terça-feira, 2 de julho de 2013

Protestos, movimentos sociais, e o que será que está acontecendo em Manaus?

Então, galera... faz um tempo que eu não escrevo pro blog, desculpa a quem lê, mas é que realmente rola aquelas fases de vida rompante em que a gente não consegue parar pra escrever mesmo - apesar do tempo de sobra que eu tive. A facilidade com o facebook também contribui: é o que eu mais acesso, e a função de disseminar idéias é até mais fácil


Postei recentemente no meu facebook um status, que acabou virando uma resenha dos protestos em Manaus, e pra não dizer que eu não publiquei nada no meu blog sobre tais protestos, acabei decidindo divulgar o post aqui. Abaixo segue o link pra quem quiser ver os comentários que rolou por lá, comentar, curtir - enfim; e também segue o texto na íntegra.



"Hoje foi um dia muito estranho em Manaus. A Copa ajudou, claro. Todos em frente à TV assistindo Brasil contra Uruguai (e nem sei ainda quem ganhou), mas teve gente que foi pras ruas protestar. Acho que é válido relatar...

O clima era mais de encontro coletivo, do que protesto. Mas o mais bacana, é que uma parte da galera estava sentado em rodinhas discutindo o seu assunto a defender. Tinha um grupo de homossexuais que estendeu uma bandeira enorme do símbolo gay no Largo de São Sebastião e, em cima, um cartaz contra a chamada lei da "Cura Gay" (que aliás eu ouvi dizer que o Feliciano voltou atrás e disse que "não existe cura gay"); outros vestiam camisas de #VemPraRua, outros com cara pintada, outros com máscaras do "V", outros segurando cartaz pedindo mais respeito para com os professores. Thiago de Mello estava num bolo, com uns conhecidos dele (eu acho).

Como eu disse, o clima era meio estranho. Primeiro que as ruas estavam desertas, acho que por conta da Copa. Mas indo pro protesto, eu vi na banca de revistas aqui perto de casa a capa do jornal A Crítica , e o jornal avisava: "Hoje tem Protesto"; como se fosse um alerta pra toque de recolher porque a barbárie tava indo pra rua. Eu realmente não sei como deveria ser o artigo daquele jornal sobre o assunto, não comprei, mas que na capa dava impressão disso, ah isso dava.

A estratégia da primeira manifestação em Manaus foi a mesma, a frota de ônibus na capital totalmente reduzida. Chegando lá, o clima de encontro coletivo que falei antes. Encontrei uns amigos e a gente ficou discutindo política, claro. E foi aí que eu percebi que algumas pessoas a nossa volta fazia o mesmo. Dei até uma passeada pelo largo e, aqui e ali, alguns grupinhos fazia o mesmo. Encontrei outros amigos, com quem fiquei até o "final".

A incerteza era nosso lema, praticamente. A gente sabia que tinha pelo menos três manifestos ocorrendo, sendo que dois foram marcados no mesmo local e horário. Olhando tudo, chuto que tinha pouco mais de duas mil pessoas ali (esperando sair a contagem da PM) que sabiam muito bem pelo que protestavam, mas não sabiam direito como protestar. Eu próprio fui com MUITA dúvida. Primeiro que, apesar da internet bem aqui na minha frente, saber quem tá organizando É MUITO DIFÍCIL, mais ainda quando três manifestações diferentes ocorrem. E não é só saber a cara e o nome da pessoa, é saber quais são suas idéias políticas, o que ele pensa sobre manifestação política, coisas simples de uma pessoa minimamente politizada que se dispõe a tomar as rédeas de um movimento que nasceu e ainda nasce horizontalmente.

Fora tudo ser muito suspeito, a gente sabe que não tem nenhum bom samaritano que diz "eu te empresto um carro de som, vai lá!". Quando os carros de som apareceram, muita gente torceu o nariz por conta do "ih, é partido político". Nada contra partidos, mas é que GATO ESCALDADO TEM MEDO DE ÁGUA FRIA. A gente está tão desiludido com os partidos, que quando a sensação de que um está tomando de conta de algo desse porte, deixa a gente se debatendo em incertezas. De onde saíram aqueles carros de som? Quem tava pagando por eles? Na primeira manifestação eu caí nessa, e tive de admitir pros meus amigos: fui feito de bobo, e nem percebi.

