Tem um tempo que eu estava cozinhando esse tema nos meus rascunhos. Na verdade, eu tinha pretendido escrever por conta de um comentário do Marcelo Tas, apresentador do CQC e eterno professor Tibúrcio, que afirmou em uma entrevista que Esquerda e Direita hoje em dia é uma lenda. Aí vieram os protestos do mês de junho, e o vlogueiro Pc Siqueira deu uma explicação - bem didática - do que é Direita e Esquerda, e acho que muita gente, em algum momento da vida, já ouviu falar essas duas palavrinhas.
Eu vou buscar explicar aqui o que é Direita e Esquerda, mas porque é preciso pra poder explicar o que é Centro, e outros novos tipos de posicionamento que o cientista político David Nolan sistematizou, de forma que a bipolaridade da Direita e Esquerda não mais fosse suprema. Enfim, num debate político, ou mesmo que você não tenha interesses pela política, você está assumindo um posicionamento. Esse posicionamento, antes, dizia muito de você, mas hoje em dia isso é relativo. Como eu disse, tem quem não se interesse por política, e ainda assim, essa mesma pessoa tem um posicionamento político. E isso depende de muita coisa, desde o fato de você se interessar ou não por política (política pública, econômica, cultural, religiosa, etc), até o fato de você pertencer a determinada camada social, classe econômica, ou grupo cultural qualquer.
Quando pensamos criticamente a política, basicamente estamos pensando em como é que o Estado está gerindo, e qual o seu funcionamento. Só que você não está sozinho nessa, e tem um monte de gente pensando igual, e por isso, esse grupo é definido, segundo Nolan, pelos conceitos de: Direita (Conservador), Centro, Esquerda (Progressista), Libertarianismo (Libertário) e Estatismo (Totalitário). Basicamente, você pode estar inserido em um destes cinco grupos segundo a sua opinião acerca dos Direitos e Deveres do Estado, bem como os seus próprios Direitos e Deveres. Ou o que você pensa que seria correto afirmar que é um Direito, ou um Dever - independente se você luta por isso, ou não. E isso tem muito haver com o tanto que o Estado tem haver com a sua vida, ou o até que ponto ele pode interferir na sua vida, segundo o desejo de confirmar determinado pensamento. Por exemplo, você acha que o Estado tem direito de proibir que casais homossexuais adotem uma criança? Imagine que você é um homossexual: É a sua decisão de adotar uma criança e amá-la, e criá-la, e educá-la. Você acha justo que o estado lhe proíba desses direitos?
A concordância que temos quanto à medida de Intervenção, ou Liberação que o Estado possui, é um fator que nos define de que área dos cinco posicionamentos políticos temos. E o oposto é justo. Exemplo: Você acha que justo que um deputado evangélico proponha leis que forcem pessoas ateístas a tomarem certas atitudes com as quais elas não concordam? Imagine-se um ateísta: você não acharia justo ter o direito de argumentar e intervir na ação deste deputado, uma vez que você e outros pares sofrerão com isso? Portanto, a medida de intervenção ou liberação pessoal também conta pra definir o seu posicionamento.
Daí, vem as cinco categorias. As mais conhecidas, como dito antes, é a Direita e a Esquerda. A Direita é, geralmente, conhecida pelo seu caráter conservador nas questões sociais, no entanto mais flexível nas questões econômicas. No Brasil, o maior exemplo de governo de Direita foi a do Presidente Fernando Henrique Cardoso (também vou usar esse exemplo porque é recente), e duas características fortes desse governante, foi a privatização de bens públicos, e o combate ao narcotráfico. Hoje em dia o FHC é apoiador da descriminalização do uso de drogas, mas isso é consequência dos seus anos de experiência combatendo as drogas - não tem nada haver com o posicionamento dele (aliás, o fato de desonerar o estado dessa luta inútil é, em si, um posicionamento esperado da Direita).
