terça-feira, 3 de outubro de 2017

Encerramento do Blog



Queridos leitores,

Esse será meu último post no blog Gramado de Idéias. Quero agradecer a todos que acompanharam os meus textos. Quero falar sobre os meus textos.

Alguns possuem equívocos que devem ser devidamente levados em consideração. Foram frutos de uma época específica da minha vida, de um modo de pensar, de um conjunto de experiências que tinha na época. Começou com uma dura crítica ao teatral local, especialmente no que, à época, refletia o Festiva de Teatro da Amazonia. Houveram várias repercussões à época, e hoje eu percebo que eu era apenas um jovem que poderia ter ponderado mais. No entanto, não me arrependo de nenhum de meus textos, especialmente aqueles que ganharam repercussão na comunidade artística de Manaus, como "Teatro 220V... Isso está errado". Bom, mesmo hoje discordando com o que eu pensava em diferentes épocas e diferentes textos, e reponderado muito de minhas posições, ainda assim, eles permanecem disponíveis à todos.

O motivo do encerramento das publicações, se deve ao fato de que não será mais possível que eu as escreva.

Há seis anos eu tenho convivido com um quadro de depressão que, apesar de oscilar, as crises se agravaram a cada vez que vieram. Esta mensagem está sendo escrita no dia 01 de outubro de 2017, porém está programada para publicação em 03 de outubro de 2017.

Quero agradecer a todos que passaram pela minha vida, e enriqueceram de forma significativa nas visões que se reúnem aqui. Especialmente aos professores da Escola Superior de Artes e Turismo, aos membros do Ateliê 23, Soufflé de Bodó Co., e Vitória Régia. Colegas e amigos.

Espero que todos tenham um caminho diferente do meu, com uma vida repleta de felicidade, sucesso, prosperidade e, especialmente, saúde mental.

Com carinho e afeto.

Iago Lunière







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por que a classe artística não sobrevive sem um barraco?

Rustic Duel. Por @MAUROASSOCIATI. Em: http://mauroassociati.deviantart.com/art/RUSTIC-DUEL-567309291

Calma, se o título te atraiu à esta leitura, fique advertido de que não se trata de uma coluna de fofoca, nem vamos falar de causos que a gente adora contar/escutar. Mas acredito que quem faz teatro em Manaus deve estar acostumado com as divisões, discordâncias, atritos... barracos. E como a comunidade artística em Manaus é pequena, o boato vai do ponto A ao ponto B com uma facilidade enorme - e nisto nos compadecemos, tomamos partido, formamos blocos, geramos pequenas Guerras Frias. Tudo dura um certo tempo, a história fica esquecida, e então o ciclo recomeça com outros indivíduos, outros contextos, mas sempre com a mesma jornada do herói.

Por que isso acontece? O primeiro motivo é que nós, seres humanos, temos a adorável tendência a formar grupos, e também grupos de grupos, e por aí vai. Essa foi uma importante estratégia de sobrevivência que permeou nossos antepassados e permitiu que chegássemos até aqui. Foi a capacidade de vivermos em grupos que permitiu a sobrevivência de nossa espécie (quer dizer, uma das estratégias).

Um estilo de vida solitária demanda uma quantidade de energia muito grande na natureza, pois além de dispensarmos uma quantidade incrível na tentativa de sobreviver (alimentar-se, dormir, etc.), é preciso depreender uma outra quantidade absurda de energia para sobreviver aos predadores, que em boa parte, caça em bandos. Sem alguém pra vigiar enquanto dorme, para dividir a tarefa de buscar alimento ou para se defender de outros predadores, seres solitários dificilmente conseguem uma longa sobrevivência na natureza, exceto se forem grandes predadores.

Viver coletivamente permitiu que tarefas simples e complexas pudessem ser divididas, especializadas, complexadas. Se especializar em algo faz do indivíduo um ser difícil de substituir, e assim, os laços sociais se estreitam mais e mais, fortalecendo as relações. Mas, e quando dois grupos se encontram? Tiro, porrada e bomba?

