segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O apropriado título de 'Imagine um Rosto, agora conte uma história'

Uma das coisas que me são mais estranhas, é quando a teoria se choca diante da realidade. Quando isto ocorre, é uma coisa muito delicada, abala certas estruturas que, uma vez incertos os fundamentos que se guiam, cria-se a oportunidade de conflito. De tal conflito, a reflexão e reorganização. É neste ponto que a ideologia, aura que parece emanar das teorias apreendidas e que permeia o conhecimento, é posto à prova. Talvez não seja o conhecimento (ou o que se supõe que seja o conhecimento) que seja afetado no choque com a realidade, mas a ideologia.

Foi neste ponto que me pus, após assistir à peça Imagine um rosto, agora conte uma história, do grupo Ateliê 23: casa de criação. A peça, estreada no dia 07 de novembro, e em cartaz todos os sábados, às 19h, no espaço do Ateliê 23, traz à cena Thaís Vasconcelos, Laury Gitana e Joice Caster, sob direção de Taciano Soares, assistência de direção de Larissa Rufino, Daniel Braz sendo o responsável pela iluminação e Eric Lima com o figurino.


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Foto: Fabiele Vieira - extraído da fanpage do grupo no Facebook.


Vem o convite à entrada no espaço do Ateliê 23, que em grupos, os espectadores sobem as escadas e entram na casa. Sentamos em círculo (na verdade, triângulo) e, após tudo em breu, assistimos feminilidades em cena. Este ponto já é o primeiro conflito que me joga para um campo diferente, pois como homem, sou posto diante e também fora dos limites daquele universo. Assim, a perspectiva que talvez possa ser apresentada por mim seja a da aproximação, e não a do reconhecimento. É uma noção interessante de se pensar.

A aproximação seria, portanto, a percepção, seguida da sensação de estranheza ao observar algo desconhecido e, no entanto, um esforço de compreensão. Naquela sala de espetáculo, me ocorreu um intercalar entre o que supomos ser uma passividade do espectador – que senta e, passivo, assiste – e uma postura ativa de apreensão, real interesse de compreender, mas sempre permeada pela estranheza. Eu, fora daquele universo, me aproximo até onde é possível em meus limites – limite fora da ação de esforço, vale lembrar, uma vez que, se dentro do campo de esforço, poderia ser um desleixo não os ultrapassar. Um exemplo: ver a lida de uma mulher com a questão do seu ciclo fértil pode ser esclarecedor, mas o meu limite como homem jamais me permitirá ter uma real noção do que é essa lida. Esta fronteira eu jamais cruzarei – sendo homem cisgênero.

Imagino, porém, que para uma mulher (cis ou trans), ocorra uma relação de reconhecimento mediante esta peça. O reconhecimento também partiria da percepção, mas ao invés da estranheza (e caso ocorra, é provável que seja breve ou pelo menos mais branda que no homem) ocorreria a identificação. Se tal mulher, ali na plateia, fosse observada por um outro como passiva (o comportamento de que, como espectadora, apenas senta e assiste) é, porém, ativa a partir do momento que, ao reconhecer aquele universo feminino, não só identifica, como põe à prova sua experiência como mulher naquele simulacro da realidade de seu grupo específico.

Neste ponto, o espetáculo gera âmbitos de apreciação e recepção muito distintos. Talvez seja interessante propor esta clareza. O homem que assiste, pode até julgar que entende. Mas precisa ter em mente que, sua condição como tal, não o permitirá ter total reconhecimento, mas apenas uma aproximação. A mim, homem, será um aprendizado do outro (ou melhor, de outra). À mulher, uma representação de si. O que cada um fará disto, cabe a cada um.



Talvez haja um intercalar destas sensações. Talvez não se apreenda nenhum nem outro. Talvez, e é possível, que leituras muito distintas ocorram, ao ponto que sequer perceba-se tratar-se do universo feminino. É um ponto de intriga ao qual me arrisco e, provavelmente, quem assiste também o faz: a de que a construção da percepção deste espetáculo é tão individual, que qualquer afirmar é uma questão de atrevimento. O que ilustra muito bem, foi a experiência que tive no debate após o espetáculo.

Em conversa aberta com o grupo, após o espetáculo, calhei de ser o primeiro a falar e, ainda permeado pela obra, regurgitei aquilo que me ocorria. Hoje, relembrando, e depois de todo o conflito interno a que fui posto, percebo que isso suscitou um sugestionar inconsciente. Onde haveriam pequenos vazios nos demais espectadores, que se tratam de questões íntimas ou potências interpretativas, de reconhecimento e aproximação, teve pelo sugestionar inconsciente de meu discurso um preencher, ou seja, a morte da potência interpretativa individual. Um reverso que também é verdadeiro, uma vez que as réplicas me preencheram.

