sexta-feira, 26 de julho de 2013

ERRATA/ADENDO: Sobre Emenda 79 e o Estado Laico.

Primeiro eu quero agradecer a quem leu o meu primeiro texto sobre a Emenda 79, e depois, pedir desculpas por certos equívocos sintáticos que causaram falha na compreensão. Eu queria muito tentar ser sucinto, mas não dá. No próprio texto da Emenda 79 eu busquei ser sucinto com tudo, e ainda assim, saiu um monte de informações para serem refletidas. Percebam: é um assunto bem grande que requer VÁRIAS reflexões. Então, vou aproveitar esse texto pra corrigir algumas coisas que eu disse, TENTAR desfazer alguns equívocos de partes soltas do texto, e tocar em outras coisas que não couberam no primeiro texto, que já ficou GIGANTE.

OBSERVAÇÃO: Quem faz faculdade de alguma área que preza mais pela pesquisa do que o ensino, sabe que erros acontecem, e a gente tem de aprender a reconhecê-los. É uma principio básico do conhecimento científico. QUERO DEIXAR BEM CLARO: Aqui, neste blog, eu não escrevo textos científicos, APESAR de ter adotado pra minha vida uma postura semelhante àquela utilizada na pesquisa: eu só acredito em algo se ela é comprovada. Então, por mais que eu me utilize de cientificismos, isso aqui NÃO É CIÊNCIA. É OPINIÃO. E opinião/ideia/posicionamento deve ser refletido e filtrado, e não tomado como verdade. E é até bom que hajam divergências, porque isso implica em um debate que pode gerar novas ideias, ou novas saídas.

1. Sobre a Emenda 79 estar certa ou errada: O perfil do Anonymous Gospel, no Facebook, me citou em um post, alegando que a emenda não fere a lei (eu acho que ele quis dizer Constituição). O trecho, em especial, é um paragrafo que eu deixei solto para destacar um argumento de que, em termos práticos, eventos artísticos religiosos podem ser configurados como eventos culturais, e portanto, não haveria problema em serem amparados por instituições públicas como a Manauscult.

Eu não achei que precisasse, mas eu vou ter de exemplificar (mais que isso, só desenhando): se a minha igreja quer montar um Festival de Músicas Gospel, e eu não tenho palco, não tenho suporte de iluminação ou som, eu poderia recorrer à Manauscult para tanto - alugaria um palco, alugaria aparelhagem de som, pagaria algum profissional para operá-lo, etc. Isso é possível. Os fins são artísticos apesar da temática, e assim como alguns artistas vendem CD no seu show, ou passam o chapéu, mesmo sendo o evento montado com verbas públicas... não vejo problemas legais no pastor pedir oferta depois. Há uma coisa que admiro nos artistas, é que a maioria tem um respeito muito grande pelo patrimônio público, e geralmente eles não fazem isso.

Aí alguns podem pular dizendo: "Mas eles pedem oferta pra ganhar dinheiro em cima da fé!". PROBLEMA DELES. Se tem idiota que cai nessa, eu não tenho nada haver com isso! E fica essa discussão PRA VOCÊS. Aliás, é uma discussão velha: a de que igrejas devam declarar seus bens à Receita Federal, a de que paguem impostos como o Imposto de Renda, etc. E eu concordo. Concordo tanto, que super apoiaria também incluir nesse meio instituições como a Federação das Indústrias, que recebem quantias ABSURDAS de contribuintes industriários, e assim como as igrejas, não declaram nem pagam impostos. São quase um país dentro de outro país - o que explica as pessoas se importarem tanto com a opinião do presidente da Federação Nacional das Indústrias.

2. A emenda 79 ainda está errada, mas não totalmente: como visto, tecnicamente não está errada. MAS NEM TODO EVENTO RELIGIOSO É ARTÍSTICO, e apesar da religião ser uma característica da Cultura de um povo, nem todas as dinâmicas da religião é da conta do Estado. Ele não tem nada haver com isso, por isso É LAICO. Eu achei que tinha deixado isso claro no último texto. Então, quando o vereador colocou lá na justificativa dele que os eventos tinham cunho evangelizador, ele deu um tiro no próprio pé! Porque o Estado não tem o DEVER de investir em um evento para conseguir fiéis para A SUA RELIGIÃO. Eu acho que esses dois pontos devam estar bem esclarecidos.

3. A emenda 79 é inviável administrativamente: Eu deixei isso BEM CLARO. E ainda falei que deveria ser um dos principais argumentos a serem clamados pelos movimentos contrários à Emenda. E AINDA CONVIDEI OS CRISTÃOS A SE UNIREM PELO AUMENTO DE VERBAS À CULTURA! Nada contra vocês, evangélicos. Mas são vocês MAIS os católicos, os espíritas, os umbandistas, os candomblecistas, e mais UM MONTE DE RELIGIÕES. A parcela de dinheiro destinada à cultura é muito pouca pra atender TODO MUNDO. E é injusto atender somente a uma religião - mas eu vou abordar isso no próximo ponto. Um bom administrador sabe que quando não se pode dar conta de tudo, pelo menos as prioridades devem ser atendidas. No setor da cultura, QUAIS AS PRIORIDADES? A resposta é bem óbvia. AS ARTES. Se colocarmos a Religião na lista, a gente (artistas) quebramos - aliás, estamos quebrados a um bom tempo. E as artes ela tem obrigação a atender a todos independente da religião.

4. A emenda 79 FERE o estado laico: Aqui, eu quero PEDIR PERDÕES. Eu não levei em consideração nas minhas reflexões que o Estado é Laico para poder atender IGUALMENTE a todos - nesse caso, A TODAS AS RELIGIÕES. Se os evangélicos tem o direito de eventos artísticos apoiados pelo estado, TODAS AS OUTRAS RELIGIÕES DEVEM TER IGUAL DIREITO. Se isto é impossível para o Estado, ele não tem obrigação de fazer. PONTO.

5. "As igrejas tem dinheiro suficiente que não precisam do estado para seus eventos": Verdade. Igrejas não pagam impostos, não declaram seus bens, e possuem suas regras quanto ao uso de seu dinheiro pautados na Bíblia. Portanto, apesar de você pagar imposto, evangélico, se você quer um evento religioso, use do dinheiro da sua religião, não dos impostos - que também é constituído das contribuições dos católicos, dos espíritas, dos religiosos de matrizes africanas, etc. Quanto ao carnaval, boi-bumbá, etc.: são eventos artísticos que viraram tradição. Tradição é uma parte da cultura, e portanto, o Estado pode investir aí, SIM. Agora, se você não concorda com o que as pessoas fazem nesses eventos, problema seu! Vá resolver com essas pessoas, e não com o evento inteiro!

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PONTOS PESSOAIS E REFERÊNCIAS E SUGESTÕES DE LEITURA:

Acho que esclarecido a maioria dos pontos, a partir daqui, lê quem quiser.

Não sou simpatizante de nenhuma religião. Não acredito em nenhuma religião. NÃO CONCORDO COM A MAIORIA DELAS. Sinto um profundo desprezo por alguns religiosos fundamentalistas, mas isso não vem ao caso das minhas opiniões DO QUE É JUSTO. E ainda assim, é O QUE EU PENSO SER JUSTO. Até comecei a escrever algo parecido com um ensaio sobre Centrismo, onde buscarei explicar que em muitos dos casos, os conflitos políticos podem encontrar uma saída harmoniosa, que atenda os dois lados de tal conflito. Queria muito ter ido ao debate público promovido pelo Conselheiro de Cultura Douglas Rodrigues, mas infelizmente, não pude por motivos de saúde. Queria muito ter ido pra tentar mostrar minhas opiniões acerca de certos pensamentos anti-teísta que insistem em surgir no meio de mobilização como a deles.

Aqui eu publico opiniões pautadas nas minhas reflexões daquilo que pesquiso - majoritariamente, sobre TEATRO. Como Teatro envolve quase TUDO da nossa realidade, eu me arrisco nos ensaios políticos, e em temas importantes da atualidade - e apesar de não opinar sobre religião, às vezes não tem como [:/]. Não sou jurista, não sou cientista político, e portanto, se eu falei alguma leseira, podem comentar me corrigindo, e assim como eu estou escrevendo essa errata/adendo, eu vou me corrigir sem problemas algum.

