Diversas vezes já houve momentos em que me estressei com o diretor. Às vezes nem era culpa do coitado, afinal, ele estava tentando tirar leite de pedra. Mas me irrita quando o diretor resolve se dedicar à mim, as repetições que ele me exige porque seu gênio artístico ainda não captou a cinergia exata da cena, quando ele vai dizendo para que eu tente de uma outra maneira, ou literalmente diz o que eu tenho de fazer, qual o movimento, quando o gesto e... Não, pera. Gênio? Cinergia? Outra maneira?
É, um dos motivos de eu ter saltado desse trem chamado Interpretação e pegar o bonde chamado Pesquisa foi justamente tentar entender esse monte de coisas que acontece com quem se dedica a ser ator/atriz. Tem gente que tem talento, e tem gente que é esforçada - não, aqui não tem ironia (risos). Tem gente que simplesmente tem isso que chamei de gênio, e não sou eu quem está dando esse nome, isso realmente existe. É um talento nato da pessoa, que não se sabe explicar muito bem como faz, só sabe que faz. Essa genialidade por muito tempo foi considerada misteriosa, mas na verdade, a ciência tá dissecando isso já tem um tempo, e de mistério não tem nada. O que vamos descobrindo à medida que pesquisamos, é que de potencial criativo (artístico) todo mundo tem, e que esse potencial pode ser adquirido! A genialidade não consegue se explicar sozinha, e quem faz parte do outro grupo, o dos esforçados, enfrenta uma série de dificuldades na hora de encenar. Mas os resultados da genialidade podem sim ser alcançados. Nessas horas a gente precisa de um bom diretor, e de um bom senso de observação não só do mundo à nossa volta, mas do mundo dentro de nós. Essas dificuldades, quando não superadas, implicam numa série de sintomas que vão salpicando uma peça teatral: a tal cinergia da cena, por exemplo, às vezes torna-se pode ser maçante, tediosa, incompatível - ou acelerada, fugaz, incompreensível.
E então vamos tentando de outras maneiras, até que cansamos, nos entediamos, e lá se vai um processo pro ralo que só volta com muita força de vontade (e às vezes, nem isso). Um destes sintomas que surgem, logo de cara, se apresenta dentro de um processo criativo teatral: o conflito entre eu (o ator) e ele (personagem). É bom que isso aconteça, principalmente dentro do processo criativo, porque é ali o lugar deste conflito ocorrer.
Recentemente, em uma montagem com alguns amigos, lidei com o problema da criação da personagem. A coisa em que mais empacava, era exatamente em como trazer a personagem à cena, como interpretá-la. Eu e meus colegas passamos um mês dissecando o texto teatral, pesquisando as personagens, tentando entendê-las, montá-las. Eu tinha a visão da personagem, conhecia como a mim mesmo. Mas na hora de experimentar uma cena, ou uma fala, a coisa mais comum a acontecer era um "Desculpa, vamos repetir?". Não que repetir seja ruim. Mas recomeçar é que são elas. De fato, eu estava tão vidrado em tentar fazer uma boa cena, de fazer tudo certo, de pensar cada movimento, ou cada fala, ou cada expressão, que a concentração, fator importante para o ato de interpretar, passava a ser um problema.
Somente depois de muito tempo eu conseguia breves momentos de desligamento. Com desligamento, quero dizer que eram breves momentos em que eu relaxava de tudo, não pensava na personagem, mas pensava como a personagem. E o resto todo fluía: a fala, o andar, o corpo... Por mais que muita coisa do ator estivesse ali, sentia que não era eu ali, mas alguma outra coisa.
Aí, o risco: um contentamento, um alívio. Um relaxar e um acreditar de que está bom, e na primeira situação não programada, nos vemos em uma situação embaraçosa, não há um protocolo a seguir, e então, a improvisação pode ser ou a salvação, ou a ruína - e nestes casos, é um cara ou coroa incerto. O engraçado é que eu sempre percebi esses conflitos entre a personagem e o ator (eu). Sempre percebi que, de alguma maneira, eu bloqueava a personagem e dificilmente acontecia alguma coisa ali, na cena. Nunca entendi como eu conseguia fazer isso, logo, eu não sabia como driblar essa situação. Foi em uma pesquisa de campo que tive a oportunidade de presenciar um caso semelhante: um ator, que tinha de fazer uma cena em que sua personagem monologava sobre si e sobre sua situação de opressão, constantemente parava a cena e pedia desculpas aos observadores, recomeçando a sua fala após alguns minutos de concentração. Foram quase uma dezena de tentativas, até que uma deu certo, e ele foi longe, se entregou. Três minutos depois, a platéia já totalmente imersa na cena que o ator estava fazendo foi castrada novamente com um pedido de desculpas, mais alguns minutos de concentração, e um novo recomeço.
Observando aquele ator, eu ficava assombrado de notar seu alto grau de exigência (sobre si, sobre a cena, sobre sua voz e sobre o seu corpo), o que mais empacava do que deixava fluir o seu processo de interpretação. Quase que eu podia ver através de seu semblante, aquilo que se passava em sua mente: racionalizando a fala, repassando-a mentalmente afim de poder entoa-la. E lá se vinham pausas e mais pausas (exatamente o que eu fazia em cena, no meu processo, e nunca entendia quando reclamavam que eu pausava demais). Eu ainda estava no modo manual: quem trabalha ali é o intelecto, parte por parte - uma relembra o texto, outra analisa o tom das palavras, das frases... quando a fala é realmente dita, lá se foi o ritmo, o tempo, o tom...
Depois daquele ensaio, na saída, enquanto conversava com alguns atores, fui percebendo que o ator em si conhecia muito bem sua personagem - tal como eu conhecia a minha. E ele falava dela com um brilho no olhar, com um reconhecimento. Não tenho dúvidas que, enquanto esculpia, Michelangelo deveria ter aquele mesmo brilho no olhar, que sabia muito bem o que estava criando. Mas o ator não conseguia colocar aquela personagem em cena. Eu também não conseguia por minha personagem em cena. Foi então que caiu como um raio a constatação: o conflito entre eu (ator) e ele (personagem) estava justamente na minha inabilidade de relaxar meus estados de ânimos e simplesmente interpretar, pôr em cena, a escultura não está fora, está em mim. Eu sou o mármore, o cinzel e o escultor.
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Iago Lunière - curioso que só a peste, gasta boa parte do tempo pesquisando abobrinhas e observando meio mundo com um fascínio sobre aquilo percebe. Tem dois cães e um CPF.
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Dicas de leitura:
- KUSNET, Eugênio - O ator e o método
- ARNHEIM - Intuição e Intelecto
- Os escritos de Grotowski e Barba também muito tratam sobre estes estados de relaxamento, mas como ainda estou deglutindo esses, a recomendação é de todas as obras.
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