quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

PARA A LESEIRA BARÉ, NÃO BASTA DIZER BASTA...

Não poderia, de forma alguma, ficar sem me pronunciar diante aos vários discursos, falas e pensamentos que vem ecoando, aqui e acolá, entre nós, artistas e fazedores de Teatro. Porém, antes de tudo, necessito pedir perdão a algumas pessoas os quais não necessito citar nome (mas espero que se sintam citados subliminarmente ♥), sobre minha aparente ausência em relação ao Teatro de Manaus.

É de saber de todos aqueles que me cercam que, posso até ser invisível nos corredores dos teatros, e pouco participativo no que diz respeito ao convívio com a “classe artística” de Manaus, seja no fazer teatral, seja nas discussões promovidas em aberto (ou fechado) nas diversas rodas de determinados defensores de correntes ideológicas sobre o teatro feito em Manaus. Porém, devo esclarecer que jamais sou indiferente ou antagônico ao que acontece, simplesmente acompanho tudo distante e calado em conformidade com a minha inação atual.

Tenho motivos diversos para essa “ausência”, porém destaco à correria que vem a ser a minha vida após a recente entrada no Teatro de Manaus, tão brusca e de passadas largas demais: já comecei meu caminhar dentro de uma Academia, recebendo conhecimentos com grande dificuldade – o contrário do que se pensou, ou pensei um dia, de que estes conhecimentos seriam oferecidos de forma estruturada e abundante, livres e isentos do teor provinciano que constitui algumas de nossas almas manauenses. Para esclarecer melhor: essa dificuldade é apenas mais um dos frutos amargos que nós, os pioneiros que arriscaram suas vidas profissionais, financeiras e pessoais, engolimos diariamente para partilhar um tempo de seu corrido dia para uma formação que lhes assegure algum destaque futuro e, quem sabe, algum seguro de vida. Alguns de nós sobrecarregam-se com a atividade acadêmica e trabalhos secundários que lhes asseguram sua alimentação, transporte e contas pagas – e estes camaradas são, para mim, um dos motivos para que eu continue sem murmúrio: estes são verdadeiros heróis em busca de seu quinhão.

Desde o ingresso na Universidade, iniciamos um processo de desbravar e conquistar espaços que certamente serão nossa herança às gerações posteriores de artistas e fazedores de Teatro, que serão formadas nessa cidade: uma conquista por uma infra-estrutura que corresponda a um curso acadêmico de Teatro, por professores habilitados em Teatro que nos ensine e, se assim nos for possível, um Curso que venha a receber respeito por parte de todos. Logo, há outros caminhos além do de sair intitulando “os alunos da UEA” de forma conotativa, como se fossemos distantes de tudo. Muitos de nós são fazedores de Teatro como qualquer um.

Confesso que, realmente a Academia por si só não é um motivo plausível para me ausentar dos bancos dos teatros e das apresentações de quem faz teatro em Manaus, inclusive de muitos amigos meus. Devo inclusive salientar que alguns de meus camaradas de Curso formam um público muito fiel aos espetáculos que surgem na cidade, porém, minha ausência vem a se dar por um bom motivo: desde o inicio do ano, venho me envolvendo em um trabalho acadêmico que trata de um ponto pouco debatido entre nós, classe artística de Manaus, que é o Teatro na Educação básica da cidade de Manaus. Esse trabalho vem sendo construído em parceria com duas excelentes pessoas: professora Suely Barros (MSc), que adotou o Teatro em sua vida desde 2010 juntamente com todos nós que embarcamos sem pensar duas vezes nessa maravilhosa arte, e a minha queridíssima coordenadora de curso e co-orientadora Gislaine Pozzetti. Mas isso é pano pra outra manga, não vindo ao caso atual. Não totalmente, afinal, isso tem tudo haver com as falas que se seguem.

O fato é que, no ano de 2010, ao término do sétimo Festival de Teatro da Amazônia, escrevi um texto em um dos meus sites de postagem de texto, levantando questionamentos acerca da estrutura do Festival de Teatro da Amazônia e sua confusa nomenclatura que vinha abarcando todos os estados e países da Amazônia Legal e Internacional, porém aparentemente pouco participativos. Ano passado, emocionei-me com uma fala que muito me marcou: “Esse prêmio, para mim, é uma conquista política” (quem se lembra disso? Essa fala diz muito).