Na natureza isso ocorre por uma questão de escassez alimentar, territorial, e outros fatores que permitem que uma determinada espécie sobreviva. Logo, os grupos só podem ter um número especifico de indivíduos, de modo que todos possam ser alimentados. Não é comum que espécies que possuem o costume de viver em bandos, ao atingir determinado numero populacional, cometem abandono, assassinato e outras estratégias que permitam a diminuição de sua população. A chamada armadilha mautusiana, proposta no século XVIII por Thomas Robert Malthus, previa que quanto maior a população, maiores as chances de que os recursos de tal população se tornassem escassos e, logo, inexistentes. Talvez porque ele vivera num tempo em que a produção agrícola dependesse do clima, da fertilidade natural do solo e das técnicas de colheita e plantio, essa ideia fizera sentido. Porém, esse quadro mudou quando conseguimos desenvolver técnicas de fertilização do solo, reaproveitamento de alimentos e modos de preservação do mesmo. Mas por que estamos falando dele?

No teatro, tanto em grandes centros (onde a concorrência entre grupos por recursos é alto), quanto longe deles (onde apesar do pequeno numero de grupos, os recursos são muito mais escassos), a concorrência não só se faz presente, como gera atritos. Se você quer gerar um grande atrito em sua comunidade artística, pegue a lista de aprovados em qualquer edital de captação de recursos de sua cidade, e jogue numa roda de conversa de bar onde todos sejam artistas. É preciso que todos tenham um autocontrole, ética e empatia muito fortes para não se ouvir os comentários mais bárbaros possíveis. E inevitavelmente, os boatos de uma noite inocente num bar voam, e não nos surpreende que haja fim de amizades.

Outro motivo que gera atritos de forma espetacular em comunidades artísticas se dá pela nossa capacidade de empatia! Formar grupos é uma aposta evolutiva que fizemos, e até hoje ainda é difícil não resistir e apostar. Quando dois indivíduos decidem viver em grupo, se dá pelo fato de que ambos tem interesses egoístas, e portanto, acreditam que podem tirar proveito um do outro. É um jogo de troca, em que ambos tem algo a oferecer, e muito pouco a perder.

Mas e por que há ajuda mútua quando aparentemente não se tem nada a ganhar? É neste momento que a aposta se torna mais alta. Isso se dá porque acreditamos que, no futuro, quando estivermos em uma situação tão grave quanto, aquele individuo que ajudamos no passado poderá ser útil no momento certo. É dessa maneira que nos simpatizamos quando dois indivíduos entram em conflito e nossa herança evolutiva grita, nos levando a tomar algum partido. Geralmente, apostamos em quem tem mais pontos de interesse para nós. Quando dois indivíduos dentro de um grupo teatral entram em conflito, não raramente o grupo se racha, gerando partidários de ambos os lados - e quem já viveu ou vive em grupo, sabe que esse é um evento traumático que requer muita calma e paciência para sobreviver.

No que, afinal de contas, isso é interessante HOJE: é exatamente nestes momentos de conflitos e adversidades que usamos a criatividade, ou seja, a capacidade de solucionar problemas; fazer desse quadro um propósito; o problema ocorre quando polarizamos e prejudicamos as demandas do quadro geral, fazendo dos conflitos e adversidades ambiente propício à uma violência sem propósito.

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A imagem pode conter: 1 pessoa Iago Lunière - Eu não sei o que eu to fazendo aqui. Sério.



Referências (roubei daqui: https://www.youtube.com/watch?v=bSWMlMKlS0A )
- Diferentes morfologias cerebrais relacionadas à posição política:http://goo.gl/2oS9BC
- Experimento com a identificação de rostos de humanos e bonecos:http://goo.gl/pjb5ml
- Reação de conservadores e liberais ao observar imagens de diversas categorias:http://goo.gl/jWnNEd
- Relato de um americano que passou por alguns desses testes:http://goo.gl/3wjUcg
- Vídeo completo do eleitor do Aécio:https://goo.gl/KJVi2C

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O que sobrou desta crítica...

