Vitor aguardava a moça terminar de
preparar seu café enquanto procurava notas avulsas dentro da bolsa para
paga-la. Encontraram-se algumas moedas, vários restos de tabaco de cigarros
outrora largados na mochila e fumados com dó, alguns trapos, uma caneta. Contaram-se
cinco reais, completos de moedas velhas, algumas notas sujas, e outra já
parcialmente rasgada. Saiu da cafeteria concentrando-se na habilidade em
segurar o copo de café com uma mão, e encontrar às cegas os cigarros Hollywood
na mochila, empregando posteriormente o mesmo esforço em achar o isqueiro.
Quando olhou em torno, já de
cigarro aceso, caminhava por uma avenida molhada recentemente por uma
torrencial chuva. Era noite e as luzes alaranjadas iluminavam parcamente o ambiente,
e Vitor, com seus olhos de ressaca e cigarro amassado à boca, esquadrinhava o
entorno do ponto de ônibus em busca de algo que não sabia exatamente o que era,
mas tinha certeza que, quando procurava o isqueiro, sentiu algo cair da bolsa.
Olhava para o fim da avenida
desesperançado com um breve surgimento do ônibus. Calculou que terminaria o
café ao tempo de fumar três cigarros acendendo-os um no outro. Conformou-se com
isso. Quando acendia o terceiro, percebeu que provavelmente não seria bem
assim. Diminuiu o ritmo das goladas e sentia a boca sem paladar (resultado da
primeira golada desavisada de uma temperatura maior que a esperada).
No fone de ouvido, uma música
deprimente qualquer. Enquanto esperava, começou a pensar em várias coisas, muitas
deles questionando quem era Vitor, qual a função dele no mundo, qual
contribuição ele tinha dado ao planeta além de algumas gramas de fezes diárias,
ou o que tinha feito na vida além de respirar. Quando se apercebeu da
realidade, já havia passado seu ônibus, fumava o filtro do cigarro que lhes
queimara o dedo (o que o acordou do devaneio) e o copo de café jazia vazio, mas
com aquele meladinho que ninguém resiste passar o dedo para saborear.
Tencionou entrar num taxi.
Desistiu. Lembrou-se dos cigarros minguados e pensou que amanhã precisaria
comprar mais. Esperou mais um pouco e ficou na dúvida em tomar outro ônibus,
desta vez no sentido oposto, dando a volta em vários bairros antes de seguir
para o seu, refazendo o caminho.
Surgiu, por fim e ao fim da avenida
o ônibus de rota 824, e por algo ele finalmente se animou. Entrou, cumprimentou
ao motorista visivelmente irritado com um motorista de moto, que ilegalmente lhes
cortou a frente pela direita. Falou igualmente com o cobrador que, com um
muxoxo, disse-lhes um triste “boa noite”. “Talvez ele devesse estar em casa,
debaixo de um edredom com a esposa, talvez assistindo a um filme com os
filhos... Talvez.”. Enquanto pensava no cobrador, sentou-se no fundo do ônibus
e dormiu. Acordou providencialmente antes do momento de descer. Saltou da
escada do ônibus na calçada e esboçou um escorregão – foi por pouco. Chegou a rua
de sua casa e refez mentalmente o dia: nada, simplesmente andou por aí.
Olhou sua casa, lotada ao longe.
Caminhou lentamente, pensando no que devia estar acontecendo. Deparou-se com uma
multidão e isso não era comum. Passou por entre um monte de gente, maioria
conhecida. Entrou em casa, bateu os pés no carpete para tirar a poeira e, ao
levantar o olhar, viu um caixão. Apavorou-se. “Minha mãe morreu, puta que
pariu!”. Avançou e olhou o caixão, apavorado. Viu sua mãe chorando sentada ao
lado dele, e alivio-se por pouco tempo, pois se lembrou do pai. Também não era,
pois ele entrava pela porta trazendo a esposa um copo com água. Foi então que
viu o que nunca esperou ver, pois era ele próprio deitado ao caixão.
Mãe em
choros ao lado, pai recebendo as condolências em pé. Lembrou-se de quando
acordou. Tinha alguém com ele deitado na cama. Lembrou-se de achá-lo parecido
consigo, mas lembrou-se também da noite anterior chegar alcoolizado e drogado,
não sabendo se chegou acompanhado. Por fim, teve certeza: era ele ali, morto.
Alguém apareceu por trás. Alguém que o surpreendeu apenas dizendo: “Vamos,
filho? Tá na hora... É por aqui.”
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