É importante manter este ponto em aberto, a questão do curvar-se à interpretação alheia. Talvez, deixar em aberto determinadas questões seja uma ação mais interessante, de fato. No entanto, o purismo de involucrar o espectador para que ele tenha uma leitura só dele é uma postura um pouco nonsense, visto que é a troca com o outro que possibilita a construção e ampliação de perspectivas.
Esta troca foi mediante o debate ocorrido após o espetáculo. E sobre o debate, vale lembrar que é coletivizando a perspectiva que as ideologias, interpretações e saberes entram em conflito, deixamos o eu e o outro em um tensionamento, em um estado fértil para a compreensão da realidade e do outro, ampliando a possibilidade de encontro e alargamento dos limites antes citados. De acordo com experiências passadas que tive no espetáculo Persona-Face um, espetáculo do Ateliê 23 que tive o prazer de ser o crítico do processo, os debates em temporadas parecem, em determinado ponto do percurso, gerar uma acomodação das percepções, unificando discursos. O que parece enfadonho para aqueles que buscam alimentar-se da visão do outro pode revelar-se interessante como aposta se, de outra forma, o debate adquirir a mediação atenta à esta acomodação e, na medida do possível, problematizadora.

O debate, em Manaus, é uma prática relativamente recente. Adotada principalmente nos Festivais de Teatro da Amazônia nos últimos anos, tem, a algum tempo, decaindo por conta desta acomodação e, sua função parece pouco a pouco ficar inócua. Talvez seja uma aposta boa de se fazer: não inaugurar debates inócuos de indivíduos que esperam a visão do outro (do espectador que espera o grupo falar de si e o grupo que espera a visão do espectador), mas a perspicaz problematização destas visões ali, de pronto, afim de remexer a sedimentação e manter a reflexão em movimento.

A peça do grupo Ateliê 23 propõe, em seu título, que imaginemos um rosto e contemos uma história. É possível que tenhamos uma noção de que a experiência de assistir ao espetáculo é uma oportunidade de nos aproximarmos e nos reconhecermos de alguma forma com aqueles arquétipos femininos ali apresentados. No entanto, a lida com o espetáculo mostra-se mais como um flerte com a possibilidade de construirmos, por nós (espectadores) mesmos, o sentido que podemos apreender.

Os conflitos suscitados em mim, após o espetáculo, e após a experiência do debate aberto, me levaram para este campo de questionamento. Quais as interpretações do outro eu teria percebido se não tivesse sido o primeiro a sugestionar? É confiável a minha percepção e a construção e sentido que fiz? Enfim, quando falo que a peça flerta com a possibilidade de construirmos o sentido, falo de uma noção já tratada na Academia, ou seja, que não é uma novidade para quem se dedica a pensar a relação entre a obra de arte e o apreciador a noção de que o espectador é também autor da obra. É possível que a melhor contribuição desta obra é o convite à sua construção.

Foi essa percepção de obra que tomei emprestado para acalentar meus conflitos. Foi num impulso ideológico de que, munido de conhecimentos prévios, poderia dissecar a obra afim de compreendê-la, que fui intimamente abalado. Basta que estejamos munidos de nossa história, e é possível haver aproximação e reconhecimento e, eventual construção da obra.

Ao iniciar a peça, pareceu-me confuso e pouco compreensível qualquer que fosse a ‘proposta’ – famigerado termo posto em debate que, talvez, seja necessário dedicar algum tempo futuro para debatermos do que se trataria (o que não cabe aqui).

A minha ideologia propunha, previamente, que eu aquiescesse a qualquer coisa que me fosse posto e, à medida do possível, dissecasse uma compreensão durante e ou posteriormente. Neste sentido, aquelas três mulheres em cena negam este tipo de relação entre cena e espectador. Elas não se obrigam a te deixar claro nada   e este foi meu segundo choque.

A ideia deste aviso ao espectador de que ele não tem poder algum e, portanto, a cena não lhe deve explicação alguma, é uma das perspectivas ao qual eu mais reluto e, no entanto, me possibilitam experiências importantes. A relutância ocorre a partir do momento que me preocupa que o artista de teatro, ao declarar que não é seu dever dar algum sentido à obra para acalentar o espectador, incorra na postura de que se apresente ‘qualquer coisa’ e, em eventual confronto quanto à sua práxis ou questões relacionados à técnica e discurso, esse ‘qualquer coisa’ ganhe uma justificativa que o blinda daquilo que vem do dissenso.

Portanto, qualquer questionamento que se levante, apronta-se a justificativa de que é papel do espectador criar algum sentido em cima da obra e, assim, cimenta-se a possibilidade de escavarmos as contradições, nós importantes que ao buscarmos desatar, tornam-se exercícios novos de visão de mundo. A mesma preocupação me vêm no sentido oposto, quando a primazia da técnica, a imersão espiritual do artista e o rebusco da linguagem engolem de tal modo a obra, que chega ao ponto de torna-la vazia para quem aprecia, exigindo do espectador um conhecimento apurado da linguagem, munição de conhecimentos prévios, elitização do acesso, uma des-democratização da obra.

