Olá Galera... Esse texto tava no freezer a um tempo, e eu escrevi para a quarta turma de teatro que entrou no ano de 2013 para o curso de teatro. Eu demorei a escrever porque eu escrevi para o blog do curso de Teatro, mas com o passar do tempo a idéia morreu. Também eu esperei a resposta de alguns amigos que leram antecipadamente, e me mandaram seus pareceres sobre o que eu escrevi. Geralmente os consulto quando eu toco em assuntos que envolvem citação, ou surgidos de algum tema meio delicado de se tocar, como esse aqui mistura as idéias do Antônio Severino, e opiniões minhas, decidi esperar. Boa leitura.
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Quando eu falo que faço faculdade de Teatro, se quem
ouve não faz Teatro (ou não o aprecia, mesmo que esporadicamente), faz algumas
perguntas óbvias que a gente tem de explicar direitinho, para que não haja mal-entendidos.
Bem, só pra ir direto ao ponto. Pra essas pessoas a gente sempre tem de ter a
paciência de explicar “O que é Teatro”. Mas tem também aqueles que sabem o que
é Teatro, freqüentam os teatros, pretendem ou já fazem Teatro, mas simplesmente
não sabe o porquê é importante fazer o Ensino Superior de Teatro. E isso é
muito comum inclusive em quem fez o vestibular e agora faz parte do Curso de
Teatro – o que é muito comum inclusive em outras tantas áreas do conhecimento.
A importância de explicar o porquê de se fazer o
curso superior de Teatro serve, não só para as pessoas que pretendem fazer o
curso, como para aqueles que já o fazem e, ainda assim, não se aperceberam da
importância de sua decisão no ato de inscrição para o vestibular. Explicar é
importante, também, como resposta à Comunidade Teatral do Estado do Amazonas,
visto que, a concretização do curso de Teatro na Universidade do Estado do
Amazonas é uma conquista desta mesma Comunidade, que ativamente reivindicou o
curso. No entanto, a distância entre a Universidade e a Comunidade ainda se faz
sensível, assim como é notório a desinformação da relevância da Academia.
Esse texto tem vistas de minimizar essas distâncias, e divulgar, mesmo que
minimamente, o Curso Superior de Teatro da Universidade do Estado do Amazonas.
Para responder a pergunta que intitula o texto,
primeiro é muito importante entender outra pergunta: Por que fazer Ensino
Superior?
O Ensino Superior é uma formação que, diferente das
demais (ensino infantil, fundamental e médio), não tem por única obrigação a de
transmitir conhecimentos. Pra entender o Ensino Superior, primeiro devemos
entender os demais níveis de ensino: o Ensino infantil ajuda o individuo a
desenvolver o cognitivo, o social, a motricidade... – itens essenciais ao ser; já
o ensino fundamental proporciona ao individuo a apreensão de saberes básicos
para sua relação com a sociedade e seu meio, como o domínio da língua (verbal e
não-verbal), o conhecimento dos fenômenos que os cerca, e os meios de compreende-los
e dominá-los; o ensino médio vem com igual propósito, porém, sabendo-se que o
individuo, em estado maturo suficiente, pode saber e conhecer esses fenômenos
de forma mais aprofundada, tal ensino vem preparando-os para o pleno exercício de sua
cidadania.
E o Ensino Superior?
O Ensino Superior “visa equipar o estudante com um competente domínio do
conhecimento científico, habilitá-lo tecnicamente para o exercício de uma
profissão e desenvolver nele uma consciência social, de cunho analítico e
crítico” [1].
Partindo desse pressuposto, dá pra entender que não basta receber conhecimentos
dentro da Universidade; é preciso dominar esses conhecimentos de forma crítica
e analítica, e principalmente, de forma epistemológica[2].
Mas, mais ainda, o Ensino Superior tem por função a formação de um ser político
e atuante para a transformação do meio em que vive – a sociedade.
O Teatro,
ao longo de sua história, vez ou outra se pôs a frente de diversos movimentos
sociais e políticos; também é uma arte que ao longo dos séculos fora transmitida
de geração a geração, de forma totalmente empírica. Por que então a necessidade
de cursar o Nível Superior de Teatro?
A resposta
mais ousada que se pode oferecer é que, é no Ensino Superior que se obtém as
possibilidades de estudar essa Arte de forma epistemológica, a fim de dominá-la
com competência e encontrar novos caminhos e saídas para algumas problemáticas
que a assediam. Assim, a formação de Nível Superior no campo do Teatro é
importante para a valorização da Arte enquanto conhecimento. Também possibilita
ao individuo não só o domínio das técnicas, mas a incitação de questioná-las,
reestruturá-las e transgredi-las.
