quarta-feira, 10 de julho de 2013

Atores mirins, pode?

Então, galera. Mais cedo eu estava assistindo o seriado Hannibal, do canal NBC, mas exibido pela AXN aqui no Brasil, e no quarto episódio, "Oeuf" (do francês, "ovo"), aparece um caso de crianças assassinas. O assunto é bem interessante e só ele dá uma discussão bem longa, mas como eu sou do Teatro, o que me chamou mais a atenção, claro, foi o fato de CRIANÇAS estarem executando o trabalho de INTERPRETAR - mais do que isso, interpretar papéis de crianças assassinas e com tendencias sádicas e psicopatas.

A primeira coisa que eu me perguntei, foi como essas crianças entenderam o papel que elas estavam fazendo, de forma a dar vida a uma personagem tão pitoresca (inclusive tem um menino de 14 anos que interpreta um assassino bem frio e calculista, o que me deu até calafrio). Eu perguntei da professora Eneila, do curso de teatro da UEA, se havia algum tipo de publicação científica sobre o assunto, mas ela me disse que desconhecia.

Fui pesquisar na internet, primeiro meio óbvio, e eu encontrei muita coisa sobre trabalho infanto-juvenil, mas pouca coisa falando sobre atores mirins. O mais aproximado que eu encontrei foi uma dissertação da professora Sandra Regina Cavalcante, publicada no site do Tribunal Superior do Trabalho; um artigo sobre Mercado e as demandas a um público Infantil - nesse caso, o artigo fala bem sucintamente sobre a contratação de crianças para executarem papéis em comerciais televisivos; e uma monografia do curso de Direito do Centro Universitário Univates (que fala sobre questões judiciais do trabalho infantil, e que o trabalho de crianças no campo audiovisual é meio que irrelevante para a maioria dos juízes do nossos sistema Judiciário).

Tem também um artigo interessante do professor Jens Qvortrup, professor do Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia - Trondheim - que fala a respeito dos adultos (nesse caso o Governo e as sociedades civis organizadas) subestimarem a criança e protegê-la de uma formação política que poderiam, na melhor das hipóteses, dar um importantíssimo benefício ao desenvolvimento criança. Mas esse artigo em especial não vem muito ao caso, apesar de recomendar sua leitura.

A maioria das pesquisas que eu encontrei, que de alguma forma abordam a exploração ou uso consentido de crianças nos mais diversos tipos de trabalho, usam como referencial o livro Pricing the Priceless ChildThe Changing Social Value of Children, de autoria do professor Viviana Zelizer, economista e sociólogo que aborda os estudos da moral e ética no mercado - nesse livro, mais especificamente com o contexto da criança. Não encontrei esse livro traduzido para o português, mas pelo que meu arranhado inglês permitiu, tem uns trechos que ele cita o uso de crianças como mão de obra no setor artístico, joga certas críticas a esse mercado meio despreparado.

Bem, pra começar, eu não encontrei nenhuma pesquisa que relate como é o trato com atores infanto-juvenis no mercado Hollywoodiano, que é de onde saltou minhas dúvidas. E, no Brasil, como eu disse, trabalho completinho só o da professora Sandra Cavalcante. É um estudo de caso onde ela consultou 10 atores mirins, com idade entre 10 e 13 anos. Ela observou o trabalho dessas crianças, conversou com cinco profissionais do ramo artístico (a maioria produtor, ou caça-talentos) e daí seguiu seu estudo. Eu achei bem interessante, que a professora joga logo de inicio como é o cenário, que é bem aquilo que eu tinha imaginado quando me veio a dúvida sobre o assunto.

As crianças são escolhidas independente da classe social, geralmente por incentivo da mãe - ou seja, a pressão feminina me parece maior do que a masculina -, as consequências são, obviamente, recheadas de negatividades e positividades - as positivas a gente conhece, que é a melhora na autoestima, na qualidade das relações interpessoais, desinibição, etc; e as negativas são várias, e até mais que as positivas. A professora Sandra elencou algumas que nascem, principalmente, do ambiente de trabalho pautado na pressão, competição e vaidade. Ela constatou, ainda, que geralmente as leis trabalhistas são desrespeitadas, isso porque na maioria das vezes não se tem alvará judicial permitindo que aquele menor esteja trabalhando (sim, mesmo com o consentimento da mãe, sem o alvará judicial, esse tipo de trabalho é crime. Aliás, a mãe, pela lei, é quem é a primeira criminosa); e a situação piora, quando os acompanhantes familiares não podem ir às gravações e simplesmente deixam a criança ir gravar. Fora o fato que, no estudo da professora, ela não constatou nenhum tipo de trabalho pedagógico que torne o trabalho da criança algo positivo para o desenvolvimento biopsicossocial.