Essa angústia com tal paradigma, no entanto, divide espaço com o flerte. A independência de qualquer obrigação para com o espectador é sedutor. Vislumbrar uma fronteira mais larga de possibilidades é inebriante, tentador. Despreocupar-se de limitar a criação afim de ser compreensível parece ser libertador. Aos fãs de literaturas, é como entrar em uma grande biblioteca e saber que o tempo é congelado, e que, portanto, pode ler-se a tudo, e ter o tempo necessário para qualquer coisa escrever a partir daquilo tudo que leu. É como descobrir imortalidade e perceber que não é mais necessário ter a angústia da morte, e que, portanto, todos os desejos, imaginados e não-imaginados, podem ser vividos sem o limite da necessidade de sobreviver. Porém, o que me angustia é essa sedução gerar um esquecimento do espectador.

Angústia e flerte são questionáveis no círculo teatral manauara. Em princípio, porque o termo angústia é facilmente substituído por conservadorismo. É muito fácil, para quem presencia alguns debates teatrais, perceber essa dificuldade de alguns artistas abrir-se para uma prática cênica que tenta emancipar-se das escolásticas, que busca novos métodos, e que percebe que o discurso não necessariamente tenha uma forma que o transmita “bem”. O flerte, neste sentido, pode muito bem ser encarado em algumas ocasiões como a necessidade de rebelar-se destas concepções conservadoras, como atos não só de resistência, mas de contradição da norma aqui estabelecida – apesar de que, essa visão, a algum tempo parece estar se diluindo, ou ambos os lados das trincheiras se cansaram do que parecia ser uma peleja, e decidiram-se, cada um, ir para o seu canto fazer o que bem entende.

Ao espectador que decide por ser assíduo em teatro, facilmente verá futuras batalhas quando os dois lados, conservadores e subversivos, encontrarem-se nos campos do incentivo cultural das políticas públicas – este parece ser o principal campo de batalha onde velhos discursos ganham força na tentativa de eclodir o outro afim de manter a sobrevivência.

O que esta angústia e flerte quanto a emancipação do artista ao entendimento do espectador, e esses dois polos (conservador e subversivo) e essas percepções (aproximação e reconhecimento) têm a ver com Imagine um rosto, agora conte uma história? Primeiro, poderia tratar-se de outra peça, como o Persona-Face um, do mesmo grupo. Ou Inquietações, da Artrupe Produções Artísticas, que este ano causaram-me impactos semelhantes. O ponto que interessa e que aqui venho tratar é, primordialmente, que é impossível julgar por lote. Criticamente falando, fala-se que sequer é responsabilidade do crítico julgar, mas cambiar sentidos. É preciso averiguar, caso a caso, se a angústia com o descaso para com o espectador se faz justificada, ou caso o espectador esteja sendo subestimado com o didatismo teatral.

O caso é, fica claro que a peça do grupo Ateliê 23 é uma peça emancipada, o espectador vai assisti-la para ser ativo, construtor do sentido. Recebe do título a proposta e o convite. Compra o ingresso numa aposta. Se é homem, é exposto a um universo que ele provavelmente nunca identificaria, tem suas verdades postas à prova, e se não se aproxima por vontade própria, é puxado pela gravidade da peça. Se é mulher, tem o reconhecimento de si, a identificação e/ou a exposição angustiante da realidade do seu sexo e desmistificação daquilo que aprendeu sobre si. Aqui, retorno a reforçar, existe uma relatividade na percepção, um câmbio de construção e, se o espectador é aquele que imagina o rosto e conta a história, sua interpretação tem considerações só suas.

Porém, essa proposta de uma leitura/construto individual requer um embate. Minha leitura, apresentada no debate da estreia, apresentou uma problemática quanto à mulher que, desencorajada ao aborto, vê-se obrigada a cuidar de uma criança e, portanto, chocou-me a representação da vida desta mulher. Eu sai do espetáculo com a visão desmistificada da maternidade, por exemplo. Mas isso conta a minha história, conta as minhas influências, o trailer de filme visto naquela semana, a mãe e a filha que vi na fila de um banco, o livro lido num sábado à tarde, numa história contada pela minha tia. Esta é uma percepção minha, e só minha, que por conveniência pode estar a serviço do outro.

A percepção do outro pode, claramente, ser diferente. Basta que ele conte, compartilhe. Assim, cambiamos sentidos. Não me surpreenderia saber que alguém me conte, por exemplo, como identificou a depressão naquela peça, sofrida pelas mulheres. Também não me surpreenderia se uma mãe de alguma amiga minha me contasse que lembrou de sua filha na adolescência, em sua rebeldia. O choque destas percepções compõe um quadro maior sobre o universo da mulher e, eu, homem cisgênero, me benefício quando, acessando estas percepções, mais me aproximo daquilo que sou exposto.

É neste ponto que o flerte para com a emancipação do artista em relação ao espectador me acalma. Pois parece enriquecer mais o alcance de temáticas tão caras a todos nós. Quando tabus são chocados brutalmente ou amaciados para choques vindouros. É neste ponto que armamos uma arapuca para o conservadorismo, e flagramos a possibilidade de que o discurso não precisa ser bem explicado, que o espectador pode até ser peça chave, porém, não precisa ser um algoz anônimo da criação.

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Iago Lunière - dono de dois pinschers lindos, compulsivo por café, e petulante escritor deste blog.