Agradeço quando compartilham ou comentam o meu texto em outras redes. Mas me citar colocando TRECHOS FORA DO CONTEXTO, gerando equívocos SÉRIOS, eu não concordo, e peço que se algum amigo ver isso, que possa me avisar - como fez o Paulo Queiroz, me dando oportunidade de explicar que não era bem assim. Isso e mentira, é a mesma coisa. É utilizar-se de uma descontextualização para ludibriar outras pessoas a acreditarem em algo que não é verdade - e isso pra mim é intolerável.

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Clarion: O Estado Laico e os Cristãos:

Meu texto: "A Emenda 79 não está totalmente errada - o tiro no pé do Vereador, e os argumentos esquecidos..."

Outro texto meu: "O desconfortável e irritante Centro (parte 1): aonde fica um posicionamento sem ir a extremos?"
http://habillee.blogspot.com.br/2013/07/o-desconfortavel-e-irritante-centro.html







quinta-feira, 25 de julho de 2013

O desconfortável e irritante Centro (parte 1): aonde fica um posicionamento sem ir a extremos.

Tem um tempo que eu estava cozinhando esse tema nos meus rascunhos. Na verdade, eu tinha pretendido escrever por conta de um comentário do Marcelo Tas, apresentador do CQC e eterno professor Tibúrcio, que afirmou em uma entrevista que Esquerda e Direita hoje em dia é uma lenda. Aí vieram os protestos do mês de junho, e o vlogueiro Pc Siqueira deu uma explicação - bem didática - do que é Direita e Esquerda, e acho que muita gente, em algum momento da vida, já ouviu falar essas duas palavrinhas.

Eu vou buscar explicar aqui o que é Direita e Esquerda, mas porque é preciso pra poder explicar o que é Centro, e outros novos tipos de posicionamento que o cientista político David Nolan sistematizou, de forma que a bipolaridade da Direita e Esquerda não mais fosse suprema. Enfim, num debate político, ou mesmo que você não tenha interesses pela política, você está assumindo um posicionamento. Esse posicionamento, antes, dizia muito de você, mas hoje em dia isso é relativo. Como eu disse, tem quem não se interesse por política, e ainda assim, essa mesma pessoa tem um posicionamento político. E isso depende de muita coisa, desde o fato de você se interessar ou não por política (política pública, econômica, cultural, religiosa, etc), até o fato de você pertencer a determinada camada social, classe econômica, ou grupo cultural qualquer.

Quando pensamos criticamente a política, basicamente estamos pensando em como é que o Estado está gerindo, e qual o seu funcionamento. Só que você não está sozinho nessa, e tem um monte de gente pensando igual, e por isso, esse grupo é definido, segundo Nolan, pelos conceitos de: Direita (Conservador), Centro, Esquerda (Progressista), Libertarianismo (Libertário) e Estatismo (Totalitário). Basicamente, você pode estar inserido em um destes cinco grupos segundo a sua opinião acerca dos Direitos e Deveres do Estado, bem como os seus próprios Direitos e Deveres. Ou o que você pensa que seria correto afirmar que é um Direito, ou um Dever - independente se você luta por isso, ou não. E isso tem muito haver com o tanto que o Estado tem haver com a sua vida, ou o até que ponto ele pode interferir na sua vida, segundo o desejo de confirmar determinado pensamento. Por exemplo, você acha que o Estado tem direito de proibir que casais homossexuais adotem uma criança? Imagine que você é um homossexual: É a sua decisão de adotar uma criança e amá-la, e criá-la, e educá-la. Você acha justo que o estado lhe proíba desses direitos?

A concordância que temos quanto à medida de Intervenção, ou Liberação que o Estado possui, é um fator que nos define de que área dos cinco posicionamentos políticos temos. E o oposto é justo. Exemplo: Você acha que justo que um deputado evangélico proponha leis que forcem pessoas ateístas a tomarem certas atitudes com as quais elas não concordam? Imagine-se um ateísta: você não acharia justo ter o direito de argumentar e intervir na ação deste deputado, uma vez que você e outros pares sofrerão com isso? Portanto, a medida de intervenção ou liberação pessoal também conta pra definir o seu posicionamento.

Daí, vem as cinco categorias. As mais conhecidas, como dito antes, é a Direita e a Esquerda. A Direita é, geralmente, conhecida pelo seu caráter conservador nas questões sociais, no entanto mais flexível nas questões econômicas. No Brasil, o maior exemplo de governo de Direita foi a do Presidente Fernando Henrique Cardoso (também vou usar esse exemplo porque é recente), e duas características fortes desse governante, foi a privatização de bens públicos, e o combate ao narcotráfico. Hoje em dia o FHC é apoiador da descriminalização do uso de drogas, mas isso é consequência dos seus anos de experiência combatendo as drogas - não tem nada haver com o posicionamento dele (aliás, o fato de desonerar o estado dessa luta inútil é, em si, um posicionamento esperado da Direita).

Mas veja essa dicotomia: o posicionamento de Direita não vê problemas em uma liberdade arraigada do comércio, que traz tantos benefícios quanto malefícios sociais, no entanto, se importa que você - como indivíduo dotado de livre arbítrio e pensamento - use drogas. Os benefícios da Direita: se algo é oneroso ao Estado, o Estado não deve se responsabilizar por esse algo, e deixar que ele se crie só. Se criando só, esse algo aprenderá a se virar sozinho, superando suas necessidades - e o dinheiro poupado com esse setor oneroso poderia ser investido em setores da economia que multipliquem a prosperidade de uma nação (gerando mais empregos), ou em pontos de infraestrutura que assegurem o pleno desenvolvimento da economia e da qualidade de vida dos cidadãos. Tem os malefícios: acho que um dos GRANDES exemplos de como isso pode dar errado é a área da saúde nos Estados Unidos. Lá, há pessoas que não podem pagar por determinados tipos de procedimento clínico e seus planos de saúde não dão conta de todos os custos. O presidente Barack Obama até tentou tomar atitudes que melhorassem o setor, mas como a extrema direita por lá é grande, não deu muito certo - e o povo quase que tá na mesma. Outro malefício é o da sustentabilidade. Atualmente, as correntes econômicas e filosóficas que estão debaixo do grande guarda-chuva da Direita não conseguiram encontrar saídas viáveis para seu pleno desenvolvimento, sem causar grandes impactos no meio ambiente - e impactos negativos, o que é um sério problema. 

Mas há um oposto. A Esquerda pensa tanto nas liberdades de cada indivíduo, que para ela é necessário que o Estado forneça todos os meios possíveis para que essas liberdades aconteçam. Por isso, a Esquerda tem tendências de interferir insistentemente na economia, em prol dessas liberdades - e essas liberdades CUSTAM CARO. Benefícios: a esquerda geralmente se preocupa tanto com as liberdades individuais, que ela poucas vezes assume partido de alguma corrente filosófica conservadora, ou religiosa. No caso, dificilmente as pessoas de esquerda acharão justo que uma pessoa seja proibida de ser vegana. No máximo, essas pessoas vão se importar se é justo ou não o Estado subsidiar condições para que aquela exerça o seu direito de ser vegana - como um bom salário mínimo, por exemplo. Malefícios: como eu disse, essas liberdades subsidiadas pelo Estado CUSTAM CARO. O que significa aumento da taxa de impostos, super intervenção do Estado à Economia, e consequentemente, aumento da inflação de determinados produtos - afinal, é normal o ser humano querer lucrar e, portanto, ninguém quer o Estado regulando o tempo inteiro o preço do seu produto que tanto lhe dá trabalho pra produzir.

Durante muito tempo essas duas formas de pensamento predominaram o mundo, bipolarizando-o, e até gerando guerras armadas - e chegou bem pertinho de uma guerra nuclear. E como visto, os dois posicionamentos políticos chegaram a se mostrar falhos em diversos pontos. E surgiu nessa briga toda o Centrismo. Mas antes de explicar o centrismo, vou explicar o Libertarianismo e o Estatismo.

