Meu prazo de validade sempre foi a carteira de cigarro. Durante algum tempo, eu pensei que não seria, mas fatidicamente é. Antes, quando pensava em morrer - não em me matar, mas simplesmente me permitir morrer -, eu ficava pensando nas coisas que não fiz, e naquilo de que nunca tive conhecimento. Sabe, depois de fazer um monte de coisas, e de descobrir um monte de outras coisas, não acho que eu esteja convencido a não me permitir morrer.
É que viver custa caro demais hoje em dia, e fazer mais coisas e descobrir outras coisas é mais caro ainda. Mas aí eu pensei que, se morresse, ainda não tinha deixado um legado. Essa é a pior parte, é quando a gente se desdobra para criar algo que perdure. Algo do nada, que revolucione. Pensei em escrever um livro - péssima idéia. Primeiro, porque demora, e é preciso viver muito pra isso - considere-se que muito pra mim são dias, e escrever um livro demora muito mais que isso. Segundo, porque é preciso fazer um monte de coisas e descobrir um monte de outras coisas para que o que vá se escrever seja convincente. Ou seja, os motivos que me fazem crer que é melhor morrer impedem justamente de criar o meu livro. Depois, pensei que não precisaria ser um livro, poderia ser algo menor. Escrevi a esmo tudo o que me vinha à mente e saíram contos, verdadeiros manifestos, divagações... Mas não há uma simples alma que se digne ler, então, não é legado, precisa ser mais.
Pensei em plantar uma árvore. Bem, eu já plantei uma e, venhamos e convenhamos, o máximo que eu ganhei foi um comentário da minha avó: "um abacateiro? Eles não duram muito, tem de adubar constantemente para que durem". Merda, não deu certo. Mas pensando bem, numa época onde todos derrubam uma árvore, mesmo com a consciência de que isso não é nada legal, plantar uma árvore não é um grande legado que dure para sempre. Aliás, vale ressaltar, meu legado tem que durar para sempre - bem, não tanto, só o suficiente para quatro gerações e uma citação em algum livro qualquer, não me importando se ele ficar numa prateleira empoeirada de biblioteca.
Então eu me toquei, não sei se a humanidade vai durar mais cinco gerações a contar de mim, então, qual a função de meu legado? Algum alienígena encontrar e dar uma lida? Ou seja, não tem porque eu deixar algum legado - não faz sentido, é ilógico! Em meio a tudo isso, eu percebi como gastei tempo e cigarros pensando em motivos para não morrer, segundo o meu conceito de morrer. E me toquei que, quando o cigarro acaba, é quando mais eu quero morrer e vivo para fumar, e quando não fumo parece que morro - veja bem, se você acha que meu vício tá fazendo isso comigo, está completamente enganado, o vício veio depois das minhas divagações sobre tentar morrer. Na verdade, o vício só vem postergando o momento decisivo para eu tentar morrer e então decidi: o cigarro é meu prazo de validade.
Uma carteira mais sete cigarros, e é isso o quanto vou viver. Enquanto isso, farei carinho no meu cachorro, trocarei sua água, porei ração, deixarei um bilhete avisando pra quem me encontrar, continuar a fazer isso depois que me for de mim. Mandarei um e-mail pra minha mãe dizendo que a amo - a carta internacional está cara demais - e direi pra ela não vir ao enterro, pois não tenho dinheiro para a sua passagem, e nem ela. Darei um abraço no meu pai sem fazer-lhes cócegas. Ele odeia quando faço isso, mas enfim, não acho que ele estranhará eu não fazer-lhe cócegas. Vou mandar ao meu amigo um obrigado por me aturar todos esses dias, ele foi de grande ajuda ficar me aturando, e nem sabe disso.
Acho que é isso. Não sei se precisa dizer "adeus", mórbido demais. Eu só vou deixar de respirar, de ser mais um. Finalmente vou ter alívio dessa vida entediante e, em alguns momentos, massacrantes. Eu fico vendo essas pessoas que se agarram à vida e penso, pobres, vão morrer de qualquer jeito e tudo o que fizerem será em vão. Quer dizer, tem aquela questão do legado, mas... se superar isso, ficarão tão tranquilas! Aliás, se todo mundo pensasse igual, daria um alívio ao mundo. O ser humano não é tão importante assim, se todos fizessem que nem eu, uh!, o mundo seria muito bom. Mas enfim, tenho um prazo a cumprir, uma carteira mais cinco cigarros - fumei dois nesse meio tempo.
"Gramado de Ideia" é meu blog pra falar sobre algumas ideias que me assaltam, geralmente quando estou na varanda olhando pro gramado e pra árvore que fica de frente pra minha janela. Geralmente sobre Teatro e Arte, é esse gramado que me faz ter as epifanias mais malucas que quase nunca são escritas, pra não gerar provas de uma insanidade autoproclamada inteligente.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Inação Teatral?
Em pleno janeiro, e as chances de se apreciar o Teatro local, em Manaus, são reduzidas a quase zero. Verificando as companhias que atuam principalmente no Centro de Manaus, não se averigua nenhuma que esteja com algum projeto de lançamento de temporadas, ou realizando apresentações teatrais, mesmo que esporádicas e, raras, algumas estão em processo de montagem. Num comparativo com as peças realizadas no ano de 2012, em sua maioria dentro do Festival de Teatro da Amazônia e Mostra Tuchaua, nenhuma se encontra em temporada, ou já encerrou suas temporadas ainda em 2012.
