É muito importante saber que a mente não se estuda, é impossível estudar algo que é abstrato, invisível, não é palpável, nem se pode sentir por qualquer outro sentido, muito menos monitorável por qualquer ferramenta humana. O que se pode alcançar na busca da compreensão da mente, é o estudo do comportamento, que é resultado daquela. Daí o conceito da Psicologia: ciência que estuda a mente e o comportamento.
O comportamento aqui é uma definição generalizada, pode ser verbal, não-verbal, gestual, etc. Logo, desde a forma como o individuo dorme, de que forma acorda, o tom com que fala, a organização do seu discurso, o modo como anda ou cumprimenta alguém na rua... tudo pode dar pistas que possam definir a personalidade, a história de vida, a classe social, o nível cultural, sua origem, entre outras características de determinado individuo que podem, ou não, ter influenciado a construção de sua psique.
Freud encontra determinadas origens para determinados costumes de individuo na fase adulta (fase retal, fase da mama, etc); enquanto que Piaget define que a formação da psique parte da formação do cérebro, estando o individuo sujeito a algumas fases da vida (pré-operatório, operatório, etc) até que esteja plenamente formado; Vygotski já afirma que o ser humano é sujeito do seu contexto sócio-histórico (na fase fetal já é preparado para a língua utilizada pelos pais, a escola onde estudará determinará seu circulo social, o bairro onde mora determinará seus costumes, a religião de seu país ou de seus familiares terão peso maior na sua escolha religiosa, enfim).
A partir do comportamento podemos conhecer facetas da mente, estudá-la. Vendo um aluno meu, ano passado, pude perceber - pelo seu comportamento - que ele estava sofrendo problemas familiares, uma desconfiança comum, tendo em vista que sua relação com os demais alunos era satisfatória no inicio do curso e passou, gradativamente, a ser deficiente até o fim do primeiro semestre. O comportamento protecionista de seu irmão, algumas séries a frente dele, confirmava que esses problemas eram reais. A incomum empatia deste aluno com a coordenadora do projeto indicava a ausência fraternal da mãe. Resultado: buscando contato com a família dos dois alunos, verificou-se que a mãe havia abandonado o lar, e o pai, trabalhando constantemente para manter o sustento dos filhos, mantinha-se ausente na vida das duas crianças, sobrecarregando o filho mais velho com a responsabilidade paternal. Esse é só mais um exemplo dos vários que vivenciei - alunos com características psicopáticas, depressivas, etc.
Para o trabalho de ator, isso é fundamental. Acho que devo à arte teatral esse dom para discernir a partir do comportamento o estado mental de alguns indivíduos. A construção da personagem, do tom de voz, da personalidade, parte primeiro do estudo comportamental da personagem que o autor imprime no texto, partindo para um estudo psicológico para, só então, infligir as características que o ator acha importante para a sua construção da personagem. Isso também me ajudou na vida. Posso saber se um amigo está precisando da minha ajuda com um olhar - mintam para mim o quanto tentem. Falando nisso, posso pegar uma mentira no ar, porque nenhuma palavra, nenhuma informação diz algo, mas sim a vírgula, a organização do discurso. Uma vírgula no lugar errado, uma contradição no discurso, me faz sacar a mentira, o porque da mentira, e em alguns caso, a verdade - o olhar que não aceita fitar o meu, o punho que cerra involuntariamente, ou a pura tentativa de se interpretar uma sinceridade que sabe-se ser falsa.
Dificilmente me engano, por isso que as pessoas me chamam de antipático quando eu acabo de conhecer alguém e logo digo: não fui com a cara desse fulano. Por isso, costumo dizer: não tente me enganar, que é feio e Papai do Céu não gosta... Jesus adooooooora quem mente. Quando eu digo que é, dificilmente eu erro - chamem-me de arrogante quanto quiserem.
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