Para
alcançar esses objetivos, a Universidade cumpre três papéis fundamentais para a
formação do indivíduo: O Ensino, A Pesquisa e A Extensão. O Ensino é
aquele com o qual já temos afinidade: Consiste em apreender conhecimentos já
existentes acerca do objeto de estudo, que no nosso caso, é o Teatro. É nele
que, adquirido o conhecimento suficiente, pode-se assegurar ao estudante de
Teatro o domínio das técnicas, capacitando-o e orientando-o a produzir seu
próprio conhecimento – o que chamamos de ensino-aprendizagem. Ora, no
ensino-aprendizagem, o individuo não somente obtém conhecimento, ele também o
produz, e nesse contexto entra a Pesquisa.
A Pesquisa é fundamental para a construção
do saber, pois de forma investigativa, novos caminhos, propostas e
conhecimentos são adquiridos, reformulando o conhecimento geral do campo do
Teatro. Hoje, na UEA, já estão sendo produzidos – ainda que de forma muito
tímida – pesquisas com potencialidades excelentes de estudo através do Programa de Amparo a Iniciação Científica[3],
ofertada pela Universidade do Estado do Amazonas, e pelas disciplinas[4]
que envolvem a Pesquisa. A valoração da Pesquisa é muito importante, pois ela
respalda o conhecimento do estudante de Teatro e, acima de tudo, é a resposta
que se pode dar à Sociedade de que seus investimentos na Educação Pública valem
o custo. Este é o terceiro ano que é permitido ao Curso de Teatro à
participação no Programa de Iniciação Científica, e com muita insistência, incito meus parceiros de Academia a produzirem Pesquisas que sirvam de referência para os Estudos de Teatro no
contexto Amazônico (uma vez, num bar, um amigo comentou sua pesquisa e eu fiquei meio triste por ela não buscar tocar mais aprofundadamente a realidade amazônica - mas como ainda está em desenvolvimento, aguardando a conclusão da pesquisa).
Já temos muitas pesquisas de Teatro mundo afora, mas poucas
relacionadas ao contexto da Amazônia, salva-guarda as produções existentes na
Universidade Federal do Pará, que possui seu curso de Teatro a mais de uma
década – e mesmo assim, não supre as necessidades de referenciais
bibliográficos acerca da conjuntura do Amazonas.
Essa
resposta à Sociedade é o que chamamos no Ensino Superior de Extensão. A Extensão é o elemento que
complementa o trinômio do Ensino Superior (Ensino – Pesquisa – Extensão), e que
o torna tão especial e importante na formação do indivíduo. Essa resposta à
sociedade não torna a Universidade uma instituição assistencialista, assim como
a Pesquisa não torna a Universidade um instituto de pesquisa. Essas duas
modalidades de instituição têm funções mais aprofundadas que não compete a
Universidade, mas cabe a esta utilizar-se da Extensão e da Pesquisa para a
formação política do indivíduo. É a Extensão
aquela que sustenta a Pesquisa com a práxis,
dando ao Ensino Superior sua função política ao devolver bens culturais à
sociedade que apontem caminhos para suas problemáticas. A extensão é, por
excelência, a seara da Pesquisa, conscientizando e sensibilizando o estudante
de Teatro quanto a sua posição e situação como ser social. Semana do Teatro, Mostra Plínio Marcos, Mostra de Teatro Brasileiro... são tipos de atividades de extensão importantes para sustentar a práxis dos estudantes de Teatro.
Assim, compreendemos a importância da formação
acadêmica em Teatro[5]
como fundamental contribuição ao fazer teatral na cidade de Manaus, as
produções realizadas na Universidade podem ser encaradas como possíveis
sinalizadores desta contribuição. Certamente, a atual situação dessas produções
ainda não pode ser considerada como satisfatória; no entanto, as perspectivas
que se delineiam são muito boas, garantindo mais produções tanto científicas
como artísticas.
[1] SEVERINO, A. J. Metodologia
do Trabalho Científico. 23. Ed. rev. E atualizada. – São Paulo: Cortez,
2007.
[2] Epistemologia [Do
gr. epistéme, ‘ciência’; ‘conhecimento’, + -o- + -logia.]
Substantivo – feminino: 1.Conjunto de conhecimentos que têm por objeto o
conhecimento científico, visando a explicar os seus condicionamentos (sejam
eles técnicos, históricos, ou sociais, sejam lógicos, matemáticos, ou
lingüísticos), sistematizar as suas relações, esclarecer os seus vínculos, e
avaliar os seus resultados e aplicações. [Cf. teoria do conhecimento e metodologia
(2).]
[3] Na Universidade do Estado do Amazonas é chamado de
PAIC, fomentado pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Amazonas (FAPEAM).
[4] É o segundo ano que a Disciplina “Análise dos
Espetáculos” promove a produção de artigos científicos que estudam os processos
de criação de Grupos Teatrais da cidade de Manaus. As pesquisas são baseadas
nos métodos de “Análise de Processos Criativos”, também chamado de “Crítica
Genética”.
[5] O Projeto Político Pedagógico do Curso de Teatro da
Universidade do Estado do Amazonas é uma excelente referência para se
compreender a importância do curso na cidade de Manaus. Indico a leitura.
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