sexta-feira, 23 de março de 2012

II Conferência da Juventude – uma breve reflexão sobre experiências com jovens do estado do Amazonas.

Imagem reblogada de Tumblr "Alecrim!"
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As novas gerações (juventude) das mais diversas artes vêm a naturalmente corroborar para um processo de mudanças na própria forma da Arte. Em Teatro, renová-lo é uma missão que muitos desses jovens tentaram abarcar, para tão somente descobrir, sob sábio conselho dos mais velhos, que Teatro não cria nova forma, ele cria nova vertente. Ele cresce.

Quando falamos de juventude na linha de frente de movimentos de vanguarda, necessita-se esclarecer que não falamos apenas de uma juventude num sentido cronológico, de faixa etária. Em um sentido mais profundo, esses movimentos de vanguarda são afirmativamente constituídos por uma maioria de jovens, mas com outros indivíduos de gerações anteriores que, já em sua juventude estavam à frente de seu tempo - e acompanhando o processo histórico, parecem ter se encontrado na linha do tempo nestes movimentos de vanguarda que decorrem com gerações posteriores à sua. Logo, qual o sentido de juventude em Arte?

Eu e a professora Gislaine Regina Pozzetti monitoramos, no meio do ano passado, uma acalorada discussão acerca da "juventude e a cultura no estado do Amazonas", durante a Segunda Conferência da Juventude e, podemos perceber claramente, que estes jovens ainda precisam bem mais auxílio e conselhos do que imaginávamos, ou podíamos oferecer. Agora, meses depois do evento, fico refletindo sobre as possibilidades e a importância do evento ao qual participei, e me orgulho muito, que aqueles jovens puxavam reinvidicações de forma organizada e enérgica. Essa movimentação toda, não sei porque, me lembra dos movimentos de vanguarda, a influência da juventude, o desejo de mudar a situação político-social vigente... O principal objetivo daqueles jovens eram movimentar a cultura, alterar as políticas públicas. Mas qual a relação da cultura e política? Qual o papel dos jovens? Quem são esses jovens?

Esses movimentos de vanguarda, ou movimentos artísticos, constituem um processo de transformação social e, em um sentido amplo, uma ferramenta política. É de se entender que Arte e Política são distantes enquanto próximas, ao analisar num sentido que sendo a Arte subjetiva e subversiva, não interessa à ela a política, nem à politicagem interessa a Arte. É de se saber, no entanto, que essa correlação se faz necessária para a sobrevivência de ambas. As políticas públicas voltadas para a Cultura são um fundamental instrumento de fomento à Arte, e em contrapartida, os produtos culturais – advindos da Arte, ou não –, são interessante à Política para o exercício social, ainda considerando a Arte um transformador político.

Quando discutimos a aparente ausência ou inexistência de políticas públicas com recorte especificamente juvenil, devemos compreender as diferenças (e contrapontos) entre Cultura e Arte para, nesse momento, entender que em se tratando de Arte, toda linguagem considerada contemporânea é vivida por jovens – em especial quando tratamos das artes cênicas, caracterizadas pela efemeridade[1] de sua existência, que tem vida apenas durante o espetáculo. Logo, existe uma linguagem ou um recorte juvenil ao qual se devem promover políticas públicas, ou os jovens sempre serão promotores de Cultura e Arte? Deve-se promover políticas públicas em prol da cultura, ou simplesmente gerar políticas públicas focadas em artes distintas, com uma diversidade tão imensa que, hoje, imbricam-se formando um grandioso mix?

É interessante, no entanto, compreender que é necessário promover essas políticas públicas gerando o fomento às novas gerações de fazedores de Arte, descentralizando a concentração de fomento de outros já existentes, dos mesmos que recebem quase que uma aposentadoria precoce até o fim de suas vidas sob o pretexto do fomento à Arte. Esse processo pode vir a ser mais interessante à uma causa antiga das novas gerações de fazedores de Arte, constituindo quase um sistema de seleção natural a ser superado.

Para se discutir essas políticas públicas voltadas para a juventude, com as especificidades destacadas pelas propostas na II Conferencia da juventude, faz necessário inferir algumas observações – a considerar a realidade Amazônica – pertinentes que reforçam tais propostas, ou a indeferem no sentido de sua incoerência com a realidade na cidade de Manaus.

Quando falamos de uma juventude, generalizamos e alargamos a análise. Quando se propõe apoio a programas de produção cultural juvenil, possivelmente podemos estar subestimando a variedade cultural presente dentro de uma mesma geração. Em antropologia, considera-se classificar a atual geração de jovens de geração Z, nascida no meio de uma nova era (digital e a internauta) que vem a caracterizar esses jovens pela grande capacidade de gerar conexões e grandes fluxos de informação em curtos períodos de tempo por todo o globo. Esse fácil acesso com o mundo advindo da globalização, parece diluir as fronteiras políticas e culturais, formando assim um cosmopolitismo aparentemente forte entre a atual geração de jovens, mas ao mesmo tempo que integra, socializa e gera características em comum entre vários jovens. 

Esse mesmo cosmopolitismo também fomenta um processo de singularidade das características que constituem a identidade de jovens de uma determinada região. É de considerar ainda, que até mesmo dentro desta mesma região, e em destaque os centros urbanos, onde podemos notar a variedade de identidades sociais singulares que ainda é vasta. Nesse cenário, como o Estado pode definir o que é uma produção cultural juvenil ou não? A quem fornecer apoio? Os espaços a fornecer para estas culturas juvenis contempla a todas, ou destaca somente algumas?

A formação cultural da juventude é um ponto de discussão importantíssimo. Considerando o acesso que estes jovens possuem ao conhecimento sem filtragens na rede mundial de computadores, esse cosmopolitismo e pós-modernidade que caracterizam não só a geração Z, mas especialmente a X e Y, faz com que estes jovens sejam uma seara bastante receptiva e apta à formação cultural através da Dança, Teatro, Artes Plásticas, Música, Moda, Arquitetura, Literatura, etc. Porém, que entraves impossibilita a realização desta formação cultural? Este, certamente, é um ponto de discussão a ser levantado e, possivelmente, o mais relevante a ser debatido.

Levando em consideração que formação cultural consiste em um processo educacional – logo, uma transmissão de saberes de uma geração à próxima –, podemos claramente entender que esta próxima geração não será a única a ser beneficiada, tendo em vista que se a atual juventude adquiri ferramentas para seu pleno desenvolvimento cultural, muito terão a ensinar e transmitir às próximas gerações. Então, por que não é visível nas esferas municipais este fomento à cultura, considerando um processo de longo prazo a ocorrer de forma contínua? Quais os entraves que impossibilitam a realização destas iniciativas?

Por enquanto, assiste-se a incentivos à festivais, à shows e, no entanto, sentimos que a Cultura ainda não está sendo incentivada, apenas no discurso de quem incentiva. Por que esse sentimento? Certamente, algo está errado, e precisamos averiguar isso.  Agora, esperarei ansioso pela Terceira Conferência.

por Iago Luniére

[1] Em Teatro, algumas obras da Grécia Helenística sobreviveram ao tempo e chegou até nós, no entanto, considerando essa efemeridade do Teatro, ao longo de tantos séculos essas obras ainda nos emocionam, sendo representadas por quantas gerações forem necessárias.

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