quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

No Teatro, vaidade das vaidades... Tudo é vaidade?

Resultado de imagem para narciso mitologia
WALTERHOUSE, J. W. Eco and Narcisus, 1903.  Walker Art Gallery, Liverpool.

"Vaidade das vaidades, diz o pregador, vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr. Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol".(Eclesiastes 1:2-9).

***


O diretor envaidece-se de sua boa condução, astúcia e percepção. O ator envaidece-se de sua performance, da sua capacidade de atender à necessidade do outro. O técnico envaidece-se de seu pleno domínio maquínico. O espectador envaidece-se de seu poder legitimador. O crítico... Vaidade das vaidades.
Mas e o que é vaidade? Tomamos o exemplo do livro do Eclesiastes, o proferimento do sábio rei Salomão: nada apresenta de novo, nem é em si um resultado palpável de todo o esforço que se aplica para manter em alta este sentimento. Nada transforma, senão a quem alimenta. E o que alimenta? Que bolsa estomacal oca preenche a vaidade? E o que antes preenchia? Existia algo previamente ali posto que não há mais? Perseguir um objetivo para a vaidade é perseguir nossa recusa de que, antes dela, nada há; que é despropositada, que é uma ilusão sobre a qual nos sentimos satisfeitos. Por isso o Eclesiastes a lamenta.

Seria possível, então, a existência sem a vaidade? Se o vento vai para o sul e faz sua curva para o norte, independente dos envaidecidos homens com seus feitos e seus dons, se o sol continua a nascer no leste e por-se no oeste e todos os rios insistem em seguir para o mar, de nada vale a vaidade? Mas como seria sem ela? O que seria dos homens?

Ojerizamos a vaidade, cuspimos no humano vaidoso. Vaidoso pela sua beleza. Pela sua inteligência e sagacidade. Pela sua sabedoria. Pelo seu talento. Pelo seu martírio. Em tudo, pura vaidade. Por que? Porque reconhecemos que é ela o artifício humano para ocupar vazios, e não há denúncia maior destes vazios que a vaidade. No outro, se reconhecemos a vaidade, imediatamente reconhecemos o vazio. E que triste é perceber o vazio. Que desolador é para o humano perceber seu despropósito, sua miudeza e pequenez.

Culpa-se de vazio o belo pela sua vaidade, mas escamoteia-se em inteligência para esconder seu vazio de beleza. Culpa-se o intelectual pela sua pomposidade em assento monárquico, mas escamoteia-se em frivolidade. Escrito foi o poema pelo poeta para satisfazer sua vaidade. Maquiada foi a dama para satisfazer sua vaidade. Erguidos foram os prédios, para satisfazer a vaidade do arquiteto. Incansável foram os ensaios do ator, para que em cena fosse satisfeita a vaidade do ator. Se dela não escapamos, é a ela que em algum grau deveríamos agradecer o poema, a beleza da dama, o prédio erguido e a cena apresentada?

Egocêntrico, ególatra, ego. Palavras que no tempo certo vêm à baila das acusações entre os artistas. Mas afinal, se não por vaidade, por que o Teatro? Que missão redentora do mundo há em atuar, se não para envaidecer-se que rendeu ao mundo? Investigue quaisquer objetivos aos quais levam o individuo a fazer teatro, e todos tratar-se-ão de querer realizar algum feito sobre o qual poderia envaidecer-se. Mesmo os mais despropositados, que nada mais querem que sentir a poética da arte cênica e expressá-la, até mesmo estes envaidecem-se de sua capacidade de exercer este prazer sobre si. E envaidece-se ao julgar aquele que busca ávido por envaidecer-se também.

Disse Pascal: "A vaidade está tão ancorada no coração do homem que um soldado, um lacaio, um cozinheiro, um carregador se gaba e quer ter seus admiradores, e os próprios filósofos os querem, e os que escrevem contra querem ter a glória de ter escrito bem, e os que os lêem querem ter a glória de tê-los lido, e eu que escrevo isto tenho talvez essa vontade, e talvez os que o lerem..." (Pensamentos, 627-150).

"Saber-se vaidoso, no entanto, já é sê-lo menos", complementa Comte-Sponville ao trecho anterior. Reconhecer que a vaidade não é ultraje, e rir-se dela, e de si, já basta. Rir-se, ridicularizar, desconsiderar seriedade. A que adianta acusar o outro da vaidade se ela nos é inerente?

O crítico... Não concluí sobre o crítico. Sim, ele envaidece-se. É vaidoso da sua astúcia. Astuto em perceber, mas também astuto em enganar. Engana o leigo com belas palavras, e ao especialista com trivialidades. Astuto porque cria em cima do que outro criou. Astuto porque desnuda, desvela, escancara. É vaidoso porque detém poder. Mas que poder detém o escritor que não é lido? Que poder detém o crítico cuja crítica é desconsiderada? Que vaidade nisto há?

Saber-se vaidoso, no entanto, já é sê-lo menos. A crítica vaidosa se importa em permanecer. A crítica que sabe-se vaidosa, e portando, escamoteadora de vazio, pouco compromisso possui em satisfazer aqueles que alimentam a vaidade. Ri-se de sua impermanência. Reconhece-se vazia. E que possibilidades criadoras há no vazio!



Perceber a vaidade, me parece, é aceitá-la de bom grado. É com ela permitir-se alegre e frívolo, ou culpado e miserável - em ambos os casos, uma questão de escolha. Aceitar-se vaidoso, portanto, é assumir posição de decisão. Dizem ser triste o vaidoso que não se percebe como tal. Me preocupa, porém, os que se ocupam da vaidade alheia. Me parece não perceberem a sua própria. Não percebem que, vaidade das vaidades, no fim, tudo é vaidade.

***

Iago Lunière - Ser insone às 4:00 da matina, tabagista convicto que adora pensar coisa inútil. Escreve por vaidade, e aceita de bom grado o fato (ou não).









---


- Sobre Vaidade, vi: COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário de Filosofia. Eduardo Brandão [trad.]. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Ouvi boatos de que existe PDF :^)

- Peripatético ep.1 - Vaidade: https://www.youtube.com/watch?v=DFFoL4TBfcw (Sim, é o Pondé... me julgue)

Nenhum comentário:

Postar um comentário