domingo, 15 de março de 2015

Teatro como ato sacerdotal

Conversando com uma amiga que não é do Teatro, ela não acreditou nem um pouco quando lhes disse que gasto, pelo menos, 16 horas do meu dia só pensando em Teatro. Ela achou um absurdo. Metade desse tempo, é na faculdade. Metade da outra metade, voltado para as atividades da faculdade, e o resto, por puro amor. Isso me faz pensar que o que vivo é quase um sacerdócio, se parar pra pensar direitinho. Quer dizer, sejamos francos, to nem na metade de parecer algo assim, mas tem gente que sim.

Não vai deixar de acontecer peças teatrais que nos serão verdadeiros rituais. Não serão extintos os atores que transcendem espiritualmente com essa arte. Não deixarão de ser ouvidos os diretores que encontraram um novo caminho. Não faltará material sobre o qual se debrucem os estetas. Não haverá teoria que não careça ser discutida e compreendida.

O que me intriga, e o que realmente me comove para o Teatro, são os homens e mulheres dos últimos dois milênios e meio que se dedicaram à essa arte de forma tão sublime. Me pergunto, qual era a profissão de Ésquilo? Que fazia Téspis antes de ser chamado pra interpretar um texto? Depois deles, homens que viviam em carroças, remendando seus figurinos enquanto os bois os carregavam para a cidade seguinte. Penso em Shakespeare, que para custear sua sobrevivência e de sua família, tinha de fazer o Globe Theatre funcionar. Todos eles tem em comum um ato de sacerdócio. Sem tempo para frugalidades. Hoje, temos de responder notificações no facebook, apreender diariamente maremotos de informação. Temos de manter um padrão de atividade sexual plausível, com parceiros variados e bem cotados. Queremos sofá branco!

Mas para fazer Teatro - e digo fazer como sacerdócio - essas coisas são frugalidades. São passageiras. Limitam. Encerram possibilidades. E, neste limbo, estamos fadados a ser zumbis da arte dramática, que encenam qualquer coisa, sentem qualquer coisa. Que confunde ego acariciado com transcendência. E este, pra mim, é um dos maiores riscos. Essa confusão torna cega os talentos, quanto as suas maiores potencialidades, e aquilo que poderia ser belo, torna-se fosco.

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Iago Lunière - amante de informação boba, gasta pelo menos duas horas do seu tempo na frente do computador vendo vídeos de gatos e cães enquanto deveria ser acadêmico do curso de Teatro.


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