Mas veja essa dicotomia: o posicionamento de Direita não vê problemas em uma liberdade arraigada do comércio, que traz tantos benefícios quanto malefícios sociais, no entanto, se importa que você - como indivíduo dotado de livre arbítrio e pensamento - use drogas. Os benefícios da Direita: se algo é oneroso ao Estado, o Estado não deve se responsabilizar por esse algo, e deixar que ele se crie só. Se criando só, esse algo aprenderá a se virar sozinho, superando suas necessidades - e o dinheiro poupado com esse setor oneroso poderia ser investido em setores da economia que multipliquem a prosperidade de uma nação (gerando mais empregos), ou em pontos de infraestrutura que assegurem o pleno desenvolvimento da economia e da qualidade de vida dos cidadãos. Tem os malefícios: acho que um dos GRANDES exemplos de como isso pode dar errado é a área da saúde nos Estados Unidos. Lá, há pessoas que não podem pagar por determinados tipos de procedimento clínico e seus planos de saúde não dão conta de todos os custos. O presidente Barack Obama até tentou tomar atitudes que melhorassem o setor, mas como a extrema direita por lá é grande, não deu muito certo - e o povo quase que tá na mesma. Outro malefício é o da sustentabilidade. Atualmente, as correntes econômicas e filosóficas que estão debaixo do grande guarda-chuva da Direita não conseguiram encontrar saídas viáveis para seu pleno desenvolvimento, sem causar grandes impactos no meio ambiente - e impactos negativos, o que é um sério problema.
Mas há um oposto. A Esquerda pensa tanto nas liberdades de cada indivíduo, que para ela é necessário que o Estado forneça todos os meios possíveis para que essas liberdades aconteçam. Por isso, a Esquerda tem tendências de interferir insistentemente na economia, em prol dessas liberdades - e essas liberdades CUSTAM CARO. Benefícios: a esquerda geralmente se preocupa tanto com as liberdades individuais, que ela poucas vezes assume partido de alguma corrente filosófica conservadora, ou religiosa. No caso, dificilmente as pessoas de esquerda acharão justo que uma pessoa seja proibida de ser vegana. No máximo, essas pessoas vão se importar se é justo ou não o Estado subsidiar condições para que aquela exerça o seu direito de ser vegana - como um bom salário mínimo, por exemplo. Malefícios: como eu disse, essas liberdades subsidiadas pelo Estado CUSTAM CARO. O que significa aumento da taxa de impostos, super intervenção do Estado à Economia, e consequentemente, aumento da inflação de determinados produtos - afinal, é normal o ser humano querer lucrar e, portanto, ninguém quer o Estado regulando o tempo inteiro o preço do seu produto que tanto lhe dá trabalho pra produzir.
Durante muito tempo essas duas formas de pensamento predominaram o mundo, bipolarizando-o, e até gerando guerras armadas - e chegou bem pertinho de uma guerra nuclear. E como visto, os dois posicionamentos políticos chegaram a se mostrar falhos em diversos pontos. E surgiu nessa briga toda o Centrismo. Mas antes de explicar o centrismo, vou explicar o Libertarianismo e o Estatismo.
Esses dois são os extremos de cada lado (Direita-Esquerda). O Libertarianismo, assim como a Direita, preza pela liberdade econômica, desoneração do Estado em setores públicos, etc. Mas ao contrário da Direita, não tem objetivo nenhum de interferir na vida das pessoas. Se as pessoas querem usar drogas, tudo bem. Se querem casar com alguém do mesmo sexo, tudo bem, também. Se não querem votar, okay. Só que me preocupa no Libertarianismo, é as consequências desta plena liberdade, afinal, um dos pontos que mantém a Direita invicta até os dias atuais é sua questão moral, que quer queira, quer não, norteiam inclusive as decisões econômicas. Isso me remete aos problemas sociais e ambientais que uma corrente de pensamento como esta pode levar, caso seja bem sucedida dentro de um Estado. E no oposto a verdade é a mesma. O Estatismo é "favorável a intervenção governamental tanto na economia quanto na vida pessoal". Ou seja, além da intervenção constante nas liberdades humanas, o estatismo se utiliza de intervenções governamentais para que seja bem sucedido o seu intento, e aí entram em riscos sociais, ambientais e POLÍTICOS.
