terça-feira, 10 de maio de 2016

Ética, ethos, teatro... Precisamos sentar pra conversar

Grandes temas tem girado em torno das discussões sobre o teatro em Manaus. É importante citar a necessidade de mais pesquisas que desmistifiquem algumas conclusões que repetimos como jargão para o quadro geral da cena manauara, e assim, conhecendo mais, saberemos se estão certas estas constatações sociais, políticas e econômicas do nosso cenário. Por exemplo, falamos muito acerca de uma abertura a novas estratégias de incentivo cultural por parte do poder público (estadual e municipal), mas que estratégias seriam estas? Será que elas dariam conta de um fenômeno manauara particular da última década, que é a abertura de espaços culturais fora do poder público? Porém, creio que todas estas discussões vêm a esbarrar com uma temática mais preliminar e urgente de se por em pauta: a ética/ethos da comunidade artística na cidade de Manaus.

Apesar do termo ética derivar do termo ethos (que no grego trata do caráter moral), atualmente essas palavras são um pouco desassociadas, dependendo da área de que é tratada. Aqui, assumo o ethos utilizado na antropologia, que trata dos hábitos e costumes, do comportamento que define um grupo - e, quanto a ética, tratemos como conjunto de princípios e valores morais.

É bastante delicado tratar dessas temáticas. Delicado, pois falar de ética e ethos na classe artística de Manaus torna-se debate escabroso quando esta comunidade é tão heterogênea e volátil. É difícil definirmos um grupo quando não o conhecemos sem isenções. A supracitada carência de pesquisas seriam interessantes para, conhecendo e descrevendo este grupo com o máximo de reservas, possamos destrinchar caminhos e debates diversos.

O curso de teatro da Universidade do Estado do Amazonas tem dado algumas contribuições nesse sentido, mesmo que de forma tímida. Não é difícil encontrar um trabalho que, em algum momento, esbarra com um dilema ético em processos criativos, como é o caso dos trabalhos que analisam processos criativos.

Quando o teatro em Manaus têm sofrido intensos ataques por diversas frentes (seja pela censura que se avoluma na academia, ou nos cortes de verbas e políticas públicas que afetam a produção local) e as reações parecem ser poucas ou quase ineficazes, especificamente quando os desacordos quanto ao ethos são postos à mesa, desarticulando defensivas, precisamos articular movimentos fortes de práticas éticas como necessidade de sobrevivência, e essa discussão não pode permanecer velha, mas aplicada.

Mas de que posturas (ethos) estaríamos falando, afinal, de que modo adotá-las e, portanto, assumi-las como modelo para garantir mudanças na cena teatral local? Para não falar das práticas antiéticas (evitemos por ora o termo criminosa) do uso indevido ou inapropriado das verbas públicas liberadas para o fomento da Arte. Foi triste saber da constatação de um colega de pesquisa que, ao debruçar-se sobre seu objeto de estudo (um grupo local), averiguou que o mesmo, apesar de ter recebido incentivos financeiros, pouco se dedicavam ao seu processo criativo, mantinham posturas de irresponsabilidade não só para com a arte da cena, mas para com o dinheiro público investido. Não é difícil lembrarmos de alguns grupos que, mantenedores de uma prática dedicada, não possuem acesso a tais verbas e, portanto, traçamos aqui um parâmetro para questionamentos: ora, por que a verba não tem sido direcionada ao grupo que melhor faria uso?

E como teríamos acesso a este relato, à estes casos? A abertura das companhias às investigações críticas de iniciativa acadêmica tem sido reveladora destes casos. Primeiro, que a presença de um estranho no processo criativo impõe a necessidade do grupo apresentar alguma seriedade, algum método, alguma coisa diferente de teatro por hobby e menos amador. Mas o mais interessante, são as relações de poder expostas. Será preciso, em algum momento, por exemplo, o fim da lógica de "começar pela coxia" que alguns grupos impõe aos seus atores mais jovens.

Em certa ocasião, aguardando o inicio de um espetáculo, um senhor veio me questionar porque os alunos da UEA são tão, segundo suas palavras, boçais. Cobram cachê desde o inicio, querem saber como será a divisão do recebimento do "prêmio", e por aí vai. De fato, ele não falou para mim, mas a um outro senhor sentado ao meu lado, mas fez questão de falar em alto e bom tom, comigo entre os dois. Hoje, lamento não ter respondido. Porque ser boçal, ao que parece, é ser um profissional como outro qualquer, que quer ter todos os termos de seu exercício de função devidamente esclarecidos entre ambas as partes - isto não seria uma postura ética, portanto?

Este é, ao meu ver, uma discussão ética que devemos entrar. E isto nada tem a ver somente com a questão teatral, mas lembremos dos constantes castings que são divulgados em grupos do facebook, pedindo atores e atrizes de toda ordem e característica, com cachês de R$ 100,00 (cem reais) para ter sua imagem veiculada em comerciais televisivos por tempo indeterminado. Ao meu ver, isto é um problema ético grave que precisamos averiguar. Qualquer "mercado" que queiramos abrir, qualquer ar de profissionalismo que queiramos dar ao teatro local, requer, em algum momento, passar por estas questões.

Outra exemplo se trata da postura que deveríamos ter em relação aos regulamentos e editais, em que pesem o respeito ao que neles consta. Sei que virou até uma piada interna de que, nos festivais, pelo menos uma vaga dos selecionados deve ser dedicada à uma grandiosa estréia. E me pergunto, sempre, duas coisas: qual a funcionalidade de um impedimento de estreias, e por que permitem quando é público e notório que o grupo/companhia montou, nas coxas, o espetáculo somente para adentrar no festival e ganhar o tal "prêmio". Este tipo de postura permissiva, apesar de lidarmos com bom humor algumas vezes, brincando de que "é café com leite, ali pode", é preciso ser revista, que discutamos seriamente este fato, afinal fragiliza e desmoraliza uma comunidade inteira.

Uma aposta, no entanto, parece driblar estas questões todas. A livre iniciativa. Grupos locais que conseguem seus espaços, que dão exemplo de posturas firmes de práticas éticas, desmoralizam cada vez mais grupos que ainda preferem antigas lógicas. Estes grupos, quando recebem incentivos, os fazem valer e agregam valor aos financiadores, patrocinadores, tanto do poder público quanto do privado. As novas gerações de artistas independentes, acadêmicos e iniciantes teatrais, também, ganham novos parâmetros a quem se esmerar e, o próprio público, agora tem acesso à um tipo de práxis teatral que melhor dialoga e apresenta estas questões. Teatro lotado, hoje, não significa mais um sinal de sucesso quando os rostos são os mesmos e conhecidos, mas sim, as plateias lotadas de novos rostos e, principalmente, de novos rostos consumidores. Isto também é uma sinalização de uma mudança no caráter moral da nossa comunidade de espectadores. Espectador pagante é aquele que financia e, portanto, demanda qualidade e uma prática teatral eticamente aceitável. A ferida da ética, SEMPRE, precisa ser remexida para alavancarmos mudanças importantes.

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Iago Lunière - pesquisador ligado ao Núcleo de Pesquisa e Experimentações das Teatralidades Contemporâneas e Interfaces Pedagógicas - Tabihuni da Universidade do Estado do Amazonas e pesquisador-bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas - FAPEAM. Continua dono de dois pinschers.

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