sábado, 15 de dezembro de 2012

Fui mãe


Fui mãe

O Hospital Municipal Saint-Exupéry estava silencioso às três da manhã. No restaurante, nenhum barulho além de uma televisão ligada e uma médica roncando, dormindo sentada. Elisa estava num dos quartos, ainda acordada e olhando para a janela de vidro que dava para o longo estacionamento na lateral do prédio – vazio, molhado, com o asfalto brilhando e refletindo a luz dos postes de iluminação. Escorria pelo vidro serpentinas de água e a respiração de Elisa condensava-se no vidro formando um embaçado. Levantou-se da confortável poltrona que ficava no canto do quarto e ajeitou o nó do cinto do roupão. Calçou a chinela e foi em direção à porta – precisava ir ao banheiro.

Mal tocou na maçaneta e os pontuais bips da máquina de monitoramento cardíaco tornaram-se um longo apitar. Um calafrio correu pelo corpo. De repente (depois de algum tempo que Elisa não soube precisar mentalmente), enfermeiras e um médico entravam pela porta, apressados. Quando abriram a porta, estes se esbarraram em Elisa que tombou contra a parede e ali ficou em pé, sem entender absolutamente nada. Realizaram alguns procedimentos, nada que parasse o apitar e normalizasse os bips. Dois minutos apenas, e Lucas (filho de Elisa) estava morto.

As enfermeiras se entreolharam quando, depois de alguns segundos do médico ter declarado a morte do menino, a mãe estranhamente não fez nada. Geralmente elas se jogam em cima do filho pedindo pra eles voltarem, outras desmaiam, outras ainda saem esbofeteando o mundo e culpando-o pela perda. Elisa não, ela simplesmente deixou escorrer uma lágrima e foi até o banheiro atender sua necessidade fisiológica. Cagou.

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