Meu
bom tio
Eram tenebrosos os raios de
luz que cruzavam as frestas da janela de madeira de minha casa, que cruzavam a
escuridão revelando aquela situação em que me encontrava. Sentia o peso dele me
sufocando, e o quente sangue dele escorrer por sobre mim. Sentia o fedor da
cachaça impregnada nele, sentia a barba por fazer roçar minha pele. A faca,
outrora largada numa estante perto de um bagaço de laranja e algumas cascas
agora estava encravada nas costas do infeliz.
Meu tio estava doente, era
quem cuidava de mim e de meus dois irmãos, isso desde que meu pai falecera há
uns anos atrás, não me lembro bem, mas se não me engano foi de uma tuberculose.
Meus irmãos, hora ou outra não permitiam que esse fato saísse de minha mente
relembrando e remoendo esse fato. Meu pobre tio, no sentido literal, morava em
um beco, na zona pobre de Manaus. Ele trabalhava como vendedor ambulante, e o
dinheiro que ganhava servia apenas para comprar uns remédios (o que era artigo
de luxo), e para comprar um grande pão de forno que deveria durar a semana
inteira. Tínhamos um pequeno quintal, nada muito grande, cabia apenas um
canteiro com verduras, e um galinheiro pequeno com um galo magro e duas
galinhas que nos serviam pondo ovos. Como não alimentávamos os frangos muito bem,
eles quase não punham ovos. Certo dia, ficamos sem comer para dar comida a elas
e ao galo, numa forma de investimento. “Ficamos sem comer hoje, mas comemos na
semana”, afirmava meu tio. O lugar onde vivíamos era úmido, de cômodo único que
servia de saleta e cozinha. De banheiro, servia apenas um no fundo do quintal,
que era cavado no chão. Meu tio conseguira com um pouco de esforço comprar
nosso material escolar, dois cadernos brochurão que deveriam servir para tudo,
e três lápis, que não deveria diminuir um centímetro que fosse, e não deveria
ser apontado, e muito menos sua ponta quebrada, custe o que custasse.
Meu tio contraíra a doença
alguns meses depois de nossa ida a sua casa. Ele passara semanas sentado em uma
velha cadeira de balanço que dava para o quintal. De olhar distante, pensando
na morte do velho e querido irmão. Um dia levantou-se e deu uma tossida braba,
quase morremos de gargalhar do engasgo dele, e depois dele se recuperar começou
a rir também. Mal sabíamos que aquela era a primeira de muitas tossidas que ele
daria. Meu irmão mais velho alcançara seus 17 anos, e já trabalhava como
aprendiz de ferreiro, enquanto que meu outro irmão tinha 14 anos e fazia alguns
bicos, que iam desde arrumar quintal a ir para a praça central servir de
engraxate. Eu tinha oito anos e ajudava meu velho tio na casa, lavando as
louças e varrendo a casa. Meu tio saía de casa às 5 da manhã e voltava de
tardezinha, lá para as 6 horas. Deixava-me com meus irmãos, já acordados, de
pé, prontos para irem à escola antes de ir-se.
Adolfo, meu irmão do meio,
vez ou outra matava aula para ir para a barbearia de Dom Ricardão para servir
de aprendiz. Dom Ricardo era apenas apelido, não era nobre nem nada, mas seu
jeitão hispânico fazia dele tal nobre. Adolfo me deixava na escola e em seguida
seguia para seu lazer: fazer a barba das pessoas mais ilustres da cidade.
Alguns não gostavam, e pediam apenas para que engraxassem os sapatos. Outros,
curiosos com a experiência, deixavam que o jovem fizesse a barba. Dom Ricardo
adorava ficar admirando o trabalho do rapaz, e hora ou outra dava umas dicas, e
alguns puxões de orelha. Frederico, meu irmão mais velho, já saíra da escola,
mas sonhava em entrar na tão cobiçada faculdade de Direito. “Sonho”, dizia meu
tio, mas em seguida dizia “se conseguir juntar dinheiro o suficiente com teu
trabalho, ajudo-te com algumas economias”.
Eu sonhava junto de
Frederico em cursar a faculdade de Direito, e imaginava como seria andar pelas
ruas vestido com roupas cheias de fru-fru e ser chamada de doutora Elisa.
Algumas vezes, nós, junto de Frederico, puxávamos a orelha de Adolfo quanto
matar aulas para ir para à barbearia. Numa dessas meu tio ouviu, e foi um pito
que até eu e Frederico entramos no meio. Passado o susto, meu tio começou a
deixar Adolfo na porta da escola, e dali só saía depois de ver o rapazote
entrar e conversar com a professora, alertando que o jovem era esperto, e sabia
driblar. A professora olhava sempre por cima dos óculos sabendo perfeitamente
como era. Frederico e eu acompanhávamos meu tio nessa trajetória, e em seguida íamos
para o colégio.