Foto retirada da fanpage do Ateliê 23 no Facebook: https://www.facebook.com/Atelie23CasaDeCriacao/



Antes de qualquer coisa, é preciso fazer uma confissão à sociedade civil do Teatro, os espectadores: no Teatro há segredos sobre os quais jamais se terá conhecimento e, portanto, jamais tais anedotas influenciarão vossa apreciação – esta é uma das diversas camadas de filtros que se impõem quando apreciamos uma obra.

Um exemplo meramente ilustrativo: não leríamos a peça Richard III (de William Shakespeare), nem veríamos este monarca como um grande vilão, se por um acaso Henry Tudor não houvesse vencido a batalha de Bosworth em 1485, encerrando assim a famosa Guerra das Rosas. Tampouco veríamos o próprio Henry Tudor como o jovem herói, redentor da Inglaterra, que destronara o tirano que os afligia, mantendo-se oculto a verdadeira natureza do jovem rei unificador das rosas. Na verdade, jamais saberemos as reais facetas destes personagens, o que lhes motivou a cometerem seus atos, se de fato eram vilão e herói. Sabemos apenas o que O Bardo nos permite saber em seu famoso texto.

Dito isto, posso compartilhar acerca do dilema moral que se apresenta ao crítico, especialmente ao crítico de processo, que quando ao abordar uma obra se depara com uma série intrincada de acontecimentos e fatos que influenciaram o surgimento de um espetáculo. Sendo estes acontecimentos parte fecunda do que apreciamos em cena, compõe parte do conjunto de sabores que sentimos no ato de apreciar. O dilema moral se impõe na medida em que tais fatos são temas delicados e muito particulares do artista, que nos joga a seguinte ambiguidade: um fato específico de fórum pessoal é compartilhado, de forma mascarada na poética de uma cena, ao fórum público. Posto este dilema, resta questionar-se até que ponto tornou-se propriedade nossa (do público e da crítica) o fato privado, visto que nos foi dado sob a poética da cena.

Considerando o crítico como o propositor de um diálogo, mas também tradutor daquilo que foi apreciado, cabe a ele a decisão de abordar ou deixar de lado algo que poderia ser valioso de pôr-se em debate – mas valioso para quem? E quem está neste debate? (questões para futuramente tentarmos dissecar).

Aproveitando a metáfora dos “sabores” de uma apreciação, tratemos diretamente de “O que sobrou de nós”, de Taciano Soares, do grupo Ateliê 23.

Variará, de acordo com o palato dos que assistiram, os sabores (e dissabores) envolvidos nesta mistura amarga, porém necessária de se engolir. Vi nos meus acompanhantes de platéia o rubor daquele que se envergonha de reconhecer-se no espelho que deforma. Vi a complacência dos gentis. E também a piedade, algumas vezes sapiente de que havia ali uma verdade, mas também uma piedade arrogante, que ignora o quão somos frágeis quando feridos pelos relacionamentos a que nos dispomos. Relembre-se, porém, ao dilema moral apresentado anteriormente. Aqui, poder-se-ia facilmente abordar os acasos e acontecimentos que levaram à obra, porém sendo elas de fórum inteiramente pessoal do artista, passemos apenas ao que o palato do espectador percebe, se ignorante dos temperos ocultos no cozimento da cena.

Vi cintilarem lágrimas dos que se recordaram de seus corações partidos, e o silêncio dos atentos à uma questão que para si é estranha. Vi aqueles que calaram ante a denúncia de suas fragilidades. Ouvi o silêncio da respiração suspensa que não quis revelar a catarse por vergonha.

Apesar de uma série de ressalvas que se possa fazer (justas ou não, abertas ou ocultas), uma coisa é preciso reconhecer: “O que sobrou de nós” é a perfeita experiência sacra que o Teatro poderia propor. Porque cumpre um dos propósitos mais antigos do Teatro, que é trazer à consciência coletiva aquilo que permanece oculto, não percebido, não discutido, aparentemente irrelevante. É o que muitos classificam como “me toca” ou “não me toca”, confundido às vezes com “gosto” e “não gosto”. O que sobrou de nós, neste sentido, toca com uma força cruel e absurda àquilo que em nossa contemporaneidade está ambiguamente escancarado no virtual e terrivelmente oculto. Solicito a coragem de Taciano Soares à todas as almas que espalham suas dores no virtual, porém contraditoriamente em busca de desesperadamente provar-se sobre-humanas, espíritos elevados, super-homens autossuficientes em suas fortalezas da solidão.

