Uma das coisas que me são mais estranhas, é quando a teoria
se choca diante da realidade. Quando isto ocorre, é uma coisa muito delicada,
abala certas estruturas que, uma vez incertos os fundamentos que se guiam,
cria-se a oportunidade de conflito. De tal conflito, a reflexão e
reorganização. É neste ponto que a ideologia, aura que parece emanar das
teorias apreendidas e que permeia o conhecimento, é posto à prova. Talvez não
seja o conhecimento (ou o que se supõe que seja o conhecimento) que seja
afetado no choque com a realidade, mas a ideologia.
Foi neste ponto que me pus, após assistir à peça Imagine um rosto, agora conte uma história,
do grupo Ateliê 23: casa de criação.
A peça, estreada no dia 07 de novembro, e em cartaz todos os sábados, às 19h, no
espaço do Ateliê 23, traz à cena Thaís Vasconcelos, Laury Gitana e Joice
Caster, sob direção de Taciano Soares, assistência de direção de Larissa Rufino, Daniel Braz sendo o responsável pela iluminação e Eric Lima com o figurino.
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| Foto: Fabiele Vieira - extraído da fanpage do grupo no Facebook. |
Vem
o convite à entrada no espaço do Ateliê 23, que em grupos, os espectadores
sobem as escadas e entram na casa. Sentamos em círculo (na verdade, triângulo)
e, após tudo em breu, assistimos feminilidades em cena. Este ponto já é o
primeiro conflito que me joga para um campo diferente, pois como homem, sou
posto diante e também fora dos limites daquele universo. Assim, a perspectiva
que talvez possa ser apresentada por mim seja a da aproximação, e não a do
reconhecimento. É uma noção interessante de se pensar.
A aproximação
seria, portanto, a percepção, seguida da sensação de estranheza ao observar
algo desconhecido e, no entanto, um esforço de compreensão. Naquela sala de espetáculo,
me ocorreu um intercalar entre o que supomos ser uma passividade do espectador –
que senta e, passivo, assiste – e uma postura ativa de apreensão, real
interesse de compreender, mas sempre permeada pela estranheza. Eu, fora daquele
universo, me aproximo até onde é possível em meus limites – limite fora da ação
de esforço, vale lembrar, uma vez que, se dentro do campo de esforço, poderia
ser um desleixo não os ultrapassar. Um exemplo: ver a lida de uma mulher com a
questão do seu ciclo fértil pode ser esclarecedor, mas o meu limite como homem
jamais me permitirá ter uma real noção do que é essa lida. Esta fronteira eu
jamais cruzarei – sendo homem cisgênero.
Imagino, porém, que
para uma mulher (cis ou trans), ocorra uma relação de reconhecimento mediante
esta peça. O reconhecimento também partiria da percepção, mas ao invés da
estranheza (e caso ocorra, é provável que seja breve ou pelo menos mais branda
que no homem) ocorreria a identificação. Se tal mulher, ali na plateia, fosse observada
por um outro como passiva (o comportamento de que, como espectadora, apenas
senta e assiste) é, porém, ativa a partir do momento que, ao reconhecer aquele
universo feminino, não só identifica, como põe à prova sua experiência como
mulher naquele simulacro da realidade de seu grupo específico.
Neste ponto, o
espetáculo gera âmbitos de apreciação e recepção muito distintos. Talvez seja
interessante propor esta clareza. O homem que assiste, pode até julgar que
entende. Mas precisa ter em mente que, sua condição como tal, não o permitirá
ter total reconhecimento, mas apenas uma aproximação. A mim, homem, será um aprendizado do outro (ou melhor, de
outra). À mulher, uma representação de si.
O que cada um fará disto, cabe a cada um.
