domingo, 20 de maio de 2012

O que é o "cuntipuraneo" (possível parte I)

Instalação Metragem, de Edith Derdyk.
Revista Select Art 3º Ed. Janeiro, 2012.
Poderia começar com um título do tipo "Mistura de todas as Artes - o contemporâneo e a tal performance", "Volta ao Ritual -  o contemporâneo e a tal performance ", "O que não é performance", "Anarquia literal"... e passei a perceber que isso seriam argumentos para uma possível divagação sobre o que seria o Contemporâneo e sua principal ferramenta, a Performance. Escolhi esse título, definindo a complexidade que não pode ser abordada em um simples texto divagatório.

Divagação, porque tudo o que se lê sobre esses dois termos é para muitos uma total divagação, apesar de seguir a rígida metodologia científica em publicações diversas, que se multiplicam. Pode-se argumentar infinitamente o que seria Contemporâneo, o que seria Performance, e tudo o que se pode concluir é que, o que é palpável, o que é verbalizável, é o que não seria a performance, e o que não seria o contemporâneo. É importante salientar, que Contemporâneo aqui é referido a um movimento (pulsante) artístico que ocorre agora, nos tempos atuais, nessa geração, herdada da anterior, parida das vanguardas, sempre em transformação, perdendo o sentido etimológico que conhecemos de Contemporâneo quando estudamos a História.

Logo, direciono a atenção para a Performance, que é a principal ferramenta do Contemporâneo e... o que é Performance? O que posso adiantar, é que você terá de ter o mesmo trabalho que eu pra poder saber, se não, não terá graça. E o que posso dizer, também, é que o que você irá descobrir é o que não é Performance. Uma palavra, até agora, definiu muito bem pra mim o que seria a Performance: Anarquia.

Anarquia, porque atualmente, a Performance não se encaixa em nenhuma linguagem que conhecemos, nem se pode afirmar (ou precisa ter um enorme cacife para assim fazer) que é uma Arte específica: sabe-se que nasceu nas Artes Plásticas, apropriou-se de elementos e técnicas do Teatro, Dança e Música, negou a palavra, reutilizou-a posteriormente, e qualquer tentativa de conceituar a Performance tornou-se falha, pois sempre surge alguém, que faz algo, que logo contesta e, ainda assim, não sai da Performance... E nos questionamos: aonde se encontra a Performance, onde ela se encaixa e, principalmente, é possível conceituá-la?

René Descartes
Essa falta de alocação e, claro, a necessidade da conceituação, nos remete diretamente a Descartes. Está impregnado no TUTANO o que esse senhor apresentou ao Ocidente em seu Discurso sobre o Método. Ali, compreende ser correto e coerente que tudo que merece ser considerado objeto de estudo deva ser esquadrinhado, dividido até onde se pode, e estudado por cada uma dessas partes divididas até que se compreenda o todo. Daí nasce o processo científico que conhecemos hoje, consequente de Descartes e posteriores a ele que contribuíram com essa ideia. Se Performance não tem conceito e, quando ganha um, passa a ser refutado, cria-se a incômoda sensação de que, se não é conceituável, se não pode estar na brochura de um livro, logo não é nada. Curioso, é que se não é nada, não pode ter relevância, não pode influir em nada, mas é relevante e influi. Por que a Performance, então, incomoda?

Fritjof Capra
Fritjof Capra em seu O Tao da Física afirma que a Ciência entra em uma grandiosa transformação após passar por um longo tempo de calmaria. Einstein revolucionou o campo da Física quando, em sua época, a Física Moderna se contentava com as Leis Newtonianas, que durou por longo tempo, configurando o tal tempo de calmaria. Antes de Einstein apresentar ao mundo a sua teoria da Relatividade, a Ciência começava a sofrer uma decadência quando não conseguia responder a determinados questionamentos. Capra, encontrando no Taoísmo a explicação para certas coisas que a Ciência não consegue explicar, afirma que a resposta para essa periodicidade pode ser encontrada no símbolo do Yin e Yang. Um representa a razão, e outro a intuição e, quando um termina, o outro começa, seja seu fim em uma ascensão, ou decadência. Partindo desse princípio explicou-se como, por intuição, Einstein conseguiu revolucionar o campo da Física e da Ciência, desbravando caminhos desconhecidos.

Exposição Alexandre Mury,  galeria
Laura Marsiaj, 2011.
Que fique registrado que eu falei isso, caso ninguém tenha dito. Acredito que a Performance caminha nesse sentido, ainda contaminada pela razão - quando trabalhada pautada na Pesquisa -, onde saímos do racional e retornamos aos primórdios da Arte. Na necessidade de transgressão, na impossibilidade de transgredir o século XX, retorna-se ao anterior e, nessa busca, a Performance caminha para Ritual. Aí encontro outra palavra que defina a Performance: Ritual. Talvez se explique, aí, a pouca necessidade de público, às vezes, a pouca importância que se dá à ele; a riqueza dos símbolos; a ‘intuitividade’ clara e presente, etc.

Resta-nos, as perguntas clichês: será esse o novo caminho da Arte? Hoje, o que é Arte? Arte é razão, intuição, ou os dois? O que vem depois do Ritual? Pra onde mais transgredir? Falo corriqueiramente, quando se fala do ‘Teatro Contemporâneo’, que pra entender devemos matar Brecht todos os dias. Realmente, devemos esquecer a empanada, o tablado, as coxias, a palavra, o gestus, aquilo que é como é. Pra entender o contemporâneo, tem-se de estar aberto aos símbolos e, pra cada um, tem o seu significado. Acredito que essa é uma possível “Parte I”... não sei por quê.

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