domingo, 2 de dezembro de 2012

Mais um pro brejo da luz


Vitor aguardava a moça terminar de preparar seu café enquanto procurava notas avulsas dentro da bolsa para paga-la. Encontraram-se algumas moedas, vários restos de tabaco de cigarros outrora largados na mochila e fumados com dó, alguns trapos, uma caneta. Contaram-se cinco reais, completos de moedas velhas, algumas notas sujas, e outra já parcialmente rasgada. Saiu da cafeteria concentrando-se na habilidade em segurar o copo de café com uma mão, e encontrar às cegas os cigarros Hollywood na mochila, empregando posteriormente o mesmo esforço em achar o isqueiro.

Quando olhou em torno, já de cigarro aceso, caminhava por uma avenida molhada recentemente por uma torrencial chuva. Era noite e as luzes alaranjadas iluminavam parcamente o ambiente, e Vitor, com seus olhos de ressaca e cigarro amassado à boca, esquadrinhava o entorno do ponto de ônibus em busca de algo que não sabia exatamente o que era, mas tinha certeza que, quando procurava o isqueiro, sentiu algo cair da bolsa.

Olhava para o fim da avenida desesperançado com um breve surgimento do ônibus. Calculou que terminaria o café ao tempo de fumar três cigarros acendendo-os um no outro. Conformou-se com isso. Quando acendia o terceiro, percebeu que provavelmente não seria bem assim. Diminuiu o ritmo das goladas e sentia a boca sem paladar (resultado da primeira golada desavisada de uma temperatura maior que a esperada).

No fone de ouvido, uma música deprimente qualquer. Enquanto esperava, começou a pensar em várias coisas, muitas deles questionando quem era Vitor, qual a função dele no mundo, qual contribuição ele tinha dado ao planeta além de algumas gramas de fezes diárias, ou o que tinha feito na vida além de respirar. Quando se apercebeu da realidade, já havia passado seu ônibus, fumava o filtro do cigarro que lhes queimara o dedo (o que o acordou do devaneio) e o copo de café jazia vazio, mas com aquele meladinho que ninguém resiste passar o dedo para saborear.
Tencionou entrar num taxi. Desistiu. Lembrou-se dos cigarros minguados e pensou que amanhã precisaria comprar mais. Esperou mais um pouco e ficou na dúvida em tomar outro ônibus, desta vez no sentido oposto, dando a volta em vários bairros antes de seguir para o seu, refazendo o caminho.

Surgiu, por fim e ao fim da avenida o ônibus de rota 824, e por algo ele finalmente se animou. Entrou, cumprimentou ao motorista visivelmente irritado com um motorista de moto, que ilegalmente lhes cortou a frente pela direita. Falou igualmente com o cobrador que, com um muxoxo, disse-lhes um triste “boa noite”. “Talvez ele devesse estar em casa, debaixo de um edredom com a esposa, talvez assistindo a um filme com os filhos... Talvez.”. Enquanto pensava no cobrador, sentou-se no fundo do ônibus e dormiu. Acordou providencialmente antes do momento de descer. Saltou da escada do ônibus na calçada e esboçou um escorregão – foi por pouco. Chegou a rua de sua casa e refez mentalmente o dia: nada, simplesmente andou por aí.

Olhou sua casa, lotada ao longe. Caminhou lentamente, pensando no que devia estar acontecendo. Deparou-se com uma multidão e isso não era comum. Passou por entre um monte de gente, maioria conhecida. Entrou em casa, bateu os pés no carpete para tirar a poeira e, ao levantar o olhar, viu um caixão. Apavorou-se. “Minha mãe morreu, puta que pariu!”. Avançou e olhou o caixão, apavorado. Viu sua mãe chorando sentada ao lado dele, e alivio-se por pouco tempo, pois se lembrou do pai. Também não era, pois ele entrava pela porta trazendo a esposa um copo com água. Foi então que viu o que nunca esperou ver, pois era ele próprio deitado ao caixão.

Mãe em choros ao lado, pai recebendo as condolências em pé. Lembrou-se de quando acordou. Tinha alguém com ele deitado na cama. Lembrou-se de achá-lo parecido consigo, mas lembrou-se também da noite anterior chegar alcoolizado e drogado, não sabendo se chegou acompanhado. Por fim, teve certeza: era ele ali, morto. Alguém apareceu por trás. Alguém que o surpreendeu apenas dizendo: “Vamos, filho? Tá na hora... É por aqui.”

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