Talvez haja um intercalar destas sensações. Talvez não se
apreenda nenhum nem outro. Talvez, e é possível, que leituras muito distintas
ocorram, ao ponto que sequer perceba-se tratar-se do universo feminino. É um
ponto de intriga ao qual me arrisco e, provavelmente, quem assiste também o
faz: a de que a construção da percepção deste espetáculo é tão individual, que
qualquer afirmar é uma questão de
atrevimento. O que ilustra muito bem, foi a experiência que tive no debate após
o espetáculo.
Em conversa aberta com o grupo, após o espetáculo, calhei de
ser o primeiro a falar e, ainda permeado pela obra, regurgitei aquilo que me
ocorria. Hoje, relembrando, e depois de todo o conflito interno a que fui
posto, percebo que isso suscitou um sugestionar
inconsciente. Onde haveriam pequenos vazios nos demais espectadores, que se
tratam de questões íntimas ou potências interpretativas, de reconhecimento e
aproximação, teve pelo sugestionar inconsciente de meu discurso um preencher,
ou seja, a morte da potência interpretativa individual. Um reverso que também é
verdadeiro, uma vez que as réplicas me preencheram.
É importante manter este ponto em aberto, a questão do
curvar-se à interpretação alheia. Talvez, deixar em aberto determinadas
questões seja uma ação mais interessante, de fato. No entanto, o purismo de involucrar
o espectador para que ele tenha uma leitura só dele é uma postura um pouco nonsense, visto que é a troca com o
outro que possibilita a construção e ampliação de perspectivas.
Esta troca foi mediante o debate ocorrido após o espetáculo.
E sobre o debate, vale lembrar que é coletivizando a perspectiva que as
ideologias, interpretações e saberes entram em conflito, deixamos o eu e o
outro em um tensionamento, em um estado fértil para a compreensão da realidade
e do outro, ampliando a possibilidade de encontro e alargamento dos limites
antes citados. De acordo com experiências passadas que tive no espetáculo Persona-Face um, espetáculo do Ateliê 23
que tive o prazer de ser o crítico do processo, os debates em temporadas parecem,
em determinado ponto do percurso, gerar uma acomodação das percepções,
unificando discursos. O que parece enfadonho para aqueles que buscam alimentar-se
da visão do outro pode revelar-se interessante como aposta se, de outra forma,
o debate adquirir a mediação atenta à esta acomodação e, na medida do possível,
problematizadora.
O debate, em Manaus, é uma prática relativamente recente.
Adotada principalmente nos Festivais de Teatro da Amazônia nos últimos anos, tem,
a algum tempo, decaindo por conta desta acomodação e, sua função parece pouco a
pouco ficar inócua. Talvez seja uma aposta boa de se fazer: não inaugurar debates
inócuos de indivíduos que esperam a visão do outro (do espectador que espera o
grupo falar de si e o grupo que espera a visão do espectador), mas a perspicaz
problematização destas visões ali, de pronto, afim de remexer a sedimentação e
manter a reflexão em movimento.
A peça do grupo Ateliê 23 propõe, em seu título, que imaginemos
um rosto e contemos uma história. É possível que tenhamos uma noção de que a
experiência de assistir ao espetáculo é uma oportunidade de nos aproximarmos e
nos reconhecermos de alguma forma com aqueles arquétipos femininos ali
apresentados. No entanto, a lida com o espetáculo mostra-se mais como um flerte
com a possibilidade de construirmos, por nós (espectadores) mesmos, o sentido
que podemos apreender.
Os conflitos suscitados em mim, após o espetáculo, e após a
experiência do debate aberto, me levaram para este campo de questionamento.
Quais as interpretações do outro eu teria percebido se não tivesse sido o
primeiro a sugestionar? É confiável a minha percepção e a construção e sentido
que fiz? Enfim, quando falo que a peça flerta com a possibilidade de
construirmos o sentido, falo de uma noção já tratada na Academia, ou seja, que não é uma novidade para quem se dedica a
pensar a relação entre a obra de arte e o apreciador a noção de que o
espectador é também autor da obra. É possível que a melhor contribuição desta
obra é o convite à sua construção.