Bem, só com o trabalho da professora Sandra, as respostas para aquilo que eu esperava já me foram dadas, mas ainda assim, seria preciso ampliar mais esses tipos de estudo de caso para se ter uma amostragem maior, reduzindo as variáveis possíveis. 

Aí me veio as perguntas primeiras, que me levaram a escacaviar o trabalho da professora Sandra: MAS COMO INTERPRETAR UM GAROTO QUE TENTA MATAR A PRÓPRIA MÃE? COMO ISSO MEXE COM A CABEÇA DE UMA CRIANÇA DE 10 ANOS? Deu pra sacar de onde eu tirei tanta dúvida pra sair caçando pesquisas sobre? A professora Sandra propõe, inclusive, pesquisas que abordem metologias para se trabalhar com essas crianças, reduzindo a carga de consequências negativas no desenvolvimento biopsicossocial dessas crianças. Nesse caso, a gente pode partir de portos mais seguros e já mais desenvolvidos do campo das Artes, como as pesquisas sobre Arte-Educação, afinal, pesquisas que envolvem Arte e Crianças geralmente são dessa área, que mais do que provou que, como meio educacional, contribui para o desenvolvimento destas áreas afetadas quando se trata do mercado de trabalho artístico.

Mas sobre, especificamente, o trabalho infantil na Arte, pelo o que eu constatei, não tem pesquisas tão aprofundadas como deveriam ter (no caso, sobre os métodos). Por exemplo, a menininha que fez uma vilã na novela do horário nobre. Como estava seu estado psicológico antes e depois de interpretar esse papel? O ambiente de desenvolvimento da construção dessa personagem era favorável ou desfavorável ao próprio desenvolvimento individual da criança? O que eu mais me pergunto, é que o contexto dessas crianças não é de formação do subjetivo ou do cognoscente, como é o caso de uma criança inserida num grupo de teatro da escola, por exemplo. A diferença entre a menininha que faz o papel na novela, e a criança que está no grupo de teatro da escola, é que na segunda opção, os objetivos são claramente outros, supostamente assistidos por um especialista fundamentado em pesquisas sobre o desenvolvimento humano na fase infantil, e sobre a influencia do teatro nesse desenvolvimento COM CUNHO PEDAGÓGICO.

Na verdade, não se tem nem como afirmar se o mercado audiovisual tem alguma preocupação com a formação desses atores-mirins. Por exemplo: uma criança é contratada para fazer uma menina possuída pelo demônio, no filme Exorcista; em determinada cena ela se masturba com um crucifixo até sangrar, e pede para o padre, com uma gentileza demoníaca, que ele "a coma" - mantenha relações sexuais com ela. Perguntado à atriz depois daquela cena quais foram suas impressões, ela disse que achava que estava matando alguém. Que tipo de preparo essa menina recebeu do diretor de elenco, do diretor geral do filme, dos pais, e tudo mais?

No Teatro é diferente? Aqui em Manaus, por exemplo, as crianças do Cláudio Santoro são chamadas para realizar participações no Conserto de Natal. NESSE CASO, as crianças vem de uma instituição de ensino, onde supostamente recebem todo um preparo e assistência de uma equipe pedagógica, mas acho que é uma exceção. Pra falar a verdade, eu nunca ouvi falar de crianças participando de companhias de teatro em Manaus, a não ser, nas comunidades periféricas de Manaus, onde surgem pequenos grupos teatrais que aceitam a participação de crianças e adolescentes nas suas montagens. A pergunta que eu me faço, é se isso configura um trabalho, mesmo que sendo artístico. E se, por um acaso, os dirigentes desses grupos possuem alguma formação adequada de lidar com essas crianças. Talvez aí resida uma semente para alguma pesquisa e, respondendo a alguns companheiros de faculdade que possuem certo desgosto com a licenciatura, aqui talvez seja também uma seara de pesquisa interessante para o bacharelado, e não só para a área do ensino.


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LINKS DE REFERÊNCIA SOBRE O ASSUNTO:

Trabalho artístico na infância: estudo qualitativo em saúde do trabalhador (CAVALCANTE)
http://www.tst.jus.br/documents/10157/351894/Trabalho+artistico+na+infancia.pdf

Analise de estratégias de comunicação em propagandas televisivas voltadas ao publico infantil (VELOSO e outros)
http://www.ead.fea.usp.br/semead/13semead/resultado/trabalhosPDF/728.pdf

Childhood and politics (Jens Qvortrup)

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