Esses dois são os extremos de cada lado (Direita-Esquerda). O Libertarianismo, assim como a Direita, preza pela liberdade econômica, desoneração do Estado em setores públicos, etc. Mas ao contrário da Direita, não tem objetivo nenhum de interferir na vida das pessoas. Se as pessoas querem usar drogas, tudo bem. Se querem casar com alguém do mesmo sexo, tudo bem, também. Se não querem votar, okay. Só que me preocupa no Libertarianismo, é as consequências desta plena liberdade, afinal, um dos pontos que mantém a Direita invicta até os dias atuais é sua questão moral, que quer queira, quer não, norteiam inclusive as decisões econômicas. Isso me remete aos problemas sociais e ambientais que uma corrente de pensamento como esta pode levar, caso seja bem sucedida dentro de um Estado. E no oposto a verdade é a mesma. O Estatismo é "favorável a intervenção governamental tanto na economia quanto na vida pessoal". Ou seja, além da intervenção constante nas liberdades humanas, o estatismo se utiliza de intervenções governamentais para que seja bem sucedido o seu intento, e aí entram em riscos sociais, ambientais e POLÍTICOS.

No Centro, há o permeamento de todos esses posicionamentos. Isso me rendeu sérias dúvidas do meu próprio posicionamento político, antes de saber bem as definições e conceitos. Basicamente, posicionamentos centristas levam muito em consideração que a liberdade econômica é muito importante, pois é através dela que se obtém recursos necessários para se garantir as liberdades pessoais. Só que é levado em consideração, também, que essa liberdade não pode ser total, pois corre-se alguns riscos - é o caso do chamado "Capitalismo Selvagem", ou o lucro a qualquer custo. É entendido pelos centristas que muitas vezes as liberdades pessoais entram em conflito, e isso pode gerar, inclusive, danos à economia - de onde saem maior parte dos recursos sem impactar as liberdades pessoais - e, portanto, se faz necessário intervir em algumas situações. Se o conflito entre religiosos e ativistas homossexuais é um problema que está prestes a gerar um problema social e econômico, então é importante intervir e garantir os direitos dos dois lados. No oposto, se determinadas atividades econômicas estão degradando o meio-ambiente, gerando altos lucros para os empresários, sem retornar à sociedade bens materiais e culturais que lhes assegurem suas liberdades pessoais, então o governo interfere. Mas não é interferir por interferir. É interferir quando não há outras alternativas, pois é claro para um Estado Centrista que as intervenções governamentais são necessárias, mas que em demasia são prejudiciais.

Basicamente o posicionamento de Centro é a justa medida das coisas. E é o que deveria pressupor uma democracia e um estado laico, o que no Brasil ainda é um problema - em ambas as características de nossa República. Isso porque a Direita ainda é esmagadora, e a Esquerda, muito popularizada e atualmente desacreditada por conta da corrupção. A Direita emplaca leis e atos governamentais que viabilizam o pleno desenvolvimento da economia sem se preocupar em subsidiar estruturas fundamentais para tal desenvolvimento - como infraestrutura, capacitação da mão-de-obra, etc. E a esquerda é um total oposto, gasta excessivamente em políticas sociais que só oneram mais o poder público, e cometem o mesmo erro que a Direita - não investem na economia como devia. Os centristas são pouquíssimos nos Três Poderes - e geralmente são ignorados pela esmagadora maioria extremista.

O bom nisso tudo - se é que há coisa boa nesse quadro - é que a presença de centristas atualmente é tão pequena quanto a de libertarianistas e estatistas, e esses últimos são mais ignorados ainda - alguns, ridicularizados, até. Infelizmente, a saída desse quadro reside em intervenções mais severas do Estado, mas de formas cirúrgicas. Investir mais na infraestrutura, na capacitação de mão-de-obra, na economia, e etc. E isso o quanto antes! Os bons ventos da economia internacional já não sopram mais a favor do Brasil, ou seja, o prazo pra se fazer essas intervenções com folga e sem se preocupar com a margem de erro já se foi - ou faz agora, ou assiste o principio de um colapso econômico e social parecido com a do período antes da política do Real. Os problemas sociais se agravam, ou seja, as liberdades pessoais começam a entrar em risco, e investir aí é entrar em estado crítico - e olha que o colapso gerou muitos dos protestos. Geralmente, em situações como esta, a Direita sempre leva a melhor, porque geralmente é a que mais tem coragem de fazer aquilo que ninguém mais tem: se abster das liberdades pessoais até que tudo esteja sanado.

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REFERÊNCIAS E SUGESTÕES

Diagrama de Nolan (pra saber qual é o seu posicionamento político):

O Mito da eficiência empresarial no governo, ou porque excelentes empresários acabam sendo maus governantes:

Capitalismo:

Portal Libertarianismo:

Portal Ordem Livre:

Blog "O Centrismo":

A Rússia depois das eleições: do centrismo ao centro-esquerda.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Emenda 79 não está totalmente errada - o tiro no pé do Vereador, e os argumentos esquecidos...

Arte "Church vs State"
de Alice Meichi, portal DeviantArt
extraído em 23/7/2013
ERRATA/ADENDO: Sobre Emenda 79 e o Estado Laico.
http://habillee.blogspot.com.br/2013/07/errataadendo-sobre-emenda-79-e-o-estado.html

Isso mesmo. Até agora, o que se pode observar da Emenda 79 do projeto de lei orçamentário para o ano de 2014, proposta pelo vereador Carlos Alberto (PRB), não está completamente errado DO PONTO DE VISTA CONCEITUAL. Há uma série de reflexões que precisam ser expostas para que se explique esse posicionamento que, apesar de parecer, não é pró-teísta, mas simplesmente democrático. Não vou me ater aos possíveis objetivos subjacentes desta emenda, que poderiam ser intenções eleitoreiras, uso indevido do erário público, etc. Mas simplesmente aos conceitos básicos que envolvem a política democrática, Constituição, etc.

Eu li a proposta de emenda do vereador Carlos Alberto, do Partido Republicano Brasileiro (PRB) - diga-se de passagem, um partido de Direita (abaixo, link sobre Direita e Esquerda do vlog "Eu,Ateu" que também tá recheado de referências da internet sobre o assunto) -, e logo em seguida eu li o parecer do Conselheiro Municipal de Cultura, Douglas Rodrigues, também diretor de Teatro. Pra resumir, eu sugiro muito que antes de terminarem de ler essa publicação, leiam os dois textos, que eu deixei link abaixo.

Bem, a história começa com o sr. Vereador (Carlos Alberto - PRB) propondo uma emenda que basicamente requer que instituições públicas como a Manauscult apoiem eventos de cunho religioso, mais precisamente evangélicos, dando total suporte à esses eventos. Sim, o apoio inclui dinheiro, haja vista que a emenda foi feita à lei orçamentária que regula como será utilizado o erário municipal no ano de 2014. Um dos argumentos do vereador, era de que como esses eventos majoritariamente tinham cunho artístico, TAMBÉM, essa destinação de verba e suporte seria absolutamente normal, pois configuraria um evento cultural.

O Conselheiro Municipal de Cultura (Douglas Rodrigues), por sua vez, enviou um parecer sobre a proposta de emenda, já aprovada, definindo posições contrárias, com argumentações bastante interessantes - e não novas - sobre o fato de tal proposta ferir o estado laico e, portanto, ser inconstitucional. Também argumentou que a proposta seria um impasse às parcas reservas destinadas às artes, uma vez que tais reservas seriam compartilhadas com esses eventos evangélicos.

Bem, só pra esclarecer: propor que eventos religiosos recebam incentivo público, bem como suporte, NÃO FERE AO ESTADO LAICO. O estado é laico, pois subentende-se que ele não toma posicionamentos perante questões de cunho religioso, mas mantém-se neutro e imparcial. Só que manter-se neutro e imparcial, não significa também manter-se indiferente à essas questões. O estado laico visa, portanto, imparcialidade tal que, em justa medida, ele possa transitar em diversas questões e delegar posicionamentos que, pondo em miúdos, não tome partido algum - mas ainda assim, delega posicionamentos. A religião, em uma sociedade, é parte da cultura desta. E isso é averiguável em toda a história da humanidade, com raríssimas exceções. Uma destas exceções é uma tribo de índios que vive dentro do município de Manicoré, chamada tribo dos Pirarãs, que não possuem nenhum tipo de crença religiosa, e todas as tentativas de conversão deles a qualquer religião se mostrou absurdamente falha. Logo, religião e cultura caminham juntas, e o estado laico pode, sim, preservar os direitos religiosos como características culturais, firmando posicionamentos como o incentivo a eventos culturais de cunho religioso.