Ficamos por ali, não decidimos ir atrás daquela manifestação que ia 'desembocar' na Assembléia Legislativa. O que eu achei estranho era a quantidade de policiais no largo. Parecia que o contingente destacado pra toda a manifestação da quinta-feira passada havia sido requisitado novamente. Vi a tropa de choque na lateral do teatro, vi helicóptero da PM sobrevoar o Largo repetidas vezes, uma delas por cima do Teatro Amazonas, e bem baixinho. E pensei: pra que esse circo todo? Lembrei: Ah, estamos no quintal do Sr. Robério Braga, o buraco tá mais embaixo. Mas a população nem sabia disso, a gente que faz arte é que percebeu.

O clima ficou mais estranho depois. Todo mundo se recolheu e partiu em marcha pra ALE-AM. Outros ficaram por ali. Tinha mais vendedor ambulante de água e bandeira que manifestante. Tinha manifestante ambulante querendo ganhar seu troquinho às custas da sede. Tinha de tudo. Soube que o curso de teatro estava por ali fazendo uma performance questionando o que era manifesto para aquelas pessoas - nem sei se aconteceu mesmo, uma amiga chegou dizendo que teve. Conversamos um pouco sobre como a manifestação estava com um ar de sem pé, nem cabeça, sem sentido algum. "Reivindicar tudo é o mesmo que reivindicar nada!", lembrei um amigo comentando. E foi muitas bandeiras, muitas causas... se o DataFolha aparecesse ali, ia ser pouco mais de 5% de manifestante pra cada causa reivindicada - e causas GRANDES DEMAIS.

No bar - porque não tem lugar melhor pra se discutir política - a gente ficou conversando e de repente apareceu uma outra manifestação, dessa vez vinda do Bilhares. Rodearam o Teatro, se instalaram na Eduardo Ribeiro. Uma parte saiu às carreiras pra tentar alcançar a que foi pra ALE. Ali o discurso político estava meio macabro, mas deixamos de lado. Apoio a ideia de que protestar sobre tudo é protestar nada, entendo que precisamos ter foco em um objetivo de cada vez... é o que está acontecendo no resto do país - a cada reivindicação atendida, o povo levanta uma nova, advertido que não ficará por isso mesmo; tem que ter mudanças, e tem que ter mudanças JÁ.

Aqui no Amazonas, tentamos seguir a "receita de bolo" dos outros estados. A galera não tá ligada que, nos outros estados, eles estão num outro nível e, a gente conectados a eles pela rede mundial de computadores, estamos nesse mesmo nível. Sim, reduzir a tarifa do transporte público era o primeiro alvo, mas era quando começou os protestos lá, em São Paulo. Alcançamos a esfera federal nesse ponto, e nos três poderes!

Aqui no Amazonas não vimos lutarem por causas do nosso estado, e olha que tem tantas! Não vi ninguém reivindicando a democratização da cultura no nosso estado (e não estou falando de entrada gratuita); não vi ninguém reivindicando os absurdos que se cometem na ALE-AM, como colocar gente claramente envolvida em esquemas de corrupção em cargos de instituições como no Tribunal de de Contas - e isso é caso velho.

Reclamar de saúde, de educação, de cultura... não é pra fazer isso pros outros estados, não. É fazer isso pra gente. É se sensibilizar pelo pessoal de enfermagem que a cada renovo de contrato, ficam na corda bamba e sem concurso; é se sensibilizar com escolas da nossa cidade que vivem em prédios alugados onde CLARAMENTE NÃO HÁ ESTRUTURA PARA O ENSINO; é se sensibilizar com deputado federal amazonense que assina petição da PEC 37, mas depois dos protestos vem com o cu na mão dizendo que votou contra, e que por isso é um herói.

Mas como alcançar isso? Não é organizando manifestação na rua com mil cartazes, é organizando manifestação na rua com mil cartazes E DEBATES. O Curso de Ciências Sociais da UFAM vem fazendo isso, timidamente, entre suas paredes, mas tá fazendo isso - e super apoio. E nisso eu super aplaudo também o pessoal do passe-livre (mas como eu disse, passe-livre está nos sendo muito bem representado em Brasília pelos líderes dos movimentos de SP e RJ, Senado até vai entrar numa votação pela gratuidade aos estudantes, o resto é ficar de olho). Creio que há como um mesmo grupo organizador agregar outras causas, com sub-grupos organizadores e, sem perder qualidade ou foco, transformar manifestações em MANIFESTAÇÃO. É abrir pro diálogo democrático, e tocar a bola pra frente."

Publicado no facebook em 27/06/2013

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