A cada porção que engolimos amargamente daquilo que sobrou de nós, notamos alguns sabores: primeiro, a nossa constante predileção por ignorar aquilo que se oculta no fórum privado do ser humano, e a falha em tentar interiorizar aquilo que se exibe no fórum coletivo. Internamente choramos, e publicamente sorrimos. Porque é indelicado em público chorar.  Internamente praguejamos o ressentimento, externamente somos admirados por nossa benevolência em distribuir perdão. Ignoramos nossas mazelas, pois é proibido mencionar. É indesejável, demonstra a fragilidade, revela a nossa monstruosidade de uma besta ferida e encurralada, tudo ocultado, suprimido, incinerado até que seja esquecido. Taciano nos deixa confortável em uma sala preta para nos lembrar: somos humanos, e nem sempre isso é belo. Essa máscara que exibimos com orgulho trinca ante ao reflexo que admiramos em cena – pela rachadura, nossa purulência escorre.

Então a segunda garfada do prato amargo vem: nosso instinto oculto em julgar o outro, sempre colocando uma lente cuja a ótica é tão severa, que a reprovação viria não só ao réu quanto ao juiz e o carrasco. Ao ser humano acumulado de sofrimentos, damos como sentenças as penas capitais: “carente demais”, “possessivo demais”, “frágil demais”, “infeliz demais”, “sofredor demais”. Nunca uma sentença empática: humano demais. Eis o amargor desta garfada: somos lembrados, pela memória de nossas experiências, que ser um humano é ser, exatamente, feio, doloroso, amargo. Taciano exibe um grande espelho polido e o põe à nossa frente. Aqui: este é você tanto quanto sou eu. O julgamento, breve ou constante, arruína-se. Torna-se insustentável. Revela-se hipócrita. Recolhe-se à uma vergonha interna.

Tenho uma hipótese, uma suspeita que vêm mansa, de que temos o desejo secreto de alcançar uma divindade que mente ser possível. Um desejo de sublevação do fato de que não só somos frágeis, como nossos cacos estão constantemente a perfurar o outro, ferindo-o, intencionalmente ou não.

Por que esses desejos de divindade? Por que a vergonha de nos reconhecermos frágeis? Por que esquecemos da consciência de que podemos sentir dor? Está tudo bem sentir dor, por que nos achamos mesquinhos por isto? Por que é vergonhoso assumir?

Suspeito que alguma lógica, de crescente influência, rondou-nos e nos colocou na posição de produtos e consumidores. Como consumidores, desejamos as melhores texturas, sabores, cores, e com este refinamento exigente, banimos a realidade que é ser parte da humanidade (como ao longo do texto fora posta). E tal como produtos, escondemos nossas validades vencidas, exaltamos nossas qualidades, ao ponto de esquecermos que somos carne podre em enlatado polido. Tanto fomos domados por tal lógica de consumo, que desenvolvemos intolerância às verdades cruéis. Como à Medusa, tememos encarar para não nos tornarmos pedra!


Nesta crítica, não me atreveria ir muito além deste ponto. Não alerto para que haja uma preparação interna, como também não oculto para que haja um violento encontro com nossos reflexos. Eis uma verdade: a caverna onde reside a Medusa estava aberta, e lá se encontrava aquilo que ao ser visto, tornou-me pedra!

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Iago Lunière - crítico de processo criativo e protótipo ridículo de intelectual. É dono de um pequeno jardim que sente o desejo de receber um jasmineiro como hóspede perpétuo. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

No Teatro, vaidade das vaidades... Tudo é vaidade?

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WALTERHOUSE, J. W. Eco and Narcisus, 1903.  Walker Art Gallery, Liverpool.

"Vaidade das vaidades, diz o pregador, vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr. Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol".(Eclesiastes 1:2-9).

