Lembrei de quando pedi a Suellen Vasconcelos em casamento. Não, não éramos namorados, nem estávamos mortos de apaixonados um pelo outro. Só percebemos que a gente tinha a maior facilidade do mundo de entender os outros, dar conselhos, resolver problemas... mas dos outros. Sempre.
Pedi em casamento pra facilitar a nossa vida. Ela resolvia os meus, e eu os dela. Ó que maneiro! Mas papo sério: a humanidade, se não tivesse descoberto a amizade, tava fodida! Se um primata com cara de fuinha não tivesse oferecido aquele fruto pro outro que tava passando, mas é nunca que a gente tinha evoluído pra essa coisa pensante e cheia de conceitos e filosofias que somos hoje.
Mimimi, se tranquem em casa e escutem Maysa... Mas venhamos e convenhamos, somos um nada quando sozinhos. Tenho descoberto isso - ou estou redescobrindo - como quem para pra lembrar que ácido queima, metendo a mão no vasilhame que diz: "isso queima, idiota, não está claro?". Outro dia eu estava assistindo um filme com um amigo, Onde vivem os monstros, e eu percebi uma coisa que nunca me ocorreu, sendo aquela a sétima vez que via o filme. Precisava daquele amigo do meu lado, na situação em que ambos estávamos, pra entender aquela cena. Carol, o monstro problemático, (spoiler a seguir) ao correr para a praia, podia ter entrado na água e puxado o barco. Podia ter puxado o barco e dado um abraço peludo no menino Max. Podia ter dito que o amava, também. Podia ter dito que ele ia tentar melhorar, que ia ser mais amável, que ia ser mais compreensível. Iria pedir perdões, dizer que não importava se era mentira sobre os Vikings, Max era seu rei. Mas não. Carol chega na beira da praia, até ensaia entrar na água pra alcançar Max. Mas ele para, e uiva.
Só isso. Ele parou na beira da praia, deixou Max ir com seu barco, e uivou. Não fez questão de ter o que os amigos tiveram: um abraço e palavras de Max. Ele simplesmente uivou, e todas as palavras foram ditas naquele uivo. Ali foram não só palavras, mas sentimentos, pedidos, encantamentos para que seja eterna a memória do que viveram... Carol, antes de querer cuidar de Max, de concertar as coisas, de tentar fazer tudo certo... decidiu apenas uivar. O curioso, é que no final, Max podia ter dito milhões de coisas pra sua mãe. Ter contado a história, ter pedido perdão (não lembro se ele falou alguma palavra para a mãe, sempre me debulho em lágrimas a partir da praia), mas a Max ela também não diz nada. Ela simplesmente o abraça e chora.
Sabe... silêncio, por favor? Um pouco de silêncio cai bem, às vezes. Não o suficiente para que deixemos vozes interiores começarem a lançar suas lógicas deprimentes, mas o suficiente para percebermos que temos força pra superar os nossos problemas. Eu disse NOSSOS. Com a mesma lógica e raciocínio como resolvemos o dos outros. Quando o filme acabou, uma criatura estava aninhada nos meus braços. Um amigo estava aninhado nos meus braços, em prantos, e eu não tinha o que dizer. Só chiei. Sim, chiei. Pedi silêncio. Não sei pra quem pedi silêncio, se era pra ele se acalmar, ou se era pra eu ficar calado, e simplesmente abraça-lo o máximo que eu podia. Só que eu também não estava legal, e enquanto chiava, eu percebi que eu passei a estar aninhado em braços.
E saímos em silêncio. Só depois ele falou algo: quer um misto quente? Deitamos no sofá, e dali em diante, falando pouco, simplesmente ficamos dizendo tudo, transmitindo todo nosso amor um pelo outro, consolando um ao outro com suas dores conhecidas e desconhecidas, mas em silêncio. Não precisei dizer nada a ele, nem ele a mim. Ambos ficamos resolvendo-nos internamente, mas não seria a mesma coisa sem ambos ali, aninhados entre almofadas, num sofá. E dizer tchau foi meio doloroso, mas até ele foi pronunciado silenciosamente. E fomos cada um pro seu canto, com seus problemas, uns resolvidos e outros a resolver... mas pela primeira vez, percebi com mais clareza de que posso resolver meus problemas. Mesmo que pra cada um eu tenha de descobrir, como quem descobre a pólvora, o meio e a forma de resolvê-los.
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