Frederico já tinha um ano
servindo de aprendiz de Ferreiro e suas mãos estavam por demais calejadas e
grossas, apesar das luvas que usava. Ele e meu tio sempre conversavam ao fim do
dia (quando meu irmão ao menos estava em casa) sobre meu futuro. Diziam que um
dia eu ia ser moça, e teria de casar-me, e teria também de arranjar um bom
partido. Comentavam de como arranjar o meu dote.
- Ora meu tio, Elisa será
moça! Pretendo trabalhar arduamente para que ela tenha um gordo dote e para que
ela tenha um bom partido. De beleza ela será farta em sua mocidade...
- Compreendo tua preocupação,
meu sobrinho. Mas e teu sonho de cursar a faculdade de direito?
- Esqueça tio, o que importa
é Elisa!
- Confesso que até pensei no
caso várias e várias vezes. Tua Irmã é nova, alcançara ainda os oito anos, mas
se juntarmos dinheiro a partir de agora, acredito que teremos bom dote para ela
no futuro...
E então ficavam a conversar.
E quase toda a noite que meu irmão dormia em casa, o assunto era o mesmo. Os
gastos eram reduzidos, ate o vicio do cachimbo meu tio largou para poupar mais
saúde, e poupar o dinheiro dos remédios. Por duas vezes Adolfo tentara pegar do
dinheiro acumulado, mas meu tio o corrigira com uma colher quente na mão para
que aprendesse, e acho que aprendeu visto que nunca mais se metera a besta com
a caixinha de dinheiro que meu tio escondia debaixo do colchão.
***
Certo dia meu tio chegara
bêbado em casa. Eu já havia chego do colégio, e meus irmãos estavam fora. Meu
tio puxara umas laranjas e sacou seu canivete e pôs-se a descascá-las. Algum
tempo depois, enquanto cozinhava a sopa que preparava para a janta, percebia
que meu tio olhava demasiadamente para mim. Nunca meu bom tio chegara bêbado em
casa, tampouco se embebedara. Era contra a bebida, sempre alertava meus irmãos.
Talvez, um dos seus amigos o convidara para uma roda de boteco e ali ficara
embriagado. O que me intrigava ao máximo era por que meu tio ficava me
encarando. Ele tirou da bolsa de trecos – onde colocava as coisas que vendia –
uma grande garrafa de pinga, e começou a beber. Pegou um copo de café e ficou
no exercício de encher o copo e ficar bebendo de goladas longas e rápidas.
Quando a garrafa secou, ele
continuou no seu exercício de ficar encarando-me. Havia eu terminado de
aprontar a sopa, e a tardezinha caia lentamente. O sol batia na janela aberta e
iluminava toda a saleta. Meu tio então fechou a porta, depois a janela e ficou
em pé me olhando. Senti um calafrio correr por meu pescoço! Então, alguns
segundos depois e ele avançou sobre mim. Algo tão estranho... Meu tio! Ele
começou a beijar-me, vejam só! Eu virava o rosto e suplicava que ele parasse.
Era horrível sentir o hálito dele, sentia nojo, sentia repulsa. Ele me
comparava com minha falecida tia, me segurava firme. Numa das minhas tentativas
de me livrar dele, fui jogada na cama com força, bati com a cabeça na parede,
me vieram náuseas. Ele montou em cima de mim, e abriu minhas pernas. Eu era só
uma criança! Só uma criança! Debatia-me, então senti uma dor descomunal em meu
ventre. Senti como se minha carne fosse rasgada, como se fosse encravada uma
faca em mim.
Sentia um líquido escorrer
por entre minhas pernas. Sentia dor, muita dor. Cada vez fui ficando fraca, até
ver a canivete junto dos bagaços de laranja, em cima da velha penteadeira, ao
lado da cama. Forcei meu braço para alcançar. O peso dele me sufocava e me
fazia afundar na cama. Estiquei-me, mas, faltava só um pouco. Só um pouco.
Quando alcancei, ele estava próximo ao gozo. Segurei-a firme e sem pensar a
estanquei nas costas. Ouvi apenas um gemido abafado, apenas um murmúrio de dor.
O sangue agora escorria das costas dele e inundava a cama. Eram tenebrosos os
raios de luz que cruzavam as frestas da janela de madeira de minha casa, que
cruzavam a escuridão revelando aquela situação em que me encontrava. Sentia o
peso dele me sufocando, e o quente sangue dele escorrer por sobre mim. Sentia o
fedor da cachaça impregnada nele, sentia a barba por fazer roçar minha pele. A
faca, outrora largada numa estante perto de um bagaço de laranja e algumas
cascas agora estava encravada nas costas do infeliz. E eu, morta também.
Iago Leandro Luniére Teixeira, escrito em 25 de abril de 2008.
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