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O diretor envaidece-se de sua boa condução, astúcia e percepção. O ator envaidece-se de sua performance, da sua capacidade de atender à necessidade do outro. O técnico envaidece-se de seu pleno domínio maquínico. O espectador envaidece-se de seu poder legitimador. O crítico... Vaidade das vaidades.
Mas e o que é vaidade? Tomamos o exemplo do livro do Eclesiastes, o proferimento do sábio rei Salomão: nada apresenta de novo, nem é em si um resultado palpável de todo o esforço que se aplica para manter em alta este sentimento. Nada transforma, senão a quem alimenta. E o que alimenta? Que bolsa estomacal oca preenche a vaidade? E o que antes preenchia? Existia algo previamente ali posto que não há mais? Perseguir um objetivo para a vaidade é perseguir nossa recusa de que, antes dela, nada há; que é despropositada, que é uma ilusão sobre a qual nos sentimos satisfeitos. Por isso o Eclesiastes a lamenta.

Seria possível, então, a existência sem a vaidade? Se o vento vai para o sul e faz sua curva para o norte, independente dos envaidecidos homens com seus feitos e seus dons, se o sol continua a nascer no leste e por-se no oeste e todos os rios insistem em seguir para o mar, de nada vale a vaidade? Mas como seria sem ela? O que seria dos homens?

Ojerizamos a vaidade, cuspimos no humano vaidoso. Vaidoso pela sua beleza. Pela sua inteligência e sagacidade. Pela sua sabedoria. Pelo seu talento. Pelo seu martírio. Em tudo, pura vaidade. Por que? Porque reconhecemos que é ela o artifício humano para ocupar vazios, e não há denúncia maior destes vazios que a vaidade. No outro, se reconhecemos a vaidade, imediatamente reconhecemos o vazio. E que triste é perceber o vazio. Que desolador é para o humano perceber seu despropósito, sua miudeza e pequenez.

Culpa-se de vazio o belo pela sua vaidade, mas escamoteia-se em inteligência para esconder seu vazio de beleza. Culpa-se o intelectual pela sua pomposidade em assento monárquico, mas escamoteia-se em frivolidade. Escrito foi o poema pelo poeta para satisfazer sua vaidade. Maquiada foi a dama para satisfazer sua vaidade. Erguidos foram os prédios, para satisfazer a vaidade do arquiteto. Incansável foram os ensaios do ator, para que em cena fosse satisfeita a vaidade do ator. Se dela não escapamos, é a ela que em algum grau deveríamos agradecer o poema, a beleza da dama, o prédio erguido e a cena apresentada?

Egocêntrico, ególatra, ego. Palavras que no tempo certo vêm à baila das acusações entre os artistas. Mas afinal, se não por vaidade, por que o Teatro? Que missão redentora do mundo há em atuar, se não para envaidecer-se que rendeu ao mundo? Investigue quaisquer objetivos aos quais levam o individuo a fazer teatro, e todos tratar-se-ão de querer realizar algum feito sobre o qual poderia envaidecer-se. Mesmo os mais despropositados, que nada mais querem que sentir a poética da arte cênica e expressá-la, até mesmo estes envaidecem-se de sua capacidade de exercer este prazer sobre si. E envaidece-se ao julgar aquele que busca ávido por envaidecer-se também.

Disse Pascal: "A vaidade está tão ancorada no coração do homem que um soldado, um lacaio, um cozinheiro, um carregador se gaba e quer ter seus admiradores, e os próprios filósofos os querem, e os que escrevem contra querem ter a glória de ter escrito bem, e os que os lêem querem ter a glória de tê-los lido, e eu que escrevo isto tenho talvez essa vontade, e talvez os que o lerem..." (Pensamentos, 627-150).

"Saber-se vaidoso, no entanto, já é sê-lo menos", complementa Comte-Sponville ao trecho anterior. Reconhecer que a vaidade não é ultraje, e rir-se dela, e de si, já basta. Rir-se, ridicularizar, desconsiderar seriedade. A que adianta acusar o outro da vaidade se ela nos é inerente?