No Centro, há o permeamento de todos esses posicionamentos. Isso me rendeu sérias dúvidas do meu próprio posicionamento político, antes de saber bem as definições e conceitos. Basicamente, posicionamentos centristas levam muito em consideração que a liberdade econômica é muito importante, pois é através dela que se obtém recursos necessários para se garantir as liberdades pessoais. Só que é levado em consideração, também, que essa liberdade não pode ser total, pois corre-se alguns riscos - é o caso do chamado "Capitalismo Selvagem", ou o lucro a qualquer custo. É entendido pelos centristas que muitas vezes as liberdades pessoais entram em conflito, e isso pode gerar, inclusive, danos à economia - de onde saem maior parte dos recursos sem impactar as liberdades pessoais - e, portanto, se faz necessário intervir em algumas situações. Se o conflito entre religiosos e ativistas homossexuais é um problema que está prestes a gerar um problema social e econômico, então é importante intervir e garantir os direitos dos dois lados. No oposto, se determinadas atividades econômicas estão degradando o meio-ambiente, gerando altos lucros para os empresários, sem retornar à sociedade bens materiais e culturais que lhes assegurem suas liberdades pessoais, então o governo interfere. Mas não é interferir por interferir. É interferir quando não há outras alternativas, pois é claro para um Estado Centrista que as intervenções governamentais são necessárias, mas que em demasia são prejudiciais.
Basicamente o posicionamento de Centro é a justa medida das coisas. E é o que deveria pressupor uma democracia e um estado laico, o que no Brasil ainda é um problema - em ambas as características de nossa República. Isso porque a Direita ainda é esmagadora, e a Esquerda, muito popularizada e atualmente desacreditada por conta da corrupção. A Direita emplaca leis e atos governamentais que viabilizam o pleno desenvolvimento da economia sem se preocupar em subsidiar estruturas fundamentais para tal desenvolvimento - como infraestrutura, capacitação da mão-de-obra, etc. E a esquerda é um total oposto, gasta excessivamente em políticas sociais que só oneram mais o poder público, e cometem o mesmo erro que a Direita - não investem na economia como devia. Os centristas são pouquíssimos nos Três Poderes - e geralmente são ignorados pela esmagadora maioria extremista.
O bom nisso tudo - se é que há coisa boa nesse quadro - é que a presença de centristas atualmente é tão pequena quanto a de libertarianistas e estatistas, e esses últimos são mais ignorados ainda - alguns, ridicularizados, até. Infelizmente, a saída desse quadro reside em intervenções mais severas do Estado, mas de formas cirúrgicas. Investir mais na infraestrutura, na capacitação de mão-de-obra, na economia, e etc. E isso o quanto antes! Os bons ventos da economia internacional já não sopram mais a favor do Brasil, ou seja, o prazo pra se fazer essas intervenções com folga e sem se preocupar com a margem de erro já se foi - ou faz agora, ou assiste o principio de um colapso econômico e social parecido com a do período antes da política do Real. Os problemas sociais se agravam, ou seja, as liberdades pessoais começam a entrar em risco, e investir aí é entrar em estado crítico - e olha que o colapso gerou muitos dos protestos. Geralmente, em situações como esta, a Direita sempre leva a melhor, porque geralmente é a que mais tem coragem de fazer aquilo que ninguém mais tem: se abster das liberdades pessoais até que tudo esteja sanado.
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REFERÊNCIAS E SUGESTÕES
Diagrama de Nolan (pra saber qual é o seu posicionamento político):
O Mito da eficiência empresarial no governo, ou porque excelentes empresários acabam sendo maus governantes:
Capitalismo:
Portal Libertarianismo:
Portal Ordem Livre:
Blog "O Centrismo":
A Rússia depois das eleições: do centrismo ao centro-esquerda.

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