terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O que sobrou desta crítica...

Foto retirada da fanpage do Ateliê 23 no Facebook: https://www.facebook.com/Atelie23CasaDeCriacao/



Antes de qualquer coisa, é preciso fazer uma confissão à sociedade civil do Teatro, os espectadores: no Teatro há segredos sobre os quais jamais se terá conhecimento e, portanto, jamais tais anedotas influenciarão vossa apreciação – esta é uma das diversas camadas de filtros que se impõem quando apreciamos uma obra.

Um exemplo meramente ilustrativo: não leríamos a peça Richard III (de William Shakespeare), nem veríamos este monarca como um grande vilão, se por um acaso Henry Tudor não houvesse vencido a batalha de Bosworth em 1485, encerrando assim a famosa Guerra das Rosas. Tampouco veríamos o próprio Henry Tudor como o jovem herói, redentor da Inglaterra, que destronara o tirano que os afligia, mantendo-se oculto a verdadeira natureza do jovem rei unificador das rosas. Na verdade, jamais saberemos as reais facetas destes personagens, o que lhes motivou a cometerem seus atos, se de fato eram vilão e herói. Sabemos apenas o que O Bardo nos permite saber em seu famoso texto.

Dito isto, posso compartilhar acerca do dilema moral que se apresenta ao crítico, especialmente ao crítico de processo, que quando ao abordar uma obra se depara com uma série intrincada de acontecimentos e fatos que influenciaram o surgimento de um espetáculo. Sendo estes acontecimentos parte fecunda do que apreciamos em cena, compõe parte do conjunto de sabores que sentimos no ato de apreciar. O dilema moral se impõe na medida em que tais fatos são temas delicados e muito particulares do artista, que nos joga a seguinte ambiguidade: um fato específico de fórum pessoal é compartilhado, de forma mascarada na poética de uma cena, ao fórum público. Posto este dilema, resta questionar-se até que ponto tornou-se propriedade nossa (do público e da crítica) o fato privado, visto que nos foi dado sob a poética da cena.

Considerando o crítico como o propositor de um diálogo, mas também tradutor daquilo que foi apreciado, cabe a ele a decisão de abordar ou deixar de lado algo que poderia ser valioso de pôr-se em debate – mas valioso para quem? E quem está neste debate? (questões para futuramente tentarmos dissecar).

Aproveitando a metáfora dos “sabores” de uma apreciação, tratemos diretamente de “O que sobrou de nós”, de Taciano Soares, do grupo Ateliê 23.

Variará, de acordo com o palato dos que assistiram, os sabores (e dissabores) envolvidos nesta mistura amarga, porém necessária de se engolir. Vi nos meus acompanhantes de platéia o rubor daquele que se envergonha de reconhecer-se no espelho que deforma. Vi a complacência dos gentis. E também a piedade, algumas vezes sapiente de que havia ali uma verdade, mas também uma piedade arrogante, que ignora o quão somos frágeis quando feridos pelos relacionamentos a que nos dispomos. Relembre-se, porém, ao dilema moral apresentado anteriormente. Aqui, poder-se-ia facilmente abordar os acasos e acontecimentos que levaram à obra, porém sendo elas de fórum inteiramente pessoal do artista, passemos apenas ao que o palato do espectador percebe, se ignorante dos temperos ocultos no cozimento da cena.

Vi cintilarem lágrimas dos que se recordaram de seus corações partidos, e o silêncio dos atentos à uma questão que para si é estranha. Vi aqueles que calaram ante a denúncia de suas fragilidades. Ouvi o silêncio da respiração suspensa que não quis revelar a catarse por vergonha.