O problema máximo desta questão, é que com a globalização e a sociedade totalmente pós-moderna (ou contemporânea?) as características religiosas de uma cultura começam a perder soberania em uma análise sociológica. No blog "Ensino Religioso" tem, inclusive, um artigo bastante interessante que trata das relações entre cultura e religião, ao qual cito o trecho: "a pluralidade advinda da globalização afeta não apenas os terrenos econômico e social, mas igualmente os  políticos, culturais e também religiosos".

O vereador Carlos Alberto, pra infelicidade dele, não argumentou isso em sua justificativa, e agora está com essa polêmica nas mãos. Mas pra ser sincero, não acho que seria uma coisa a se justificar, pois a bem da verdade, seria algo minimamente do saber daqueles que se interessaram, em algum momento, em ler sua proposta. Mas não para por aí. Não contente em criar uma justificativa cheia de argumentos irrelevantes, ele coloca, bem no final - e pra fazer um gol contra - o seguinte trecho: "[...] mesmo com esse crescimento populacional dos evangélicos eles ainda encontram dificuldades no que concerne apoio para realização desses eventos que servem não somente para divulgar os talentos e músicas evangélicas[,] mas também COM O OBJETIVO MAIOR DE PROPAGAR O EVANGELHO". Pois é, um tiro no pé. ISSO SIM, É FERIR O ESTADO LAICO.

Esse simples trecho abre pórticos que vão além do incentivo à cultura, abrindo oportunidades para eventos sem fins artísticos, mas evangelizadores - visando conseguir (lucrar) mais adeptos à uma religião em especial, quando a cultura de nossa sociedade está repleta de outras religiões. Há um argumento, que muito provavelmente pode ser levantado, de que a evangelização é uma característica de tal religião, que por sua vez, é uma das características da cultura de nossa sociedade. No entanto, esse argumento se torna falho, quando observamos que, por ser laico, o estado não possui obrigação de incentivar as DINÂMICAS de uma religião, nem torná-las algo estatal. E aqui vence os argumentos do conselheiro Douglas Rodrigues, que poderia ter explorado em mais profundidade a questão do estado laico. Daí surge o impasse: o estado pode, sim, dar incentivos a eventos artísticos religiosos, mas não pode interferir nas dinâmicas dogmáticas de uma religião. No caso, o vereador teria de adequar sua emenda, mais precisamente NESTE TRECHO, de forma que não a tornasse por inteira INCONSTITUCIONAL.

O evento, claro, levantou uma séria polêmica que sensibilizou os artistas manauaras contra a Emenda, mas o que mais me chamou a atenção, é como algumas reações nas redes sociais tinham um cunho anti-teísta, e aí sim, reside um perigo pelo qual os dirigentes do movimento contra a emenda precisam tomar cuidado. É que mexer no tema Estado-Religião e, principalmente, Estado-Evangélicos, mostrou-se nos acontecimentos políticos ser um entrave político-ideológico, uma briga que quase todo mundo quer comprar, independente do motivo, mais: mostrou-se ser o erro que nenhum pragmático busca cometer.

O canal do youtube Pirulla25 fala justamente sobre o assunto, mas no seu vídeo "Ateu, neo-ateu ou antiteísta? (ou exemplo de intolerância ao teísmo?)" ele explica que as relações de opressão entre anti-teístas, e teístas, é como se fosse uma mola, onde a opressão é um estado de pressão à esta mola, e que um estado de pressão nunca volta ao estado de repouso, pelo contrário, extrapola (efeito toin-oin-oin) - e somente depois de algum tempo, nas indas e vindas da mola, é que esta volta ao seu estado de repouso. A fervorosidade evangélica, talvez, encontra como explicação um estado de extrapolamento de opressões religiosas e anti-teístas advindas da globalização, e entrar numa briga com essa parcela da sociedade (muito bem representada, o que não significa ser eticamente representada), significa alterar o delicado estado de repouso dessa relação Arte-Religião. (MINHA OPINIÃO EM 5, 4...) E intolerância seria a única coisa pela qual deveríamos ser intolerantes, e mesmo que bem intencionados, há quem não esteja. E mesmo que sejamos pragmáticos, é impossível suprimirmos nossas crenças - logo, não seria de se espantar que um movimento que preze pela democracia, se torne um movimento anti-teísta (OPINIÃO ENCERRADA).

A saída pragmática que seria de se esperar de uma situação tão delicada como esta, seria ambas as partes abrirem mão de determinados pontos que levam somente ao desgastante debate já existente e que, não por um acaso, se mostrou diversas vezes inconclusivo, e em outras, nada construtivos. Nada de palpável sai de uma discussão como esta. A classe artística poderia focar suas reivindicações em coisas mais palpáveis, ou em argumentos mais sérios, focados, e irredutíveis.

O primeiro argumento que eu sugestiono, seria o fato de que a parcela do erário público destinado à cultura, não supre as necessidades básicas de determinadas maiorias atualmente, logo, seria um erro administrativo onerar o estado com tal obrigação. Aqui, os evangélicos costumam utilizar - como utilizou o vereador em sua justificativa da emenda - que esta é uma parcela da sociedade em ascensão e, portanto, constitui uma maioria. Realmente, no entanto, se juntarmos as associações de Teatro, Dança, Música, Cinema, etc., teríamos uma maioria significativa, e com propósitos pelos quais devem ser prioridade dentro das políticas culturais. Administrativamente, portanto, É INVIÁVEL TAL PROPOSTA. Esse argumento foi sutilmente abordado pelo Conselheiro Douglas Rodrigues, mas acredito ser uma das teclas que mais devem ser apertadas. E este é um argumento construtivo até, pois angaria forças para reivindicações pertinentes ao aumento do investimento público na cultura, de tal modo, que a proposta do vereador possa ser atendida, sem por em risco os demais setores artísticos que compõem o cenário cultural da cidade. Seria, inclusive, um convite de aliança com a OMEAM por uma causa em comum, e muito provavelmente, geradora de debates democráticos muito mais construtivos que poderiam ser levantados.

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REFERÊNCIAS

Lista com Propostas de Emendas para Lei Orçamentária referente ao ano de 2014:
http://issuu.com/informatica_cmm/docs/emenda_001-2013_parte2?e=8512184%2F3599191

Parecer do Conselheiro Douglas Rodrigues sobre a ementa:
https://docs.google.com/file/d/0B6wPP3GRcCphRm9hSTRQNFN6NTQ/edit

Direita ou Esquerda: Temos Que Escolher?
http://youtu.be/H22IgCxmwT0

Clarion: Estado Laico e os Cristãos (e um convite aos cristãos pelo Estado Laico)
http://www.youtube.com/watch?v=29ikshSAdHQ

Portal da Manauscult:
http://manauscult.manaus.am.gov.br/

Blog "Ensino Religioso", com o artigo "Religião e Cultura" de Maria Clara Bingemer:
http://ensinoreligioso-serafimjonas.blogspot.com.br/2010/04/religiao-e-cultura-por-maria-clara.html

Pirulla25: Ateu, neo-ateu ou antiteísta? (ou exemplo de intolerância ao teísmo?)
http://www.youtube.com/watch?v=xcmNSgHuPRc

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Urbana tragédia - conto de madrugada.

Tito olhava para a janela que exibia uma paisagem citadina com céu vemelho e sem estrelas - sinais prenunciadores de uma noite chuvosa. Ele admirava as luzes acesas nos prédios do centro urbano formando uma constelação particular e, pensando em Amir, virou-se para Lucas, sentado à mesa com seu computador.



- Quero o divórcio.

