quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Lote 90-00: o vazio da geração Y.

Totalmente perdido no meu tempo, nunca consegui compreender o que aconteceu com meus contemporâneos acerca dos movimentos sociais e culturais e o que me parece ser uma perca de mobilização da atual juventude em diversas questões (social, político, cultural e, por conseqüência, artístico e estético) quando se faz um comparativo das gerações Y e Z com as anteriores.

Movimento, segundo o poeta e crítico de arte, Ferreira Gullar, é um fenômeno exclusivo do século XX: quando se escrevia um manifesto, conquistavam-se adeptos e lutava-se pela causa proposta. No entanto, abrangendo seu significado além da perspectiva das artes plásticas – ao qual Ferreira Gullar se utilizou em seu comentário –, podemos perceber que a partir da segunda metade do século passado, mais precisamente já no seu fim, a escrita de manifestos já não era notada – ou era inexistente –, mas a luta por causas era evidente. A luta por um ideal foi a marca dentro deste período do século passado e, por conseguinte, faz-me crer que não podemos dissociar movimento de ideologia.

Revendo a historia da estética e dos movimentos sociais, podemos notar um vasto leque de movimentos que marcou o século XX (punks, mods, skinhead, heavies, rockers, etc.) e, a considerar a peculiar estética de cada um destes movimentos, podemos associá-la à herança pós-moderna que até então revolucionava os campos da literatura, da arquitetura, da moda, das comunicações e da produção cultural. (OBS: Devo salientar que, numa perspectiva da antropologia urbana, o que chamo aqui de movimento é na verdade chamado cultura juvenil, reconhecido pela mídia sob outro termo: tribos sociais. Como não se trata de um trabalho acadêmico, não me aterei à norma).

No entanto, os questionamentos a que me levo é: qual o passo que demos para o século XXI e, qual o significado deste passo – sua ideologia? Quando questionei a meu pai sobre o que, para ele, fora a década de 1990, ele me respondeu simplesmente: “Nada demais!”. Eu me recusei a acreditar naquilo que me dizia, mas sempre tive a noção – em parte salientada por ele – que em sua juventude, na década de 1970-80, havia entre a juventude mais manifestações, mais lutas por um ideal, do que ele pôde ver na década de 1990. Logo, o que ele quis dizer com “Nada demais!” quando lhe perguntei sobre 1990?

A resposta veio algum tempo depois, quando já tinha entrado na Universidade: um de meus professores de Literatura Dramática nos disse em dado momento, quando falávamos do século XX: “Como podíamos competir com Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Tom Jobim? Como revolucionar a obra deles?”. Perdidos, seja talvez a palavra mais associada àquele momento marcado pela ruptura da ditadura, do nascimento do regime democrático e a queda da bipolaridade mundial. Quando Cazuza cantou “Ideologia, eu quero uma para viver”, mesmo tendo sido uma época antes da minha, arrisco-me a dizer: possivelmente, ele retratou muitos jovens daquele momento, perdidos e sem ideologia.

Desde minha adolescência, sempre me questionei porque meus tios veneravam Kurt Cobain, e o que os atraia àquela figura frustrada, de fim tão trágico que fora seu suicídio. Só hoje vim a compreender que meus tios eram daquela geração igualmente frustrada, e viram em Cobain seu retrato. Hoje, o movimento Grunge vem a ser, para mim, o retrato da década de 1990. E em meio a essa constatação, me questiono qual foi o passo que demos a seguir? Que papel nós, geração que nasceu nesta década, desempenhamos na década seguinte?

Certamente esse vazio, incompreensível na década de 1990, se arrastou aos dias de hoje – embora não perceptível –, diferenciando apenas num ponto: não vivemos mais no vazio como Cobain, mas talvez como Cazuza – sabemos dele, pronunciamos, e buscamos uma ideologia para viver, para preencher esse vazio. Ainda ouso dizer que Renato Russo, com certeza, revolucionou seu tempo e viu muito além do que os outros, se tornou um marco. Ele sim era o retrato brasileiro desse vazio, mas nunca passivo – fora para todos nós, o movimento pulsante da busca pelo novo e pelo que vinha.

Hoje, não consigo dissociar a década de 2000 do movimento emocore – além de tantos outros que tangiam para o mesmo ponto, o vazio. O que nós, jovens desta época, quisemos dizer com este movimento? O que essa geração, herdeira do vazio de 90, revolucionou? Certamente, Década de 0 é altamente apropriado para definir essa década de vazio - zero, nada, vácuo, vazio.

Relembrando hoje, posso perceber o que, para mim, foi esse momento. Certamente nossos filhos e netos responderão com mais clareza e certeza, mas este momento foi o auge de uma juventude torturada por este vazio, desorientada e perdida. Quando, nos meus quinze anos eu escutava as pejorativas lançadas à este movimento como um agrupamento de adolescentes homossexuais, ou jovens chorões, me levo a compreender, hoje, o que tudo significava. Era uma geração não só torturada pelo vazio, herdada da década anterior, mas uma geração que estava se descobrindo, talvez prestes a encontrar o seu caminho, mas reprimida socialmente, de modo a se esconder em em praças e shoppings, transformando-os em seus nichos particulares (não uma novidade, os punks já o faziam e movimentos antes deles).

Mas tudo incide em movimento, em mutação. Hoje, vejo constantemente um movimento pulsante por diversas causas (sustentabilidade, reforma política, direitos civis, etc.) e começo a o projetar o porvir e, quem sabe, acompanhá-lo. Novos movimentos estão surgindo, novas estéticas, novas correntes de pensamento. A geração Z, completamente nativo-cibernética, sempre conectada, começa a trazer o prenúncio de novos tempos. Indies, screamos, Straight edge, etc., todos começam a traçar não um retrato do hoje, mas juntos constituem um movimento que prenuncia mudança, o nascimento de um grande evento colhido, quem sabe, por nossos filhos ou netos.

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