvi apenas um gemido abafado, apenas um murmúrio de dor. O sangue agora escorria das costas dele e inundava a cama. Eram tenebrosos os raios de luz que cruzavam as frestas da janela de madeira de minha casa, que cruzavam a escuridão revelando aquela situação em que me encontrava. Sentia o peso dele me sufocando, e o quente sangue dele escorrer por sobre mim. Sentia o fedor da cachaça impregnada nele, sentia a barba por fazer roçar minha pele. A faca, outrora largada numa estante perto de um bagaço de laranja e algumas cascas agora estava encravada nas costas do infeliz. E eu, morta também.


Iago Leandro Luniére Teixeira, escrito em 25 de abril de 2008.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Conto de uma filha


CONTO DE UMA FILHA

Casamento é um assunto tão clichê para se escrever, só quem passou por um pode escrever sobre, e como eu não passei exatamente por um, posso falar apenas do que eu vi acontecer. E ao falar sobre, imaginamos logo culpas – quem é o culpado de termos chegado ao fim? É meio estranho dizer “a culpa foi dele” ou “foi culpa dela” – e é estranho até mesmo dizer “foi culpa dos dois”. Não sou uma filha que entra em desespero, faz birra, ou entra em depressão, acha-se culpada pelo fato – e também acho muito pedante da minha parte dizer que sou adulta, bem resolvida; no fundo ninguém o é. Enfim, de onde começar? Talvez, mais um clichê: desde o principio.

Então, vamos lá: tudo começou em 1991, quando meus pais se conheceram – até então, é isso tudo o que eu sempre ouvi deles. Minha mãe, segundo meu pai, era a menina mais doce, mais meiga, e mais delicada da faculdade. Só que ela, segundo ela mesma, era a mais desengonçada, menos elegante, e mais NERD da faculdade. Meu pai, segundo minha mãe, era o homem mais lindo, mais atlético, mais tudo da faculdade. Ele, segundo ele próprio, era tudo isso mesmo – ou seja, humildade não era seu forte, mas, por favor, não comecem a contar o placar para que no final disto possam dizer “Eu concordo com ela” ou “eu concordo com ele”. Aliás, até hoje eu me pergunto com quem concordar.

Deve ter sido uma luta para minha mãe ter o meu pai, controlá-lo. Fico imaginando como deveria ser – várias mulheres em cima dele, qual mosca em cima do doce na vitrine de uma padaria nada higiênica. Imagino-a sempre distante, apenas sonhando com uma ilusão. Mas segundo eles me contam, era réveillon, meu pai tinha perdido o irmão dele quando foi para um lugar isolado na faculdade ficar um pouco só. Ela estava lá, sentada, tomando uma taça de champagne enquanto assistia aos fogos de artifício. Ela o viu, aproximou-se, se olharam. O único ato dela foi abraçá-lo. Ali tiveram a certeza que se consolariam durante anos, que seriam companheiros, que seriam marido e mulher, que um era feito para o outro. Até outubro de 2008.

criado em 26/10/2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

I love you so


I Love you So

Madrugada. Cosme olha para a rua fantasmagoricamente deserta, mal iluminada, úmida de uma chuva breve que caíra. Andava de um canto a outro da casa preocupado, pois seu filho Tadeu não havia chegado ainda. O telefone tocou. Apressadamente tomou-o do gancho e disse “alô” antes mesmo de aprontá-lo ao ouvido.

- Pai – um momento de respiração ofegante entremeou antes da fala continuar - presta muita atenção no que vou dizer...

- Menino! – berrou Cosme ao telefone - Onde ‘cê’ tá? Quer me matar do...

- Presta atenção... pai.

Cosme tomou-se de assombro com o tom do filho. Desatou milhões de perguntas mais, mas Tadeu não respondia nada além de uma respiração ofegante e tosses carregadas.

- Pai... Vão lhe ligar...

Cosme começava a sentir um pânico assombrar-lhes o corpo. Escutava atenciosamente o filho, desejando chorar.

- Vão lhe ligar e dizer que morri...

Cosme desabou em um choro. Repetia “filho” diversas vezes pedindo para que a brincadeira acabasse.

- E quando isso... quando isso acontecer... Saiba que eu te amo... Tá? E eu quis... eu quis isso... (Te amo, pai).

Um bip de ligação encerrada seguiu-se daí. Cosme engasgava com choro e tentava retornar a ligação para o filho, mas suas ligações caiam diretamente na caixa postal. Cada vez que a fria voz da secretária eletrônica avisava a impossibilidade de completar ligação, Cosme berrava palavrões e o nome do filho – quando não se engasgava com o choro. Soltou um berro, um grito estridente, desesperado, doloroso, mal agourado. Sua carne sentia as dores daquele sentimento que começava a pulsar-lhes o peito.

Na avenida Pedro Teixeira, caído e recostado num muro de um terreno baldio, Tadeu se arrastava e via o sangue esvair-se pelo tórax.

Três tiros irromperam-lhe a carne. Um acertou o estômago – tiro dado distante -, o outro perfurara-lhe um pulmão e o terceiro o ombro (este a queima roupa). Sentia a vida escapar-lhe. Nunca foi valente o suficiente para encarar a vida e sempre ansiou a morte, mas desta vez era diferente, clamava mais tempo de vida tão somente para saborear com mais calma a morte. Recolocou o fone do MP4 no ouvido, e a maestria de Burwell inundou sua mente. Acendeu um cigarro, tremelicando-o nos dedos e empapando-o de sangue e, quando tragou, a garganta se inundou de mais sangue com uma tosse carregada. Deitou-se e viu o céu com uma dúzia de estrelas, poucas que o céu metropolitano lhe permitia enxergar. 