Enquanto isso, Mateus caminhava pela passarela do parque de São Alberto fumando seu Hollywood vermelho, pensando na vida. Enquanto cruzava a passarela, avistou Pedro ou alguém parecido com ele, entre as árvores, corpo colado a de outrem, em acalorado beijo. Constatou quando aproximou-se, cauteloso: era realmente Pedro, estava sendo traído. A garota aos braços de seu amado deveria ter uns 10 anos a menos que ele, e o viço da juventude exalando pela pele. Caminhou atônito de volta para o carro, tropeçou no meio-fio da passarela, e com dificuldade, tentava encontrar as suas chaves.

Lucas gritava com Tito sobre a barbaridade que ele estaria cometendo com o casamento dos dois, tentava argumentar com seu marido afim de evitar a separação. Tito, no entanto, estava decidido, queria o fim do doentio relacionamento, apesar de pensar, na maior parte do tempo, na liberdade que teria com o amante.

Mateus tropeçava nos móveis da sala enquanto corria a esmo pela escuridão do apartamento. Chegando ao quarto, acendeu as luzes, abriu o guarda-roupa, pegou a primeira mala que viu, e se pôs a enchê-la de roupas. Lívia, sua irmã caçula, que com o casal viera morar no semestre anterior, apareceu à porta, ainda aturdida do sono, perguntando sobre o que se passava. Mateus nada respondia, só enchia a mala de roupas, sapatos, gravatas e meias.



Amir guinava a sua motocicleta pela avenida principal do seu bairro, acabara de receber uma ligação de Tito, que pedira pra ir buscar-lhe - havia acabado de pedir o divórcio, e Lucas estava chorando no quarto.

Mateus carregava a mala a tropeços, soluçando de choro enquanto explicava que Pedro estava traindo-o com uma garota bem mais nova que ele. Lívia parou chocada debaixo do arco da sala, pois sabia quem era a garota, e agora tinha a confirmação. Aturdido com as informações da irmã, se limitou a sair do apartamento dizendo que iria buscá-la no dia seguinte, até resolver o que iria fazer da vida. Desceu as escadas do prédio, e dirigiu-se para o carro, mal estacionado. Nem sequer abriu o bagageiro, simplesmente jogou a mala no banco de trás - enfiou-se na frete do volante, e saiu em disparada.

Lucas ficava perguntando freneticamente do porque do fim da relação, mas Tito se limitava a enfiar algumas poucas roupas na mochila, documentos, dinheiro, e o computador portátil. Se limitava a responder que estava saturado do casamento, e que tinha conhecido outra pessoa - alguém que lhe amava, que lhe respeitava, que pensava mais nele do que no trabalho. Lucas olhava pra janela, pensando em fazer uma besteira.

Pedro descia a avenida principal do bairro de Tito e Lucas. Caminhava de braços dados com Tatiana, amiga de Lívia. Ambas estudavam juntas na Escola Superior de Medicina do estado. Conversavam animosamente enquanto se agasalhavam um no outro do que parecia ser uma friagem fora do normal para aquela época do ano.

Amir acelerava pela mesma avenida quando um carro em alta velocidade chocou-se consigo. Praticamente não sentiu de onde viera o choque, só sentiu seu corpo ser arremessado contra o meio-fio. Sem capacete, sua cabeça bateu no meio-fio e sentiu um estalo, como o de um melão arremessado ao chão. Saia do carro em prantos ninguém menos que Mateus, que repetia constantemente o nome de Deus.

Tito olhava um alvoroço se acumular uma quadra abaixo. Um acidente de carro, talvez. Decidiu ignorar e continuar a esperar Amir. Pedro e Tatiana passavam pela rua paralela quando ouviu um grande baque sobre um carro estacionado perto do meio-fio. Era Lucas, que tinha acabado de se jogar da janela. Correram para prestar algum socorro, mas era inútil. Sem feridos, somente mortos.

Mateus gemia de desespero e choro enquanto várias pessoas se acumulavam em torno da área do acidente. Num devaneio, vislumbrou Tatiana e Pedro e, impensadamente, correu para o carro, abriu o porta-luvas e sacou um revólver. As pessoas, ao verem Mateus armado, se afastaram gritando e pedindo para que ele largasse a arma. Pedro subia no carro amassado para verificar o corpo ali inerte. Tito se aproximava, e começava a chorar, não acreditando. Um tiro soou. O segundo tiro veio logo em seguida. No tempo que Pedro teve de virar-se para Tatiana, ela já estava caída com o segundo tiro. O primeiro acertara a lataria do carro. Pedro sentiu uma agonia vir sobre si, um choque de adrenalina intenso. Mais um tiro correu, e Pedro tombou sobre Lucas, em cima do carro.

Tito só sabia ficar parado, paralisado de choque. Mais um tiro rompeu, e Mateus estava estirado no meio da rua, morto.














terça-feira, 16 de julho de 2013

Cuidado, sem ratos no Teatro - o importante rigor com a pesquisa científica e artística no Teatro


No meu último post eu falei sobre crianças trabalhando no meio artístico, e o fato disto ainda ser considerado crime segundo as nossas leis trabalhistas e os direitos humanos. Também falei que as pesquisas sobre o assunto são completamente escassas e que certamente, da área da Arte-Educação, contribuições importantíssimas poderiam surgir para a proposição de métodos de trabalho com crianças, com foco para a direção. Uma coisa que eu esqueci de dizer no último post, é que assim como há cursos profissionalizantes para pré-adolescentes e adolescentes, com objetivo de inseri-los no mercado de trabalho como "jovem-aprendiz", a necessidade de metologias para crianças e adolescentes serem inseridos no mercado de trabalho artístico seria uma saída viável para a formação de novos profissionais sem implicar em desserviços à sua formação biopsicossocial - que aliás, hoje em dia, é muito comum nos nossos Liceus e Programas (Manaus), já que as mesas de professores ainda estão lotadas com indivíduos sem nenhuma formação pedagógica. 


Esse quadro tem se invertido lentamente com a saída de profissionais das Academias que imediatamente ingressam nesses Liceus e Projetos e, na maior parte, provenientes do curso de dança, onde há entre essas fileiras de profissionais aqueles que também trabalham com o Teatro. Além destes, há aqueles outros profissionais da área da Educação, que provém de cursos como o de Pedagogia e Artes Plásticas. A curto e médio prazo podemos vislumbrar o setor informal de "Educação" com sua demanda sanada, graças ao ingresso no mercado de trabalho de mais e mais profissionais formados na Academia - diferente das necessidades do ensino formal, ao qual a demanda é grandiosa, e a médio prazo talvez tal objetivo dificilmente seria sanado.(FIM DO ADENDO AO ÚLTIMO POST E ENCERRANDO O ASSUNTO)

(AO ASSUNTO DE FATO) Vejam que eu lancei um monte de proposições e afirmações. Mas quando levá-las ao cabo da comprovação? Para isso lançamos mão da pesquisa, que eu expliquei no meu texto "Por que fazer Ensino Superior em Teatro?", sendo ela um dos papéis da Academia, e também de institutos de pesquisa.

Sobre os Institutos de Pesquisa, eu conheço, até agora, só o Curupira Instituto de Pesquisa e Prática Teatral, que tem foco em pesquisas de técnicas para atores, e o Instituto 14 Bis de Educação e Cultura, que dando uma rápida pesquisada pelo seu índice, tem focos múltiplos em suas pesquisas - umas abordam questões antropológicas e sociológicas do Teatro, e outros caem na Pedagogia. Ainda assim, as maiores pesquisas saem das Academias de Teatro instaladas em Universidade país afora, e é sobre elas que eu vou abordar aqui.

Pesquisa, em outras áreas do conhecimento, servem para identificar fenômenos e suas dinâmicas - ou a sua forma, ou como funciona. Na paleontologia, por exemplo, ela serve para identificar espécies fossilizadas que possam, de alguma forma, comprovar como determinadas espécies deixaram de existir. Pra que? Bem, pra diversas coisas. Primeiro, pra saber como o meio influenciou a existência dessa espécie e, partindo daí, como tal espécie se adaptou ou deixou de existir. Isso nos daria conhecimentos suficientes para aprender a lidar com nossas próprias dificuldades com o meio, e como podemos contorná-las. Na biomedicina, a pesquisa serve para identificar as dinâmicas de determinadas patologias - virais, bacteriológicas, etc. MAS PRA QUE? Para que sabendo como funciona as dinâmicas dessa patologia, possamos interferir de modo que tal dinâmica não conclua seu objetivo, que é o de afetar o ser humano.