O crítico... Não concluí sobre o crítico. Sim, ele envaidece-se. É vaidoso da sua astúcia. Astuto em perceber, mas também astuto em enganar. Engana o leigo com belas palavras, e ao especialista com trivialidades. Astuto porque cria em cima do que outro criou. Astuto porque desnuda, desvela, escancara. É vaidoso porque detém poder. Mas que poder detém o escritor que não é lido? Que poder detém o crítico cuja crítica é desconsiderada? Que vaidade nisto há?

Saber-se vaidoso, no entanto, já é sê-lo menos. A crítica vaidosa se importa em permanecer. A crítica que sabe-se vaidosa, e portando, escamoteadora de vazio, pouco compromisso possui em satisfazer aqueles que alimentam a vaidade. Ri-se de sua impermanência. Reconhece-se vazia. E que possibilidades criadoras há no vazio!



Perceber a vaidade, me parece, é aceitá-la de bom grado. É com ela permitir-se alegre e frívolo, ou culpado e miserável - em ambos os casos, uma questão de escolha. Aceitar-se vaidoso, portanto, é assumir posição de decisão. Dizem ser triste o vaidoso que não se percebe como tal. Me preocupa, porém, os que se ocupam da vaidade alheia. Me parece não perceberem a sua própria. Não percebem que, vaidade das vaidades, no fim, tudo é vaidade.

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Iago Lunière - Ser insone às 4:00 da matina, tabagista convicto que adora pensar coisa inútil. Escreve por vaidade, e aceita de bom grado o fato (ou não).









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- Sobre Vaidade, vi: COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário de Filosofia. Eduardo Brandão [trad.]. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Ouvi boatos de que existe PDF :^)

- Peripatético ep.1 - Vaidade: https://www.youtube.com/watch?v=DFFoL4TBfcw (Sim, é o Pondé... me julgue)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Teatro a 220V... Isso tá errado.



Amiguinhos do teatro: se existe na sua dieta diária alguma droga que o ajuda a ter mais energia para enfrentar uma rotina pesada (dois litros de café, por exemplo), outras para te ajudarem a relaxar (cervejinhas rotineiras, nicotina, cannabis, calmantes, etc.), tem mais de três projetos em andamento, dorme muito tarde e acorda muito cedo, está conectado o tempo todo e não suporta a idéia de assim não estar, e entre tudo isso, ainda mantém aquele app atualizado pra manter uma atividade sexual semanal bastante agitada... CUIDADO. Estou com você nessa, e acabei de me dar conta que estamos indo bem mal.

Cinco amigos diferentes sentaram ao meu lado e comentaram: “Eu estou muito cansado”. Normal, não? Quem não está? Vejamos. “Quero logo que esse semestre acabe”, disse outro. Fiquei pensando, “mas o semestre já acabou”. A pessoa já estava se referindo ao segundo semestre.

Eu me peguei pensando, “preciso de férias...”. Espere um minuto, eu tive férias! Mas ao mesmo tempo, não tenho férias há um bom tempo. Estou falando de férias de verdade. Um período do ano em que eu realmente descanse. O que tem acontecido nos últimos tempos (vai fazer dois anos, e não, não parece pouco, nem deveria) que quando tenho férias no trabalho, não o tenho nos estudos. Quando tenho nos estudos, não o tenho no trabalho.

É sempre essa inversão. E a galera do teatro tem vivido assim: trabalho para sustento da dispensa, teatro para sustento da alma, e nisto vem os estudos, “eventos”, apresentações, temporadas... As férias nunca vêm para o todo. Vem para um dos itens da lista de compromissos em que magicamente nos vemos envolvidos. Mas o descanso total, nunca! O ritmo não pode decrescer. Aí um dos projetos vai mal, qualidade nada boa... Não dá pra perceber que, talvez, seriamos muito mais produtivos se desacelerássemos?

Foi quando eu tive uma crise de ansiedade e me vi em casa, três da manhã, fazendo faxina, tudo porque não conseguia dormir, que vi o tamanho do problema.

Sabe quando você liga um aparelho de 110V numa tomada de 220V? Alguma vez na vida alguém já cometeu esse erro e se deu conta do tamanho da burrada que fez... Pois é, estamos conectados em tomadas de 220V, estamos sobrecarregados, não damos conta dessa carga, mas insistimos.

