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| Fonte: Fan Page do grupo Ateliê 23. |
Existe um relógio. Esse relógio, defeituoso, mostra horas de
modo estranho, talvez errado, e as pessoas que se guiam por este aparelho,
planejam suas vidas, mediam suas ações, calculam suas palavras e seus
relacionamentos. Alguém, porém, notou o erro deste tipo de relógio. Ninguém
sabe quem foi essa pessoa, talvez um relojoeiro com uma visão bastante crítica
sobre como deve ser um bom relógio e, outras pessoas, notando também o erro
depois de avisadas pelo anônimo relojoeiro, decidiram concertar de alguma maneira
tais aparelhos medidores do tempo. O grupo Ateliê 23 pode ser considerado um
corajoso grupo que decidiu mexer nesse maquinário. Com seu primeiro espetáculo,
o Persona - Face um, assistimos a uma tentativa de mexer nesse relógio. Com
explosivo plástico C4 e dinamite, esse espetáculo nos expôs, demonstrou que
estávamos pautando-nos na hora errada, no tempo errado, num relógio quebrado. O
segundo espetáculo, porém, Persona - Face Dois, toma as peças explodidas e
remontam o aparelho com uma precisão de relojoeiro, com uma ironia, técnica e
refinamento elegante ante um tema que não está mais sendo engolfado pelo
silêncio.
Esta crítica não se direciona a um espectador desconhecido.
O lugar desta crítica parte daquele que acompanhou o processo de debate criativo
proposto pelos artistas Daniel Braz, Ediel Castro, Eric Lima, Fabiele Vieira,
Isabela Catão, Larissa Rufino, Laury Gitana e Taciano Soares sobre a questão da
transsexualidade - (bosta!). O espetáculo não se desvincula do trabalho
anterior do grupo, e por isto, a crítica é remetida aos que já estão iniciados
no debate. Refletir a Face Dois isoladamente é incorrer em posicionamentos
injustos.
As palavras sarcasmo e ironia, isoladas, não dão conta da
sutileza com que foram trabalhadas neste espetáculo, mesmo quando o escracho é
utilizado. É neste ponto que a percepção da obra pode se tornar injusta para
quem não acompanhou a primeira face. Ver atores cisgêneros operando este tipo
de humor que põe em dúvida o riso pode causar um impacto inicial, fazendo com
que julgamentos precipitados os tirem do lugar de debatedores da opressão para
o lugar de opressores. Este, talvez, é o ponto que mais tenha me preocupado:
numa sociedade que está tão polarizada e ressentida, essa percepção pode
parecer justa. Resguardada esta eventual confusão, a segunda face sorri com
intimidade, sarcástica, confidente, cúmplice.
Enquanto a primeira face explodia todas as peças de nosso
maquinário de conceitos e percepções, a segunda face é um convite a
reconhecermos, por nós mesmos, que o relógio está muito defeituoso, dando um
riso na boca e um aperto no peito de arrependimento por rir. Este tipo de
efeito é elegante, sutil, desmascara - mesmo quando achamos que tiramos a
máscara. Esse jogo de trapaça, que flagra a calça arriada, é embalada por uma
musicalidade corpórea. O espetáculo também demonstra a potencia teatral que tem
se tornado o grupo Ateliê 23 no Amazonas no que tange à questão da pesquisa e
da técnica. A questão da técnica é ousada, mesmo que ouvidos mais sensíveis
sintam os arranhos ocorridos aqui e ali causados por problemas de musicalidade
- mas, ainda assim, a considerar a ousadia e a qualidade, os arranhos não
passam a ser mais do que são: arranhos (leves, sutis).
Ironia, Sarcasmo, Leveza, Lucidez no diálogo. Tudo isto fica
bastante evidente também no cenário e figurino, brancos, alvos, claros.
Primeiro, seguindo um oposto completo à paleta barroca do primeiro espetáculo,
envolvidas de negrume. Porém, todo este branco é uma demonstração simbólica de
que a segunda face propõe um debate elevado, que puxa para si perspectivas
muito espinhosas - é preciso estarmos bastante abertos para este debate, sermos
página branca. Só assim podemos perceber como seria um mundo onde a questão de
(identidade) gênero é o menor de nossos problemas, em que corpos não comunicam
mais as identidades, e as relações entre eles não tem regras e pode ser
bastante randômica. Mesmo o mais consciente acerca da questão de identidade de
gênero fica com tela azul quando vislumbra uma mulher trans, interpretado por
ator homem cis, que sente tesão por um homem trans, interpretado por uma mulher
cis. Este tipo de relação, tão oculta, tão inimaginável por nossa tão cara
moralidade, revela a nossa incapacidade de perceber (ou imaginar) a grandiosa
diversidade no mundo - amplia nossa visão de mundo, transforma.
Para aqueles que acharam que o debate havia morrido num
fuzilamento dentro de uma casa abandonada e escura, ledo engano, viram somente
a primeira face - a segunda, teima em gritar. A segunda está sorridente e à
mostra todos os sábados, às 20h, no espaço do Ateliê 23, na r. Tapajós, 166,
Centro. Direção de Taciano Soares, equipe técnica com Ediel Castro, Laury
Gitana e Fabiele Vieira, e atuação de Larissa Rufino, Isabela Catão, Daniel
Braz e Eric Lima. Esta crítica se importa em informar que este espetáculo
recebeu, por meio de edital, patrocínio público da Prefeitura de Manaus, por
meio da Manauscult. Esta informação é para que os moradores de Manaus saibam
que seus impostos foram muito bem aplicados no grupo Ateliê 23, que com este
espetáculo faz jus à sua responsabilidade social (e ética) em relação ao erário
público - exemplo que esperamos multiplicar-se no Teatro de Manaus.
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Iago Lunière - acadêmico de teatro que considera seriamente os efeitos de uma possível abstenção de nicotina e cafeína. Atualmente segue em busca da bolinha do cachorro perdido debaixo de algum móvel.