Percebem que para cada pesquisa há uma problemática? Não fossem nossos problemas com as formas de lidar com o meio, não existiriam ciências como a paleontologia, a antropologia, a sociologia, entre outras. Pra superar tais problemáticas, outras ciências surgiram: engenharia, informática, etc. Mas elas próprias nascem com suas próprias problemáticas, e também recorrem à pesquisa para estudar suas próprias dinâmicas e assim superá-las. Mas uma pesquisa não pode ser levada de modo tal que gere mais problemáticas quando seu resultado for posto em prática. Pra isso, precisa ser testado, avaliado, e confirmado sua eficácia na aplicabilidade. Na área da saúde, mais precisamente na área da farmacologia, para uma nova substância ser aplicada em humanos, ela precisa passar por vários cálculos, depois, testadas. Se eu quero testar para saber sua eficácia sem criar mais problemas, certamente eu não vou testar em humanos. Para isso se utiliza camundongos, ratos, gatos, cães e alguns primatas. Ou seja, nesse campo da ciência, a amostragem de teste É SUBSTITUÍVEL, prevenindo assim a necessidade de sacrifício humano caso algo dê errado.


Em ciência, para se comprovar determinada teoria, precisa-se testar e, no teste, para ter uma margem segura de resultados na amostragem, precisamos fazer uma coisa que chama-se "ELIMINAR VARIÁVEIS". Por exemplo, para testar determinada substância num camundongo, eu preciso ter certeza de que aquele rato possui uma alimentação balanceada, que ele não sofre nenhum tipo de estresse, que seu habitat seja confortável, de modo a não gerar transtornos, variação na pressão arterial, etc. Essas variáveis são eliminadas quando essa comunidade de camundongos é criada em laboratório com todas as condições que os torne aptos aos testes.


E no Teatro? Bem, o Teatro - como todo campo da ciência - tem uma série de problemáticas que para serem estudadas têm-se de abordar sua composição e suas dinâmicas. Mas ao contrário da área da saúde, a gente não pode recorrer a ratos para comprovar nossas teorias. Teatro é feito por pessoas, e não há outra amostragem que possa substituir essa composição para testes. A amostragem de teste é, portanto, INSUBSTITUÍVEL. Logo, estamos falando de uma coisa classificada pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) de "Pesquisa com seres humanos", e portanto, olha a responsabilidade a ser encarada. As variáveis com esse tipo de pesquisa é, portanto, incontrolável. Se eu tenho um conjunto de variáveis que eu não posso eliminar, para que a margem segura de resultados seja efetiva, eu preciso levar em conta tais variáveis. Por isso as teorias em educação demoram a serem concretizadas. Nesse campo, a amostragem é INSUBSTITUÍVEL, e portanto, como estamos falando de formação de indivíduos humanos, uma teoria para ser amplamente aceita, ela demora muito tempo, pois a amostragem tem de ser MÍNIMA, todos as variáveis devem ser minunciosamente relevadas, etc.
LABORATÓRIO DE PESQUISA DA PERSONAGEM
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS
2013

Por isso, quando falamos de pesquisa em Teatro, devemos ponderar as implicâncias que essa pesquisa terá não só como contribuição à comunidade artística, ou à sociedade. Mas também aos indivíduos que estamos usando como amostragem. Em uma montagem, devemos considerar o estado psicológico, social e biológico dos indivíduos que constituem nossa amostragem, de modo a garantir uma margem segura de bons resultados, suprimindo os efeitos colaterais. Assim como os camundongos, eles precisam estar aptos aos testes, e portanto, não basta ensinar uma nova técnica, é necessário tornar a amostragem apta a receber a nova técnica. Isso é um trabalho que requer tempo, trabalho continuado, e o principal: observância apurada. Certamente, como diretores, somos condutores dos trabalhos, mas para darmos conta das variáveis, precisamos conhecê-las. Para conhecê-las, precisamos deixar os indivíduos de nossa amostragem em condições confortáveis para o diálogo, um dos poucos meios seguros de análise das variáveis. Talvez aí resida a importância do chamado PROCESSO COLABORATIVO.

Portanto, o rigor de uma pesquisa requer um projeto de atuação bem elaborado, que englobe previsões daquilo que se pretende pesquisar, a partir dos conhecimentos já existentes. E mesmo para se alcançar essa etapa das pesquisas, se faz necessário anteriormente uma bagagem de conhecimento que verifique os demais elementos que compõem o Teatro e servem de variável que influencia um resultado final. Seja verificar as dinâmicas do público, do mercado cultural, das políticas públicas, a maior parte desta bagagem de conhecimentos ainda precisam ser pesquisadas, levando em conta as variáveis possíveis e impossíveis de eliminar.

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LINKS SUGESTIONADOS SOBRE PESQUISA COM ANIMAIS:
Vlog "Eu, Ateu" sobre a necessidade de teste com animais e sobre a influência das variáveis.
http://www.youtube.com/watch?v=vWy_hziZYL8

Vlog "Pirulla25" sobre o vídeo do Yuri do vlog "Eu, Ateu"
http://youtu.be/5Kk1MorddZU

LIVROS SUGERIDOS:
A Pesquisa em Arte: um paralelo entre arte e ciência (Zamboni)

LINKS SUGERIDOS:
A lista básica Ética a ser seguida na experimentação animal:
http://www.slmandic.edu.br/institucional.php?c=234

Regulamento de Experimentos com Seres Humanos

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Por que fazer Ensino Superior de Teatro?

Olá Galera... Esse texto tava no freezer a um tempo, e eu escrevi para a quarta turma de teatro que entrou no ano de 2013 para o curso de teatro. Eu demorei a escrever porque eu escrevi para o blog do curso de Teatro, mas com o passar do tempo a idéia morreu. Também eu esperei a resposta de alguns amigos que leram antecipadamente, e me mandaram seus pareceres sobre o que eu escrevi. Geralmente os consulto quando eu toco em assuntos que envolvem citação, ou surgidos de algum tema meio delicado de se tocar, como esse aqui mistura as idéias do Antônio Severino, e opiniões minhas, decidi esperar. Boa leitura.

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Quando eu falo que faço faculdade de Teatro, se quem ouve não faz Teatro (ou não o aprecia, mesmo que esporadicamente), faz algumas perguntas óbvias que a gente tem de explicar direitinho, para que não haja mal-entendidos. Bem, só pra ir direto ao ponto. Pra essas pessoas a gente sempre tem de ter a paciência de explicar “O que é Teatro”. Mas tem também aqueles que sabem o que é Teatro, freqüentam os teatros, pretendem ou já fazem Teatro, mas simplesmente não sabe o porquê é importante fazer o Ensino Superior de Teatro. E isso é muito comum inclusive em quem fez o vestibular e agora faz parte do Curso de Teatro – o que é muito comum inclusive em outras tantas áreas do conhecimento.

A importância de explicar o porquê de se fazer o curso superior de Teatro serve, não só para as pessoas que pretendem fazer o curso, como para aqueles que já o fazem e, ainda assim, não se aperceberam da importância de sua decisão no ato de inscrição para o vestibular. Explicar é importante, também, como resposta à Comunidade Teatral do Estado do Amazonas, visto que, a concretização do curso de Teatro na Universidade do Estado do Amazonas é uma conquista desta mesma Comunidade, que ativamente reivindicou o curso. No entanto, a distância entre a Universidade e a Comunidade ainda se faz sensível, assim como é notório a desinformação da relevância da Academia.

Esse texto tem vistas de minimizar essas distâncias, e divulgar, mesmo que minimamente, o Curso Superior de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas.
Para responder a pergunta que intitula o texto, primeiro é muito importante entender outra pergunta: Por que fazer Ensino Superior?

