Hoje foi o dia em que optei, oficialmente, pela licenciatura e, nas minhas dúvidas se era esse o caminho que eu gostaria de seguir, tive as mais sublimes provas que era isso o que eu deveria fazer. Acordei e fui visitar a Lúcia Ramalho, limpei o pátio dela como de costume e fumei um cigarro, pensando que estava prestes a oficializar uma caminhada nova na minha vida. Visitei meu pai, e o vi na cozinha preparando alguma coisa ao qual não prestei atenção. Dei carinho aos meus cães e, em cada singelo momento como estes, ficava pensando no que estava prestes à acontecer. Tomei um ônibus e tive um dos maiores aprendizados que já pude presenciar.
Em determinado ponto do trajeto daquele ônibus, todos os acentos já estavam ocupados, à exceção de três, que eram os preferenciais. Vi, antes de o ônibus fazer a curva, uma senhora correndo para chegar ao ponto de ônibus antes que passássemos por lá, e carregava um menino, que devia ter não mais que cinco anos de idade, e puxava com a outra mão uma menina que não devia ter mais que sete anos. O motorista, muito gentil, parou e abriu a porta, tornando desnecessária a corrida. A menina, astuta, tomou a frente da mãe e entrou ligeira, perscrutando imediatamente todo o ônibus atrás de seu preferido assento próximo à janela. Ela viu os três assentos livres, um próximo à janela e outros dois no corredor. Sentou-se perto da janela contente, como se tivesse feito a maior conquista de sua vida.
Quando seu irmão viu aquilo, começou a insinuar um choro, fazendo birra e querendo sentar-se à janela. A mãe, com um ar repreensivo, mandou que a menina cede-se o lugar ao irmão, e esta, com um carinha triste que deixava o meu coração miúdo, ficou no corredor, em pé, enquanto a mãe sentava-se ao lado de seu irmãozinho. Fiquei curioso, pelo fato da menina não derramar uma lágrima. Via-se que ela estava terrivelmente triste, tiraram-lhe sua conquista, sua maior conquista – queria chorar, eu via isso, mas ela não se permitiu. Pensei naquele momento: “essa criança acaba de descobrir que no mundo existe injustiça”, e fiquei triste por isso. Havia ainda um acento do lado do corredor, e no banco ao lado, sentada estava uma senhora de avançada idade. Esta senhora, com as mãos frágeis tocou o ombro da menininha, afastou-se para o acento próximo ao corredor, e ofereceu-lhes o acento que antes ocupava, próximo à janela, e mais alto que o acento que sua mãe e o irmão ocupavam.
Meu coração ficou leve, contente. Pensei: “Agora ela sabe, que apesar das injustiças, existem recompensas pelos nossos esforços, tardios ou não”. A menina, virou-se para a senhora e agradeceu-lhe, como se tivesse ganhado um lindo presente, e aí entendi: “A menina está aprendendo, que apesar de existir injustiças no mundo, existe a gentileza e a solidariedade”.
Essa história parece não ter muito haver com o fato de ter-me decidido por educar, mas ali, eu percebi, que crianças aprendem a toda hora, e que ela precisava entender, que o que ela passou com o irmão tinha um nome conceitual, chamado Injustiça, e que o ato daquela senhora bondosa, se chamava Gentileza. Aquela garotinha precisava de alguém para dizer-lhe que ela aprendeu, na prática, que ela nunca deve desistir do que quer, que ela era a garota mais inteligente do mundo em ter descoberto, sozinha, que podia conseguir o que tanto queria pensando de forma inteligente, e correndo na frente para ser a primeira.
Minhas dúvidas se dissiparam naquele acento de ônibus, fui a viagem inteira olhando para a menininha contente, que via a cidade, que olhava para as árvores, que sentia o vento frio de um dia nublado no rosto, que saboreava os sons, as pessoas nas calçadas, descobrindo um mundo completamente novo. Fui, fiz minha opção de modalidade para Licenciatura, e sai sem peso algum na consciência de que o que eu estava fazendo, era obedecendo um chamado, uma missão. Nunca me esquecerei do rosto daquela menininha que se negou a chorar, mas que encarou a injustiça que lhes impuseram.
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