Apesar de uma série de ressalvas que se possa fazer (justas ou não, abertas ou ocultas), uma coisa é preciso reconhecer: “O que sobrou de nós” é a perfeita experiência sacra que o Teatro poderia propor. Porque cumpre um dos propósitos mais antigos do Teatro, que é trazer à consciência coletiva aquilo que permanece oculto, não percebido, não discutido, aparentemente irrelevante. É o que muitos classificam como “me toca” ou “não me toca”, confundido às vezes com “gosto” e “não gosto”. O que sobrou de nós, neste sentido, toca com uma força cruel e absurda àquilo que em nossa contemporaneidade está ambiguamente escancarado no virtual e terrivelmente oculto. Solicito a coragem de Taciano Soares à todas as almas que espalham suas dores no virtual, porém contraditoriamente em busca de desesperadamente provar-se sobre-humanas, espíritos elevados, super-homens autossuficientes em suas fortalezas da solidão.

A cada porção que engolimos amargamente daquilo que sobrou de nós, notamos alguns sabores: primeiro, a nossa constante predileção por ignorar aquilo que se oculta no fórum privado do ser humano, e a falha em tentar interiorizar aquilo que se exibe no fórum coletivo. Internamente choramos, e publicamente sorrimos. Porque é indelicado em público chorar.  Internamente praguejamos o ressentimento, externamente somos admirados por nossa benevolência em distribuir perdão. Ignoramos nossas mazelas, pois é proibido mencionar. É indesejável, demonstra a fragilidade, revela a nossa monstruosidade de uma besta ferida e encurralada, tudo ocultado, suprimido, incinerado até que seja esquecido. Taciano nos deixa confortável em uma sala preta para nos lembrar: somos humanos, e nem sempre isso é belo. Essa máscara que exibimos com orgulho trinca ante ao reflexo que admiramos em cena – pela rachadura, nossa purulência escorre.

Então a segunda garfada do prato amargo vem: nosso instinto oculto em julgar o outro, sempre colocando uma lente cuja a ótica é tão severa, que a reprovação viria não só ao réu quanto ao juiz e o carrasco. Ao ser humano acumulado de sofrimentos, damos como sentenças as penas capitais: “carente demais”, “possessivo demais”, “frágil demais”, “infeliz demais”, “sofredor demais”. Nunca uma sentença empática: humano demais. Eis o amargor desta garfada: somos lembrados, pela memória de nossas experiências, que ser um humano é ser, exatamente, feio, doloroso, amargo. Taciano exibe um grande espelho polido e o põe à nossa frente. Aqui: este é você tanto quanto sou eu. O julgamento, breve ou constante, arruína-se. Torna-se insustentável. Revela-se hipócrita. Recolhe-se à uma vergonha interna.

Tenho uma hipótese, uma suspeita que vêm mansa, de que temos o desejo secreto de alcançar uma divindade que mente ser possível. Um desejo de sublevação do fato de que não só somos frágeis, como nossos cacos estão constantemente a perfurar o outro, ferindo-o, intencionalmente ou não.

Por que esses desejos de divindade? Por que a vergonha de nos reconhecermos frágeis? Por que esquecemos da consciência de que podemos sentir dor? Está tudo bem sentir dor, por que nos achamos mesquinhos por isto? Por que é vergonhoso assumir?

Suspeito que alguma lógica, de crescente influência, rondou-nos e nos colocou na posição de produtos e consumidores. Como consumidores, desejamos as melhores texturas, sabores, cores, e com este refinamento exigente, banimos a realidade que é ser parte da humanidade (como ao longo do texto fora posta). E tal como produtos, escondemos nossas validades vencidas, exaltamos nossas qualidades, ao ponto de esquecermos que somos carne podre em enlatado polido. Tanto fomos domados por tal lógica de consumo, que desenvolvemos intolerância às verdades cruéis. Como à Medusa, tememos encarar para não nos tornarmos pedra!


Nesta crítica, não me atreveria ir muito além deste ponto. Não alerto para que haja uma preparação interna, como também não oculto para que haja um violento encontro com nossos reflexos. Eis uma verdade: a caverna onde reside a Medusa estava aberta, e lá se encontrava aquilo que ao ser visto, tornou-me pedra!

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Iago Lunière - crítico de processo criativo e protótipo ridículo de intelectual. É dono de um pequeno jardim que sente o desejo de receber um jasmineiro como hóspede perpétuo. 

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