O Ensino Superior é uma formação que, diferente das demais (ensino infantil, fundamental e médio), não tem por única obrigação a de transmitir conhecimentos. Pra entender o Ensino Superior, primeiro devemos entender os demais níveis de ensino: o Ensino infantil ajuda o individuo a desenvolver o cognitivo, o social, a motricidade... – itens essenciais ao ser; já o ensino fundamental proporciona ao individuo a apreensão de saberes básicos para sua relação com a sociedade e seu meio, como o domínio da língua (verbal e não-verbal), o conhecimento dos fenômenos que os cerca, e os meios de compreende-los e dominá-los; o ensino médio vem com igual propósito, porém, sabendo-se que o individuo, em estado maturo suficiente, pode saber e conhecer esses fenômenos de forma mais aprofundada, tal ensino vem preparando-os para o pleno exercício de sua cidadania.

E o Ensino Superior? O Ensino Superior “visa equipar o estudante com um competente domínio do conhecimento científico, habilitá-lo tecnicamente para o exercício de uma profissão e desenvolver nele uma consciência social, de cunho analítico e crítico” [1]. Partindo desse pressuposto, dá pra entender que não basta receber conhecimentos dentro da Universidade; é preciso dominar esses conhecimentos de forma crítica e analítica, e principalmente, de forma epistemológica[2]. Mas, mais ainda, o Ensino Superior tem por função a formação de um ser político e atuante para a transformação do meio em que vive – a sociedade.

O Teatro, ao longo de sua história, vez ou outra se pôs a frente de diversos movimentos sociais e políticos; também é uma arte que ao longo dos séculos fora transmitida de geração a geração, de forma totalmente empírica. Por que então a necessidade de cursar o Nível Superior de Teatro?

A resposta mais ousada que se pode oferecer é que, é no Ensino Superior que se obtém as possibilidades de estudar essa Arte de forma epistemológica, a fim de dominá-la com competência e encontrar novos caminhos e saídas para algumas problemáticas que a assediam. Assim, a formação de Nível Superior no campo do Teatro é importante para a valorização da Arte enquanto conhecimento. Também possibilita ao individuo não só o domínio das técnicas, mas a incitação de questioná-las, reestruturá-las e transgredi-las.

Para alcançar esses objetivos, a Universidade cumpre três papéis fundamentais para a formação do indivíduo: O Ensino, A Pesquisa e A Extensão. O Ensino é aquele com o qual já temos afinidade: Consiste em apreender conhecimentos já existentes acerca do objeto de estudo, que no nosso caso, é o Teatro. É nele que, adquirido o conhecimento suficiente, pode-se assegurar ao estudante de Teatro o domínio das técnicas, capacitando-o e orientando-o a produzir seu próprio conhecimento – o que chamamos de ensino-aprendizagem. Ora, no ensino-aprendizagem, o individuo não somente obtém conhecimento, ele também o produz, e nesse contexto entra a Pesquisa.

A Pesquisa é fundamental para a construção do saber, pois de forma investigativa, novos caminhos, propostas e conhecimentos são adquiridos, reformulando o conhecimento geral do campo do Teatro. Hoje, na UEA, já estão sendo produzidos – ainda que de forma muito tímida – pesquisas com potencialidades excelentes de estudo através do Programa de Amparo a Iniciação Científica[3], ofertada pela Universidade do Estado do Amazonas, e pelas disciplinas[4] que envolvem a Pesquisa. A valoração da Pesquisa é muito importante, pois ela respalda o conhecimento do estudante de Teatro e, acima de tudo, é a resposta que se pode dar à Sociedade de que seus investimentos na Educação Pública valem o custo. Este é o terceiro ano que é permitido ao Curso de Teatro à participação no Programa de Iniciação Científica, e com muita insistência, incito meus parceiros de Academia a produzirem Pesquisas que sirvam de referência para os Estudos de Teatro no contexto Amazônico (uma vez, num bar, um amigo comentou sua pesquisa e eu fiquei meio triste por ela não buscar tocar mais aprofundadamente a realidade amazônica - mas como ainda está em desenvolvimento, aguardando a conclusão da pesquisa).

Já temos muitas pesquisas de Teatro mundo afora, mas poucas relacionadas ao contexto da Amazônia, salva-guarda as produções existentes na Universidade Federal do Pará, que possui seu curso de Teatro a mais de uma década – e mesmo assim, não supre as necessidades de referenciais bibliográficos acerca da conjuntura do Amazonas.

Essa resposta à Sociedade é o que chamamos no Ensino Superior de Extensão. A Extensão é o elemento que complementa o trinômio do Ensino Superior (Ensino – Pesquisa – Extensão), e que o torna tão especial e importante na formação do indivíduo. Essa resposta à sociedade não torna a Universidade uma instituição assistencialista, assim como a Pesquisa não torna a Universidade um instituto de pesquisa. Essas duas modalidades de instituição têm funções mais aprofundadas que não compete a Universidade, mas cabe a esta utilizar-se da Extensão e da Pesquisa para a formação política do indivíduo. É a Extensão aquela que sustenta a Pesquisa com a práxis, dando ao Ensino Superior sua função política ao devolver bens culturais à sociedade que apontem caminhos para suas problemáticas. A extensão é, por excelência, a seara da Pesquisa, conscientizando e sensibilizando o estudante de Teatro quanto a sua posição e situação como ser social. Semana do Teatro, Mostra Plínio Marcos, Mostra de Teatro Brasileiro... são tipos de atividades de extensão importantes para sustentar a práxis dos estudantes de Teatro.

 Assim, compreendemos a importância da formação acadêmica em Teatro[5] como fundamental contribuição ao fazer teatral na cidade de Manaus, as produções realizadas na Universidade podem ser encaradas como possíveis sinalizadores desta contribuição. Certamente, a atual situação dessas produções ainda não pode ser considerada como satisfatória; no entanto, as perspectivas que se delineiam são muito boas, garantindo mais produções tanto científicas como artísticas.



[1] SEVERINO, A. J. Metodologia do Trabalho Científico. 23. Ed. rev. E atualizada. – São Paulo: Cortez, 2007.
[2] Epistemologia [Do gr. epistéme, ‘ciência’; ‘conhecimento’, + -o- + -logia.] Substantivo – feminino: 1.Conjunto de conhecimentos que têm por objeto o conhecimento científico, visando a explicar os seus condicionamentos (sejam eles técnicos, históricos, ou sociais, sejam lógicos, matemáticos, ou lingüísticos), sistematizar as suas relações, esclarecer os seus vínculos, e avaliar os seus resultados e aplicações. [Cf. teoria do conhecimento e metodologia (2).]
[3] Na Universidade do Estado do Amazonas é chamado de PAIC, fomentado pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Amazonas (FAPEAM).
[4] É o segundo ano que a Disciplina “Análise dos Espetáculos” promove a produção de artigos científicos que estudam os processos de criação de Grupos Teatrais da cidade de Manaus. As pesquisas são baseadas nos métodos de “Análise de Processos Criativos”, também chamado de “Crítica Genética”.
[5] O Projeto Político Pedagógico do Curso de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas é uma excelente referência para se compreender a importância do curso na cidade de Manaus. Indico a leitura.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Atores mirins, pode?

Então, galera. Mais cedo eu estava assistindo o seriado Hannibal, do canal NBC, mas exibido pela AXN aqui no Brasil, e no quarto episódio, "Oeuf" (do francês, "ovo"), aparece um caso de crianças assassinas. O assunto é bem interessante e só ele dá uma discussão bem longa, mas como eu sou do Teatro, o que me chamou mais a atenção, claro, foi o fato de CRIANÇAS estarem executando o trabalho de INTERPRETAR - mais do que isso, interpretar papéis de crianças assassinas e com tendencias sádicas e psicopatas.

A primeira coisa que eu me perguntei, foi como essas crianças entenderam o papel que elas estavam fazendo, de forma a dar vida a uma personagem tão pitoresca (inclusive tem um menino de 14 anos que interpreta um assassino bem frio e calculista, o que me deu até calafrio). Eu perguntei da professora Eneila, do curso de teatro da UEA, se havia algum tipo de publicação científica sobre o assunto, mas ela me disse que desconhecia.

