segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Série "Somos": Prólogo

Tem uns dias, nas minhas madrugadas insones, que venho pensando em escrever. Escrever avulso, não interessando tema, pesquisa, ou uma profundidade qualquer. Escrever por escrever. Tenho escrito no meu Diário, que nada mais é que um caderninho em que resumo o dia, as dores, as descobertas pessoais que cabem só a mim. Mas ao fim, relendo, a vontade que dá é de queimar tudo. Ainda reside aquela necessidade luxuriosa por um interlocutor. Saber que escrevo pra alguém. Que alguém, que é assim como eu, buscando algum eco perdido de alguém que está assim também, simplesmente encontre esses textos perdidos na maré cibernética e leia. Leia. Deguste letras. Saboreie vírgulas. Cuspa erros sintáticos horríveis a um delicado paladar. Que me acuse no seu íntimo sem se importar de me apontar o erro. E por mais que não se saiba ao certo quem lê o que aqui escrevo, basta saber que está disponível para que leia. Meu interlocutor invisível, de quem não espero resposta nem sinais de aprovação. Na verdade espero, sim. Mas nunca me cobrei a busca por satisfação, opinião, degustação de minhas palavras seguida de cometários...

Na África, as crianças mais sortudas são treinadas para o "Ubuntu". Nunca soube alguém que conseguisse definir o significado inteiro desta palavra em numa outra equivalente, em português. Ou outra língua, se quer saber. É deles. Milenarmente deles. A definição mais curtinha que ouvi falar, e pra ser sincero, não lembro onde - mas sei que talvez tenha sido a primeira vez que ouvi falar dessa palavra -, é a de que Ubuntu significa "eu sou porque nós somos". Frisei muito nessa frase. Minha insônia me remoeu nessa palavra. Era como se no meu quarto, centenas de rostinhos negros, infantes, pintados de branco, me espiassem dizendo: Ubuntu. Fui completamente atormentado por essa palavra. Esquizofrenicamente atormentado por uma simples palavra. Ubuntu!

"Eu sou porque nós somos". Solitário, no apartamento, sonhando megalomaníaco ser Baudelaire, ou Proust (e jamais Bukowski, que era mais adestrado na arte da sedução do que jamais serei)... bebericando uma vodka amarga e barata misturada com alguma coisa que lhes desse sabor... fui sendo constantemente penetrado por essa frase - pela curta definição de uma simples palavra. Penetrado, sim. Essa é a melhor palavra. Como uma donzela, me senti seduzido por ela. Ela ecoava dentro de minha mente com sussurros sedutores. Senti-me lubrificar com a ideia: era sedutora demais, excitante demais. Ela foi entrando em mim causando êxtase, prazer... e ao mesmo tempo dor. Uma sensação, por mais prazerosa que seja, se nunca sentida, a primeira vez é dolorosa. É transformadora. E tais barreiras rompidas causam certa dor... no mínimo um incômodo. Mas Ubuntu me causou constrangimento.

Solitário, percebi que não sou, porque não há com quem mais ser. Somos solitários. Estar aqui, na frente de uma cristalina tela, escrevendo pro meu amante mais desejado (o meu leitor invisível), é a prova cabal de como somos solitários. Cerquem-se de amigos, enlacem suas fraternidades... somos solitários. Estamos perto pela distância.

Apesar da sorte de ter muitos amigos, com poucos tenho afinidades. Mas sou ligado a eles por pelo menos uma. Pelo menos uma afinidade nos une, nos aproxima. Enlaça fraternalmente na compreensão do estado um do outro. Com uns afino-me à insônia. Companheira constante, de madrugadas avermelhadas, com quem cuspo palavras sem carência de poesia ou ismo. Com outros compartilho de dores, e com outros os risos, e àqueles as ganâncias. Somos. Cada um de nós é, porque somos. Mesmo encarcerado por meu medo numa masmorra fantasiosa, ainda sou porque há quem comigo seja. É aqui que adiamos o estado insuportável de ser. É aqui que afastamos a ideia de que basta. Não estamos completamente solitários. Somos esquerdistas, centristas, insones, fumantes, poetas, desenhistas, projetistas, atores... seres humanos. Percebemos a nossa afinidade e tentamos dar mais passos juntos. Como dói concordar com um clichê, mas sim... sozinhos alcançamos o que queremos em maior velocidade, mas juntos vamos muito além. Sobrevivemos juntos, pois só esquecemos da importância de nos perpetuar. Ubuntu.

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