Foi essa percepção de obra que tomei emprestado para
acalentar meus conflitos. Foi num impulso ideológico de que, munido de
conhecimentos prévios, poderia dissecar a obra afim de compreendê-la, que fui intimamente
abalado. Basta que estejamos munidos de nossa história, e é possível haver
aproximação e reconhecimento e, eventual construção da obra.
Ao iniciar a peça, pareceu-me confuso e pouco compreensível
qualquer que fosse a ‘proposta’ – famigerado termo posto em debate que, talvez,
seja necessário dedicar algum tempo futuro para debatermos do que se trataria (o
que não cabe aqui).
A minha ideologia propunha, previamente, que eu aquiescesse
a qualquer coisa que me fosse posto e, à medida do possível, dissecasse uma
compreensão durante e ou posteriormente. Neste sentido, aquelas três mulheres
em cena negam este tipo de relação entre cena e espectador. Elas não se obrigam
a te deixar claro nada e este foi meu segundo choque.
A ideia deste aviso ao espectador de que ele não tem poder
algum e, portanto, a cena não lhe deve explicação alguma, é uma das
perspectivas ao qual eu mais reluto e, no entanto, me possibilitam experiências
importantes. A relutância ocorre a partir do momento que me preocupa que o
artista de teatro, ao declarar que não é seu dever dar algum sentido à obra
para acalentar o espectador, incorra na postura de que se apresente ‘qualquer
coisa’ e, em eventual confronto quanto à sua práxis ou questões relacionados à técnica
e discurso, esse ‘qualquer coisa’ ganhe uma justificativa que o blinda daquilo
que vem do dissenso.
Portanto, qualquer questionamento que se levante, apronta-se
a justificativa de que é papel do espectador criar algum sentido em cima da
obra e, assim, cimenta-se a possibilidade de escavarmos as contradições, nós
importantes que ao buscarmos desatar, tornam-se exercícios novos de visão de
mundo. A mesma preocupação me vêm no sentido oposto, quando a primazia da técnica,
a imersão espiritual do artista e o rebusco da linguagem engolem de tal modo a
obra, que chega ao ponto de torna-la vazia para quem aprecia, exigindo do
espectador um conhecimento apurado da linguagem, munição de conhecimentos
prévios, elitização do acesso, uma des-democratização da obra.
Essa angústia com tal paradigma, no entanto, divide espaço
com o flerte. A independência de qualquer obrigação para com o espectador é
sedutor. Vislumbrar uma fronteira mais larga de possibilidades é inebriante,
tentador. Despreocupar-se de limitar a criação afim de ser compreensível parece
ser libertador. Aos fãs de literaturas, é como entrar em uma grande biblioteca e
saber que o tempo é congelado, e que, portanto, pode ler-se a tudo, e ter o
tempo necessário para qualquer coisa escrever a partir daquilo tudo que leu. É
como descobrir imortalidade e perceber que não é mais necessário ter a angústia
da morte, e que, portanto, todos os desejos, imaginados e não-imaginados, podem
ser vividos sem o limite da necessidade de sobreviver. Porém, o que me angustia
é essa sedução gerar um esquecimento do espectador.
Angústia e flerte são questionáveis no círculo teatral
manauara. Em princípio, porque o termo angústia
é facilmente substituído por conservadorismo.
É muito fácil, para quem presencia alguns debates teatrais, perceber essa
dificuldade de alguns artistas abrir-se para uma prática cênica que tenta
emancipar-se das escolásticas, que busca novos métodos, e que percebe que o discurso não necessariamente tenha uma
forma que o transmita “bem”. O flerte,
neste sentido, pode muito bem ser encarado em algumas ocasiões como a
necessidade de rebelar-se destas concepções conservadoras, como atos não só de
resistência, mas de contradição da norma aqui estabelecida – apesar de que,
essa visão, a algum tempo parece estar se diluindo, ou ambos os lados das trincheiras
se cansaram do que parecia ser uma peleja, e decidiram-se, cada um, ir para o
seu canto fazer o que bem entende.