Viu uma viatura de polícia parar perto, e mesmo com os fones no ouvido, conseguiu escutar o barulho de seu freio. Um policial desceu, e ele escutava-o falar alto alguma coisa ininteligível. Depois de repetida a frase, entendeu que o policial perguntava “Está bem, filho? Calma, o socorro vai chegar”. Viu seu cigarro ser tirado da mão, mas não conseguia protestar. Um sono invadia-lhes a mente. Quando o fone ia ser tirado do ouvido pelo mesmo policial, ele simplesmente levantou capengamente a mão acenando para que não o fizesse. O policial espremeu os lábios e concordou. Os olhos se fecharam, e por fim dormiu.

Estava morto Tadeu Procópio, 20 anos, ninguém importante e sem função. Morto a tiros, sem saber por quem e nem por que. Conseguiu dizer o que tinha de dizer, fumar o seu cigarro e ouvir a sua música pouco antes da morte. Levou da vida o que a morte geralmente nega aos moribundos: a chance do adeus.

Inspirado em “We Love you so” de Carter Burwell

domingo, 2 de dezembro de 2012

Mais um pro brejo da luz


Vitor aguardava a moça terminar de preparar seu café enquanto procurava notas avulsas dentro da bolsa para paga-la. Encontraram-se algumas moedas, vários restos de tabaco de cigarros outrora largados na mochila e fumados com dó, alguns trapos, uma caneta. Contaram-se cinco reais, completos de moedas velhas, algumas notas sujas, e outra já parcialmente rasgada. Saiu da cafeteria concentrando-se na habilidade em segurar o copo de café com uma mão, e encontrar às cegas os cigarros Hollywood na mochila, empregando posteriormente o mesmo esforço em achar o isqueiro.

Quando olhou em torno, já de cigarro aceso, caminhava por uma avenida molhada recentemente por uma torrencial chuva. Era noite e as luzes alaranjadas iluminavam parcamente o ambiente, e Vitor, com seus olhos de ressaca e cigarro amassado à boca, esquadrinhava o entorno do ponto de ônibus em busca de algo que não sabia exatamente o que era, mas tinha certeza que, quando procurava o isqueiro, sentiu algo cair da bolsa.

Olhava para o fim da avenida desesperançado com um breve surgimento do ônibus. Calculou que terminaria o café ao tempo de fumar três cigarros acendendo-os um no outro. Conformou-se com isso. Quando acendia o terceiro, percebeu que provavelmente não seria bem assim. Diminuiu o ritmo das goladas e sentia a boca sem paladar (resultado da primeira golada desavisada de uma temperatura maior que a esperada).

No fone de ouvido, uma música deprimente qualquer. Enquanto esperava, começou a pensar em várias coisas, muitas deles questionando quem era Vitor, qual a função dele no mundo, qual contribuição ele tinha dado ao planeta além de algumas gramas de fezes diárias, ou o que tinha feito na vida além de respirar. Quando se apercebeu da realidade, já havia passado seu ônibus, fumava o filtro do cigarro que lhes queimara o dedo (o que o acordou do devaneio) e o copo de café jazia vazio, mas com aquele meladinho que ninguém resiste passar o dedo para saborear.
Tencionou entrar num taxi. Desistiu. Lembrou-se dos cigarros minguados e pensou que amanhã precisaria comprar mais. Esperou mais um pouco e ficou na dúvida em tomar outro ônibus, desta vez no sentido oposto, dando a volta em vários bairros antes de seguir para o seu, refazendo o caminho.

Surgiu, por fim e ao fim da avenida o ônibus de rota 824, e por algo ele finalmente se animou. Entrou, cumprimentou ao motorista visivelmente irritado com um motorista de moto, que ilegalmente lhes cortou a frente pela direita. Falou igualmente com o cobrador que, com um muxoxo, disse-lhes um triste “boa noite”. “Talvez ele devesse estar em casa, debaixo de um edredom com a esposa, talvez assistindo a um filme com os filhos... Talvez.”. Enquanto pensava no cobrador, sentou-se no fundo do ônibus e dormiu. Acordou providencialmente antes do momento de descer. Saltou da escada do ônibus na calçada e esboçou um escorregão – foi por pouco. Chegou a rua de sua casa e refez mentalmente o dia: nada, simplesmente andou por aí.

Olhou sua casa, lotada ao longe. Caminhou lentamente, pensando no que devia estar acontecendo. Deparou-se com uma multidão e isso não era comum. Passou por entre um monte de gente, maioria conhecida. Entrou em casa, bateu os pés no carpete para tirar a poeira e, ao levantar o olhar, viu um caixão. Apavorou-se. “Minha mãe morreu, puta que pariu!”. Avançou e olhou o caixão, apavorado. Viu sua mãe chorando sentada ao lado dele, e alivio-se por pouco tempo, pois se lembrou do pai. Também não era, pois ele entrava pela porta trazendo a esposa um copo com água. Foi então que viu o que nunca esperou ver, pois era ele próprio deitado ao caixão.

Mãe em choros ao lado, pai recebendo as condolências em pé. Lembrou-se de quando acordou. Tinha alguém com ele deitado na cama. Lembrou-se de achá-lo parecido consigo, mas lembrou-se também da noite anterior chegar alcoolizado e drogado, não sabendo se chegou acompanhado. Por fim, teve certeza: era ele ali, morto. Alguém apareceu por trás. Alguém que o surpreendeu apenas dizendo: “Vamos, filho? Tá na hora... É por aqui.”