quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os vários espetáculos de Jorge Bandeira

Para aqueles que na sua sexta-feira nada tem a fazer entre as 19:00hs e 21:00hs sugiro, sinceramente, que busque dar um pulo no Casarão de Idéias, na rua Monsenhor Coutinho, 175, Centro (próximo à esquina com a av. Epaminondas) para assistir ao espetáculo As 22 lâminas, de Jorge Bandeira, que também atua acompanhado das atrizes Amanda Magaiver e Iana Borges, com assistência de direção de Edy Gusmão e recepção do simpático Alex Lima.

Simplesmente sensacional, do momento de chegada, onde a taróloga Anmara Ma Gyan lê as cartas para quem desejar, até a exposição de fotografia que ocorre no salão onde fica a simpática taróloga. O espaço do Casarão de Idéias é sempre aconchegante para os amigos e exibe, em seu porão, o mais sensacional espetáculo a ser assistido muitas vezes além de uma. Em sua sexta exibição, As 22 lâminas mostrou no dia 25/11 cinco cartas, das vinte e duas que completam o tarot: A Torre, a Força, o Sol, a Papisa e o Imperador. Mas antes que se fale mais do espetáculo, vale explicar alguns pontos que, para os desavisados, pode gerar dúvidas, incompreensões, e até mesmo desapontamento ao entrar esperando assistir algo e encontrando, porém, uma peça um tanto diferente do esperado.

O primeiro ponto a esclarecer, é que a peça As 22 lâminas por ser pautada no Tarot, já sinaliza que ela difere do que estamos acostumados a ver o tempo todo nos teatros. Sempre fui bastante atraído pela cultura das cartas, seus ricos significEados e símbolos, e depois de adquirir um baralho de Marselha e um baralho Cigano, meus momentos de ócio ou tédio são sempre entregues às cartas. Por isso, para mim fora um momento maravilhoso e místico assistir à peça de Jorge Bandeira. É curioso como, cada carta, possui tantos símbolos ao qual seria uma delícia qualquer estudioso da semiótica se debruçar para estudar. Mais curioso ainda é o fato de que cada símbolo de determinada carta pode, de forma tão simples, aliar-se a outro símbolo de outra carta e trazer novos significados que, para alguns, são respostas do passado, do presente ou do futuro.

Para quem não conhece o Tarot e tem aquele preconceito concebido pelas mídias, trata-se um baralho que, acredita-se, ter sido criado no antigo Egito por um poderoso sacerdote que o chamou de “os 22 caminhos”, que cruzando o tempo foi incorporando diversos outros símbolos de determinadas culturas, ganhando grande repercussão após as pinturas feitas em Marselha para um novo baralho, incorporando até mesmo os símbolos do Cristianismo, evitando assim a perseguição da Inquisição – alguns exemplos de cartas que incorporaram grandiosamente os símbolos cristãos são as cartas o Papa, a Papisa, O Diabo, entre outros). Além dos 22 arcanos maiores (O mago, A Papisa, a Imperatriz, O Imperador, O Papa, Os Enamorados, O Carro, A Justiça, O Ermitão, A Roda da Fortuna, A Força, O Enforcado, A Morte, A Temperança, O Diabo, A Torre, A Estrela, O Sol, O Julgamento, O Mundo e O Louco) existem também os arcanos menores, que são as cartas de naipe, que não por um acaso, se popularizaram e se transformaram num famoso baralho de jogo muito utilizado para o poker, e o famoso pif-paf – que no Tarot Cigano ganham nomes como Inveja, A âncora, Os Peixes, A Montanha, e por aí vai.

A cultura das cartas é por si só complexa demais, não cabendo aqui longa explicação. Eu mesmo descubro coisas novas todas as vezes que jogo, ou leio sobre o assunto – e creio ser valioso os ensinamentos que se pode aprender para aqueles que se dispõe crer.

Jorge Bandeira fora brilhante ao propor um espetáculo de Teatro pautado nos Grandes Arcanos. Por si só, cada carta é um prato tão cheio de símbolos e elementos que, não seria surpresa cada carta gerar pelo menos um espetáculo de Teatro. No entanto, apropriando-se destes símbolos, Jorge Bandeira criou cenas inteiras em cima de cada carta e foi além: o público seleciona aleatoriamente uma carta virada para baixo, e sem saber acaba de determinar qual cena será encenada. Como dito anteriormente, o espetáculo do dia 25/11 exibiu as cartas A Torre, a Força, o Sol, a Papisa e o Imperador, mas sobre isso, saliento algo surpreendente que ocorreu de forma muita mística: eu fui o quinto espectador a escolher a carta, que fora o Imperador.

No momento que o ator me ofereceu o leque de cartas para, dentre elas, eu selecionar uma, senti um calafrio inexplicável. Escolhi qualquer uma sem pensar muito. Aquele foi um dos momentos que, para mim, foi o ápice do misticismo: não por um acaso, a carta que veio fora a do Imperador, uma das cartas que me representa (além do Mago, do Ermitão e da Torre) e, tão logo, senti que ali estava ocorrendo algo muito além de um grande espetáculo, estava também presenciando um ritual ao qual o fazedor de teatro Iago, não era o sujeito certo a estar ali, mas sim o individuo Iago, sem especificidades, sem rótulos, sem preconceitos, sem defesas...

Fiquei imaginando, depois de sair do Teatro, em todas as possibilidades: são onze espetáculos, em cada um apresentam-se cinco cartas que o público escolhe aleatoriamente (podendo ocorrer, claro, repetições de cartas) e, em cálculos imprecisos, isso significa que existem mais de 3 milhões de combinações possíveis*, representando 3,2 milhões de espetáculos diferentes que podem surgir. Só aí, o espetáculo As 22 lâminas ganha um merecimento de ser assistido constantemente, em todas as sessões, em todas as sextas. Parabenizo aos atores que aceitaram o desafio de interpretar onze espetáculos de possíveis três milhões de textos – isso não é para qualquer um.

Mais uma vez insisto em dizer: na próxima sexta-feira, não deixem de assistir ao espetáculo As 22 lâminas, escrito por Jorge Bandeira, e encenado pelo grupo Teatro Éden e Coletivo Artístico Graúna, no espaço cultural Casarão de Idéias, na rua Monsenhor Coutinho, 175, Centro (próximo à esquina com a av. Epaminondas), à partir 19:30hs (mas aconselho irem mais cedo, porque a casa lota), ao preço de 10R$ (inteira) e para estudantes ao preço de 5R$, com temporada até o dia 30 de dezembro deste ano.

Iago Luniére

Nenhum comentário:

Postar um comentário