Certamente, minha euforia de um recém-nascido na arte teatral foi bastante à frente de minha língua, e isso me trouxe conseqüências sérias que hoje só me servem de aprendizado. Após ser questionado sobre minha ácida escrita em uma reunião, e com toda a razão, fiz-me crer que eu deveria me calar forçadamente – e assim o fiz, mas não totalmente. Passaram-se um ano entre um Festival e outro, e os ecos de 2010 ainda soam – que bom, afinal isso me faz supor que ainda há reflexões em cima do texto. No entanto, no decorrer deste tempo, ainda permaneço da mesma forma que um ano atrás: de um jeito ou outro, me pronuncio (em sussurros) prontamente sobre o que acontece no entorno da Grande Casa de Ópera, onde parece orbitar todo o fazer e pensar teatral de Manaus.

Meus ouvidos sempre se mantiveram atentos aos murmúrios dos corredores neoclássicos. Termina mais um Festival... e o que mudou?

Vibrei, antes do Festival, ao ler o edital e saber que um dos principais fatores fomentadores de discórdia entre nós, havia sido abolido: o dinheiro acompanhado do troféu. Vibrei mais ainda, quando vi maior participação dos outros estados que constituem a Amazônia legal. E quase tive um infarto de tanta euforia quando vi “Não há indicações” – claro, o tapa na cara também senti, o infarto veio só depois. Mas ao acordar na segunda-feira, imaginei o porvir de tantas novidades. Recorri imediatamente aos meus mestres, aqueles que me adotaram no Teatro, e a fala (sobre o prêmio em dinheiro, maior participação de outros Estados, e o “Não há Indicações”) não foi muito diferente da minha – ainda bem. No entanto, é claro, eles também já sentiam o mesmo que eu.

O “porvir de tantas novidades” não tardou. No mesmo dia que acordei pensando neste porvir, li em minha caixa de email um grande amigo meu parabenizando um texto que estava ganhando destaque na internet por nós, artistas. Não soube o que pensar: será que alguém cometeu o mesmo erro este ano, que eu já não o tenha cometido ano passado? Li o autor. Aliviei-me, era justamente uma das pessoas que estavam no ano passado na mesma reunião dita anteriormente. Ao ler o texto, no entanto, cantei tão logo a vitória no trecho “O tempo passou… e já temos muitos adeptos. Graças a Baco!”.

Realmente, pessoas que discordam da estrutura do Festival, de como se segue o Teatro de Manaus, sempre teve. O que não tinha, eram pessoas que falassem abertamente, que escancarassem e servissem de unificadores das demais vozes. Agora, os sussurros juntos formam um grito – potente e estrondoso, que nem as muralhas de Jericó iriam agüentar: DIGA BASTA A LESEIRA BARÉ NO TEATRO DE MANAUS. Esperei uma semana, li textos e textos que vinham sendo postados quase que em seqüência e, agora que a poeira parece ter baixado um pouco, vim pronunciar-me.

Começo não querendo dar uma de inocente que levanta e aplaude o primeiro discurso que aparece. Começo perguntando: Por que só agora se anuncia um discurso assim, prometendo mudanças, com protestos menos tímidos... Por que só agora tantos discursos abertos? É curioso o fato destas falas começarem a surgir em um momento que coincidi com a chegada da eleição para a direção da Federação de Teatro do Amazonas – e não me refiro a um discurso exclusivo. Eu ainda me mantenho distante, ainda sou um recém-nascido no Teatro. Já aprendi a falar, estou começando a aprender a andar. Mas se tem uma coisa que sempre mantive o pé atrás, como um democrata de centro que sou, é para com os discursos belos próximos de Eleições. Diante das possíveis pré-candidaturas, o que me resta dizer é:

A próxima administração da Federação de Teatro do Amazonas terá sérios desafios pela frente, destaco alguns, como a necessidade de, desde já, interferir como lhe cabe, numa luta por reestruturação de algumas bases que constituem e fomentam o Teatro em Manaus – mas fazer isto, consciente de que estará influenciando as próximas décadas, mexendo profundamente na História.

Antes de tudo, aquele que assumir a administração da Federação nessas eleições, deve acirrar mais a busca por uma maior autonomia diante da Secretaria de Cultura do Estado. O Teatro, na História da Humanidade, algumas vezes teve relações amorosas com o poder, mas as conseqüências disto nunca foram tão boas. Vale lembrar: era esse mesmo Teatro que algumas sociedades modernas utilizaram como baluarte contra esse mesmo poder – embasadas de razão, ou não. O Teatro sempre foi a vanguarda desses movimentos, e hoje, em Manaus, não é muito diferente: somos, diante de todas as outras ordens (músicos, cineastas, etc.), aquela que vem a ser a mais autônoma diante da Secretaria. Somos o exemplo, mas não estamos sabendo o ser – aliás, alguém sabia que somos exemplo? Não se pode nem recuar, nem ficar parado, e sim ser Teatro: um movimento pulsante e contínuo.

