(Post publicado no facebook no dia 15 de março)
Hoje estou pra desabafos. Se sua preguiça tá matando, ignore o texto. Mas ontem eu saí pra faculdade usando uma daquelas camisas com frases divertidas. A camisa dizia: "Queria ficar pobre por um dia, porque todo dia é foda". Naturalmente é uma piada, e geralmente quem lê dá uma risadinha, só disfarça pra não parecer mal educado, mas eu até que incentivo que a pessoa ria da frase, e quem sabe, da situação. Eis que eu estava no ônibus e um carinha entrou e sentou-se na escada - porque não tinha lugar onde sentar, claro. E eu já estava bem pertinho de descer quando já estava me posicionando à porta. Eu vi que ele leu o que estava escrito, mas ele não riu!
Eu fiquei tão frustrado com isso. Ele não riu, mas concordou. Ele fez aquela expressão de quem concorda dolorosamente. Que gostaria de rir da situação, mas que sabe como é ser pobre TODO O DIA. E eu vi que ele estava seriamente abatido.
Me lembrei NO ATO da minha amiga Lucia Ramalho. Ela é médica, e tem quase 30 anos de profissão. Estávamos assistindo TV e passou uma notícia velha sobre o estado da Saúde Pública no Brasil. Eu perguntei a ela, que trabalhou em um monte de Hospitais Públicos, o que ela achava que precisava melhorar na Saúde Pública - calma, eu vou voltar ao assunto da camisa - e ela me deu a resposta mais inusitada, e aquela à qual eu nunca esperei ouvir.
Obviamente pensei em "Mais remédios", ou "Mais médicos". Mas ela disse: "Tem que dar emprego pra essa gente!". Eu fiquei sem entender absolutamente nada! Ela viu minha situação e explicou: "essa gente precisa ter emprego, salário digno. Comprar comida, legume, verdura, frutas, carne, grãos, água potável... Ter qualidade de vida. Manter-se sadio.". Ela contou que, em certo momento de sua carreira, teve de trabalhar numa Casa de Saúde num bairro cheio de palafitas. Ela me disse que já não levava mais dinheiro pro trabalho, pois cada visita em cada casa ela encontrava uma família que não tinha ABSOLUTAMENTE nada para comer, e sem jeito, ajudava ofertando um dinheiro que garantisse a janta deles. Só que ela começou a ficar sem dinheiro ajudando aquela gente!
FODA, NÉ? E eu, de frente para a porta do ônibus, vendo um tiozinho olhando pra minha camisa, pensei: puta que pariu, esse sabe como é ser pobre todo o dia. Sim, eu me permiti julgá-lo. Me permiti deduzir a vida dele. Mas também me permiti refletir. Aquele sujeito, provavelmente, chegaria em casa com uma única coisa de valor: a carteirinha cheia de créditos. Por aquele horário, por aquela roupa, por aquela pasta que ele segurava, eu tinha CERTEZA que ele tava procurando emprego. Eu tinha certeza que a coisa estava apertada. E eu tinha CERTEZA que ser pobre TODO DIA é muito, mas MUITO FODA.
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