Amiguinhos do teatro: se existe na sua
dieta diária alguma droga que o ajuda a ter mais energia para enfrentar uma
rotina pesada (dois litros de café, por exemplo), outras para te ajudarem a
relaxar (cervejinhas rotineiras, nicotina, cannabis, calmantes, etc.), tem mais
de três projetos em andamento, dorme muito tarde e acorda muito cedo, está
conectado o tempo todo e não suporta a idéia de assim não estar, e entre tudo isso,
ainda mantém aquele app atualizado pra manter uma atividade sexual semanal
bastante agitada... CUIDADO. Estou com você nessa, e acabei de me dar conta que
estamos indo bem mal.
Cinco amigos diferentes sentaram ao meu
lado e comentaram: “Eu estou muito cansado”. Normal, não? Quem não está? Vejamos.
“Quero logo que esse semestre acabe”, disse outro. Fiquei pensando, “mas o
semestre já acabou”. A pessoa já estava se referindo ao segundo semestre.
Eu me peguei pensando, “preciso de
férias...”. Espere um minuto, eu tive férias! Mas ao mesmo tempo, não tenho
férias há um bom tempo. Estou falando de férias de verdade. Um período do ano
em que eu realmente descanse. O que tem acontecido nos últimos tempos (vai
fazer dois anos, e não, não parece pouco, nem deveria) que quando tenho férias
no trabalho, não o tenho nos estudos. Quando tenho nos estudos, não o tenho no
trabalho.
É sempre essa inversão. E a galera do
teatro tem vivido assim: trabalho para sustento da dispensa, teatro para
sustento da alma, e nisto vem os estudos, “eventos”, apresentações, temporadas...
As férias nunca vêm para o todo. Vem para um dos itens da lista de compromissos
em que magicamente nos vemos envolvidos. Mas o descanso total, nunca! O ritmo
não pode decrescer. Aí um dos projetos vai mal, qualidade nada boa... Não dá
pra perceber que, talvez, seriamos muito mais produtivos se desacelerássemos?
Foi quando eu tive uma crise de ansiedade
e me vi em casa, três da manhã, fazendo faxina, tudo porque não conseguia
dormir, que vi o tamanho do problema.
Sabe quando você liga um aparelho de 110V
numa tomada de 220V? Alguma vez na vida alguém já cometeu esse erro e se deu
conta do tamanho da burrada que fez... Pois é, estamos conectados em tomadas de
220V, estamos sobrecarregados, não damos conta dessa carga, mas insistimos.
Já parou pra pensar que, provavelmente, você
tá fazendo errado?
Sendo bem chatinho com a descrição a seguir, eis o que acontece com
o seu corpo: ele não aguenta o ritmo, e precisa de energia. MAIS ENERGIA. Daí
você passa a ter uma propensão BEM MAIOR àqueles alimentos ricos em gordura,
sal e açúcar. A falta de tempo para desacelerar e curtir uma refeição saudável colabora, então as cantinas e alimentos pré-prontos se tornam alvos fáceis. Mas olha só que coisa: esses mesmos alimentos, aliado à essa
rotina doida que você mantém, desregulam sua produção de certos hormônios bem
legaizinhos pro seu cérebro, e a falta ou excesso deles faz de você uma pessoa
bem diferente.
Seu cérebro entra em curto: na hora de
dormir, ele está a mil pensando em todas as coisas em que você está envolvido,
logo, o sono nunca vêm ou é bastante irregular. Isso se dá por conta da alta carga de açúcar e, provavelmente, das drogas que você consumiu ao longo do dia, especialmente cafeina. Na hora de realizar esses
afazeres, o cérebro está tão cansado que não consegue processar... ou seja, sua
atenção fica baixa e, consequentemente, você, improdutivo.
Pra não falar que, provavelmente, seu
coração está trabalhando o dobro, porque o coquetel de cafeína, nicotina, gordura,
sal, açúcar e tudo aquilo que você está consumindo pra se manter está tornando seu sistema circulatório um encanamento impossível de fazer o transporte adequado de sangue oxigenado.
Logo, muito provavelmente,
exercícios físicos inexistem na sua rotina. Então, cadê dopamina,
serotonina, e todas aquelas coisinhas maravilhosas que nosso corpo produz e nos
deixam felizes?
Esse é um ponto interessante que talvez não seja pra todo mundo, mas se é seu caso, cuidado: seu ritmo sexual, a troca constante de
parceiros determinado pela pergunta “passivo ou ativo?” ou pelo Match naquele aplicativo de relacionamentos faz com
que seu cérebro desenvolva um vício incrível por ocitocina, hormônio que, além
de outras tantas origens e funções, liberamos com o sexo. Esse hormônio causa no seu cérebro
a famosa sensação chamada amor (é liberada nas gestantes para ajudar nas contrações, lactação, e após o sexo também). Mas olha que coisa... com a troca contínua de parceiros, seu
cérebro fica: “ué?”. O banho constante desse hormônio faz o
cérebro acostumar, e ficamos mais... resistentes. Quando você se dá conta, está tendo dificuldades de manter uma relação saudável em relacionamentos mais sérios, exatamente porque seu cérebro não está associando aquela dose de ocitocina à esta nova situação - não vamos nos aprofundar muito na moralidade da monogamia, mas é pra refletir.
Depois dessa bagunça toda, por conta de
todo esse fuzuê que você tem feito da sua vida, não vai me surpreender nem um
pouco o fato de você entrar em depressão, esse estado de irritação que já te fez perder amigos, essas crises de ansiedade, as insônias severas, ou qualquer outro sintoma dessa vida agitada que está mantendo.
Parando pra pensar, não sou só nisto,
nem você. A nossa sociedade inteira tá nesse ritmo. A sociedade inteira está
assim. Criamos esse padrão horrível do ultraprodutivo como meta. E de quebra,
se você não é assim, essa mesma sociedade faz você se sentir uma pessoa
horrível.
Mas, calminha aí. Errada está a sociedade,
não você. Então, relaxa...
Ah! E se você é um daqueles iniciantes de
teatro que tem uma imagem romântica na cabeça do artista boêmio, ultratalentoso
e intelectual, que pede pros amigos te ensinarem a fumar e é todo empolgadinho pra sentar numa mesa de bar ouvindo Chico... quero te dizer que mais errado está você, que isso não é critério pra ser artista. Isso se chama estereótipo, imagem de construção social!
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Iago Lunière – dono de três cães, dois
reais, um abstrato que visita de vez em quando. De fato toma dois litros de
café por dia, e está tentando reduzir isso. Escreveu esse texto mais para si
mesmo do que para os leitores.



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