segunda-feira, 28 de março de 2016

A cúmplice Segunda Face.

Fonte: Fan Page do grupo Ateliê 23.



Existe um relógio. Esse relógio, defeituoso, mostra horas de modo estranho, talvez errado, e as pessoas que se guiam por este aparelho, planejam suas vidas, mediam suas ações, calculam suas palavras e seus relacionamentos. Alguém, porém, notou o erro deste tipo de relógio. Ninguém sabe quem foi essa pessoa, talvez um relojoeiro com uma visão bastante crítica sobre como deve ser um bom relógio e, outras pessoas, notando também o erro depois de avisadas pelo anônimo relojoeiro, decidiram concertar de alguma maneira tais aparelhos medidores do tempo. O grupo Ateliê 23 pode ser considerado um corajoso grupo que decidiu mexer nesse maquinário. Com seu primeiro espetáculo, o Persona - Face um, assistimos a uma tentativa de mexer nesse relógio. Com explosivo plástico C4 e dinamite, esse espetáculo nos expôs, demonstrou que estávamos pautando-nos na hora errada, no tempo errado, num relógio quebrado. O segundo espetáculo, porém, Persona - Face Dois, toma as peças explodidas e remontam o aparelho com uma precisão de relojoeiro, com uma ironia, técnica e refinamento elegante ante um tema que não está mais sendo engolfado pelo silêncio.

Esta crítica não se direciona a um espectador desconhecido. O lugar desta crítica parte daquele que acompanhou o processo de debate criativo proposto pelos artistas Daniel Braz, Ediel Castro, Eric Lima, Fabiele Vieira, Isabela Catão, Larissa Rufino, Laury Gitana e Taciano Soares sobre a questão da transsexualidade - (bosta!). O espetáculo não se desvincula do trabalho anterior do grupo, e por isto, a crítica é remetida aos que já estão iniciados no debate. Refletir a Face Dois isoladamente é incorrer em posicionamentos injustos.

As palavras sarcasmo e ironia, isoladas, não dão conta da sutileza com que foram trabalhadas neste espetáculo, mesmo quando o escracho é utilizado. É neste ponto que a percepção da obra pode se tornar injusta para quem não acompanhou a primeira face. Ver atores cisgêneros operando este tipo de humor que põe em dúvida o riso pode causar um impacto inicial, fazendo com que julgamentos precipitados os tirem do lugar de debatedores da opressão para o lugar de opressores. Este, talvez, é o ponto que mais tenha me preocupado: numa sociedade que está tão polarizada e ressentida, essa percepção pode parecer justa. Resguardada esta eventual confusão, a segunda face sorri com intimidade, sarcástica, confidente, cúmplice.

Enquanto a primeira face explodia todas as peças de nosso maquinário de conceitos e percepções, a segunda face é um convite a reconhecermos, por nós mesmos, que o relógio está muito defeituoso, dando um riso na boca e um aperto no peito de arrependimento por rir. Este tipo de efeito é elegante, sutil, desmascara - mesmo quando achamos que tiramos a máscara. Esse jogo de trapaça, que flagra a calça arriada, é embalada por uma musicalidade corpórea. O espetáculo também demonstra a potencia teatral que tem se tornado o grupo Ateliê 23 no Amazonas no que tange à questão da pesquisa e da técnica. A questão da técnica é ousada, mesmo que ouvidos mais sensíveis sintam os arranhos ocorridos aqui e ali causados por problemas de musicalidade - mas, ainda assim, a considerar a ousadia e a qualidade, os arranhos não passam a ser mais do que são: arranhos (leves, sutis).

Ironia, Sarcasmo, Leveza, Lucidez no diálogo. Tudo isto fica bastante evidente também no cenário e figurino, brancos, alvos, claros. Primeiro, seguindo um oposto completo à paleta barroca do primeiro espetáculo, envolvidas de negrume. Porém, todo este branco é uma demonstração simbólica de que a segunda face propõe um debate elevado, que puxa para si perspectivas muito espinhosas - é preciso estarmos bastante abertos para este debate, sermos página branca. Só assim podemos perceber como seria um mundo onde a questão de (identidade) gênero é o menor de nossos problemas, em que corpos não comunicam mais as identidades, e as relações entre eles não tem regras e pode ser bastante randômica. Mesmo o mais consciente acerca da questão de identidade de gênero fica com tela azul quando vislumbra uma mulher trans, interpretado por ator homem cis, que sente tesão por um homem trans, interpretado por uma mulher cis. Este tipo de relação, tão oculta, tão inimaginável por nossa tão cara moralidade, revela a nossa incapacidade de perceber (ou imaginar) a grandiosa diversidade no mundo - amplia nossa visão de mundo, transforma.

Para aqueles que acharam que o debate havia morrido num fuzilamento dentro de uma casa abandonada e escura, ledo engano, viram somente a primeira face - a segunda, teima em gritar. A segunda está sorridente e à mostra todos os sábados, às 20h, no espaço do Ateliê 23, na r. Tapajós, 166, Centro. Direção de Taciano Soares, equipe técnica com Ediel Castro, Laury Gitana e Fabiele Vieira, e atuação de Larissa Rufino, Isabela Catão, Daniel Braz e Eric Lima. Esta crítica se importa em informar que este espetáculo recebeu, por meio de edital, patrocínio público da Prefeitura de Manaus, por meio da Manauscult. Esta informação é para que os moradores de Manaus saibam que seus impostos foram muito bem aplicados no grupo Ateliê 23, que com este espetáculo faz jus à sua responsabilidade social (e ética) em relação ao erário público - exemplo que esperamos multiplicar-se no Teatro de Manaus.

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Iago Lunière - acadêmico de teatro que considera seriamente os efeitos de uma possível abstenção de nicotina e cafeína. Atualmente segue em busca da bolinha do cachorro perdido debaixo de algum móvel.

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