Tito olhava para a janela que exibia uma paisagem citadina com céu vemelho e sem estrelas - sinais prenunciadores de uma noite chuvosa. Ele admirava as luzes acesas nos prédios do centro urbano formando uma constelação particular e, pensando em Amir, virou-se para Lucas, sentado à mesa com seu computador.
- Quero o divórcio.
Enquanto isso, Mateus caminhava pela passarela do parque de São Alberto fumando seu Hollywood vermelho, pensando na vida. Enquanto cruzava a passarela, avistou Pedro ou alguém parecido com ele, entre as árvores, corpo colado a de outrem, em acalorado beijo. Constatou quando aproximou-se, cauteloso: era realmente Pedro, estava sendo traído. A garota aos braços de seu amado deveria ter uns 10 anos a menos que ele, e o viço da juventude exalando pela pele. Caminhou atônito de volta para o carro, tropeçou no meio-fio da passarela, e com dificuldade, tentava encontrar as suas chaves.
Lucas gritava com Tito sobre a barbaridade que ele estaria cometendo com o casamento dos dois, tentava argumentar com seu marido afim de evitar a separação. Tito, no entanto, estava decidido, queria o fim do doentio relacionamento, apesar de pensar, na maior parte do tempo, na liberdade que teria com o amante.
Mateus tropeçava nos móveis da sala enquanto corria a esmo pela escuridão do apartamento. Chegando ao quarto, acendeu as luzes, abriu o guarda-roupa, pegou a primeira mala que viu, e se pôs a enchê-la de roupas. Lívia, sua irmã caçula, que com o casal viera morar no semestre anterior, apareceu à porta, ainda aturdida do sono, perguntando sobre o que se passava. Mateus nada respondia, só enchia a mala de roupas, sapatos, gravatas e meias.
Amir guinava a sua motocicleta pela avenida principal do seu bairro, acabara de receber uma ligação de Tito, que pedira pra ir buscar-lhe - havia acabado de pedir o divórcio, e Lucas estava chorando no quarto.
Mateus carregava a mala a tropeços, soluçando de choro enquanto explicava que Pedro estava traindo-o com uma garota bem mais nova que ele. Lívia parou chocada debaixo do arco da sala, pois sabia quem era a garota, e agora tinha a confirmação. Aturdido com as informações da irmã, se limitou a sair do apartamento dizendo que iria buscá-la no dia seguinte, até resolver o que iria fazer da vida. Desceu as escadas do prédio, e dirigiu-se para o carro, mal estacionado. Nem sequer abriu o bagageiro, simplesmente jogou a mala no banco de trás - enfiou-se na frete do volante, e saiu em disparada.
Lucas ficava perguntando freneticamente do porque do fim da relação, mas Tito se limitava a enfiar algumas poucas roupas na mochila, documentos, dinheiro, e o computador portátil. Se limitava a responder que estava saturado do casamento, e que tinha conhecido outra pessoa - alguém que lhe amava, que lhe respeitava, que pensava mais nele do que no trabalho. Lucas olhava pra janela, pensando em fazer uma besteira.
Pedro descia a avenida principal do bairro de Tito e Lucas. Caminhava de braços dados com Tatiana, amiga de Lívia. Ambas estudavam juntas na Escola Superior de Medicina do estado. Conversavam animosamente enquanto se agasalhavam um no outro do que parecia ser uma friagem fora do normal para aquela época do ano.
Amir acelerava pela mesma avenida quando um carro em alta velocidade chocou-se consigo. Praticamente não sentiu de onde viera o choque, só sentiu seu corpo ser arremessado contra o meio-fio. Sem capacete, sua cabeça bateu no meio-fio e sentiu um estalo, como o de um melão arremessado ao chão. Saia do carro em prantos ninguém menos que Mateus, que repetia constantemente o nome de Deus.
Tito olhava um alvoroço se acumular uma quadra abaixo. Um acidente de carro, talvez. Decidiu ignorar e continuar a esperar Amir. Pedro e Tatiana passavam pela rua paralela quando ouviu um grande baque sobre um carro estacionado perto do meio-fio. Era Lucas, que tinha acabado de se jogar da janela. Correram para prestar algum socorro, mas era inútil. Sem feridos, somente mortos.
Mateus gemia de desespero e choro enquanto várias pessoas se acumulavam em torno da área do acidente. Num devaneio, vislumbrou Tatiana e Pedro e, impensadamente, correu para o carro, abriu o porta-luvas e sacou um revólver. As pessoas, ao verem Mateus armado, se afastaram gritando e pedindo para que ele largasse a arma. Pedro subia no carro amassado para verificar o corpo ali inerte. Tito se aproximava, e começava a chorar, não acreditando. Um tiro soou. O segundo tiro veio logo em seguida. No tempo que Pedro teve de virar-se para Tatiana, ela já estava caída com o segundo tiro. O primeiro acertara a lataria do carro. Pedro sentiu uma agonia vir sobre si, um choque de adrenalina intenso. Mais um tiro correu, e Pedro tombou sobre Lucas, em cima do carro.
Tito só sabia ficar parado, paralisado de choque. Mais um tiro rompeu, e Mateus estava estirado no meio da rua, morto.
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