Fui mãe
O
Hospital Municipal Saint-Exupéry estava silencioso às três da manhã. No
restaurante, nenhum barulho além de uma televisão ligada e uma médica roncando,
dormindo sentada. Elisa estava num dos quartos, ainda acordada e olhando para a
janela de vidro que dava para o longo estacionamento na lateral do prédio –
vazio, molhado, com o asfalto brilhando e refletindo a luz dos postes de
iluminação. Escorria pelo vidro serpentinas de água e a respiração de Elisa
condensava-se no vidro formando um embaçado. Levantou-se da confortável
poltrona que ficava no canto do quarto e ajeitou o nó do cinto do roupão.
Calçou a chinela e foi em direção à porta – precisava ir ao banheiro.
Mal
tocou na maçaneta e os pontuais bips da máquina de monitoramento cardíaco tornaram-se
um longo apitar. Um calafrio correu pelo corpo. De repente (depois de algum
tempo que Elisa não soube precisar mentalmente), enfermeiras e um médico
entravam pela porta, apressados. Quando abriram a porta, estes se esbarraram em
Elisa que tombou contra a parede e ali ficou em pé, sem entender absolutamente
nada. Realizaram alguns procedimentos, nada que parasse o apitar e normalizasse
os bips. Dois minutos apenas, e Lucas (filho de Elisa) estava morto.
As
enfermeiras se entreolharam quando, depois de alguns segundos do médico ter
declarado a morte do menino, a mãe estranhamente não fez nada. Geralmente elas
se jogam em cima do filho pedindo pra eles voltarem, outras desmaiam, outras
ainda saem esbofeteando o mundo e culpando-o pela perda. Elisa não, ela
simplesmente deixou escorrer uma lágrima e foi até o banheiro atender sua
necessidade fisiológica. Cagou.
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