Pensei em discutir um pouco esta situação atual que, não muito raro, se repete em alguns anos no cenário teatral local. A idéia de escrever sobre isso surgiu de algumas observações coletivas que, vez ou outra, assalta conversas informais e, algumas vezes, até parecem tomar caráter de debates formais, com a dispensa de um mediador, pois há um consenso - entretanto, é válido os comentários e estarei ansioso pelas opiniões.
Fazendo uma previsão para o primeiro trimestre de 2013, podemos encontrar apresentações teatrais somente no espaço cultural O Alienígena, de Jorge Bandeira. No espaço, estará O Grupo de Teatro Éden, dirigido pelo proprietário do estabelecimento onde ocorrerão as apresentações de “Psicose Maigaiver – 2.0”; haverá também o grupo Cartolas Produções, de Jean Palladino, com a peça “Nós... em branco”; e a apresentação do Monólogo “Reflexos que não há. Ou há?”, de Danilo Reis. As três peças compõem a programação do [Off] Carnaval, evento a ser realizado a partir do dia 06 de fevereiro, na rua Lima Bacury, 64c, Centro. Outra previsão é também a realização do Festival Breves Cenas, promovido pela H Produções, em março, com breves cenas feitas por artistas e grupos locais e de outros estados.
Vale ressaltar que o evento promovido pela H Produções pouco se enquadra no assunto, tendo em vista que são espetáculos (breves cenas, curtas cenas, etc) que dificilmente podem ser enquadrados em um calendário de apresentações, e de igual dificuldade poderiam ser apresentados em outros espaços com a freqüência e a rigidez que se supõe haver em uma temporada – difícil, mas não impossível: o próprio Cartolas Produções transformou seu curta “O Casamento” em espetáculo e o pôs em temporada no espaço cultural Casarão de Idéias.
Isso nos leva a observar que não é possível ignorar que há mais produções em torno destes “conglomerados” do que companhias solitárias realizando suas programações e, não obstante, há hoje um número suficiente de espaços culturais alternativos que suprem, em parte, a demanda criada pelo fechamento dos teatros no que parece ser uma baixa-temporada artística, ou um limitado acesso proveniente de burocracias políticas¹. Repito os exemplos supracitados. Afortunadamente, o “Breves Cenas” é realizado justamente em um trimestre onde a produção teatral é absolutamente escassa. O “[OFF] Carnaval” vem, este ano, como uma alternativa inédita onde, não só serve de “conglomerado”, como também possibilita que os grupos envolvidos realizem verdadeiras temporadas durante todo um período festivo voltado às massas – são, portanto, meios que companhias, grupos e artistas encontram para realização de seus espetáculos em meio às adversidades deste período do ano.
Quanto aos espaços culturais que constituem meio alternativo para os artistas locais, tem o Teatro baixa participação em seu uso. O Casarão de Idéias é utilizado como espaço de ensaios, biblioteca de consulta, cafeteria, e QG de alguns grupos. O "Espaço Cultural", na rua 10 de julho, tem uma vasta programação de música que torna opaca as programações de Teatro. “O Alienígena” é também sebo e galeria e, apesar de ser o sebo sua fonte de renda, as apresentações teatrais até agora se mostraram contínuas e, não obstante, são realizações majoritárias da companhia do proprietário - somente agora com a atual programação está havendo participação de terceiros.
Os problemas conhecidos valem apontar, mas não valem à pena se debruçar sobre eles com debates acalorados. Em primeiro ponto vem a política cultural local que gira em torno de um sistema maquiavélico bem constituído: um dispositivo² detalhadamente construído para não se tornar falho, onde a inexistência de democracia fortalece as engrenagens deste e os torna opressores, limitando meios alternativos de sobrevivência das companhias e concentrando tais meios em si e em seus desdobramentos. Somado a isto, segue a inação – e inanição – da população, que se vale da ignorância como pretexto de tal, e - o que é de causar indignação - dos próprios envolvidos com a política cultural: artistas dos diversos segmentos, produtores culturais e formadores de opinião (quanto a este último, há dúvidas de sua existência) que ignoram o que parece ser um “poder”. Avaliam-se também as metodologias utilizadas pelos grupos – metodologias estas que remontam um pouco mais de meio século – e, não por menos, cobram disciplina de seus membros sem possuir meios de garantir ajuda de custo, ou salário a estes. São diversas as problemáticas já conhecidas que levam a outras, umas influenciando menos, e outras mais, aquilo que parece constitui este quadro. Lembrando sempre, que um fator está ligado a outro, numa fluencia cadenciada.
Mas, como se trata de uma análise de um período específico do ano, vale se debruçar em debate sobre uma parte do problema que não se toca e, nem por isto, está desatrelado dos fatores explicitados.
Quais as explicações possíveis (e plausíveis) que explique este marasmo teatral que, no primeiro trimestre faz com que as companhias e seus trabalhos desapareçam e, não obstante, surjam gradativamente ao aproximar-se o Festival de Teatro da Amazônia? O problema é daqueles que só participam de Festivais, ou é problema de outra fonte que torna o Festival único meio possível de renda, possibilitando aos artistas subsídios tanto financeiros quanto morais para realização de seu ofício? É inação das companhias? São as férias um pretexto que encobre a falta de renda para a realização de montagens? São perguntas com possíveis desdobramentos, com plausíveis respostas.
Iago Lunière.
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[1] Burocracias políticas refere-se a uma burocracia que não é proveniente de um sistema, mas sim, em torno de uma política adotada por uma entidade que se nega a criar políticas mais acessíveis aos grupos e companhias da cidade aos espaços culturais públicos.
[2] Referência aos famosos “dispositivos militares” utilizados antes e durante o Governo Militar.
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