Um. Dois dias. É o intervalo entre um sono e outro. Às vezes durmo dois dias seguidos, ou finjo que durmo. Fico só deitado de olhos fechados imaginando um mundo mais interessante pra mim. Já vejo vultos fora da casa. Vultos de pessoas querendo entrar. Todos eles querem entrar e eu estou com tanto medo. Tem uma bandeja caída no chão e o pote de café solúvel ficou aberto na noite anterior. Tenho mais de quarenta ligações não atendidas. Atendi uma. Era meu pai. Ele pediu chorando pra que eu saísse. Pra que eu fosse ir vê-lo... que fosse cuidar do cachorro que ficou doente. Tenho medo de sair. Prometo que vou, mas deito no banheiro e fico criando coragem - sem coragem. O dia acabou, e nem fui.
Sento num banquinho, na cozinha, esperando a água ferver pra um chá. Nada mais me apetece, nem o vício. Volto pra cama não sei porque, porque não tem nada lá. Meus pensamentos já estão muito altos, eles gritam. Tenho a impressão que falo com alguém. Me pego falando com alguém da cozinha e peço pra me trazer água. Nada vem.
As almofadas estão no chão. Ali tem uma aranha morta. Surgiu uma ferida na minha perna. Sinto dores no quadril. A campainha toca e finjo que não estou em casa. É só a correspondência, mas tenho indisposição até pra atendê-la. Já não enxergo direito pelo olho-mágico. Já não enxergo direito há muito tempo.
Esqueci o que é um abraço. Vejo as pessoas por um buraquinho da janela e dá vontade de pedir que me abracem. Nem as conheço.
Me olho no espelho, nu. Tenho nojo de mim. Não pelo que vejo, mas o que vejo por debaixo dessa carne. Ela é o reflexo do que vejo. E sinto nojo dos dois. Meus olhos. Percebo que o que sempre foi o meu orgulho, os meus olhos, já são dois globos opacos e sem vida. Meu sorriso está desagradável. Não suporto mais meu próprio cheiro. Semana passada dormi debaixo do chuveiro, e esqueci ele ligado. Às vezes não quero levantar nem pra fazer as minhas necessidades. Fico sentindo dores. Fico sentido fortes dores. E aí eu vou, mas só pra sentir mais dores.
Está me irritando a alegria dos outros. Está me irritando a cama de cima, que range sobre meu teto denunciando dois amantes felizes em gozada noite. Está me irritando a música melódica que denuncia uma adolescente apaixonada na sua varanda com sua samambaia. As janelas não se abrem mais pra essas coisas, pra evitar mais rancor. E então me irrito comigo mesmo, por me irritar com coisas boas.
Sinto-me culpado. Fico noites sem dormir pensando como sou cruel. Me desligo do mundo com algum filme. Alguma paleta de cores. Alguma imagem que me abstraia. A música ecoa em mim e volta vazia. Nem sequer me relembra amantes, ou discórdias. Não tenho mais luto. Não tenho mais medo. Não tenho mais preocupações...
... nem sequer preocupações!
Esse silêncio me irrita.
ESSE SILÊNCIO ME IRRITA!
ESSE SILÊNCIO ME IRRITA!
SILÊNCIO!
IRRITA!
Um mês...
Dois Meses...
Seis...
Um ano...
Dois...
Cheguei. Cheguei até aqui e não consigo afundar mais. E é escuro... como o quarto. Olho pra cima e vejo várias silhuetas. Ouço ecos de vozes pedindo pra que eu não faça isso. Alguns desistem. Não os culpo. Deito e sinto a água cair no meu corpo. Sono. Muito sono. Ainda tenho algumas pílulas... Não há com o que se preocupar, ainda tenho algumas pílulas. E uma seringa. E uma faca. Não lembro porque deixei levarem as cordas... mas tenho o suficiente pra dar fim quando não for mais suportável...
mas
já
está
tão
insuportável!
Toda sexta-feira me arrumo. Espero alguém. Espero que ele venha tocar a campainha. E eu espero.
Não sei bem o que diria. Tenho vergonha que ele me veja assim, então me arrumo o melhor que posso. Ensaio um sorriso que esconda meus dentes. Não sei o que diria. Acho que começaria dizendo que eu sabia que ele viria... talvez pedisse perdão por ter sido covarde... Não. Não sei o que diria.
ESSE
SILÊNCIO
É
INSUPORTÁVEL!
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