Fui pesquisar na internet, primeiro meio óbvio, e eu encontrei muita coisa sobre trabalho infanto-juvenil, mas pouca coisa falando sobre atores mirins. O mais aproximado que eu encontrei foi uma dissertação da professora Sandra Regina Cavalcante, publicada no site do Tribunal Superior do Trabalho; um artigo sobre Mercado e as demandas a um público Infantil - nesse caso, o artigo fala bem sucintamente sobre a contratação de crianças para executarem papéis em comerciais televisivos; e uma monografia do curso de Direito do Centro Universitário Univates (que fala sobre questões judiciais do trabalho infantil, e que o trabalho de crianças no campo audiovisual é meio que irrelevante para a maioria dos juízes do nossos sistema Judiciário).

Tem também um artigo interessante do professor Jens Qvortrup, professor do Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia - Trondheim - que fala a respeito dos adultos (nesse caso o Governo e as sociedades civis organizadas) subestimarem a criança e protegê-la de uma formação política que poderiam, na melhor das hipóteses, dar um importantíssimo benefício ao desenvolvimento criança. Mas esse artigo em especial não vem muito ao caso, apesar de recomendar sua leitura.

A maioria das pesquisas que eu encontrei, que de alguma forma abordam a exploração ou uso consentido de crianças nos mais diversos tipos de trabalho, usam como referencial o livro Pricing the Priceless ChildThe Changing Social Value of Children, de autoria do professor Viviana Zelizer, economista e sociólogo que aborda os estudos da moral e ética no mercado - nesse livro, mais especificamente com o contexto da criança. Não encontrei esse livro traduzido para o português, mas pelo que meu arranhado inglês permitiu, tem uns trechos que ele cita o uso de crianças como mão de obra no setor artístico, joga certas críticas a esse mercado meio despreparado.

Bem, pra começar, eu não encontrei nenhuma pesquisa que relate como é o trato com atores infanto-juvenis no mercado Hollywoodiano, que é de onde saltou minhas dúvidas. E, no Brasil, como eu disse, trabalho completinho só o da professora Sandra Cavalcante. É um estudo de caso onde ela consultou 10 atores mirins, com idade entre 10 e 13 anos. Ela observou o trabalho dessas crianças, conversou com cinco profissionais do ramo artístico (a maioria produtor, ou caça-talentos) e daí seguiu seu estudo. Eu achei bem interessante, que a professora joga logo de inicio como é o cenário, que é bem aquilo que eu tinha imaginado quando me veio a dúvida sobre o assunto.

As crianças são escolhidas independente da classe social, geralmente por incentivo da mãe - ou seja, a pressão feminina me parece maior do que a masculina -, as consequências são, obviamente, recheadas de negatividades e positividades - as positivas a gente conhece, que é a melhora na autoestima, na qualidade das relações interpessoais, desinibição, etc; e as negativas são várias, e até mais que as positivas. A professora Sandra elencou algumas que nascem, principalmente, do ambiente de trabalho pautado na pressão, competição e vaidade. Ela constatou, ainda, que geralmente as leis trabalhistas são desrespeitadas, isso porque na maioria das vezes não se tem alvará judicial permitindo que aquele menor esteja trabalhando (sim, mesmo com o consentimento da mãe, sem o alvará judicial, esse tipo de trabalho é crime. Aliás, a mãe, pela lei, é quem é a primeira criminosa); e a situação piora, quando os acompanhantes familiares não podem ir às gravações e simplesmente deixam a criança ir gravar. Fora o fato que, no estudo da professora, ela não constatou nenhum tipo de trabalho pedagógico que torne o trabalho da criança algo positivo para o desenvolvimento biopsicossocial.

Bem, só com o trabalho da professora Sandra, as respostas para aquilo que eu esperava já me foram dadas, mas ainda assim, seria preciso ampliar mais esses tipos de estudo de caso para se ter uma amostragem maior, reduzindo as variáveis possíveis. 

Aí me veio as perguntas primeiras, que me levaram a escacaviar o trabalho da professora Sandra: MAS COMO INTERPRETAR UM GAROTO QUE TENTA MATAR A PRÓPRIA MÃE? COMO ISSO MEXE COM A CABEÇA DE UMA CRIANÇA DE 10 ANOS? Deu pra sacar de onde eu tirei tanta dúvida pra sair caçando pesquisas sobre? A professora Sandra propõe, inclusive, pesquisas que abordem metologias para se trabalhar com essas crianças, reduzindo a carga de consequências negativas no desenvolvimento biopsicossocial dessas crianças. Nesse caso, a gente pode partir de portos mais seguros e já mais desenvolvidos do campo das Artes, como as pesquisas sobre Arte-Educação, afinal, pesquisas que envolvem Arte e Crianças geralmente são dessa área, que mais do que provou que, como meio educacional, contribui para o desenvolvimento destas áreas afetadas quando se trata do mercado de trabalho artístico.

Mas sobre, especificamente, o trabalho infantil na Arte, pelo o que eu constatei, não tem pesquisas tão aprofundadas como deveriam ter (no caso, sobre os métodos). Por exemplo, a menininha que fez uma vilã na novela do horário nobre. Como estava seu estado psicológico antes e depois de interpretar esse papel? O ambiente de desenvolvimento da construção dessa personagem era favorável ou desfavorável ao próprio desenvolvimento individual da criança? O que eu mais me pergunto, é que o contexto dessas crianças não é de formação do subjetivo ou do cognoscente, como é o caso de uma criança inserida num grupo de teatro da escola, por exemplo. A diferença entre a menininha que faz o papel na novela, e a criança que está no grupo de teatro da escola, é que na segunda opção, os objetivos são claramente outros, supostamente assistidos por um especialista fundamentado em pesquisas sobre o desenvolvimento humano na fase infantil, e sobre a influencia do teatro nesse desenvolvimento COM CUNHO PEDAGÓGICO.

Na verdade, não se tem nem como afirmar se o mercado audiovisual tem alguma preocupação com a formação desses atores-mirins. Por exemplo: uma criança é contratada para fazer uma menina possuída pelo demônio, no filme Exorcista; em determinada cena ela se masturba com um crucifixo até sangrar, e pede para o padre, com uma gentileza demoníaca, que ele "a coma" - mantenha relações sexuais com ela. Perguntado à atriz depois daquela cena quais foram suas impressões, ela disse que achava que estava matando alguém. Que tipo de preparo essa menina recebeu do diretor de elenco, do diretor geral do filme, dos pais, e tudo mais?

No Teatro é diferente? Aqui em Manaus, por exemplo, as crianças do Cláudio Santoro são chamadas para realizar participações no Conserto de Natal. NESSE CASO, as crianças vem de uma instituição de ensino, onde supostamente recebem todo um preparo e assistência de uma equipe pedagógica, mas acho que é uma exceção. Pra falar a verdade, eu nunca ouvi falar de crianças participando de companhias de teatro em Manaus, a não ser, nas comunidades periféricas de Manaus, onde surgem pequenos grupos teatrais que aceitam a participação de crianças e adolescentes nas suas montagens. A pergunta que eu me faço, é se isso configura um trabalho, mesmo que sendo artístico. E se, por um acaso, os dirigentes desses grupos possuem alguma formação adequada de lidar com essas crianças. Talvez aí resida uma semente para alguma pesquisa e, respondendo a alguns companheiros de faculdade que possuem certo desgosto com a licenciatura, aqui talvez seja também uma seara de pesquisa interessante para o bacharelado, e não só para a área do ensino.


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LINKS DE REFERÊNCIA SOBRE O ASSUNTO:

Trabalho artístico na infância: estudo qualitativo em saúde do trabalhador (CAVALCANTE)
http://www.tst.jus.br/documents/10157/351894/Trabalho+artistico+na+infancia.pdf

Analise de estratégias de comunicação em propagandas televisivas voltadas ao publico infantil (VELOSO e outros)
http://www.ead.fea.usp.br/semead/13semead/resultado/trabalhosPDF/728.pdf

Childhood and politics (Jens Qvortrup)