segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sonho vs Sobrevivência (ou o que marcar como opção de curso no vestibular)

Estou me devendo escrever esse texto desde o inicio do ano. Acho que é propício terminá-lo e publicar. Tenho alguns amigos que este ano, e ano que vem, vão prestar o vestibular. Alguns mais jovens que eu, outros bem mais velhos. Mas o que tem em comum entre eles, é a perspectiva de concretizar um sonho, um projeto pessoal, e também, o de firmar bases de segurança para a vida. O que quero dizer com isso: em decisões como esta, temos a escolha de realizar sonhos e projetos em que vislumbramos a aplicabilidade de nossas potencialidades mais latentes; ou a escolha de um modelo de vida que, ditado pela realidade, pode não ser o mais prazeroso, e no entanto, será um proporcionador de segurança financeira e social.

Quando eu tinha 16 pra 17 anos, prestei o vestibular pra Engenharia, e passei. A prova foi cancelada devido à fraudes nos exames, mas pra minha sorte, fico pensando que provavelmente estaria me formando em uma área que, de certo modo, não requer de mim as minhas mais plenas potencialidades, mesmo sabendo que, dentro de qualquer profissão, podemos aplicá-las e focar aspectos nossos com o qual lidamos mais facilmente. Eu estaria inserido num bom mercado de trabalho onde a remuneração é, em comparação com outras profissões, uma das melhores. Mas não seria eu. Não seria aquele o meu projeto de vida - o meu sonho.

Ficamos reféns, portanto, do sonho e da realidade. Onde o não cumprimento de um pode levar ao descontentamento, e o outro, a igual resultado. Pra que servem os sonhos, afinal? Um sinônimo que uso para o sonho, é a utopia. Filosoficamente, a utopia nos serve para projetar um ideal, do qual criamos bases para tentar alcança-lo, ou alcançar uma porcentagem daquilo que idealizamos. O sonho, portanto, tem uma característica que nos assegura um constante estado de movimento em busca de uma situação/realidade ideal.

Mas o que impede de vivermos tal sonho? Uma boa parte desse impedimento é por conta da realidade. O ser humano é um ser inserido em uma realidade na qual ele necessita se adaptar, e o sonho, portanto, lhe dá noções para que se criem formas de tal adaptação, bem como o seu oposto: adaptar a realidade à si. Isso nos diferencia de todas as espécies. Alteramos significantemente a realidade (e essa palavra uso para definir o espaço onde vivemos, a situação social na qual estamos inseridos, e os recursos do qual disponibilizamos para sobrevivermos) e, portanto, penso que o sonho tem uma boa parcela de significância nesta capacidade humana.

Vejo pessoas que sonham com suas carreiras de uma forma mediante uma realidade que lhes cobra outra completamente diferente. O mundo, hoje, tem problemas muito grandes pelos quais demandam todos os tipos de solução. A demanda de problemas é muito alta na nossa realidade, e portanto, não damos conta de resolver tudo ao mesmo tempo sem sistematizar, e quando sistematizamos, delegamos prioridades. Não é de se admirar que áreas do conhecimento como o da saúde tenha mais demandas que a de humanas, mas o desleixo de uma sociedade para com a segunda, acumula problemas que afetam a primeira.

Em miúdos: o mercado é injusto. As Artes Cênicas em Manaus, por exemplo, vem galgando significativas conquistas mais pelo engajamento pessoal dos indivíduos que compõem esse setor do mercado do que pela dinâmica social como um todo. Isso é muito claro pra mim. São pessoas que persistem nos seus sonhos de estar produzindo e compartilhando arte e que percebem que ali podem aplicar todas as suas potencialidades. Mais, que ali possuem mais capacidade do que poderiam aplicar em outras áreas. Vejo amigos que batalham por seus sonhos, na mesma medida que vejo amigos que se buscam bases seguras, mesmo sabendo que ali não serão tão plenos quanto seriam em outra área.

E agora, falando pedagogicamente, estamos torturando nossos jovens com essa dicotomia maluca. A sociedade lhes cobra muito, de tal forma, que é gritante o número daqueles que preferem buscar as bases seguras que a sociedade oferece, do que perseguir o seu sonho . Logo, surge um grau enorme de frustração que temos de lidar - frustrações profissionais e pessoais, também. Passamos os olhos brevemente pelo número de desistentes dos cursos de graduação, e não se torna difícil as conclusões. Incentivamos pouco a perseguição dos sonhos. Eu, quando decidi não tentar mais engenharia e sim o Teatro, senti na pele o que é isso. Pais, familiares, professores, amigos... todos diziam em uníssono: "Teatro? Mas isso não dá dinheiro!". E infelizmente, nós, seres citadinos, temos como recurso de sobrevivência um pedaço de papel. O sonho passa a não valer à pena. Como sobreviver, portanto, perseguindo um sonho que não te oferece bases seguras? Feliz aquele em que seu sonho reside sobre as bases seguras e facilmente se adapta.

Entra aí, o outro lado da moeda. Nós temos de nos adaptar, mas precisamos também adaptar o todo a nós. Portanto, cheguei a conclusão de que perseguir um sonho é um ato de bravura. Pois aquele que tenta perseguir seu sonho, deve ter em mente que, antes de mais nada, deve alterar a realidade - e isso é custoso. Por isso que entendo que as conquistas do mercado cênico em Manaus parte mais do engajamento pessoal de determinados indivíduos (e alguns raros grupos), do que de demandas solicitadas pela sociedade. Se dependêssemos desta, talvez não teríamos evoluído muito. Mas é esse engajamento que faz com que nasçam produtoras que insistem em criar eventos que buscam formar públicos; que requerem do Estado mais incentivos para a Arte; que insistem em formar novas gerações de profissionais, e que portanto, acabam por gerar oportunidades de crescimento pessoal e coletivo. Isso requer um altruísmo muito grande, pois alargamos fronteiras não somente para si, mas para todos aqueles que almejam o mesmo sonho.

Então, aos vestibulandos de Teatro e possíveis calouros: Se esse é o seu sonho, o de fazer Teatro, saiba que antes de tudo você deve se preparar para mudar a realidade. Às vezes é desanimador: recebemos pouco, trabalhamos muito, o dinheiro acaba e o mês não, mas ainda assim, é necessário persistir. Às vezes nós mesmos nos boicotamos, desistimos no meio do caminho, nos afastamos - o que é absolutamente normal, mas até aí podemos contornar. Aos amigos que vão prestar vestibular para outras carreiras, mas que gostariam de estar perseguindo um sonho completamente diferente: Calma, um passo de cada vez. Talvez na área onde você está se inserindo, você encontre meios de usar suas potencialidades como lhe apraz. E caso não encontre, nunca é tarde demais pra começar tudo de novo. Com tudo isso, desejo muita sorte na perseguição dos sonhos, pois alterar a realidade talvez seja a dinâmica que precisamos para encontrar novas saídas e soluções para as problemáticas que temos agora.

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