Um dia um amigo me
telefonou para ter uma daquelas conversas de amigos. Rimos das boas novas,
falamos sobre alguns problemas, trocamos conselhos, e neste ponto da conversa,
disfarçando a voz que denunciava um choro recente, ele disse que queria que eu
lesse um poema que o havia tocado muito. Ele leu ao telefone, e eu li junto, na
tela do computador. Aquele poema me tocou também, profundamente. Poema em linha reta, naquela experiência, me
desnudou. E julgo que pode ser o mesmo com qualquer um. Esse foi meu primeiro
contato com Fernando Pessoa.
E li e reli. E
tantos outros que me contavam de Fernando Pessoa e seus heterônimos, diziam
como eram tocados profundamente. E isso, por um lado, me gerava muito incômodo
até que entendi: até aqui, no meu âmbito privado de apreciação, Fernando Pessoa
ainda incute em minha ridícula existência que "Tive grandes ambições e
sonhos dilatados — mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira,
porque sonhos tem toda a gente".
O monólogo "A
Tabacaria", de Geraldo Langbeck, é uma cirurgia precisa de ampliação de
nosso senso de pequenês. Primeiro, o espaço. O Alienígena é um espaço
alternativo onde poucos se encontram para um momento sagrado da arte teatral.
Seguindo para este espaço escondido, temos uma sensação de destaque, de único,
de que somos um dos poucos a ter acesso a algo. Ao adentrarmos no espaço, entre
livros e vinis, aguardamos ao espetáculo. Abre-se uma portinhola pela qual
entramos, subimos a escada para um sótão pequeno. Cada momento deste percurso é
uma sensação de crime e segredo. Tudo para assistir à um monólogo que irá nos
desnudar de toda a pseudo-importância que possamos ter de nós mesmos.
Geraldo Langbeck não
nos oferece uma interpretação visceral, a cena não nos impressiona com nenhum
grande artifício secreto da guilda dos artistas, mas como disse, a cirurgia é
feita com precisão! Confundindo-nos com a impressão de estarmos a assistir a nós
mesmos, a Fernando Pessoa, ou simplesmente ao poema entoado vivo. A máscara que
agora é colada está rachada na tentativa de arrancarmos com a força com que
Geraldo Langbeck nos oferece a sua cena, mas também com um alívio de aceite
desta verdade e uma oportunidade de refletirmos o que construir a partir disto.
De fato, o monólogo é uma demonstração bélica do arsenal de um ator que, se
usado por inteiro, provoca uma destruição irreversível da obra e, se de forma
contida, torna-a insustentável. Porém Geraldo Langbeck utiliza-se bem de seu
arsenal, oferecendo-nos "A Tabacaria", de Fernando Pessoa, com
sonoplastia de Socorro Langbeck e direção de Theo Correa, todas as quintas,
19h30, no Espaço Alienígena, temporada durante todo o mês de março de 2016.
p.S:
Excepcionalmente nesta quinta (17), ocorrerá sua apresentação no Espaço do
Casarão de Idéias.
***
Iago Lunière - tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil.


Teatro elegante como sua pessoa.
ResponderExcluirking size teatral e crítico.
Gratidão sempre.