I Love you So
Madrugada.
Cosme olha para a rua fantasmagoricamente deserta, mal iluminada, úmida de uma
chuva breve que caíra. Andava de um canto a outro da casa preocupado, pois seu
filho Tadeu não havia chegado ainda. O telefone tocou. Apressadamente tomou-o
do gancho e disse “alô” antes mesmo de aprontá-lo ao ouvido.
-
Pai – um momento de respiração ofegante entremeou antes da fala continuar -
presta muita atenção no que vou dizer...
-
Menino! – berrou Cosme ao telefone - Onde ‘cê’ tá? Quer me matar do...
-
Presta atenção... pai.
Cosme
tomou-se de assombro com o tom do filho. Desatou milhões de perguntas mais, mas
Tadeu não respondia nada além de uma respiração ofegante e tosses carregadas.
-
Pai... Vão lhe ligar...
Cosme
começava a sentir um pânico assombrar-lhes o corpo. Escutava atenciosamente o
filho, desejando chorar.
-
Vão lhe ligar e dizer que morri...
Cosme
desabou em um choro. Repetia “filho” diversas vezes pedindo para que a
brincadeira acabasse.
-
E quando isso... quando isso acontecer... Saiba que eu te amo... Tá? E eu
quis... eu quis isso... (Te amo, pai).
Um
bip de ligação encerrada seguiu-se daí. Cosme engasgava com choro e tentava
retornar a ligação para o filho, mas suas ligações caiam diretamente na caixa
postal. Cada vez que a fria voz da secretária eletrônica avisava a
impossibilidade de completar ligação, Cosme berrava palavrões e o nome do filho
– quando não se engasgava com o choro. Soltou um berro, um grito estridente,
desesperado, doloroso, mal agourado. Sua carne sentia as dores daquele
sentimento que começava a pulsar-lhes o peito.
Na
avenida Pedro Teixeira, caído e recostado num muro de um terreno baldio, Tadeu
se arrastava e via o sangue esvair-se pelo tórax.
Três tiros irromperam-lhe a
carne. Um acertou o estômago – tiro dado distante -, o outro perfurara-lhe um
pulmão e o terceiro o ombro (este a queima roupa). Sentia a vida escapar-lhe.
Nunca foi valente o suficiente para encarar a vida e sempre ansiou a morte, mas
desta vez era diferente, clamava mais tempo de vida tão somente para saborear
com mais calma a morte. Recolocou o fone do MP4 no ouvido, e a maestria de Burwell
inundou sua mente. Acendeu um cigarro, tremelicando-o nos dedos e
empapando-o de sangue e, quando tragou, a garganta se inundou de mais sangue
com uma tosse carregada. Deitou-se e viu o céu com uma dúzia de estrelas,
poucas que o céu metropolitano lhe permitia enxergar.
Viu uma viatura de
polícia parar perto, e mesmo com os fones no ouvido, conseguiu escutar o
barulho de seu freio. Um policial desceu, e ele escutava-o falar alto alguma
coisa ininteligível. Depois de repetida a frase, entendeu que o policial
perguntava “Está bem, filho? Calma, o socorro vai chegar”. Viu seu cigarro ser
tirado da mão, mas não conseguia protestar. Um sono invadia-lhes a mente.
Quando o fone ia ser tirado do ouvido pelo mesmo policial, ele simplesmente
levantou capengamente a mão acenando para que não o fizesse. O policial
espremeu os lábios e concordou. Os olhos se fecharam, e por fim dormiu.
Estava
morto Tadeu Procópio, 20 anos, ninguém importante e sem função. Morto a tiros,
sem saber por quem e nem por que. Conseguiu dizer o que tinha de dizer, fumar o
seu cigarro e ouvir a sua música pouco antes da morte. Levou da vida o que a
morte geralmente nega aos moribundos: a chance do adeus.
Inspirado
em “We Love you so” de Carter Burwell
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