quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

I love you so


I Love you So

Madrugada. Cosme olha para a rua fantasmagoricamente deserta, mal iluminada, úmida de uma chuva breve que caíra. Andava de um canto a outro da casa preocupado, pois seu filho Tadeu não havia chegado ainda. O telefone tocou. Apressadamente tomou-o do gancho e disse “alô” antes mesmo de aprontá-lo ao ouvido.

- Pai – um momento de respiração ofegante entremeou antes da fala continuar - presta muita atenção no que vou dizer...

- Menino! – berrou Cosme ao telefone - Onde ‘cê’ tá? Quer me matar do...

- Presta atenção... pai.

Cosme tomou-se de assombro com o tom do filho. Desatou milhões de perguntas mais, mas Tadeu não respondia nada além de uma respiração ofegante e tosses carregadas.

- Pai... Vão lhe ligar...

Cosme começava a sentir um pânico assombrar-lhes o corpo. Escutava atenciosamente o filho, desejando chorar.

- Vão lhe ligar e dizer que morri...

Cosme desabou em um choro. Repetia “filho” diversas vezes pedindo para que a brincadeira acabasse.

- E quando isso... quando isso acontecer... Saiba que eu te amo... Tá? E eu quis... eu quis isso... (Te amo, pai).

Um bip de ligação encerrada seguiu-se daí. Cosme engasgava com choro e tentava retornar a ligação para o filho, mas suas ligações caiam diretamente na caixa postal. Cada vez que a fria voz da secretária eletrônica avisava a impossibilidade de completar ligação, Cosme berrava palavrões e o nome do filho – quando não se engasgava com o choro. Soltou um berro, um grito estridente, desesperado, doloroso, mal agourado. Sua carne sentia as dores daquele sentimento que começava a pulsar-lhes o peito.

Na avenida Pedro Teixeira, caído e recostado num muro de um terreno baldio, Tadeu se arrastava e via o sangue esvair-se pelo tórax.

Três tiros irromperam-lhe a carne. Um acertou o estômago – tiro dado distante -, o outro perfurara-lhe um pulmão e o terceiro o ombro (este a queima roupa). Sentia a vida escapar-lhe. Nunca foi valente o suficiente para encarar a vida e sempre ansiou a morte, mas desta vez era diferente, clamava mais tempo de vida tão somente para saborear com mais calma a morte. Recolocou o fone do MP4 no ouvido, e a maestria de Burwell inundou sua mente. Acendeu um cigarro, tremelicando-o nos dedos e empapando-o de sangue e, quando tragou, a garganta se inundou de mais sangue com uma tosse carregada. Deitou-se e viu o céu com uma dúzia de estrelas, poucas que o céu metropolitano lhe permitia enxergar. 

Viu uma viatura de polícia parar perto, e mesmo com os fones no ouvido, conseguiu escutar o barulho de seu freio. Um policial desceu, e ele escutava-o falar alto alguma coisa ininteligível. Depois de repetida a frase, entendeu que o policial perguntava “Está bem, filho? Calma, o socorro vai chegar”. Viu seu cigarro ser tirado da mão, mas não conseguia protestar. Um sono invadia-lhes a mente. Quando o fone ia ser tirado do ouvido pelo mesmo policial, ele simplesmente levantou capengamente a mão acenando para que não o fizesse. O policial espremeu os lábios e concordou. Os olhos se fecharam, e por fim dormiu.

Estava morto Tadeu Procópio, 20 anos, ninguém importante e sem função. Morto a tiros, sem saber por quem e nem por que. Conseguiu dizer o que tinha de dizer, fumar o seu cigarro e ouvir a sua música pouco antes da morte. Levou da vida o que a morte geralmente nega aos moribundos: a chance do adeus.

Inspirado em “We Love you so” de Carter Burwell

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