Ao espectador que decide por ser assíduo em teatro, facilmente
verá futuras batalhas quando os dois lados, conservadores e subversivos,
encontrarem-se nos campos do incentivo cultural das políticas públicas – este parece
ser o principal campo de batalha onde velhos discursos ganham força na tentativa
de eclodir o outro afim de manter a sobrevivência.
O que esta angústia
e flerte quanto a emancipação do
artista ao entendimento do espectador, e esses dois polos (conservador e subversivo)
e essas percepções (aproximação e reconhecimento) têm a ver com Imagine um rosto, agora conte uma história?
Primeiro, poderia tratar-se de outra peça, como o Persona-Face um, do mesmo grupo. Ou Inquietações, da Artrupe Produções Artísticas, que este ano
causaram-me impactos semelhantes. O ponto que interessa e que aqui venho tratar
é, primordialmente, que é impossível julgar por lote. Criticamente falando,
fala-se que sequer é responsabilidade do crítico julgar, mas cambiar sentidos. É preciso averiguar,
caso a caso, se a angústia com o descaso para com o espectador se faz justificada,
ou caso o espectador esteja sendo subestimado com o didatismo teatral.
O caso é, fica claro que a peça do grupo Ateliê 23 é uma
peça emancipada, o espectador vai assisti-la para ser ativo, construtor do
sentido. Recebe do título a proposta e o convite. Compra o ingresso numa
aposta. Se é homem, é exposto a um universo que ele provavelmente nunca
identificaria, tem suas verdades postas à prova, e se não se aproxima por
vontade própria, é puxado pela gravidade da peça. Se é mulher, tem o
reconhecimento de si, a identificação e/ou a exposição angustiante da realidade
do seu sexo e desmistificação daquilo que aprendeu sobre si. Aqui, retorno a
reforçar, existe uma relatividade na percepção, um câmbio de construção e, se o
espectador é aquele que imagina o rosto e conta a história, sua interpretação
tem considerações só suas.
Porém, essa proposta de uma leitura/construto individual
requer um embate. Minha leitura, apresentada no debate da estreia, apresentou
uma problemática quanto à mulher que, desencorajada ao aborto, vê-se obrigada a
cuidar de uma criança e, portanto, chocou-me a representação da vida desta
mulher. Eu sai do espetáculo com a visão desmistificada da maternidade, por
exemplo. Mas isso conta a minha história, conta as minhas influências, o
trailer de filme visto naquela semana, a mãe e a filha que vi na fila de um
banco, o livro lido num sábado à tarde, numa história contada pela minha tia. Esta
é uma percepção minha, e só minha, que por conveniência pode estar a serviço do
outro.
A percepção do outro pode, claramente, ser diferente. Basta
que ele conte, compartilhe. Assim, cambiamos sentidos. Não me surpreenderia
saber que alguém me conte, por exemplo, como identificou a depressão naquela
peça, sofrida pelas mulheres. Também não me surpreenderia se uma mãe de alguma
amiga minha me contasse que lembrou de sua filha na adolescência, em sua
rebeldia. O choque destas percepções compõe um quadro maior sobre o universo da
mulher e, eu, homem cisgênero, me benefício quando, acessando estas percepções,
mais me aproximo daquilo que sou
exposto.
É neste ponto que o flerte para com a emancipação do artista
em relação ao espectador me acalma. Pois parece enriquecer mais o alcance de
temáticas tão caras a todos nós. Quando tabus são chocados brutalmente ou
amaciados para choques vindouros. É neste ponto que armamos uma arapuca para o conservadorismo, e flagramos a
possibilidade de que o discurso não precisa ser bem explicado, que o espectador
pode até ser peça chave, porém, não precisa ser um algoz anônimo da criação.
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Iago Lunière - dono de dois pinschers lindos, compulsivo por café, e petulante escritor deste blog.


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