Já parou pra pensar que, provavelmente, você tá fazendo errado?

Sendo bem chatinho com a descrição a seguir, eis o que acontece com o seu corpo: ele não aguenta o ritmo, e precisa de energia. MAIS ENERGIA. Daí você passa a ter uma propensão BEM MAIOR àqueles alimentos ricos em gordura, sal e açúcar. A falta de tempo para desacelerar e curtir uma refeição saudável colabora, então as cantinas e alimentos pré-prontos se tornam alvos fáceis. Mas olha só que coisa: esses mesmos alimentos, aliado à essa rotina doida que você mantém, desregulam sua produção de certos hormônios bem legaizinhos pro seu cérebro, e a falta ou excesso deles faz de você uma pessoa bem diferente.

Seu cérebro entra em curto: na hora de dormir, ele está a mil pensando em todas as coisas em que você está envolvido, logo, o sono nunca vêm ou é bastante irregular. Isso se dá por conta da alta carga de açúcar e, provavelmente, das drogas que você consumiu ao longo do dia, especialmente cafeina. Na hora de realizar esses afazeres, o cérebro está tão cansado que não consegue processar... ou seja, sua atenção fica baixa e, consequentemente, você, improdutivo.

Pra não falar que, provavelmente, seu coração está trabalhando o dobro, porque o coquetel de cafeína, nicotina, gordura, sal, açúcar e tudo aquilo que você está consumindo pra se manter está tornando seu sistema circulatório um encanamento impossível de fazer o transporte adequado de sangue oxigenado.

Logo, muito provavelmente, exercícios físicos inexistem na sua rotina. Então, cadê dopamina, serotonina, e todas aquelas coisinhas maravilhosas que nosso corpo produz e nos deixam felizes?

Esse é um ponto interessante que talvez não seja pra todo mundo, mas se é seu caso, cuidado: seu ritmo sexual, a troca constante de parceiros determinado pela pergunta “passivo ou ativo?” ou pelo Match naquele aplicativo de relacionamentos faz com que seu cérebro desenvolva um vício incrível por ocitocina, hormônio que, além de outras tantas origens e funções, liberamos com o sexo. Esse hormônio causa no seu cérebro a famosa sensação chamada amor (é liberada nas gestantes para ajudar nas contrações, lactação, e após o sexo também). Mas olha que coisa... com a troca contínua de parceiros, seu cérebro fica: “ué?”. O banho constante desse hormônio faz o cérebro acostumar, e ficamos mais... resistentes. Quando você se dá conta, está tendo dificuldades de manter uma relação saudável em relacionamentos mais sérios, exatamente porque seu cérebro não está associando aquela dose de ocitocina à esta nova situação - não vamos nos aprofundar muito na moralidade da monogamia, mas é pra refletir.

Depois dessa bagunça toda, por conta de todo esse fuzuê que você tem feito da sua vida, não vai me surpreender nem um pouco o fato de você entrar em depressão, esse estado de irritação que já te fez perder amigos, essas crises de ansiedade, as insônias severas, ou qualquer outro sintoma dessa vida agitada que está mantendo.

Parando pra pensar, não sou só nisto, nem você. A nossa sociedade inteira tá nesse ritmo. A sociedade inteira está assim. Criamos esse padrão horrível do ultraprodutivo como meta. E de quebra, se você não é assim, essa mesma sociedade faz você se sentir uma pessoa horrível.

Mas, calminha aí. Errada está a sociedade, não você. Então, relaxa...

Ah! E se você é um daqueles iniciantes de teatro que tem uma imagem romântica na cabeça do artista boêmio, ultratalentoso e intelectual, que pede pros amigos te ensinarem a fumar e é todo empolgadinho pra sentar numa mesa de bar ouvindo Chico... quero te dizer que mais errado está você, que isso não é critério pra ser artista. Isso se chama estereótipo, imagem de construção social!


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Iago Lunière – dono de três cães, dois reais, um abstrato que visita de vez em quando. De fato toma dois litros de café por dia, e está tentando reduzir isso. Escreveu esse texto mais para si mesmo do que para os leitores.