Um segundo desafio, que acredito necessário ser vencido pela próxima administração da FETAM – para REALMENTE dar-se um ponta-pé inicial para o fomento de um ‘novo’ Teatro em Manaus –, é participar de forma mais ativa nas decisões do Estado quanto aos centros de formação de atores e fazedores de teatro. Mas participar de forma ativa num sentido completo: cobrando transparência com os gastos públicos destes Liceus, Programas e Projetos (nós, quanto artistas somos pessoas públicas, formadores de opinião, representantes das massas e tão logo, temos uma responsabilidade social não só como artistas, mas como cidadãos) e reivindicando um processo seletivo, baseado na avaliação da capacidade pedagógica destes formadores, cobrando pessoas habilitadas para formarem as novas gerações dos fazedores de Teatro nestes espaços. Esse processo é, em minha opinião, o mais complicado pelos seguintes motivos: 1. Nossa Ordem não pode simplesmente descartar os mestres que temos, por isso, faz-se necessário, urgentemente, fomentar a formação dos artistas que já temos, habilitando-os a dar aula nos vários espaços que nos são oferecidos, ou incentivando-os na busca de uma formação. 2. A Federação precisa se aliar fortemente à Universidade do Estado do Amazonas – que vem a ser representada pela professora Gislaine Pozzetti (sempre prestativa, e receptiva à Federação) – nas lutas que tanto a primeira, quanto a segunda turma vem encarando (e muito provavelmente a terceira também virá a encarar).

Já disse antes, mas vale reforçar. Esses alunos, ao qual me incluo, sofrem com falta de infra-estrutura adequada para funcionar o Curso plenamente, para receber novas turmas, e para oferecer um mínimo de oportunidade para que estes formem novos conteúdos de relevante contribuição ao Teatro Amazônico (se não fosse a professora Suely e a professora Gislaine, eu ainda estaria em busca de orientadores).

Lembrando tão somente, que esses mesmos alunos que desbravam e angariam conquistas para todos, serão os futuros profissionais habilitados a formarem novas gerações – não só de atores, figurinistas, cenógrafos, maquiadores, iluminadores, etc., mas a formar novas gerações de formadores de artistas de Teatro. Sob aviso de uma amiga-mestra, eu ia deixar de lançar uma fala acerca desta questão de “projeções futuras”, mas não consegui, por acreditar ser importante dizer que: Se querem tanto que se “Diga basta a leseira baré no teatro de Manaus”, então que se diga BASTA DE PASSAR A TRADIÇÃO DA LESEIRA BARÉ ÀS PRÓXIMAS GERAÇÕES. Não adianta, de forma alguma, criticar o hoje, e permitir que ele continue no amanhã, permitindo que se tenha dentro destes centros de formação, transmissores desta tradição que cada dia mais vem se tornando obsoleta, debatendo-se frenética diante seu destino.

Quem for assumir a administração da Federação, vai ter a grande tarefa de corrigir os erros do passado não tão distante. Se o Festival de Teatro da Amazônia vem sendo o fomentador da mesquinhez, como tanto se diz, então apoio a fragmentação deste: começando pela abolição do prêmio, e o cultivo da reunião de todos para tão somente apreciar o Teatro que se faz em Manaus, ou deliberar um maior poder aos jurados – assim como é feito pelo Breves Cenas. A próxima administração deve incentivar quem vem “de fora” (atores, grupos e companhias de Teatro dos demais Estados da Amazônia Legal) – através de intensa divulgação pelos vários meios de comunicação que temos com estes. Precisamos ver aqui, o que eles fazem lá, afinal, nós passamos tempo demais assistindo a nós mesmos. Faz-se necessário ter maior contato com o exógeno para apreender e absorver novidades, para então imbricá-las à nossa realidade, e sair da mesmice. Seria numa situação de falta de espaço, que provavelmente alguns acordariam para a nova realidade que se instaura: a de que SER ARTISTA PODE ATÉ SER SUBVERSIVO, MAS SER SUBVERSIVO NÃO QUER DIZER SER IRRESPONSÁVEL.

Quem assumir a administração da Federação de Teatro do Amazonas terá tantos desafios pela frente que, será nesse momento que eu quero ver se os sussurros ainda estarão juntos, formando o grito de protesto. Mais ainda, quero ver se esse grito será capaz o suficiente para, em dois anos, quebrar a muralha de Jericó que forma a barreira da “leseira baré” de Manaus.

Iago Luniére - Acadêmico de Teatro.

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