quarta-feira, 18 de abril de 2012

Porque habillée, e um relato grotesco!

Quando eu criei esse blog, nem sabia pra que ele serviria, ou melhor dizendo, sobre o assunto geral pelo qual ele iria servir. Habillée foi um presente que recebi de alguma entidade inspiradora. Lendo o blog da Cláudia Matarazzo, vi esse termo que deve ser lido "black tie", e me simpatizei. Pra quem não sabe o que é habillée ou black tie, são termos que definem o traje a ser usado em determinado evento e quer dizer, para os homens, a obrigatoriedade do uso do smoking completo.

A escolha do Habillée me abria diversas possibilidades. Primeiro, eu poderia falar do que mais gosto: Teatro. Em segundo, eu poderia falar das minhas experiências sociais, das relações humanas, da força que o social inflige ao ser e, nesse aspecto, podemos citar política, religião, ética, etiqueta, etc.

Esse é Habillée, mas até agora eu tratei apenas do Teatro. Cada vez que escrevia novo artigo falando de outro tema, se não o Teatro ou a Arte, eu pensei que estava além da minha alçada, que eu estava entrando em um Universo que não era do meu direito tratar sobre ele - e por isso, reservava os artigos para um momento oportuno. Queiram ou não, o Teatro é minha matéria de domínio, não que eu seja um mestre nisso - sou um iniciante, talvez nem isso e só um nada. Mas o Teatro é o meu Universo, é onde vivo: é nele que eu reflito, é ele que me dá vida e inspiração. Cada novo dia, cada novo ensinamento de alguns dos meus mestres, descubro que é no Teatro que devo sobreviver.

Mas agora não é sobre o Teatro que devo tratar. Agora o Habillée tratará daquilo pelo qual eu o nomeei. Dia 14 de abril foi realizada a festa de recepção dos calouros de Teatro da UEA, e foi sensacional. Certamente, uma festa que estará marcada nas nossas memórias e, no meu caso, estará marcada no corpo. Naquela festa, pude ver as relações humanas que se sucederam, e mais, as relações humanas de artistas, de pessoas desprendidas da moral dogmática da sociedade ocidental brasileira.

Apesar da grande diversão da festa, me senti muito incomodado com uma coisa que não dá pra passar despercebido: se divertir não lhe dá o direito de acabar com a diversão dos outros. Os organizadores, e entre eles eu me incluo, demos aos calouros um presente de coração, demos as boas vindas à essa nova vida, à esse universo que é o Teatro. E para que esse presente fosse perfeito, zelamos para que assim o fosse - nos esforçando dentro de todas as nossas capacidades.

Uma pessoa me provou que sempre temos de ter limites, e isso não é papo de conservador, é papo de pessoa com bom senso. Compartilhando no facebook, comentei: é natural todos passarmos, uma vez na vida, por um porre vergonhoso que acabe com nossa reputação. No entanto, limites existem e cada um deve respeitar o seu. Teimar em superá-los e fazer cagadas faraônicas já é uma baixaria que tolerar, é pra paciência de monge!

Quem nunca teve de lidar com bêbados chatos? Lidei com alguns, e com eles encontrei o meu limite, pois a sua vergonha me era alheia. Cada vez, conscientizo-me que libertar-se e extravasar é bom, mas destruir o pouco de reputação que se tem é, no mínimo, vergonhoso. Na minha função por zelar pela diversão de todos, inevitavelmente sacrifiquei um pouco a minha - mas não me arrependo - e tive de lidar com esses deselegantes seres bêbados. Pra finalizar, digo: cuidado para que, na sua diversão, no seu extravasar, não acabe com a diversão dos outros. Cuidado para não passar do seu limite, acarretando em problemas pra você - e aporrinhação para os outros.

Iago Lunière











quinta-feira, 5 de abril de 2012

"A Cruz e a moça"... e eu também!

Me senti de volta a casa de mãinha (como filhos e netos costumam chamar a minha avó) quando fui assistir "A Cruz e a Moça", encenado por Ana Paula Oliveira, Francis Madson, Dyego Monnzaho, Taciano Soares, Carol Santa Ana e Jonatas Amaral. A catarse foi tão intensa que, não pude parar pra ficar observando detalhes, ou ser descartiano. O que posso dizer é que tudo foi tão bem costurado, cada elemento foi tão bem alinhado na composição, que me restou apenas assistir, e me sentir de novo na casa de mãinha.

Os louros devem ser dados a Ricardo Risuenho pelo espetáculo, que conseguiu me transportar de volta ao Ceará... lembrei-me de imediato dos picotes, da vaca Manguera, dos sinos nos pescoços dos bodes, das cercas vivas cheinhas de cobra cipó - que infortunadamente atracou-se nas canela de Chiquinho e deu-lhes umas lambadas. Lembrei do açude de água quente no fim do dia ensolarado, das pedrinhas bonitas que tinham no fundo do terrero, das árvores de galho seco, da tia Luíza, do Chiquinho (aquele da cobra), que adorava sair atrás de um picote com uma baladeira - era nosso jantar... ui, o sabor do picote, fritinho e só ao sal!

Trazer de volta à minha memória a viagem que eu e mãinha fizemos à sua terra natal foi consequência... A peça me fez rememorar essas lembranças pela matutice das personagens, pelos estereótipos dell'arte que existem também no sertão e que eu vi, estavam lá! Tio Tiago, marido de tia Luiza... Chiquinho com seus planos mirabolantes... Eu assisti um pouquinho de casa. A ambientação amarelada, em figurinos perfeitamente compostos por Luís Ferreira, o cenário de Magli, Divan Fernandes e Risuenho.

Ri, chorei - em parte pelas memórias que me vinham à cabeça -, ginguei com a maravilhosa trilha sonora, senti inveja pela execução magistral da coreografia por parte dos atores... Parabéns à Cia. de Interpretes Independentes, à Cia. Cacos de Teatro (em especial, Francis Madson que estava fabuloso), e a Ricardo Risuenho, a quem desejo muito sucesso e, principalmente, que voltem logo com "A Cruz e a Moça".

Iago Lunière